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O Velho e o Novo Testamento segundo Santo Agostinho


Louis-Isaac Lemaistre de Sacy

Apresentamos com satisfação a primeira tradução portuguesa do prefácio à versão do livro do Êxodo, de autoria do célebre solitário de Port-Royal, Lemaistre de Sacy (1613-1684).

Nele são apresentadas as principais linhas da reflexão de Santo Agostinho sobre a relação entre as duas alianças de Deus.

Em tempos de muita confusão sobre o tema, torcemos para que esta tradução sirva para dissipar um pouco a confusão que reina neste assunto, mesmo entre os católicos, para não falar nos "evangélicos".

O texto é completo, com exceção dos parágrafos iniciais e finais, que tratam de pontos específicos do livro do Êxodo, sem relação direta com nosso tema.

A fonte é a edição de 1781, editada em Nîmes por Pierre Baume.

I

[...] Há um ponto muito importante de que não pudemos tratar na sequência deste livro e que é preciso necessariamente esclarecer primeiro para bem compreendermos quão profunda foi a sabedoria divina na escolha e no governo do povo judeu.
Pois, como vemos na sequência desta história que Deus dá aos israelitas sua lei, que contém os mesmos mandamentos que a Igreja nos dá hoje, nos ocorre naturalmente perguntar que objetivo teve Deus quando escolheu esse povo para estabelecer a sua religião 1.500 anos antes de Jesus Cristo. Por que lhes prescreveu essa lei que não podia dar-lhes a vida, como diz São Paulo?  (Gl, 3,21).
Perguntamos também se os judeus que observavam exatamente essa lei eram salvos. Se a lei não os salvava, por que houve entre eles tão grandes Santos? E, enfim, que diferença há propriamente entre o Velho Testamento e o Novo, pois os mesmos mandamentos de Deus são propostos num e noutro?
Para esclarecer tão grandes verdades, tomaremos como regra a doutrina divina de São Paulo, e Santo Agostinho como intérprete dessa grande Apóstolo. Pois bem sabemos, como sugerimos em outro lugar, que esse santo Doutor foi destinado por Deus a defender a excelência do Velho Testamento e a majestade de Deus que o ditou a Moisés e aos santos profetas, contra as blasfêmias dos maniqueus, que ousavam rasgar, por uma cegueira tão extravagante como ímpia, esse livro divino, e com isso insultavam o Espírito de Deus, o seu autor.
Como, portanto, esse Santo recebeu uma graça especial para descobrir a relação entre a lei antiga e a nova, e a distinção de uma e de outra, é dele que tomaremos as razões sublimes pelas quais Deus estabeleceu seu culto no povo hebreu e deu sua lei por Moisés, aguardando para dar sua graça por Jesus Cristo.
Nisso não faremos senão o que fizeram São Paulino, São Leão Papa, São Próspero, São Fulgêncio, São Gregório Magno, São Beda e, sobretudo, São Bernardo, que, no século XII, escreveu com todas as luzes dos Padres do século IV: pois esses grandes Santos, no que se refere à distinção entre os dois Testamentos e ao mistério da lei e da graça, sempre seguiram as pegadas de Santo Agostinho e se orgulhavam de ser seus discípulos.
Devemos notar também que este ponto de nossa religião está tão vinculado a este livro Êxodo, que não poderíamos deixar de tratá-lo neste lugar; e, por outro lado, é tão importante para nós fazermos conhecer Jesus Cristo e as obrigações infinitas que temos com Ele por nos ter feito nascer em sua Igreja neste tempo da lei nova, que Santo Agostinho julgou dever explicá-lo muito particularmente em seu livro De Catechisandis rudibus (c. 19), onde propõe um modelo de Catecismo, e as primeiras instruções que devemos dar àqueles que, já tendo alguma idade, peçam para receber o Batismo: tão indubitáveis e essenciais julgou serem essas verdades para todos que professam o Cristianismo e tentam tornar a vida conforme à santidade da fé.
II
Sabedoria de Deus. Diversas idades do mundo. Deus prova pelo povo hebreu sua unidade e seu poder soberano sobre a terra
Deus, diz Santo Agostinho, conserva uma ordem admirável na condução do mundo, e quer fazer-nos admirar tanto os recursos secretos da sabedoria infinita, como as maravilhas fulgurantes de seu poder soberano. Ora, nada é mais belo nem maior nem mais digno da majestade de Deus, acrescenta esse Santo, do que ver que a duração de quatro mil anos não é mais, para Ele, do que o espaço tão breve da vida de um homem, segundo o que diz São Pedro: Que mil anos diante de Deus são como um dia. (2 Pedro, 3, 8).
Pois se observarmos a maneira como a providência divina se comportou em relação a todos os homens desde a criação do mundo até o advento de Jesus Cristo, veremos, diz o Santo, “que ela agiu como um homem sábio se comporta diante de uma criança por ele educada segundo as regras da prudência, deixando-a passar por diversas etapas, dos primeiros elementos da língua a conhecimentos mais perfeitos e mais elevados, à medida que ela vai crescendo em idade, em razão e em sabedoria: “Quod in uno homine recte educato ordine naturae disciplinaque contingit, hoc proportione in universo genere humano fieri per divinam providentiam peragique, pulcherrimum est.” (August. L. 83 qu 49).)
E assinala esse Santo ainda essa mesma verdade na Cidade de Deus, quando diz “que Deus durante quatro mil anos, até o advento do Messias, conduziu todos os homens como se fossem um só homem, e que o povo de Deus teve diversas idades, e cresceu em luz até tornar-se, como diz São Paulo, um homem perfeito em Jesus Cristo.” Sicut unius hominis, ita humani generis, quod ad Dei populum pertinet, recta eruditio, per quosdam artículos temporum, tanquam aetatum profecit accessibus. (August, de Civit. Dei, lib. 10, c. 14).
É por isso que podemos distinguir, segundo esse Santo, três idades do mundo nesta vida, comparando-as proporcionalmente às idades que se sucedem umas às outras num único homem; e essas três idades serão seguidas de uma quarta idade no céu.
“A primeira idade do mundo é o estado antes da lei, em que o homem entregue a si mesmo nada encontra que lhe impeça de seguir seus maus desejos”, cum nulla nequitia prohibetur. (Aug. In ep. Ad Galat. C. 5). E assim se abandona cegamente à concupiscência, sem conhecê-la, muito longe de se dar ao trabalho de combatê-la. Essa idade durou, desde o pecado de Adão até Moisés, dois mil e quinhentos anos.
“A segunda idade é o estado sob a lei de Moisés, em que, instruída pela lei de Deus, a alma conheceu a concupiscência e quis combatê-la. Foi, porém, vencida, e se tornou ainda mais criminosa, porque se tornou culpada da violação mesma da lei.” Tal estado durou mil e quinhentos anos, desde Moisés até Jesus Cristo.
A terceira idade é o estado da graça, em que vivemos desde o estabelecimento da Igreja.
Neste terceiro estado, a alma conhece de tal maneira, pela lei de Deus, a concupiscência e o pecado, que, estando convencida de sua indignidade e de sua impotência pela fé que recebeu de Deus, “obtém a graça que faz que a concupiscência nela não mais reine, não siga os maus desejos, ame a justiça por ela mesma, com um amor puro e espiritual, e prefira Deus a todos os bens frágeis e perecíveis.”
O quarto estado é o do céu, que esperamos, pelo qual a alma entrará na plenitude do conhecimento, do amor e dos bens de Deus.
Podemos reduzir esses quatro estados a estas poucas palavras. No primeiro estado antes da lei, o homem é vencido pelo pecado sem nenhum combate. No segundo, sob a lei, o homem combate, mas é vencido. No terceiro, sob a graça, como diz São Paulo, ele combate e é vitorioso. No quarto, depois desta vida, ele não mais combate, mas goza de soberana paz.
Esse primeiro estado, em que o homem, tendo apenas a lei da natureza, estava imerso na ignorância e no pecado, durou até Moisés, e Deus escolheu o povo judeu para lhe dar o privilégio entre todos os povos do mundo de ser seu povo, e quis que ele lhe pertencesse unicamente por essa razão muito particular: Ut sitis mihi in populum peculiarem. (Deut. 7. 6 c. 14. 2 c. 26. 8.)
Foi por isso que José chamou propriamente o estado dos judeus de teocracia, pois era um povo que tinha Deus como Rei e protetor. E isso é confirmado pela Escritura, onde vemos que quando Samuel se queixou de que o povo lhe pedia um Príncipe para comandar seus exércitos, Deus lhe respondeu: “Não é a Você que eles rejeitam, é a mim: porque não querem mais que eu seja seu Rei.” (I Reg. 8.7).
Deus também escolheu esse povo e em meio dele estabeleceu seu templo e sua religião por diversas razões digníssimas de sua sabedoria.
1.      Quis ele destruir a multiplicidade dos falsos deuses, estabelecendo em meio aos judeus o culto de um só Deus. Por isso disse Deus em vários trechos da Escritura: “Eu sou Deus e não há outro. Eu sou antes de tudo e serei depois de tudo”: Ego Dominus, & non est alter. Ego Dominus; primus & novissimus ego sum. (Isaías 55. 6. Ibid. 41. 4)
A essência da religião dos israelitas consistia nessa adoração de um só Deus. Deus lhes perdoava mais facilmente os outros crimes. Mas quando, por impiedade sacrílega, O abandonavam para adorarem os ídolos, depois de tê-los ameaçado pelos Profetas, Ele os entregava ao furor dos inimigos, segundo esta palavra dita por Ester a Deus em oração: “Vós sois justo, Senhor: pecamos diante de vós; oferecemos incenso aos ídolos dos assírios; e vós nos tornastes os escravos daqueles cujos deuses adoramos.” (Esther, 14.7)
2.      O demônio, ao ver que o conhecimento de Deus estava impresso como que naturalmente no fundo da alma, inventara um erro perigosíssimo entre os pagãos, que ainda durava no tempo de Santo Agostinho. Consistia nisto: como não se podia negar que houvesse um Deus acima de todos os outros, diziam que ele se limitava a regular o céu e os movimentos dos astros. E que aqueles que eram chamados deuses e eram reverenciados pelo culto dos ídolos (sob os quais esse mesmo Anjo apóstata se escondia) eram os senhores dos bens da terra; e que tornavam os homens e os reinos ou felizes ou infelizes, como lhes aprazia. Assim, esse espírito de orgulho dizia então aos homens o que teve a insolência de dizer mais tarde ao Filho de Deus mesmo: “Toda glória do mundo me pertence: Farei de ti o senhor de tudo, se me adorares.” (Luc. 4.6)
Para destruir esse erro, Deus quis ser como o Rei e o protetor do povo hebreu. Tornou Moisés, como ficará claro neste livro, o senhor dos elementos e da natureza, e não só o vencedor, mas o Deus do Faraó, segundo esta palavra, citada por São Paulo,  que o próprio Deus disse a esse Príncipe ímpio (Rom. 9. 17): “Foi para isso mesmo que eu te estabeleci, para fazer brilhar em ti a minha omnipotência e para tornar o meu Nome célebre em toda a terra.”
Pois há duas vidas, diz Santo Agostinho, a vida do corpo e a vida da alma, a vida da terra e a vida do céu. “Era preciso que Deus mostrasse ser igualmente senhor dessas duas vidas e que, como autor dos dois Testamentos, prometesse os bens da terra no antigo e os bens do céu no novo”. (Aug. In Psal. 73, init.)
Ele estabeleceu a primeira dessas verdades no povo judeu, que tornou poderoso enquanto lhe permaneceu fiel, como diz um Príncipe dos amonitas a Holofernes (Judith, 5, 17), e que elevou a uma grande glória, apesar de os mais temíveis reis o atacarem, embora só possuísse um pequeno país. Mas Deus deixou para o tempo da lei nova a revelação aos homens de ser Ele a origem das graças do céu e dos bens da alma.

