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A Fraude de Medjugorje - E. Michael Jones



Centenas de sérvios marcham para o massacre em
Surmanci, nos arredores de Medjugorje

Este vosso servo tem a honra de apresentar neste blog a tradução brasileira da primeira parte deste inédito estudo sobre a fraude de Medjugorje, escrito pelo brilhante historiador e filósofo católico americano, Dr. E. Michael Jones, diretor da revista Culture Wars e autor infelizmente ainda inédito no BrasilDr. Jones vem há décadas dedicando-se ao estudo e à denúncia das falsas aparições marianas de Medjugorje. Em Os Fantasmas de Surmanci. o Dr. Jones articula um paralelo entre as falsas aparições e uma série de massacres ocorridos nas proximidades de Medjugorje no início da Segunda Guerra Mundial, quando centenas de sérvios foram massacrados pelo governo croata pró-nazista, com o auxílio dos padres franciscanos da região, os mesmos que patrocinam as pretensas aparições.

Aqueles que leem inglês e pretendem aprofundar-se no assunto, podem adquirir aqui o livro do Dr. Jones sobre Medjugorije, The Medjugorje Deception: Queen of Peace, Ethnic Cleansing, Ruined Lives (A  Fraude de Medjugorje: Rainha da Paz, Limpeza Étnica, Vidas Arruinadas), de que o texto aqui traduzido é o começo. Certamente não se arrependerão. Não resta dúvida de que o material reunido no livro é suficiente para destruir para sempre a credibilidade das aparições de Medjugorije.

Outros livros do Dr. E. Michael Jones podem ser adquiridos aqui.

O texto original em inglês está aqui. A tradução é de Yours Truly.

Não perca de jeito nenyhum o artigo de E. Michael Jones, inédito na internet, sobre os grandes problemas da Igreja de hoje: Lefebvristas, escândalos sexuais, Vaticano II.


Havia outra mulher que morava numa casa, e algo vivia constantemente batendo à sua janela. Mais tarde, esta mesmíssima mulher comprou um apartamento no sexto andar e, de novo, algo continuou a bater em sua janela. Perguntei à Gospa o que seria. Ela me respondeu que as almas do Purgatório estavam fazendo isso porque ela se havia esquecido de rezar por elas e estavam pedindo suas orações.
Mirjana Dragicevic, vidente