III
Serve-se Deus de todo o povo judeu como de um grande Profeta que prediz a vinda de seu Filho. Pobreza todo-poderosa de Jesus Cristo
Tendo São Paulo sido especialmente iluminado por Deus para revelar a toda a Igreja a profundidade do mistério da lei e da graça, pergunta ele: Qual é a vantagem dos judeus sobre os gentios? (Rom. 3. 1. 2) E responde de imediato: “A vantagem é grande sob todos os aspectos, sobretudo porque os oráculos de Deus lhes foram confiados.” É esta, pois, a glória própria do povo hebreu, que desde o cativeiro da Babilônia foi chamado povo judeu: ter sido constituído por Deus o depositário de sua verdade. Pois se parece estranho que Deus tenha confiado tão precioso depósito a povo tão rebelde, vale ouvir sobre este ponto o sentimento de Santo Agostinho.
Deus, diz esse Santo, valeu-se divinamente da dureza dos judeus, quando usavam de maneira totalmente humana e carnal os favores do céu. E sem que esse povo pudesse compreender a profunda sabedoria com a qual era conduzido, Deus se serviu das leis que lhe impôs e de todos os acidentes que lhe aconteceram para autorizar as maiores coisas que um dia devia executar sobre a terra: Deus populum Hebraeum etiam nescientem, in magnarum rerum usus assumsit.
Pois é nisto que refulge principalmente a sabedoria infinita, assim como a omnipotência do Criador: ordenar de maneira admirável a desordem mesma dos homens e administrar de tal sorte seus maiores excessos que, contendo como por diques invisíveis o transbordamento de suas paixões, não lhes permita ultrapassarem os limites que lhes assinalou e só na medida em que lhe são úteis para a preparação de suas maiores obras e para cumprimento de seus desígnios eternos: Tu, Domine, contorques ad usus tuos profonda torrentes, fluxum saeculorum ordinans turbulentum. (August., Confes. L. 9, c. 8.)
Uma vez que, portanto, a obra de Deus por excelência, como a chama um Profeta, era a encarnação de seu Filho, que devia enviar à terra quatro mil anos depois da criação do mundo, Ele quis lançar muito antes os fundamentos dessa maravilha, que devia ser o restabelecimento de sua glória entre os homens e a origem da salvação do mundo (Habacuc, 3.2).
Por essa razão, escolheu Abraão dois mil anos antes da Encarnação e o cumulou de todas as virtudes que podiam torná-lo digno de ser o tronco da raça de seu Filho. Fez nascerem desse Patriarca Isaac, Jacó e Levi. Fez sair da raça de Levi Moisés, que quis fosse o primeiro dos Intérpretes de seu Espírito Santo e dos Escritores de sua palavra.
Quinhentos anos depois de Moisés e mil anos antes de Jesus Cristo, fez nascer Davi, Rei e Profeta, que falou dos sofrimentos, da morte e da ressurreição de Jesus Cristo, como se os tivesse visto com seus próprios olhos; e duzentos anos depois de Davi, Deus trouxe ao mundo Isaías, Oseias e toda a série de Profetas, para multiplicar assim os Pregadores dessa grande verdade e para dispor os homens à crença firme num mistério que devia ser o fundamento de sua salvação.
“Pois, como observou excelentemente Santo Agostinho, era digno da grandeza de Jesus Cristo fazer com que a sua vinda fosse precedida por tão grande número de testemunhas ilustres, e durante tantos séculos; para que, sendo o Criador do mundo, se mostrasse primeiro na terra como Salvador, para ser em seguida seu Juiz soberano: Christus venturus per multam seriem temporum & annorum praedicandus fuit. Quanto enim major judex veniebat, tanto praeconum longior series praecedebat. (August. In Joan. Tract. 31).
“Era, além disso, acrescenta o mesmo Santo, maravilha tão grande e tão inaudita, que o Verbo eterno, igual a Deus, seu Pai, se dignasse a rebaixar-se até fazer-se homem para salvar os homens; e a humildade profunda em que resolveu nascer, viver e morrer, estava tão acima da pequenez do espírito humano e devia confundir de tal maneira as falsas ideias de sua complacência e orgulho, que era preciso que tal mistério fosse predito com muita antecedência; para que, quando acontecesse,  longe de surpreender pela novidade, fosse recebido, ao contrário, com o respeito devido, como tendo sido durante tantos séculos o tema das profecias e o objeto da fé, dos desejos e da espera de tantos grandes Santos”: Mysterium hoc prophetandum praenuntiandum, venturum commendandum fuit; ut non súbito veniens horreretur, sed creditum expectaretur. (Aug. In Ps. 107. In praef.)
É por isso que Deus não se contentou em escolher alguns Santos em que derramasse o seu Espírito para torná-los de quando em quando os Profetas desse grande mistério: Mas escolheu para isso todo um povo, “quis que o reino do povo hebreu fosse todo ele como o grande Profeta daquele que é soberanamente grande.” Totum illud regnum gentis Judaeorum magnus quidam profeta, quia & magnus profeta fuit.  (August. Contra Faust. L. 12. C. 14.)
Assim, não só as leis e as ordenações de Moisés e os oráculos dos Profetas nos traçaram uma imagem do que Jesus Cristo devia fazer ou sofrer ou ensinar à sua Igreja: “Mas, além disso, diz Santo Agostinho, tudo o que vemos descrito nos dois livros do Êxodo e do Levítico, o tabernáculo, a arca, a mesa, o candelabro de ouro, os altares, as hóstias, os sacrifícios, os trajes do Sumo Pontífice, os dias de festa e tudo o que era então destinado ao culto e ao serviço de Deus, todas essas coisas, digo, foram como quadros traçados pela mão de Deus mesmo, de todas as grandes coisas que sabemos foram cumpridas por Jesus Cristo no estabelecimento da sua Igreja ou que vemos cumprir-se todos os dias ante os nossos olhos, ou que cremos com fé firme deverem cumprir-se na sucessão de todos os séculos”: Non solum omnse prophetiae & praecepta vitae, verum etiam sacra sacerdotia, tabernaculum, sive templum, altaria, sacrificia, cerimoniae, dies festi, & quidquid aliud ad servitutem pertinet quae Deo debetur; ea significaverunt, atque praenuntiaverunt, quase propter aeternam vitam fidelium in Christo, & impleta credimus, & impleri cernimos, & implenda confidimus. (August. De Civ. Dei lib 7. C. 32).
Esse comportamento de Deus mostrada no povo judeu era também, por outra razão, muito vantajoso à Igreja, segundo a sábia reflexão dos Santos padres. Pois o Filho de Deus declarara pelos Profetas que nasceria pobre e viria à terra para dar o reino dos céus aos que se fizessem pobres como Ele, de coração e de espírito. Era, pois, necessário que ele mostrasse, antes do tempo de sua encarnação, ser o senhor desses mesmos bens que devia desprezar e cujo desprezo devia inspirar a seus discípulos na lei nova. É por esta razão que, nos tempos que antecederam a sua vinda, tornou alguns Santos grandes segundo o século, embora lhes tivesse inspirado ao mesmo tempo um perfeito desprezo pelos bens da terra.
Assim, na antiga lei, Moisés, como veremos claramente na sequência desta história, parece o árbitro do mundo e da natureza. Josué é o vencedor dos Reis sobre a terra, e o próprio sol lhe obedece no céu. Davi, de pastor que era, torna-se Rei. Salomão é o mais rico e o mais sábio Príncipe que jamais existiu. Ester, desprezada como cativa, é escolhida para reinar no maior Império do mundo. Enfim, os Macabeus executam ações de valor e grandeza de alma, que superam tudo o que se relata de mais extraordinário no gênero nas histórias dos pagãos.
O exato contrário acontece na lei nova. É o reinado de um Deus que nasce pobre , vive pobre e morre sobre uma cruz. Os bens da terra são jogados primeiro aos pés dos Apóstolos. A ambição é banida da Igreja. Só a pobreza é honrada. Os Mártires que ocupam o primeiro lugar nesse reino de Jesus Cristo colocam sua glória não em resistir, mas em sofrer e em superar com uma paciência invencível tudo o que o furor dos demônios e do inferno pôde inspirar de mais temível e cruel aos tiranos.
E não se pode dizer, acrescenta Santo Agostinho, que seja por impotência que Jesus Cristo tenha assim exposto ao furor dos inimigos os Apóstolos e os Mártires que lhes sucederam. “Pois Tertuliano nos garante que desde o fim do segundo século toda a terra estava repleta de Cristãos”. (Tertul. In Apol. Cap. 1.) Vemos na história que havia legiões inteiras deles, como a de São Maurício, nos exércitos dos Imperadores.
“Se, portanto, Jesus Cristo tivesse querido armar os cristãos e sustentá-los com seu poder, como sustentou Moisés contra o Faraó e depois Ezequias contra os assírios e os Macabeus contra os Príncipes que os atacavam, onde estão os povos, onde os Reis que teriam podido resistir a esses exércitos do Filho de Deus e a esses Macabeus da lei nova?” Si Christus suos omnes congregatos vellet armare, atque adjuvare pugnantes, sicut Hebraeos patres adjuvit; quae gentes resisterent, quae regna non cederent? ( August. Contra Faust. L. 22. Cap. 76)
Mas um dos principais objetivos de Jesus em sua encarnação foi ensinar-nos que essa felicidade temporal que os judeus e os pagãos buscavam com tanto ardor não passava de uma ilusão que nos enganava os sentidos e nos escondia os verdadeiros bens que devemos buscar; e, sendo a nossa alma imagem de Deus, só devia desejar, para ser verdadeiramente feliz, a sua graça na terra e a sua glória no céu.

IV
Lei santa, adaptada aos judeus. Crescimento do pecado. Orgulho confundido. Judeus falsamente justos.
É fácil ver, pelo que foi dito acima, que era digno da grandeza de Deus escolher o povo judeu para nele estabelecer a crença num só Deus e como que guardar em depósito os oráculos dos Profetas e as predições da vinda do Messias, que deviam ser o fundamento das provas invencíveis da verdadeira religião.
Mas perguntamos, além disso, no que diz respeito à lei, qual objetivo teve Deus ao dá-la aos israelitas e que vantagem eles dela tiraram. Sobre este assunto, diz Santo Agostinho o que grandes santos ensinaram depois dele, que há um profundo Mistério oculto na lei dada por Moisés ao povo hebreu. Foi São Paulo quem nos descobriu esse mistério, e pediremos a Santo Agostinho a explicação da doutrina divina desse grande Apóstolo.
Em primeiro lugar, é certo que  a lei que Deus deu a seu povo era, por si mesma, segundo as palavras do grande Apóstolo, boa e justa e santa (Rom., 7. 1.) ; e que, assim, o mau uso que dela fez esse povo só pode ser atribuído à desordem do espírito e ao endurecimento do coração.
Homens presunçosos houve que condenaram a velha lei, por não prometer senão bens temporais e nisso ser muito diferente da lei de Jesus Cristo, que só promete os bens da alma. Mas não se segue daí, diz Santo Agostinho, que a primeira lei não tivesse sido de Deus, por ser muito inferior à segunda. A lei judaica estava adaptada ao estado dos judeus. Prometia bens terrestres aos que só amavam as coisas da terra.
“Do mesmo modo, o homem sábio dá ao filho em seus primeiros anos tudo o que serve para diverti-lo. E quando ele cresce,  tira-lhe das mãos o que só era bom para as brincadeiras de criança e lhe dá um livro, para que se dedique a algo mais sério” (August. Ibid.): Numquid quoniam puero dantur quaedam puerilia ludicra quibus puerilis animus avocetur, propterea grandiusculo non excutiuntur e manibus, ut aliquid jam utilius tractet, quod grandem decet? Tu ipse dedisti filio tuo, & nuces parvulo, & coditem grandi. (Aug. in ibid.)
E o Santo logo acrescenta: Embora no novo Testamento Deus afaste os homens desses bens terrestres, para fazê-los saborearem os bens do céu, como se tira de uma criança o que a divertia na primeira infância, para lhe dar o que deve ocupá-la com mais proveito em idade mais avançada; não se segue daí que Deus não tenha dado aos homens o que era adaptado a seu estado na lei antiga.
“Pois só à sabedoria de Deus pertence, como diz o mesmo Santo, proporcionar os remédios à doença da natureza humana e diversificá-los segundo a diversidade dos tempos, das idades e dos espíritos”: Cum minora praecepta minoribus, majora majoribus dantur, abe o dantur, qui solus novit congruentem suis temporibus generi humano exhibere medicinam. (August. Ser. Domini in monte, lib. 1, c. 1).
O povo hebreu, acrescenta Santo Agostinho, por mais carnal que fosse, não deixava de ser nisso melhor que os gentios, pois embora só amasse os bens temporais, pedia-os ao verdadeiro Deus. Assim, ainda que seu coração, como diz um Profeta, estivesse muitas vezes longe de Deus, permanecia perto dele, para lhe pedir as coisas necessárias da vida.
Os pagãos, pelo contrário, afastaram-se completamente de Deus, como diz São Paulo, e eram sem Deus neste mundo: Sine Deo in hoc mundo (Ephes. 2. 12);  porque não só desejavam, como os judeus, os bens da terra, mas além disso só os pediam aos demônios, que adoravam sob os diversos nomes dos ídolos, como se esses espíritos de malícia tivessem sido neste mundo os senhores e os dispensadores dos bens e dos males: Gentiles non solum terrena desideraverunt, sed a daemonibus patierunt. (Aug. In Os. 72.)
Mas os judeus não eram só crianças que precisavam que Deus lhes prometesse bens temporais para conservá-los junto de Si. Estavam também cheios de presunções, e imaginavam, como demonstravam pelas palavras, que desde que Deus lhes passasse as ordens, fariam tudo o que ele lhes ordenasse. Não compreendiam que para observar efetivamente a lei de Deus precisavam do auxílio daquele que lha havia dado.
Essa presunçosa cegueira do coração era-lhes completamente desconhecida. “E querendo Deus iluminar suas trevas e fazê-los caírem em si, deu-lhes sua lei, como se dissesse:  imaginai que basta que eu ordene para que me obedeçais de imediato. Aqui estão meus mandamentos que vos dou. Vereis que não vos faltará conhecimento, mas obediência”: Deus dedit legem, tanquam dicens: Ecce implete. Ne putetis desse jubentem. Non deest qui jubeat, sed deest qui impleat. (August. In Joan. Tract. 3. N. 11.)
Assim a lei produziu a cólera, como diz São Paulo, e deu lugar à abundância e à multiplicação do pecado. “Pois acontece, diz Santo Agostinho, por um desregramento do homem que só podemos compreender quando a paixão nos arrasta com violência a coisas que Deus nos proíbe, que essa lei que nos é imposta excita ainda mais a concupiscência e faz que julgue ainda mais doce o mal que ama e a ele se entregue apesar de todas as proibições que lhe foram feitas.” Nescio quo enim modo, hoc ipsum quod concupiscitur, sit jucundius cum vetatur. (August. De Spir. & lit. c. 4).
É o que até os pagãos reconheceram: Nitimur in vetitum. Quanto mais nos proíbem algo, mais o queremos.
A concupiscência, diz esse mesmo Santo, era como um rio, e como uma torrente que nos precipitava nas mais criminosas desordens . Deus lhe opôs a lei como um dique. E, então, ao topar a torrente da concupiscência com essa oposição, se tornou ainda mais furiosa. “E, forçando todos os obstáculos da lei por um redobro de teimosia e malícia, ela tornou os homens culpados não só dos pecados e desregramentos comuns, mas também da violação da lei mesma de Deus e do desprezo de suas santas ordens”: Fluvius concupiscentiae, obice legis opposito refraenatus non siccatus, increscente impetu, obruit obicibus ruptis. E alhures: Aquae impetus violentior fit obie opposito, cujus molem cum evicerit, violentius per prona provolvitur. (August. De verb. Apostol. Serm. 4. Cap. 5.)
Não devemos, portanto, imaginar, contra as palavras expressas de São Paulo, que a lei por si só, embora santa em si mesma, tenha podido salvar os homens e torná-los justos. Pois veremos, ao contrário, na sequência deste livro do Êxodo, os israelitas que receberam esta lei sempre opostos a Deus, sempre insolentes, infiéis e maledicentes; sempre prontos a preferir um bezerro de ouro ou o primeiro ídolo que encontravam à majestade daquele que com tantos milagres os tirara de tão grande servidão.
Ve-los-emos ainda sempre cheios de fel e de amargor contra esse mesmo Moisés, esse homem de Deus que tinha por eles uma ternura e um coração de pai e que, no entanto, como ele mesmo diz, corria sempre o risco de ser lapidado por aqueles ingratos, embora tantas vezes os tivesse como que arrancado à justa indignação de Deus, que os queria perder.
Podemos ver o juízo que devemos fazer de todos esses hebreus, que só observavam a lei com um espírito completamente carnal e judaico e que com muita frequência não a observavam pura e simplesmente, e se revoltavam contra Deus e contra seus Profetas, nesta excelente descrição que Santo Agostinho deles faz ao escrever ao papa Bonifácio, defendendo ante esse Soberano Pontífice a graça de Jesus Cristo contra os erros dos pelagianos.
“É fácil reconhecer na Escritura, diz esse Santo, que toda aquela multidão de hebreus, que tantas vezes murmuraram contra Deus e contra Moisés no deserto, que adoraram o bezerro de ouro e que até na terra prometida se prostituíram ao culto dos ídolos, foi com muita justiça reprovada por Deus. Mas é mais difícil compreender, o que é, porém, certo, que esses mesmos judeus que mais tarde pareceram mais apegados a sua lei e mais religiosos diante dos homens nem por isso tenham sido justificados ante Deus.”
É o que esse Santo nos mostra nestes termos (Aug. Ad Bonif. L. 3. C.4): “Todos esses judeus que viviam sob a lei e só pensavam em adquirir os bens passageiros que a lei lhes prometia, sem saberem que tais bens não passavam de uma imagem dos bens espirituais e verdadeiros que o Salvador nos devia dar na lei nova, observavam os mandamentos de Deus pelo desejo de obter esses bens e pelo receio de perdê-los. Ou antes, imaginavam observá-los e na verdade não os observavam de modo algum. Pois não eram impelidos em suas ações por essa fé de que fala São Paulo,  que é animada e age pelo amor, mas só pela cupidez terrestre e pelo temor carnal. (Galat 5.6.).
“Ora, aquele que guarda os mandamentos de Deus, acrescenta esse Santo, não por obediência íntima e espiritual, mas pelo desejo de obter os bens da terra ou por temor de perdê-los, guarda os mandamentos contra a vontade. E não faz verdadeiramente no coração o que parece fazer exteriormente.  Pois se considerarmos a inclinação de sua vontade, que só deseja os bens do corpo e só teme os males que lhes são contrários, ele preferiria em muito nada fazer do que Deus lhe ordena, se pudesse desobedecer impunemente. É por isso que Deus, que julga a obediência que prestamos a seus preceitos no fundo do coração, que lhe é conhecido, considera tais pessoas culpadas perante Ele, porque vê que a vontade delas é completamente oposta à sua justiça”: Non servabant praecepta Dei, sed sibi servare videbantur. Neque enim fides in eis per dilectionem operabatur; sed terrena cupiditas, metusque carnalis. Sic autem praecepta qui facit, procul dubio invitus facit. Ac per hoc in animo non facit. Mavult enim omnino non facere, si secundum ea quae cupit & metuit, permittatur impune. Ac per hoc in ipsa voluntate eintus est réus, ubi ipse, qui praecepit, inspicit Deus. (Aug. ad Bonif. L. 3 c. 4)
Esse Santo resume também excelentemente, em poucas palavras, esta grande verdade: “Todos esses judeus que só viviam movidos por um espírito humano e judaico permaneceram ou visivelmente culpados ou falsamente justos, tendo ou caído abertamente por manifesta desobediência à lei de Deus ou se inflado indiscretamente pela vã estima da justiça deles, que era apenas exterior e aparente”: Ita remanente aut aperte iniqui, aut fallaciter justi; in aperta iniquitate evidenter elisi, in fallaci justitia insipienter elati. (Aug. Ad Bonif., l. 3 c. 7)
Estando, portanto, esse povo completamente imerso no amor dos bens da terra, Deus só o conduzia pelo temor, por não ser capaz de ser conduzido de outra maneira, e o tratava segundo a dureza do seu coração. É o que Deus mesmo declara várias vezes na sequência deste livro: “Não marcharei convosco, diz ele aos israelitas, porque sois um povo de cabeça dura”: Non ascendam tecum, quia populus durae cervicis es. (Exod. 33.3.5)
O grande Santo Estêvão, no livro dos Atos, censura aos judeus, no meio da assembleia, com estranha força, essa mesma dureza, dizendo-lhes: “Cabeças duras e inflexíveis, homens incircuncisos de coração e de ouvidos, sempre resistem ao Espírito Santo e são como seus pais.” (Act. 7. 51)
Cumpre, portanto, formar uma ideia dos israelitas tal como eram na realidade. Desejavam de Deus apenas os bens terrestres. Estavam repletos de amor próprio e não tinham nenhuma afeição sincera pelos bens interiores e espirituais. É por isso que Deus os retinha pelo temor como por um freio, para que dele esperassem apenas os bens da terra, que lhes dava de fato quando permaneciam fiéis, e de que os privava quando o deixavam para adorarem os ídolos.
Veremos, assim, na sequência deste livro, que Moisés, por ordem de Deus, prescreve aos israelitas grande número de regras e cerimônias, para a escolha dos dias, para a celebração das festas, para o discernimento das carnes puras ou impuras e para a diversidade das hóstias e dos sacrifícios, o que Santo Agostinho chama um jugo pesado e servil, adaptado à dureza desse povo.