Ao cair da tarde da quarta-feira, 25 de junho de 1997, um indefinível carro europeu alugado saiu de um estreita estrada pavimentada na extremidade oriental do planalto de Brontjo, não longe do rio Neredva, na Bósnia-Herzegovina, e entrou numa estrada ainda mais estreita e não pavimentada, que não passava de duas trilhas de terra vermelha, pontuadas periodicamente por pedras calcárias do tamanho de bolas de futebol. O carro seguia devagar, talvez porque a trilha fosse muito estreita. Os arbustos de abrolhos que invadiam a trilha, arranhando às vezes a capota do carro como unhas de criança malcriada sobre o quadro-negro, pareciam crescer até dois metros e então parar, como se aquilo fosse tudo o que o alimento e a água disponíveis lhe permitissem.
O carro seguia devagar, porém, por outra razão; ambos os homens que estavam dentro do carro procuravam algo. Ambos procuravam o sítio de uma atrocidade cometida contra civis nos primeiros anos da Segunda Guerra Mundial. Procuravam algo enterrado no chão, algo que fora enterrado havia mais de 50 anos, e depois exumado e celebrado, depois desconsagrado e abandonado.Mas as tumbas, fosse qual fosse a sua importância, sobretudo à luz das atrocidades cometidas ainda mais recentemente, também tinham um valor simbólico. A cova de Surmanci simbolizava a mão morta do passado silenciosamente posta sobre o leme do presente, guiando uma série de acontecimentos que parecem arbitrários quando encarados na ignorância do passado, mas só à luz dessa ignorância. As vidas dos dois homens transformaram-se irrevogavelmente pelos acontecimentos ocorridos do outro lado da colina que agora assomava a oeste deles. Ambos haviam estado aqui antes. Ambos procuravam algo que lhes escapara da primeira vez.
Aquele que dirigia o carro alugado era um rico empresário da Califórnia, com seus sessenta anos. De rosto bronzeado e cabelos de um cinza prateado e bem penteados, estava vestido como se tivesse acabado de sair de um campo de golfe. Sentado ao seu lado, no banco do passageiro, estava um homem mais jovem, com cerca de vinte anos menos do que ele, cabelos mais escuros e mais longos, o autor desta narrativa e jornalista de profissão que nove anos antes escrevera um livro acerca daquela região.
Eu entrara em contato com Phil Kronzer, o homem que dirigia o carro, em abril de 1997, quando ele viu o meu nome numa lista de palestrantes numa Conferência anti-Call to Action a ser realizada em Lincoln, Nebraska, em maio. Call to Action era um grupo católico, formado principalmente por eclesiásticos e ex-eclesiásticos liberais, fundado em 1976 com o objetivo de atualizar ou de subverter — depende do ponto de vista— a Igreja Católica nos Estados Unidos. Uma das pessoas que adotou esta última opinião foi o bispo Fabian Bruskewitz, ordinário de Lincoln, que fez muito barulho na imprensa nacional americana na primavera de 1995, ao ameaçar excomungar todos os que pertencessem a Call to Action na sua diocese. Phil Kronzer, que me apanhara no aeroporto de Lincoln, estava convencido de que Call to Action destruíra o seu casamento e estava em vias de destruir seu império comercial; por isso me procurou, como especialista, para ajudá-lo.
Até onde ia o meu campo de especialização, porém, era algo que não ficou imediatamente claro. Quanto mais ele falava, mais ficava evidente que ele estava descascando a árvore errada. A origem dos problemas conjugais de Phil não era o Call to Action ou o feminismo radical (embora ele fizesse uma defesa plausível da ligação entre estas coisas na Califórnia), mas sim Medjugorje, o lugarejo de que havíamos acabado de sair, local, desde junho de 1981, de supostas aparições da Virgem Maria e agora centro de uma próspera indústria de peregrinações, que atravessara tempos difíceis, mas agora em franca recuperação porque a guerra civil provocada pela dissolução da Iugoslávia e da sua indústria turística durante os quatro anos da guerra, de 1991 a 1995, tinha chegado ao fim. Phil e sua esposa Ardie haviam feito sua primeira peregrinação a Medjugorje no verão de 1987, e, em decorrência da viagem, se envolveram com os grupos de oração de Medjugorje na Califórnia e, em seguida, com o florescente e cada vez mais lucrativo ramo das conferências marianas, inaugurado em 1991, quando a guerra civil pôs um ponto final no turismo e deixou os entusiastas marianos dos Estados Unidos sem terem para onde ir.
No começo de 1993, segundo o relato que Phil me enviou, Ardie Kronzer conheceu outra entusiasta de Medjugorje, chamada Marcia Smith, uma misteriosa frequentadora dos círculos carismáticos de San Francisco que chegara a ser leitora na missa papal de Candlestick Park, em 1986. Por meio de Marcia Smith, Ardie foi introduzida no estreito círculo de farsantes e delinquentes que dominava a indústria de Medjugorje nos Estados Unidos no início dos anos 1990. Através de Smith, Ardie conheceu Theresa Lopez, falsa vidente de Denver, e o empresário dela na época, o bispo Paolo Hnilica, de Roma e da Eslováquia, que fora condenado em Roma por tráfico de bens roubados. A polícia italiana gravara uma conversa do bom bispo com Flavio Carboni, um dos chefes do submundo, cuja fama se tornou internacional quando foi preso por ligação com o sumiço e morte de Roberto Calvi, então presidente do Banco Ambrosiano, cuja falência, no começo da década de 1980, foi o maior escândalo financeiro a atingir Roma e o Vaticano após a Segunda Guerra Mundial. O bispo Hnilica estava interessado em comprar a desaparecida pasta de documentos de Roberto Calvi, supostamente cheia de números de contas na Suíça, mais ou menos na mesma época em que Calvi foi encontrado enforcado na Blackfriar Bridge, em Londres, no dia 18 de junho de 1982.
Aos poucos, o grupo Smith-Lopez-Hnilica foi tomando consciência dos recursos financeiros da família Kronzer e atraiu Ardie para um esquema que teve início com uma série de retiros espirituais, durante os quais lhe disseram que ela e o seu dinheiro haviam de desempenhar um papel crucial na conversão da Rússia, e que chegou ao fim quando Ardie saiu de casa no fim de junho de 1994, depois de participar de uma conferência sobre Medjugorje na Universidade de Notre Dame. Naquela conferência, Ardie e Marcia se ajoelharam ante o bispo Hnilica e, num ritual esquisito até mesmo para os padrões das conferências sobre Medjugorje, ofereceram a ele os 12 grupos Mir da área da San Francisco, os quais ele deveria presidir, como um modo de dar unidade ao movimento de Medjugorje, cuja principal característica no início da década de 90 passara a ser a luta pelo dinheiro de peregrinos fáceis de enganar, que não tinham para onde ir depois da irrupção da guerra civil na Iugoslávia.
O que o Dr. Jones, o passageiro, tinha com isso era óbvio a todos os que estivessem familiarizados com aqueles círculos. Em setembro e outubro de 1988, eu havia publicado uma série de artigos sobre Medjugorje, mais tarde reunidos em livro sob o título Medjugorje: the Untold Story (Medjugorje, a história não contada)que criticava as “aparições” como uma fraude e oferecia ao mundo, acerca daquele fenômeno, uma das poucas fontes de informação não comprometida em servir os interesses financeiros de empresas de turismo, promotores de conferências ou franciscanos rebeldes da Herzegovina. As revelações provocaram uma queda na circulação da revista Fidelity, onde foram publicados pela primeira vez, e no prestígio do autor junto as círculos marianos conservadores, nos anos seguintes. Um leitor sagaz escreveu anos mais tarde a Jones e, pelos menos parcialmente em resposta à sua posição em relação a Medjugorje, descreveu-o como um “homem de uma só perna num campeonato de chute ao traseiro”, descrição que o mesmo Jones considerou ter certa justificação.
Depois do encontro inicial em Lincoln, Nebraska, Jones encontrou-se com Kronzer quando este último viajava para lá e para cá pelo país, em busca de pistas. Uma dessas viagens levou-os a Reno, Nevada, onde ambos conheceram o marido de uma vidente, ou melhor, o ex-marido de uma vidente. Jeff Lopez conheceu Tonie Alcorn em abril de 1987, num caso que tiveram quando ambos trabalhavam na Wendy’s, em Denver, Colorado. Em março de 91, Tonie, então conhecida como Theresa Lopez, foi a Medjugorje, pouco depois de declarar nolo contendere ante uma acusação de passar cheques sem fundo. Em novembro de 1991, ela começou a ter suas próprias aparições e a arrastar milhares de pessoas para o Santuário Cabrini, perto de Denver, Colorado. Dois anos depois, Theresa largou o marido para tornar-se uma vidente em tempo integral. A última vez em que estiveram juntos, Theresa disse a Jeff: “se eu entrar nessa, vou poder ser alguém.”