V
Vantagens tiradas da lei. O doente conhece seu mal e recorre ao Salvador. Perfeição da Igreja nascente, fruto da lei.
Não devemos concluir do que acaba de ser dito que fosse inútil que Deus desse sua lei aos israelitas, já que deviam fazer tão mau uso dela. Santo Agostinho, excelente discípulo de São Paulo, mostra, ao contrário, na esteira desse grande Apóstolo, o quanto a lei lhes foi vantajosa.
“Os israelitas, diz esse Santo, estavam corrompidos de coração, pois eram soberbos. Como Deus, portanto, queria revelar-lhes a principal causa de seu mal, que desconheciam, deu-lhes a lei, não para curá-los da enfermidade, o que a lei por si só não teria podido fazer, mas para obrigar seu orgulho a reconhecer que estavam doentes”: Ad domandam superbiam data est lex; non ad liberandos aegrotos, sed ad convincendos superbos. (August. Serm. De quinq. Portic.)
Não devemos imaginar, acrescenta esse Santo, “que essa atitude de Deus para com seu povo tenha sido severa demais. Ele os tratou assim, não como inimigo sem compaixão, mas como médico que quer curar:” Non creduliter hoc fecit Deus, sed consilio medicinae. (Aug. In Os. 102)
“Estes são, prossegue esse Santo, os caminhos secretos da sabedoria inefável de Deus, que Ele revelou a Moisés, seu servidor:” Notas fecit vias suas Moysi. Pois Deus permitiu que, estabelecida a lei, como diz São Paulo, ela desse lugar à multiplicação do pecado, para que depois da abundância do pecado florescesse uma superabundância de graça. (Rom 5. 20)
Ó homem, acrescenta esse grande Santo, deixai de ser presunçoso. “Não vos cegue o vosso orgulho e compreendereis por que Deus, o soberanamente bom, deu aos judeus uma lei que era boa e santa e que, no entanto, segundo a palavra expressa de São Paulo, não podia dar a vida. “Deu-vos Deus a lei, diz esse Santo, para vos tornar pequenos e humildes, de grandes e soberbos que éreis. Deu-vos a lei, para que, convencidos por vossas próprias quedas da impotência em que vos acháveis de cumpri-la com vossas próprias forças, recorrêsseis à graça de Jesus Cristo e, implorando sua misericórdia, lhe dissésseis, com Davi, por um grito do coração: Senhor, tende piedade de mim, porque estou doente”: Miserere mei, Domine, quoniam infirmus sum. (Ps. 6.2)
“Os israelitas, diz o mesmo Santo, imaginavam ser bastante fortes por si mesmos para obedecerem à lei de Deus. Essa presunçosa confiança em suas próprias forças os fez caírem e os tornou culpados da violação mesma da lei. Por fim, sua queda abriu-lhes os olhos. Imploraram a ajuda do libertador. Eram soberbos, tornaram-se humildes. Os doentes agora reconhecem estar doentes. Venha o médico; toque o Salvador esses doentes e os cure”: Homines temerária sua praesumptione ceciderunt. Facti rei sub lege imploraverunt liberatoris auxilium. Aegritudo superborum facta est confessio humilium. Jam confitentur aegroti quia aegrotant. Veniat medicus, & sanet aegrtos. (Aug. In Joan. Tract. 3)
E essa atitude parece tão maravilhosa a Santo Agostinho, que, dirigindo-se a Deus como num ímpeto de admiração, exclama: Sim, Senhor, fazei isso. “Mostrai, ó Senhor, que sois cheio de misericórdia. Ordenai por vossa lei o que o homem não é capaz de fazer por si mesmo: ou melhor, ordenai por vossa lei o que só pode ser cumprido pela graça de Jesus Cristo, para que os homens, vendo que não conseguem obedecer-vos por suas próprias forças, recorram a vós e assim toda boca permaneça fechada e ninguém seja grande a seus próprios olhos”: Ita, Domine: ita fac, misericors Domine. Impera quod non possit impleri; imo impera quod non nisi per gratiam tuam possit impleri, ut cum homines per suas vires id adimplere nequiverint, omne os obstruatur, & nemo sibi magnus videatur. (Aug. On Os. 118)
É esse, portanto, o mistério oculto na lei. “Ela foi dada aos israelitas para que, tendo-os a violação mesma que dela fariam convencido de sua verdadeira iniquidade e de sua falsa justiça, aprendessem por tão clara experiência que a salvação não estava em suas próprias mãos, mas nas do mediador. Pois assim como é o orgulho que nos separa de Deus, a humildade é que nos aproxima de Jesus Cristo, que dela se tornou tão grande exemplo”: Maxime quippe humilitas revocat, unde nos dejecit supervia. Et ipsa humilitas est accomodata percipiendae gratiae Christi, qui singulare humilitatis exemplum est. (Aug. In epist. Ad Gala. C. 3)
“Depois disso, acrescenta esse Santo, quem poderia ter tão pouca razão e tão poucas luzes para dizer: Por que essa lei que foi dada, segundo São Paulo, pelos Anjos (Galat. 3.9) , por intermédio de um mediador, isto é, ou de Moisés ou de Jesus Cristo, foi inútil aos judeus? Pelo contrário, ela lhes é mais vantajosa do que podemos dizer”: Nec quisquam tam imperite dizerit: Cur lex profuit Judaeis? Profuit enim quantum dici non potest.
Pois é à lei mesma de Moisés que devemos vincular essa disposição tão perfeita dos primeiros fiéis da Igreja de Jerusalém, pela qual, tendo-se achado tão próximos de Deus, de que eram o povo, “ao contrário dos Gentios, segundo a palavra de São Paulo, que estavam muito distantes dela, abraçaram a fé de maneira tão rara e tão singular, que desde então não mais se viu nada de igual em todas as Igrejas dos Gentios. E, com efeito, onde encontraríamos, entre as nações idólatras, Igrejas, diz Santo Agostinho, cujos cristãos tivessem vendido tudo o que possuíam e posto o dinheiro aos pés dos Apóstolos, como essa primeira Igreja de Jerusalém?” (August. Ibidem)
Assim é que se cumpriu esta palavra que Jesus Cristo disse aos discípulos logo depois da conversão da samaritana, imagem de toda a Igreja: “É verdade o que se costuma dizer nestas circunstâncias: um semeia, outro ceifa. Eu vos enviei para ceifar o que não veio por vosso trabalho: outros trabalharam e vós entrastes nos trabalhos deles. Outros trabalharam, isto é, Moisés e os Profetas trabalharam  sem colher, e os Apóstolos colheram o fruto do trabalho deles, quando converteram a Igreja nascente, com tamanha efusão de graças do céu”: Alii laboraverunt. Qui? Moyses, Patriarchae, Prophetae. Ergo tanquam matura seges fuit, quando tot hominum millia pretia rerum suarum afferebant ad pedes Apostolorum, ut expediti Christum sequerentur. (Aug. In Joan. Tract. 15)
Nos judeus convertidos que compunham essa admirável Igreja, que mais parecia uma assembleia de Anjos do que de homens, cumpriu-se literalmente esta palavra de São Paulo: “Antes da vinda da fé, estávamos sob a tutela da lei que nos mantinha cativos, para nos dispor a essa fé que um dia devia ser revelada e lhes foi efetivamente revelada quando o Filho de Deus os converteu por seus Apóstolos e os transformou nas primícias  de sua Igreja.” (Galat. 3.23; Aug. In epist. Galat. C.3)
“A lei mantivera presos esses judeus, sujeitando-os a um só Deus, a que só serviam ainda por medo. E tendo-se achado culpados da violação mesma da lei, essa abundância de pecado depois de sua conversão só serviu para proporcionar uma superabundância de graças. Pois nada é mais útil ao doente que o conhecimento de sua doença. E quanto mais estiver consciente dela, mais energia encontrará para buscar remédios e mais amor terá pelo Médico”: Cognitio majoris aegritudinis, & desiderari medicum diligentius facit, & ardentius diligi. Aug. In epist. Ad Galat. c. 3).
Não devemos contrapor a essa vantagem da lei o fato de grande parte dos judeus ter permanecido na infidelidade. Tendo o próprio São Paulo feito essa objeção sobre a reprovação da maioria dos judeus, dizendo: “Será que Deus rejeitou completamente o seu povo?” Responde de imediato: “Certamente, não. Eu mesmo sou israelita. Deus não rejeitou o povo que escolheu em sua presciência” (Rom 11, 1.) São Paulo só se interessa pelos que estavam na eleição de Deus, embora fossem tão poucos em comparação com a multidão dos outros.
Devemos, pois, pesar os eleitos de Deus, à imitação desse grande Apóstolo, e não contá-los. Encontraremos em seu valor o que não encontrarmos em seu número. “Pois na eira de Deus, diz Santo Agostinho, como na dos homens, há sempre, sem comparação, mais palha do que trigo”: Nec turbae infidelium considerandae sunt. Omnis enim área, multis partibus ampliorem habet paleam quam frumentum. (Aug. In epist. Ad Galat. C. 3)

VI
Santos da velha lei, herdeiros da nova; membros da Igreja, Cristãos de verdade.
Quanto mais observarmos a extrema corrupção do espírito humano nos israelitas, mais nos espantaremos, talvez, por haver entre eles tão grandes Santos. Pois nada é mais típico do povo hebreu que Moisés. E, ao mesmo tempo, nada é tão dissemelhante ao comportamento e ao espírito desse mesmo povo, tal como acabamos de representá-lo, que o espírito e o comportamento de Moisés.
Mas é fácil ver a razão dessa grande diferença. Pois enquanto Moisés era um homem de Deus, que vivia só de Deus e para Deus e só desejava os bens do céu, o povo hebreu, pelo contrário, só amava a si mesmo, só desejava a terra, servia a Deus como escravo e dele só esperava bens frágeis e temporais.
Mostrou brilhantemente Santo Agostinho essa diferença, numa única palavra, ao dizer que “Moisés viveu durante o velho Testamento, sem estar, porém, no velho Testamento; pois foi tão perfeito distribuidor da lei antiga, que foi, ao mesmo tempo, o herdeiro da lei nova”: Moyses minister Testamenti veteri, haeres novi. (Aug. Ad Bonif. L. 3 c. 4)
Moisés viu o Salvador em espírito. Viveu da fé. Creu com toda certeza que Jesus Cristo nasceria e morreria pelos homens, e de uma morte vergonhosa e cruel, “e preferiu, como diz São Paulo, essa ignomínia que o Filho de Deus devia sofrer um dia, a todos os tesouros e toda a grandeza que lhe prometiam no Egito”:  Majores divitias aestimnans thesauro Aegyptorum, improperium Christi. (Heb. 11. 26)
Josué, Davi, Samuel, Elias, todos os Profetas, com eles um pequeno número de Santos ocultos, viveram dessa mesma fé. Foram cristãos efetivamente, por uma antecipação de graças, embora não ostentassem o nome: Re, non nomine, Chistiani, diz Santo Agostinho, e eram desde então membros da Igreja e do Salvador, embora o Filho de Deus ainda não tivesse revestido uma carne mortal: Ecclesia membra erant etiam illi sancti, quamvis in hac vita fuerint, antequam secundum carnem Christus Dominus nasceretur. (Aug. De catech. Rud. 19)
E, como assinalou São Paulo, não foi só pela fé na encarnação de Jesus Cristo, mas pela visão e pelo amor de sua humildade e de sua morte cheia de ignomínia, que Moisés desprezou tudo o que havia de grande no Egito; Santo Agostinho também nos garante que pela mesma fé foram salvos todos os que participaram da eleição de Deus, desde a criação do mundo até a vinda de Jesus Cristo.
O demônio, diz esse Santo, levara à perdição todos os homens pela chaga do orgulho. Essa chaga só podia ser curada pela humildade de um Deus. Pois o Cordeiro de Deus, como foi dito alhures, morreu, ou seja, fez sentir os efeitos e os frutos de sua morte futura, logo após a criação do mundo: AGNUS occisus ab origine mundi.  (Apoc. 13. 8)
Todos aqueles, portanto, diz Santo Agostinho, foram curados da impiedade do orgulho, e de inimigos de Deus passaram a ser seus amigos, e, tendo visto por uma revelação particular de Deus que o Salvador viria à terra muitos séculos depois deles, creram de tal modo na prodigiosa humildade de sua vida e de sua morte, que, ao nela crerem, a amaram, e, ao amarem-na, a imitaram”: Sanati sunt ab impietate superbiae ut reconciliarentur Deo, quicumque homines humilitatem Christi, per revelationem antequam fieret, credendo, dilexerunt; diligendo, imitati sunt. (Aug. In epist. Ad Gal. C. 3)
Mas não devemos imaginar, como acrescenta o mesmo Santo, que tal graça fosse então comum. Estava reservada, como diz ele muitas vezes, aos Patriarcas, aos Profetas e a alguns Santos surgidos ou entre o povo de Deus ou entre os gentios, como Jó e alguns justos semelhantes, conhecidos só por Deus. “Essa justiça da fé, diz esse Santo, que não se dá aos homens pelo mérito e como algo que lhes seja devido, mas só pela graça e pela misericórdia de Deus, não era comum a todo aquele povo, antes que Jesus Cristo se fizesse homem e surgisse na terra”: Haec justitia fidei, quia non pro mérito data est hominibus, sed pro misericórdia & gratia Dei, non erat popularis, antequam Dominus inter homines nasceretur. (August. Ep ad Gal. Cap. 3)
Segundo o mesmo Santo, “essa graça não tocava senão um número muito pequeno de pessoas, illos paucissimus, que, tendo sido instruídas por uma revelação do céu desses mistérios por vir, viviam assim da fé em Jesus Cristo, pela qual eram salvas, mas não podiam salvar o povo”:  Quamvis per fides illam salvi fierent, populum tamen salvare non poterant. (August. Ep. Ad Gal. Cap. 3)
Tendo esses homens de Deus, acrescenta Santo Agostinho, sido iluminados pelo céu, compreendiam esse mistério secreto da velha lei. “Sabiam que essa grande variedade de sacrifícios e observações legais era a figura das grandes coisas que deviam cumprir-se na pessoa de Jesus Cristo e em sua Igreja. Observavam essas cerimônias exteriores porque era aquela a hora das figuras; e ao mesmo tempo penetravam sob esses véus a verdade que ali se escondia, na qual sua fé encontrava a salvação; enquanto aquela multidão de judeus carnais observava apenas esses sinais exteriores, sem nada compreender”: Signa erant rerum spiritualium ad Dominum Jesum Christum & ad Ecclesiam pertinentium, quae tunc a paucis sanctis & observabantur ad congruentiam temporis, & intelligebantur ad fructum salutis; a multitudine vero camalium tantummodo observabantur, non intelligebantur. (Aug. De catech. Rud c. 20)
“Os Patriarcas e os Profetas, diz ainda o mesmo Santo, durante o tempo desse primeiro povo, penetravam pela luz da fé tudo o que faziam no culto exterior que então se observava e tudo o que Deus fazia por eles; e embora adaptassem suas ações ao antigo Testamento, sob o qual viviam, tinham, porém, todas as suas esperanças no novo.” (August. Contra Faust. L. 19 c. 30)
Esses Santos, portanto, que haviam ouvido de Deus esse conselho profundo de sua justiça e de sua sabedoria, sabiam que lhes era particular a graça que Deus lhes fizera de conhecerem por uma revelação secreta a Encarnação de seu Filho, que só deveria acontecer muitos séculos depois. Quanto mais raro era esse favor, mais se convenciam de não poderem ser dignos o bastante de reconhecê-lo. E quanto mais ardente era sua caridade, mais dor sentiam por não poderem partilhá-lo com aquele povo carnal com que viviam e mais procuravam apressar com seus suspiros e com seus ardentes desejos esse tempo bem-aventurado em que, com o Espírito Santo derramando suas graças sobre todas as nações, a salvação do mundo se tornaria o prêmio dos sofrimentos do Salvador; e em que todos os povos da terra se tornariam um só povo e um só reino de Jesus Cristo.