Phil Kronzer perdera a mulher por causa de Medjugorje mais ou mesmo na mesma época em que Jeff Lopez perdera a sua, ou seja, no inverno de 93-94. As duas tragédias começaram com Medjugorje; mas não estava claro onde é que aquilo ia parar. Quando Jones voltou ao seu quarto de hotel em Reno, recebeu um telefonema de um homem na Inglaterra avisando-o de que, se voltasse à Bósnia, os franciscanos o matariam.
Os defensores da “aparição” gostam de falar dos frutos dela quando se veem incomodados pelo comportamento dos videntes e de seus manipuladores franciscanos. Nos dez anos que se passaram desde que começou a investigar Medjugorje, Jones estabelecera a sua própria lista de tais frutos. A ameaça de morte que acabara de receber em Reno era só o começo de uma longa lista de coisas ruins que aconteceram no mundo desde que a Rainha da Paz chegou à Iugoslávia em 1981.
Além das famílias destruídas, houve os votos religiosos quebrados, as freiras grávidas, gente pobre que perdeu o que tinha vítima de trapaça, as divisões na Igreja, o cisma de facto, que levou muito recentemente a crismas ilícitas em Capljina, o sequestro do bispo local, a limpeza étnica e, mais tragicamente, o pior confronto na Europa desde a Segunda Guerra Mundial. Em suma, foi uma dose impressionante de mal, todo ele vindo de um grupo de pessoas cuja intenção declarada era orar e seguir as instruções de Nossa Senhora. Foi o bispo Pavao Zanic, na época ordinário de Mostar, que escreveu a Rene Laurentin, então o maior promotor de Medjogorje, para preveni-lo de que “podemos esperar uma guerra de religião por aqui.” Zanic, que previu a guerra em meados da década de 80, foi mais presciente do que Nossa Senhora de Medjugorje, que dizia na época ser a Rainha da Paz e ter vindo trazer a paz à Iugoslávia e ao mundo. Afirmavam os seus divulgadores que uma das marcas de autenticidade das mensagens era o fato de os grupos étnicos estarem vivendo em paz na Iugoslávia.
Veio, então, a sangrenta dissolução da Iugoslávia, em meio a uma guerra feroz, o que talvez seja outra razão pela qual os dois homens perscrutavam com tanta atenção a trilha vermelho-ferrugem e branca à sua frente, enquanto o carro avançava lentamente através dos arbustos coberto de espinhos. Um ano antes, três jornalistas haviam morrido quando seu carro passou por cima de uma mina, nos arredores de Mostar. Enquanto o carro abria devagar seu caminho pela trilha, Jones recordava o incidente e matutava com seus botões onde começariam e acabarim os arredores de Mostar.
A certa altura, apareceu uma fazenda, com a sede, as outras dependências e muros, tudo construído com o material mais à mão, a pedra calcária que se espalhava pela paisagem. Enquanto passavam, uma vovozinha desdentada, vestindo a blusa e o casaco pretos, tradicionais entre os camponeses da região, ergueu a mão, em saudação e ou em sinal de alerta.
O alvo da busca era uma formação geológica particular àquela região, conhecida como “jama,” o que, numa tradução aproximada, quer dizer cova ou desfiladeiro em croata.Quando as chuvas chegam ao planalto de Brontjo, como acontece com não muita frequência, elas se infiltram na terra porosa até o carso de rocha calcária subjacente, onde cavam cavernas que levam diretamente ao rio Neredva, o qual ganha a sua luminosa tonalidade azul esverdeada durante a passagem pelos depósitos de pedra calcária.
Durante a primavera e o começo do verão de 1941, Ustasha, um grupo fascista batizado com a palavra croata que significa “insurgente”, criou um breve mas feroz estado croata independente, aliando-se aos nazistas. O Ustashe local realizou sua própria pesquisa geológica informal na área entre Medjugorje e o rio Neredva, assinalando os maiores jamas, os mais adequados a seus planos. Em junho de 1941, cerca de dois meses após a criação do NDH, no dia 10 de abril, funcionários armados do Ustasha invadiram a aldeia predominantemente sérvia de Prebilovci, na margem oriental do rio Neredva, assim como outros enclaves sérvios, e anunciaram aos habitantes que todos seriam deportados para Belgrado. Disseram aos sérvios que eles retornariam à pátria sérvia de origem, perspectiva esta que amenizou a cólera e a ansiedade deles. Assim, os sérvios vestiram suas melhores roupas e marcharam até a estação ferroviária, para se tornarem mais um grupo deslocado numa Europa que parecia repleta de deslocamentos e de pessoas que partiam em trens para nunca mais voltarem. Os sérvios de Prebilovci foram reunidos com outros sérvios da parte ocidental da Herzegovina e, por fim, seis vagões cheios deles foram enviados num trem que supostamente os levaria de volta a Belgrado. A viagem foi muito mais curta do que o esperado, pelo menos para os passageiros sérvios, que receberam ordens de descer dos vagões numa cidade chamada Surmanci, na margem ocidental do Neredva, e marcharam colinas acima para nunca mais voltarem.
Cerca de três meses depois, o antecessor do bispo Zanic, Aloysije Misic, ordinário de Mostar, a enfeitada cidade otomana algumas estações de trem depois de Surmanci, escreveu ao Cardeal Stepinac, primaz da então futura Iugoslávia, homem que acabaria preso nas mãos da justiça revolucionária de Tito, e passou a ele os inquietantes pomenores das atrocidades perpetradas contra os sérvios em sua diocese. “Os homens são capturados como animais,” escreveu Misic, “são mortos, assassinados; homens vivos são jogados do alto de penhascos... De Mostar e de Capljina, um trem levou seis vagões cheios de mães, moças e crianças...para Surmanci....Fizeram-nas subir os morros e... foram jogadas vivas do alto dos precipícios... Em...Mostar mesmo, foram encontradas centenas delas, levadas em vagões para fora da cidade e então mortas a tiros, como animais.”
Por fim, cerca de 600 sérvios, inclusive sacerdotes, mulheres e crianças, foram lançados à cova que fica acima de Surmanci e então, depois de jogarem sobre eles granadas de mão, os assassinos do Ustashe os enterraram, provavelmente ainda vivos. Escreve Parris: “Em Prebilovci e Surmanci, na Herzegovina, 559 sérvios, todos eles gente idosa, mulheres e crianças, foram levados para as bordas da profunda depressão chamada Golubinka, massacrados e em seguida jogados na depressão. E para dar acabamento ao trabalho, arremessaram granadas sobre os corpos moribundos.” Parris, em seguida, dá uma lista com os nomes dos assassinos, uma lista que inclui nomes como Ostojic e Ivankovic, bastante comuns na região — nomes, na verdade, de gente que ainda vive em Medjugorje. Em seu livro sobre a dissolução da Iugoslávia, Brian Hall pergunta-se se os Ostojic que conheceu em Medjugorje seriam os memos Ostojic acusados das atrocidades de Surmanci.
Logo compreendemos que a história da Iugoslávia não é tema para quem esteja interessado só numa leitura rápida. Quanto mais aprofundamos o assunto, mais temos a impressão de que não há tal coisa como uma história imparcial da região, certamente não durante o período em torno da Segunda Guerra Mundial. Parris, que não é exceção à regra, também afirma que dois sacerdotes participaram do massacre de Surmanci, e um deles também tem um nome familiar. Marko Zovko, ao que parece, era um sacerdote, mas não um franciscano como o mais famoso Jozo Zovko, o homem que, sob muitos aspectos, criou as aparições de Medjugorje. Marko Zovko foi secretário do bispo Cule, sucessor de Misic. Eu soube disso pelo atual bispo de Mostar, Ratko Peric, que rastreia a citação de Parris até o livro de Viktor Novak, Crimen Magnum, escrito para acompanhar os julgamentos teatrais de Tito, em 1946. O objetivo do livro e dos julgamentos foi o de envolver a Igreja nos crimes do Ustashe. Por isso, o livro de Novak tem de ser tratado com cautela. Este é o veredicto não só do atual bispo de Mostar, mas também de estudiosos sérvios. Miro Todorovich, editor de Measure, disse que nenhum dos sérvios que conhecia estava disposto a pôr a mão no fogo pelo livro de Novak. Srdja Trifković, também sérvio, que hoje leciona no Rose Hill College, um colégio ortodoxo na Carolina do Sul, vê Magnum Crimen como "um ataque ao papel da Igreja Católica na Croácia, que para Novak era o espírito que se movia por trás das atrocidades do Ustasa . "Quando o nacionalismo sérvio tornou a despertar, em 1988, uma reedição de Magnum Crimen virou um grande best-seller em Belgrado, apesar de ser um livro caro. Bogdan Krizman chamou-o, no entanto, de "acerto de contas de um importante maçom com os clericais". Trifković tem coisas igualmente pouco lisonjeiras a dizer sobre Edmund Parris, alegando que o seu livro Genocide in Satellite Croatia teve como ghost-writer Branko Miljus, um publicista sérvio emigrado, e rejeita Parris como autor de "diversos panfletos de crítica teológica ao catolicismo."