VII
Diferença entre o Velho Testamento e o Novo. Lei de temor gravada na pedra. Lei de amor escrita no coração pelo Espírito Santo
A sequência do que foi dito até agora leva-nos naturalmente a explicar aqui uma verdade grande e muito útil: mostrar pelo testemunho dos Apóstolos e dos Profetas em que consiste propriamente a diferença entre a lei de Moisés e a de Jesus Cristo.
As duas leis têm o mesmo Deus por autor; e são ambas santas. “Os mandamentos de Deus, com exceção do sábado compreendido judaicamente, são os mesmos em ambas” (Aug. De Spir. & lit., c. 14): prescreveu sempre a Igreja e ainda hoje prescreve a seus filhos o mesmo Decálogo, ou seja, os mesmos dez mandamentos dados por Deus ao povo hebreu.
Disse a lei antiga, segundo São Paulo: Não tereis maus desejos: Non concupisces (Rom. 7.7). Disse também, como o reconheceram os judeus na presença do mesmo Jesus Cristo no Evangelho: Amareis a Deus de todo coração (Marc. 12. 32;  Aug. Ib. cap. 13; Mat. 22. 38-40).
Diz-nos a lei natural igualmente por todos os mandamentos que nos dá que não pequemos: Não tereis maus desejos: Non concupisces. “E nos diz pela boca de Jesus Cristo que o mandamento de amar a Deus de todo coração e o próximo como a si mesmo contém toda a lei e todos os Profetas.”
Se, portanto, os mandamentos de Deus dados aos judeus e aos cristãos são os mesmos, em que consiste propriamente essa diferença entre o Velho Testamento e o Novo?
Disse-o o Espírito Santo claramente pela boca do profeta Jeremias, num excelente trecho citado e confirmado duas vezes por São Paulo na Epístola aos Hebreus, tal a importância que lhe concedia para a instrução de toda a Igreja.
“Virá um tempo, diz o Senhor, em que farei nova aliança com a casa de Israel, não segundo a aliança que fiz com seus pais, no dia em que os tomei pela mão para fazê-los saírem do Egito, porque não permaneceram nessa aliança que fiz com eles, e é por isso que os desprezei”, diz o Senhor. “Mas eis a aliança que farei, eu, o Senhor, com a casa de Israel, quando esse tempo chegar: Imprimirei as minhas leis em seu espírito, escreve-las-ei em seu coração e serei o seu Deus e eles serão o meu povo; e cada um deles já não precisará ensiná-las ao próximo e ao irmão, dizendo: Conhecei o Senhor; porque todos me conhecerão, desde o menor até o maior. Pois eu lhes perdoarei as iniquidades e não me lembrarei de seus pecados.” (Jerem. 31.31; Hebr. 8. 9 & seq. & cap. 10. 16.)
Aprendemos com estas palavras, diz Santo Agostinho, que dos dois Testamentos, ou seja, das duas alianças que Deus fez com os homens, uma é chamada velha e a outra, nova. “São assim chamadas primeiro por causa do tempo; porque a velha foi feita quinze séculos antes da nova.”
Em segundo lugar, a primeira aliança é chamada de velha por causa da corrupção do velho homem, cujo desregramento não pôde ser destruído pela lei, que apenas mandava e ameaçava, mas não curava a vontade. E a segunda aliança é chamada nova porque Jesus Cristo, com essa segunda aliança, dá ao homem um espírito novo, curando-o pela novidade do Espírito Santo da corrupção do homem velho”: Propter veteris hominis noxam, quae per litteram jubentem & minantem minime sanabatur, dicitur illud testamentum vetus: hoc autem novum, propter novitatem spiritus, quae hominem novum sanat a vitio vetustatis. (Aug. De spir. & litt. Cap. 20)
Por isso, nesse excelente trecho de Jeremias de que São Paulo quis apropriar-se, citando-o duas vezes na mesma Epístola, o próprio Deus, que nele fala, expressa toda a essência da lei nova com estas palavras: Imprimirei as minhas leis em seu espírito e as escreverei em seu coração.
São Paulo parece ter querido explicar com clareza ainda maior estas palavras, quando, tendo-as em vista, diz aos coríntios: “Sois a letra em Jesus Cristo, de que fomos apenas os escribas, que está escrita, não com tinta, mas com o Espírito de Deus vivo, não sobre tábuas de pedra, mas sobre tábuas de carne, que são vossos corações” (2 Cor. 3.3).
Que devemos aprender com essas palavras, diz Santo Agostinho (Aug. De Spirit. & Litt.. cap. 20), senão que a lei antiga foi escrita sobre tábuas de pedra, para marcar a dureza e o coração de pedra dos judeus que não guardaram essa lei que lhes fora imposta e sempre foram rebeldes a Deus; e que, pelo contrário, a lei nova está escrita sobre tábuas de carne, isto é, está escrita  nos corações dos cristãos, que já não são mortos e insensíveis, como eram os corações dos judeus, mas estão vivos pela fé e animados pelo Espírito de Deus? Por isso diz o Apóstolo no mesmo lugar que é ministro do Testamento novo e da nova aliança, não da letra, mas do Espírito.
“Quando, pois, ouvimos Deus mesmo falar, acrescenta Santo Agostinho, que, querendo ensinar-nos em que consiste propriamente a religião de Jesus Cristo, nos declara que imprimirá suas leis no espírito dos homens e as escreverá em seu coração, que devemos entender por essas palavras, senão que derramará seu Espírito no coração deles, que, sendo o dedo de Deus, ali escreverá sua lei, nele imprimindo com celestial doçura a sua graça e a sua caridade, chamada por São Paulo o cumprimento de toda a lei e o fim de todos os preceitos?” (Aug. De Spir. & Litt. Cap. 21) Quid sunt leges Dei, ab ipso Deo scriptae in cordibus, nisi ipsa praesentia Spiritus Sancti, qui est digitus Dei, quo praesente diffunditur charitas in cordibus nostris, quae plenitudo legis est, & praecepte finis?
Veremos neste livro do Êxodo a maneira como Moisés dá aos israelitas a lei de Deus no monte Sinai. Mas mostra excelentemente Santo Agostinho a proporção que se encontra entre essas duas leis; já que uma é a imagem da outra; e, ao mesmo tempo, a extrema diferença que se pode observar entre as duas, já que uma é apenas a figura, e a outra, a verdade mesma.
“Quem não se impressiona, diz esse Santo, ao comparar os dois tempos em que as duas leis foram dadas?” (Aug., de Spir. & litt. Cap. 16). Os israelitas comemoram a Páscoa pela ordem que Moisés recebeu de Deus. Imolam o cordeiro pascal, cujo sangue, derramado sobre suas portas, devia salvá-los do Anjo exterminador, que entrava nas casas dos egípcios e matava todos os primogênitos.