A situação religiosa é complicada pelo fato de estar a Igreja Católica na Herzegovina dividida em duas facções, uma fiel ao bispo de Mostar e outra fiel aos franciscanos, que entraram em aberta rebelião contra o ordinário local e contra o geral dos franciscanos em Roma já em 1976, quando se recusaram a entregar à jurisdição do bispo de Mostar várias paróquias que administravam. Como seus antecessores Misic e Zanic, o bispo Peric teve de lidar com os ferozmente nacionalistas franciscanos da Herzegovina, a força motriz por trás das aparições de Medjugorje e colaboradores nas atrocidades do Ustashe durante a Segunda Guerra Mundial. Em janeiro de 1997, cerca de três meses antes que eu me encontrasse com Peric na cúria, em Mostar, Peric concedeu uma entrevista a Yves Chiron na revista francesa Présent, na qual admitiu que Medjugorje foi afligida por conflitos eclesiais, como, por exemplo, franciscanos que ministram em Medjugorje sem missão canônica, comunidades religiosas estabelecidas sem sua permissão, edifícios construídos sem aprovação eclesiástica e o fato de as paróquias continuaram a organizar peregrinações a um lugar onde, segundo havia sido determinado, não acontecera nenhuma aparição. "Medjugorje", conclui Peric, "não promove a paz e a unidade, mas cria confusão e divisão, e não apenas em sua própria diocese." (Présent, 25 de janeiro de 1997).

Peric descobriu em primeira mão quão belicosos a "Rainha da Paz" e seus defensores podem ser. Em abril de 1995, o bispo foi atacado em sua cúria por uma multidão, que lhe arrancou a cruz peitoral. Foi, então, espancado, obrigado a entrar num carro que o aguardava e levado a uma capela ilicitamente administrada pelos franciscanos de Medjugorje e mantido refém por 10 horas. O bispo só foi solto quando o prefeito de Mostar apareceu por lá com tropas da ONU.


Os ataques orquestrados pelos franciscanos contra o bispo de Mostar são um indício de que certas coisas nunca mudam nesta história. Um passeio por Medjugorje mostra exatamente o oposto. Talvez a melhor maneira de resolver o problema seja dizer que quanto mais as coisas mudam, mais permanecem as mesmas. A Igreja Católica acabou condenando Medjugorje em 1991, mas a Igreja de São Tiago continuou a atrair peregrinos. Mesmo a guerra não interrompeu completamente aquela peregrinação. A declaração condenatória emitida pela Conferência Episcopal da Iugoslávia em Zadar, em abril de 1991, estava igualmente repleta de ambiguidades. Afirmava nada haver de sobrenatural nas ocorrências de Medjugorje, mas em seguida acrescentava que os peregrinos deviam ser bem tratados, o que levou os franciscanos a alegarem que Medjugorje teria sido oficialmente reconhecida como um santuário de peregrinação, sem especificarem exatamente por que ir até lá, já que oficialmente nada de sobrenatural havia acontecido. Peregrinos de quê? - somos tentados a perguntar. Roma, por fim, entrou em cena para declarar que não, Medjugorje não tinha sido reconhecida como santuário.

Podem-se encontrar indicações do que era Medjugorje na aurora de sua fase gloriosa  no livro de Mary Craig, Spark from Heaven (Centelha do Céu), baseado na viagem de Craig a Medjugorje em setembro de 1986, como integrante da equipe de produção do filme Everyman, que acabou sendo exibido pela BBC e se disseminou muito mais ainda sob forma de vídeo."Nunca", diz-nos Craig em termos inequívocos, "as crianças aceitariam dinheiro de simpatizantes." A citação cruza a minha mente depois de quase ser atropelado por Ivan Dragicevic, um vidente que sai com pressa do estacionamento da igreja em seu último carro, uma BMW cinza. Os franciscanos ainda podem odiar o bispo local, mas a vida dos videntes certamente mudou radicalmente desde meados dos anos 80, quando Ivan costumava subir numa pilha de pedras para falar aos peregrinos, não muito longe de casa, no outro extremo do Bijakovici, a aldeia onde todas as crianças nasceram e local da primeira aparição. Ivan está muito mais gordo do que em 1986, o que indica que ou ele não está seguindo três dias por semana o jejum de pão e água por ele prescrito ao resto do mundo (supostamente a pedido da Mãe de Deus) ou necessita urgentemente de diuréticos para aliviar a retenção de água.

Além de ser o feliz proprietário de uma BMW, Ivan também possui uma mansão de estilo alemão, em frente de onde morava e praticamente no mesmo lugar onde costumava falar aos crédulos peregrinos, dizendo-lhes que a Mãe de Deus queria que passassem duas horas rezando o terço. Além de tudo isso, Ivan também agora está casado com Loreen Murphy, ex-Miss Massachusetts.  Tudo bem considerado, este menino camponês vindo das camadas mais pobres de um país pobre tem-se dado muito bem. Sua história de sucesso poderia ser considerada inspiradora, não fosse o fato de o seu estilo de vida ostentatório chocar-se tão escandalosamente com o ascetismo associado aos videntes, ou que pelo menos se costumava associar a eles. A Irmã Lúcia, a vidente de Fátima, tornou-se uma freira enclausurada, desapareceu da vista do mundo e apenas publicou um livro de memórias de seu encontro com a Virgem, a pedido do superior religioso. Seus dois companheiros videntes morreram horríveis e dolorosas mortes quando ainda crianças.

Na tarde do dia 25 de junho de 1997, Ivan passa o tempo em meio às multidões que se reúnem diante da igreja de São Tiago. Seu cabelo hoje é mais liso, a barriga paira sobre o cós do terno caro, mas ainda tem os mesmos dentes postiços, ainda exibe a mesmo indiferença para com quem não conhece e a mesma subserviência para com quem ele julga poder ser-lhe útil.

A igreja de São Tiago também passou por uma transformação radical. O que fora uma lamacenta área circundante, agora é um espaço pavimentado e decorado com estátuas. O que foram pastagens e terras agrícolas por trás dela, tornou-se agora um estacionamento de cascalho, cujo ponto focal é um hediondo pavilhão em forma de tenda atrás da igreja, mais alto do que a própria igreja, assim como as aparições e o que elas representam superaram em altura a paróquia católica que os gerou. Como as aparições, a construção sem permissão do pavilhão provocou graves problemas com o bispo.