O mesmo Filho de Deus, no fim de sua pregação, também celebra  a Páscoa e come com seus discípulos o cordeiro pascal em Jerusalém. Mas de imediato une a verdade à figura: e sendo Ele mesmo o verdadeiro cordeiro pascal, o cordeiro de Deus e o cordeiro sem mácula, no dia seguinte dessa ceia pascal Ele é realmente imolado sobre a cruz; e seu sangue nos protege da tirania desse Anjo cruel, que havia quatro mil anos se tornara o exterminador e o assassino de todas as almas.
No dia de Pentecostes, ou seja, conforme o sentido da palavra grega, o quinquagésimo dia depois daquele em que o cordeiro pascal fora imolado pela primeira vez,, os israelitas recebem a velha lei sobre o monte Sinai: assim também em Pentecostes, ou seja, cinquenta dias depois da Páscoa e da Ressurreição do verdadeiro Cordeiro pascal, os Apóstolos recebem a lei nova e a plenitude das graças do Espírito Santo.
Quem consegue permanecer insensível a essa relação maravilhosa, diz Santo Agostinho? Quem non moveat ista congruentia? (Aug. De spir. & lit. cap. 16.) Mas ao mesmo tempo observamos uma extrema diferença entre essas duas leis. “Na primeira, Deus aparece em meio a raios e tempestades e faz fulgurar sua terrível grandeza; na segunda, Deus derrama sobre os fiéis a plenitude de suas graças e só demonstra a sua misericórdia e a sua bondade.
“Na primeira, Deus proíbe sob pena de morte que alguém se aproxime dessa montanha coberta de fogo e fumaça, no alto da qual reside a Sua majestade; na segunda, Ele mesmo desce ao coração dos homens e os enche de uma paz e de uma alegria inefável. (Aug. Ibidem)
“Na primeira, Deus escreve a sua lei sobre tábuas de pedra. Na segunda, o Espírito Santo, que é o dedo de Deus, escreve a sua lei no coração dos homens. Assim, a primeira foi apenas uma lei exterior que Deus impôs a um povo duro, que intimidou com ameaças e permaneceu sempre carnal e sempre rebelde. A segunda foi uma lei interior, que penetrou até o fundo do coração dos homens, lhes inspirou o amor da lei e os tornou justos aos olhos de Deus: “Ibi in tabulis lapideis digitus Dei operatus est: hic in cordibus humanis. Ibi lex intrinsecus posita est qua injusti terrerentur; hic intrinsecus data est, qua justificarentur. (Aug. De Spir. & lit. cap. 17)
O próprio São Paulo descreveu essa diferença entre a lei antiga e a lei nova, de maneira realmente digna de Jesus Cristo, de que era o porta-voz. “Vede, diz ele aos Hebreus que se tornaram cristãos, que não vos aproximastes de uma montanha sensível e terrestre, de um fogo ardente, de uma nuvem escura, de tempestades e raios, de sorte que o mesmo Moisés dizia: Estou todo trêmulo e apavorado, tão terrível era o que se via. Mas vos aproximastes da montanha de Sião, da cidade do Deus vivo, da Jerusalém celeste, da assembleia e da Igreja dos primogênitos que estão escritos no céu, e de Jesus, que é o mediador da nova aliança, cujo sangue fala e não pede para ser vingado como o de Abel, mas atrai para si a misericórdia de Deus e nos purifica de todas as nossas máculas.” (Hebr. 12. 18 & seq)
Assinala ainda Santo Agostinho a diferença entre as duas leis por estas palavras: Quando as obras da caridade escritas sobre tábuas são impostas aos homens carnais com grandes ameaças de punição, a menos que façam o que lhes é ordenado; é a lei antiga e a lei das obras. Essa lei mata quem a viola, quer exteriormente, quer apenas no coração, aos olhos de Deus que sonda os corações. Mas quando o amor e a caridade mesma é derramada pelo Espírito Santo no coração dos fiéis, como ocorreu no estabelecimento da Igreja, é a lei da fé, a lei da graça, a lei do Espírito Santo que dá a vida, dando o amor: Cum ad prudentiam carnis terrendam scribuntur in tabulis opera charitatis, lex & operum & littera occidens praevaricatorem. Cum autem ipsa charitas diffunditur in corde credentium, lex est fidei & Spiritus vivificans dilectorem. (Aug. De Spir. & lit. cap. 17)
É por isso que o mesmo Santo se admira de que, embora os sacramentos e o sacrifício da lei nova, que Jesus Cristo encheu de tantas graças, fossem tão diferentes dos da antiga, que não passavam de sombras e de figuras; o Espírito Santo, falando pela boca de Jeremias e mais tarde pela de São Paulo, e querendo mostrar precisamente a diferença entre a lei de Moisés e a de Jesus Cristo, tenha indicado o caráter da lei nova dizendo apenas que a imprimiria no espírito, e a escreveria nos corações dos fiéis, não com tinta, como diz São Paulo, mas pelo Espírito do Deus vivo, que é Espírito de amor e de humildade. (Aug. De Spir. & litt. Cap. 25)
Deus, portanto, segundo sua sabedoria, levou-nos à salvação  por diversas etapas. Mostrando ao homem o pecado sem curá-lo, persuadiu o homem de sua fraqueza. Vendo a impotência de sua vontade, o homem implorou a graça do Salvador. A graça curou a vontade. E, curada, a vontade observou a lei, tendo obtido pela fé a força de fazer com alegria o que lhe era prescrito pela lei: Voluntas ostenditur infirma per legem, ut sanet gratia voluntatem, & sanata voluntas impleat legem. Quod operum lex minando imperat, hoc fidei lex credendo impetrat (Aug. De Spir. & lit. cap. 9). É o que diz também o mesmo Santo nestas poucas palavras: Lex data est, ut gratia quareretur; gratia data est, ut lex impleretur. (August. Ibidem c. 9)
Mas para compreender mais claramente a diferença entre essas duas leis, basta considerar as consequências e os efeitos de uma e de outra.
Deus dá a sua lei no monte Sinai. Proíbe sobre todas as coisas a idolatria aos israelitas. E logo em seguida eles O abandonam para adorar um bezerro de ouro. Entregam-se à impiedade. “Queixa-se Deus por um profeta de que eles adoraram no deserto os astros do céu e não lhe ofereceram sacrifícios durante quarenta anos. E de seiscentos mil homens armados que saíram do Egito, apenas dois, Josué e Caleb, entraram na terra prometida”. (Act. 7. 42)
Eis as consequências da lei antiga, e eis o fruto da nova. O Espírito Santo desce do céu sobre os discípulos com os seus dons. Enche-os de fogo e de luz. Eles calcam com os pés os bens da terra. Formam todos juntos um só coração e uma só alma. Adoram como o Deus do céu e autor da vida aquele que viram com seus olhos ser tratado da maneira mais vergonhosa e mais cruel do mundo. Alegram-se com o desprezo e os sofrimentos. Só pensam em viver e morrer por Aquele que por eles morreu.