Quando vejo Ivan explorar a multidão, lembro-me do que se costumava dizer dos videntes e das suas vidas. Escrevia Mary Craig em 1986 que "seria absurdo dizer que eles contam mentiras há mais de cinco anos, enganando a todos. Eles são pessoas simples, muito inocentes, muito pouco sofisticadas para tanto. De qualquer forma, por que fariam isso? Por dinheiro? Não, eles se magoam quando lhes oferecem dinheiro. Fama? Não, eles evitam a publicidade. Uma vida melhor? Ah, na verdade teriam uma vida desgraçada se tivessem de viver uma mentira. Têm sido assediados, importunados em suas próprias casas há cinco anos, e não os deixam em paz. "
Não os deixam em paz, ela disse? Com o tempo, as palavras tornam-se cada vez mais irônicas. Medjugorje, na verdade, não trouxe a paz; foi um interlúdio entre duas guerras. Na realidade, foi um incidente que nasceu de uma guerra e levou a outra. Esta é uma das coisas que se tornam evidentes na segunda vez em que Phil e eu avançamos pela trilha empoeirada que leva ao buraco no chão onde 600 sérvios foram assassinados quase quarenta anos antes do dia em que as aparições começaram. Dez anos atrás, ouvi rumores de uma atrocidade, mas na época tudo parecia fazer parte de um passado remoto. Uma das lições que aprendemos nesta parte do mundo é que o passado nunca é remoto. Está sempre à flor da pele, pronto para erguer-se como um cadáver de uma sepultura rasa, após uma chuva forte.
Os cadáveres de Surmanci, de fato, emergiram do solo em 1989, quando uma delegação de sérvios chegou ao jama, abriu um rombo na tampa de concreto que os comunistas tinham preso sobre ele, exumou os restos mortais e os levou pelo rio em procissão cerimonial, em caixões cobertos com bandeiras sérvias, para tornar a enterrá-los em Prebilovci, de onde tinham partido. A exumação ocorreu em junho, assim como quase tudo o que ocorre de importante nos Balcãs. A política não me pareceu importante em 1988, quando por aqui passei. A política nunca pareceu importante para Phil, em nenhuma das suas várias viagens. Mas, então, a guerra estourou e ele perdeu a esposa, e de repente nós dois tínhamos a sensação de havermos deixado escapar alguma coisa na primeira vez, algo que uma busca cuidadosa podia agora revelar.

Ligar o jama a Surmanci, a vila que lhe dá nome, é, de certa forma, enganoso. Surmanci é um lugarejo na estrada de ferro que segue o rio Neredva, de Metkovic a Mostar. Surmanci fica na várzea do rio, mas cercada por falésias que marcam o início do planalto de Brontjo. Destes penhascos foram os sérvios jogados para a morte, e a aldeia de Medjugorje se situa no planalto que termina abruptamente nas falésias à margem do Neredva. A viagem a Medjugorje é enganosa, sob este aspecto, mas também porque a distância percorrida não é em linha reta. A estrada que vai do local das aparições de Bijakovici ao jama de Surmanci na verdade contorna o monte Crnica, agora conhecido como morro da aparição. A viagem acontece de fato em torno da base do Crnica. Parte das cercanias da aparição de Crnica e acaba no lado das atrocidades do mesmo morro, ao chegar ao jama, o que leva a uma reflexão: seriam as atrocidades e a aparição apenas duas faces da mesma moeda?
O que impressiona ainda mais do que a proximidade espacial entre as atrocidades e a aparição misteriosa é a coincidência de datas. Quase tudo o que aconte de importante na história dos Balcãs parece ocorrer em junho. O momento decisivo da história da Sérvia, a batalha de Kosovo Pólo, teve lugar em 28 de junho de 1389. O assassínio do arquiduque Ferdinando, em Sarajevo, o evento que levou à Primeira Guerra Mundial, ocorreu em 28 de junho de 1914, como uma espécie de estranha comemoração simbólica da batalha de Kosovo Pólo. Os croatas declararam sua independência da Iugoslávia em 25 de junho de 1991, o que correspondeu ao dia do décimo aniversário das aparições de Medjugorje, que por sua vez ocorreram no quadragésimo aniversário do massacre de Surmanci.

Mary Craig também ficou impressionada com a coincidência de datas:
Roger e eu tínhamos visto no mosteiro ortodoxo de Zitomislic uma placa que congelou o nosso sangue. Ela comemora o dia 21 de junho de 1941, quarenta anos atrás, quando sete dos monges, do Padre Superior até o mais jovem noviço, foram enterrados vivos pela Ustase no poço de Surmanci. Três dias depois que a placa foi inaugurada, começaram as aparições, a poucas milhas dali, em Medjugorje. Poderia haver uma ligação entre a placa e aquela mulher que chora? Teria sido por isso que Medjugorje foi escolhida? Teriam aquelas seis crianças absorvido as esperanças, os desejos, os medos e as culpas de um povo sofrido?”

A ligação entre Surmanci e Medjugorje, tanto do ponto de vista do tempo quanto do lugar, parece óbvia demais para ser ignorada, embora Craig continue a fazer exatamente isso em seu livro Spark of Heaven, o qual acaba sendo mais um exemplo de literatura promocional, um pouco ambígua, mais bem escrito, talvez, mas afinal apenas outra peça de propaganda em favor das companhias aéreas, das agências de viagens, dos franciscanos e dos “videntes”.

Desde que a Igreja Católica decidiu que nada de sobrenatural estava acontecendo em Medjugorje, tornou-se mais problemática a questão de o que estariam vendo os “videntes". O bispo Zanic, que tinha a vantagem de falar com os videntes diretamente em sua língua materna, sentiu que as aparições de Medjugorje foram uma brincadeira cujo controle se perdeu. As duas meninas que começaram a coisa toda lhe disseram que tinham subido o morro para cuidar das ovelhas. Quando Zanic lembrou a uma delas, Ivanka Ivankovic, que era pecado mentir, ela de imediato se retratou e disse que haviam subido para fumar um cigarro. Que tipo de cigarro estavam fumando na época também é fonte de discórdia. Mirjana Dragicevic, a outra vidente original, era conhecida como uma "Pankerica" de cidade grande, o termo local  para punk, e sua reputação no lugarejo estava associada à grande cidade, Sarajevo, e às drogas. As acusações nunca foram esclarecidas, de uma ou de outra forma. As crianças nunca foram testados para ver se haviam tomado drogas e, por fim, a acusação de uso de tóxicos foi desclassificada como uma desajeitada forma de propaganda comunista, da espécie que esse tipo de gente gostava de armar contra os santos.

Mas os “videntes” estão longe de serem declarados santos pela mesma Igreja que os declarou mentirosos. Assim, as questões permanecem. O que exatamente eles viram naquele dia de junho de 1981? Ou será que eles viram mesmo alguma coisa?

No final de outubro de 1989, Ivan Dragicevic, o “vidente” de Medjugorje, estava muito longe de casa. Estava em San Francisco, na realidade, e, tendo sobrevivido ao maior terremoto da história recente no dia de sua chegada, se encontrava no quintal de um emigrante croata chamado Joe Tolaich, fumando um cigarro. Joe Tolaich fazia parte da vida da diáspora croata na área de San Francisco. Foi criado em Metkovic, a poucos quilômetros rio Neredva abaixo vindo de Medjugorje e foi, de fato, uma das primeiras pessoas a chegarem a Medjugorje como peregrino, no verão de 1981. A atitude de Joe para com a Virgem tinha um pendor marcadamente prático. Ante a perspectiva de ter um vidente com contato diário com a Mãe de Deus em sua própria casa, Joe perguntou a Ivan se a Virgem Maria poderia divulgar, numa das visitas, seus seis números favoritos, para que Joe pudesse apostar na loteria. Talvez Joe se tenha mostrado céptico por causa do estilo de vida de Ivan. Seja qual for o motivo, nunca teve resposta para sua pergunta, o que o levou a perguntar a Ivan naquela noite em que fumava um cigarro em seu quintal, se Ivan realmente via a Mãe de Deus.A resposta de Ivan foi menos do que reconfortante para os piedosos. "Joe", respondeu Ivan depois de tragar o cigarro, "eu estou vendo alguma coisa."

Evidências de outras fontes próximas aos videntes confirmam o depoimento de Ivan. Mirjana, certa vez, descreveu uma visão em que a Virgem Maria logo era substituída por uma segunda virgem, que lhe disse com uma voz diferente, "Como você vê, até o diabo pode vir vestido como eu". Num segundo encontro, Mirjana viu um homem belo e jovem na porta da sala, que lhe disse que mesmo o diabo pode aparecer como uma pessoa atraente. A possibilidade de os videntes estarem vendo uma entidade espiritual que não fosse a Mãe de Deus foi mencionada explicitamente, na véspera da nossa viagem a Surmanci, por um sacerdote que tem estado ligado às aparições há mais de dez anos e que durante esse período se transformou de um ávido crente e promotor a um cético decidido. Depois de anos de confissões e depois de montar uma biblioteca com material New Age vindo dos penitentes, ficou claro para ele que Medjugorje era uma escala importante no circuito New Age. Pouco tempo depois, a Virgem começou até mesmo a falar como um guru New Age. A primeira mensagem a sair dos lábios de “Nossa Senhora de Medjugorje” após a condenação dos bispos foi a de que seus devotos deveriam fazer "coisas negativas virarem positivas ", um estilo de frase que impressionou o padre na época como totalmente antibíblico, sentimento este que recebeu dramática confirmação quando descobriu exatamente a mesma frase nos lábios do guru New Age Sanaya Roman, "Canal de Orin". “Or ", lembrou o padre, é a palavra hebraica para luz. A palavra latina é lux, cujo genitivo é lucis, a raiz do nome do portador da luz, ou seja, Lúcifer. O trecho sobre a transformação de coisas negativas em positivas, que Marija Pavlovic cita textualmente como a primeira mensagem da Gospa após a declaração dos bispos de Abril de 1991, é o título do capítulo V do livro de Sanaya Roman, Vivendo com alegria: Chaves para a conquista do poder pessoal e da transformação espiritual (Tiburon, CA: HJ Kramer, 1986).

Em algum lugar entre a hipótese de que Medjugorje foi uma brincadeira de que se perdeu o controle e a teoria de que as crianças estão falando com demônios, começo a entrever uma terceira possibilidade, com base no seu contexto geográfico e histórico e em sua relação com os massacres de Surmanci, ocorridos bem perto, ali do outro lado da colina da aparição. Os “videntes" viram um fantasma. Os fantasmas, para começar, são de natureza psicológica, enquanto os demônios são ontológicos. Os demônios são seres reais, puros espíritos, ou anjos que escolheram rebelar-se contra Deus e viver num estado de eterna separação em relação a Ele. Sua única consolação vem sendo fazer outras criaturas racionais, criadas para compartilhar com Deus a felicidade, compartilharem a desgraça deles. Os fantasmas, por outro lado, são função da mente que os contempla. São tradicionalmente vistos como almas de gente que não foi para o inferno, mas para o purgatório, de onde escapam periodicamente para admoestar os vivos sobre negócios ainda pendentes.