VIII
Como é útil considerar o estado dos judeus e dos próprios Apóstolos antes que o Espírito Santo fosse dado
O fruto da lei dada aos judeus apareceu divinamente nessa primeira Igreja de Jerusalém: mas Deus não quis restringir-se apenas a ela. Tinha em vista todos os cristãos quando deu ao povo judeu durante tantos séculos a luz da sua verdade, separada da infusão de sua graça e de seu espírito.
Pois não devemos imaginar que só os judeus tenham sido  avisados desse pensamento soberbo de que, contanto que Deus lhes mostrasse sua vontade, não teriam dificuldade em obedecer a Ele. Esse orgulho está tão profundamente arraigado na vontade dos homens, que o Filho de Deus ao vir à terra quis tratar de destruí-lo, não só nas pessoas comuns, mas no coração mesmo dos Apóstolos e, em particular, em São Pedro, o primeiro e o chefe de todos.
Pois a que podemos atribuir essa fraqueza tão surpreendente dos discípulos de Jesus Cristo, tantas vezes observada pelos santos Padres, e a queda de São Pedro, que deveria ter sido o mais forte de todos, senão à ignorância em que estavam desta verdade, como todos os judeus nela estiveram antes deles, de que não basta conhecer a verdade de Deus, por mais perfeito que possa ser o conhecimento que dele tenhamos; mas permaneceremos sempre fracos e frágeis, como foram os Apóstolos, até que tenhamos recebido de Deus um coração novo pela impressão do Espírito Santo, “e que a fraqueza humana seja consumada por essa força de Jesus Cristo prometia aos discípulos, quando lhes dizia: Permanecei em Jerusalém até receberem a virtude que lhes deve vir do alto”: Quoadusque induamini virtute ex alto. (Luc. 24. 46)
Eis a maravilha e ao mesmo tempo o grande segredo da lei nova, que São Pedro não conseguira compreender durante os três anos que passara na escola do Salvador e só veio a aprender pela experiência de sua própria queda.
Quando esse Santo foi chamado ao apostolado de Jesus Cristo, mostrou-se humilde, mais humilde que os outros Apóstolos. Espantou-se com o poder divino manifestado por Jesus Cristo nessa captura milagrosa de tantos peixes. Jogou-se a seus pés e lhe disse esta palavra cheia de profunda humildade: “Senhor, afastai-vos de mim, não passo de um pecador” (Luc. 5. 8. 9).
Quem duvidaria de que a humildade desse Apóstolo, instruído por esse Mestre, testemunha de tantas palavras e ações tão prodigiosamente humildes de um Deus homem com o qual privava, iria crescer sem parar e que atingiria seu cúmulo na morte do Filho de Deus? E, no entanto, aconteceu exatamente o contrário.
Quando Jesus Cristo o chamou, não se julgou digno de segui-lo. E quando o Filho de Deus estava pronto para sofrer e anunciou sua morte a todos os discípulos, naquele mesmo momento em que era de esperar que um homem tão esclarecido como São Pedro testemunhasse ao Salvador uma submissão mais profunda; foi então que ele se entregou a reações presunçosas. Garantiu que mesmo que todos os Apóstolos abandonassem o Filho de Deus, jamais O abandonaria. Que estava pronto para enfrentar o cárcere e a morte. E quando Jesus Cristo lhe predisse que O renegaria três vezes naquela mesma noite, discutiu com Ele, afirmando que preferia morrer a violar a fidelidade que lhe prometera.
Não há dúvida de que tais declarações estavam misturadas com certo amor, como reconhece Santo Agostinho. Mas é estranho que São Pedro não tenha percebido que esse pretexto de um zelo aparente o lançava à presunção, levando-o a contradizer o próprio Filho de Deus e a se preferir a todos os demais.
De onde vem essa ignorância e esse equívoco tão pouco de se esperar da parte de um Apóstolo, e de um chefe dos Apóstolos, senão do fato de que esse Santo ainda não compreendia o suficiente esse mistério oculto na lei e na conduta por Deus adotada durante mil e quinhentos anos em relação ao povo judeu: ainda que tivéssemos um homem tão iluminado como Moisés, que aprendesse de Deus mesmo tudo o que nos dissesse; digo mais, ainda que fosse o próprio Verbo de Deus encarnado num corpo mortal que nos falasse como falava a São Pedro e a todos os Apóstolos e que aprendêssemos a verdade da boca, não mais de um homem de Deus, como Moisés, mas da boca do Homem Deus, como Jesus Cristo, se não reconhecêssemos, ao mesmo tempo, que, além de todos esses auxílios externos, precisaríamos de outro auxílio incomparavelmente mais potente e interior que nos levasse a nos rebaixar profundamente diante de Deus e a Lhe implorar sua misericórdia por preces humildes e fervorosas: aconteceria conosco o que aconteceu aos Apóstolos, que abandonaram o Filho de Deus à sua paixão, e ao mesmo São Pedro, que O negou três vezes, depois de ter declarado tantas vezes estar disposto a morrer por Ele.
Pois se buscarmos a causa de tão grande fraqueza dos Apóstolos, vamos encontrá-la no Evangelho mesmo, onde vemos que o exemplo dessa tão prodigiosa humildade do Filho de Deus não os levava a se humilharem nem a rezar tanto quanto deveriam e não os curava das paixões que secretamente ainda reinavam no fundo de seus corações.
Esta é a razão pela qual São João e São Tiago, os mais favorecidos depois de São Pedro, pediram por sua mãe a Jesus Cristo, envergonhados de fazê-los por si mesmos, que em seu reino Ele pusesse um à sua direita e outro à sua esquerda, como para transferir aos dois o primeiro lugar e para tirá-lo de São Pedro, ao qual parecia estar destinado.
Vemo-los, assim, discutirem para saber quem era o primeiro entre eles, não só durante a vida do Filho de Deus, mas na véspera mesma de sua morte. Depois disso, eles caem, e São Pedro mais perigosamente que nenhum outro, tendo se elevado acima de todos, porque a palavra do Sábio é infalível; “O orgulho precede a queda, e a alma se eleva antes de cair”: Contritionem praecedit supervia, & ante ruinam exaltatur spiritus. (Prov 16. 18)
São estas as grandes verdades que devemos ter diante dos olhos ao lermos os livros santos, para reverenciarmos como devido a sabedoria de Deus na condução do povo judeu.
“Não é difícil reconhecer, diz Santo Agostinho, que aquele que recebe a lei de Deus só para nela buscar os bens terrestres e as vantagens temporais, é filho e herdeiro, como os judeus, do velho Testamento, e não do Novo”: Qui propter terrena suscipit legem Dei, ipse est haeres veteris Testamenti. (Aug. De Gest. Pelag. C. 2) Seria, pois, coisa muito deplorável que, tendo sido esses Santos da antiga lei, como diz Santo Agostinho, cristãos de fato, embora não carregassem o nome, que se pudesse dizer de nós, ao contrário, que somos judeus diante de Deus,  embora carreguemos o nome de discípulos de Jesus Cristo.
Mas devemos temer muito mais imitar os judeus em algo que enganou os próprios Apóstolos, antes que Deus os enchesse da luz e da unção de seu Espírito, que é imaginarmos que, tendo no espírito o conhecimento da verdade, faremos o que Deus nos ordena: sem considerarmos que a nossa justiça não vem de nós mesmos, como creem os judeus, “mas vem de Deus, como diz São Paulo, e dessa fé viva e ativa pelo amor que o Espírito que sopra onde quer derrama em nossos corações.” (Galat. 5. 6)
Assim nos tornaremos verdadeiramente cristãos, da mesma maneira como os Apóstolos se tornaram verdadeiramente Apóstolos; ou seja, pedindo a Deus que, segundo a palavra do Profeta, imprima Ele Mesmo sua lei em nosso espírito e a grave em nosso coração, enchendo-nos desse Espírito de graça que se mostrou tão divinamente na conversão de São Pedro, depois da qual ele se tornou um prodígio de santidade e humildade.
Foi o que levou esse chefe da Igreja santa a dizer, ainda mais pelas ações do que pelas palavras: “Esforçai-vos todos juntos a vos inspirar a humildade uns aos outros, porque Deus resiste aos soberbos e dá sua graça aos humildes.” (1 Pet. 5.5)
E Santo Agostinho viu um sentido tão profundo e tão amplo nessa palavra do grande Apóstolo, que a considera a alma de toda a Escritura e não teme dizer “que quase não há nenhuma página em todos esses santos livros que não assinale claramente aos que têm luz bastante para compreendê-lo bem, que Deus resiste aos soberbos e dá sua graça aos humildes”: Nulla est fere pagina sanctorum librorum in qua non sonet, Deus superbis resistit, humilibus autem dat gratiam (August. De doct. Christ. L. 3. C. 33.).



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