Como o monstro da ficção de horror, os fantasmas representam o retorno do reprimido. Tanto o fantasma de Banquo quanto o do pai de Hamlet representam um erro não corrigido. São indicação de que um evento do passado não chegou a se concluir. Como resultado da repressão, geralmente causada pela culpa, o fantasma muitas vezes reaparece em momentos associados de alguma forma com o aniversário do evento que deve ser reprimido.

Para dar um exemplo típico, as mulheres que abortam geralmente revivem a culpa e a angústia associadas à morte do filho, quer na data de aniversário do aborto, quer no dia em que, segundo os cálculos da mãe, a criança teria nascido. A criança abortada surge como um fantasma no aniversário de sua morte e acusa a mãe da mesma maneira como o fantasma de Banquo acusa a Macbeth e o fantasma do pai de Hamlet repreende Hamlet.

Reduzida à sua forma mais simples, Medjugorje foi isto: duas meninas viram algo a um morro de distância do local onde os massacres de Surmanci aconteceram, no quadragésimo aniversário dos massacres, numa altura em que Tito tinha morrido havia pouco mais de um ano e toda a Europa Oriental estava entusiasmada com o nacionalismo que o sindicato polaco Solidariedade havia inspirado nas nações súditas do império soviético. O padre Zovko tentou desviar a atenção de Surmanci, alegando que era absurdo "descarregar em Medjugorje toda a culpa pelas atrocidades cometidas durante a guerra, de que mesmo os mais velhos não tínhamos ouvido falar e numa época em que, no que se refere às crianças, elas não haviam sequer nascido", mas os sérvios não se convenceram. Jornais de Belgrado satirizaram uma Madonna terrorista do Ustase, com um facão entre os dentes e uma legenda proclamando: "A Verdadeira Face da Mãe de Deus."

Em Medjugorje, a “reação de aniversário” foi tão coletiva como pessoal, e coletiva de uma forma que envolvia os sérvios. Daí a coincidência de datas. Nossa Senhora de Medjugorje apareceu praticamente ao mesmo tempo que os sérvios erigiram a placa comemorativa às atrocidades de Surmanci no mosteiro ortodoxo de Zitomislic, e ambos os eventos ocorreram quarenta anos após o dia do massacre em si. Os fantasmas sempre representam um mal não corrigido. O reconhecimento do erro é provocado por algum evento relacionado, como um aniversário ou a perturbação da ordem estabelecida. Em 1980, estava no ar a sensação de que a ordem estabelecida chegava ao fim na Europa Oriental. Para manter a ordem num país etnicamente dividido por atrocidades durante a Segunda Guerra Mundial, os comunistas literalmente fabricaram uma tampa de concreto e a colocaram sobre a depressão onde ocorrera o genocídio dos sérvios em Surmanci. Se a repressão pode ser representada por uma tampa colocada sobre memórias indesejadas e sobre as emoções por elas geradas, então a morte de Tito, a eleição de um papa polonês e o crescimento do Solidariedade significaram que a tampa comunista estava prestes a ser removida da Iugoslávia, e a primeira coisa que passou pela consciência herzegovina, removida a repressão comunista, foi a culpa pelo que os herzegovinos tinham feito durante a guerra.

Em 1989, como um vislumbre do nacionalismo que viria a seguir, os sérvios literalmente removeram a tampa e levaram seus mortos para casa. Mas o mesmo que ocorre nos filmes de terror ocorre também na vida real. A culpa é reapresentada sob uma forma menos ameaçadora. Em vez de um monstro que represente o Iluminismo fracassado, os herzegovinos foram confrontados com um aviso da Mãe, uma figura radicalmente ambivalente, na qual o consolo é sempre apenas uma fina película sobre a catástrofe que se seguirá se as instruções não forem executadas.

O que as crianças viram, é claro, se tornou irrelevante no terceiro dia das aparições, quando os franciscanos, especificamente Jozo Zovko, se envolveram e transformaram os videntes em soldados em sua guerra contra o bispo Zanic. O negócio com as crianças foi fechado como forma de pagamento para não denunciá-las pela brincadeira, expondo-as, assim, à ira da população local, que queria acreditar que a libertação estava próxima. O ditado “Vox populi, vox dei” recebe aqui uma estranha aplicação. É o povo que faz uma aparição falsa, não Deus ou a Santíssima Virgem. Eles a moldam como ídolo de seus desejos, e por isso não é de surpreender que Medjugojre assumisse um tom nacionalista naquele momento e lugar. A Virgem Maria foi, ao mesmo tempo, o fantasma do pecado croata e o sinal da esperança nacionalista croata de que a velha ordem estava chegando ao fim, e como a queda do comunismo parecia ser uma possibilidade no verão de 1981, a Virgem foi evocada por uma nação croata oprimida para ajudar nessa realização. Os tempos eram propícios. Tito morrera em 1980, toda a Europa Oriental estava em tumulto por causa das fotos de trabalhadores do Solidariedade de joelhos em frente ao estaleiro de Gdansk, a rezar o terço à Virgem Negra. Se Nossa Senhora pode salvar os poloneses, que oraram com ela em Czestochowa, por que não poderia a Gospa salvar os croatas, que oraram com ela em Medjugorje?

Apesar de ter conscientemente tomado Lourdes como modelo, com de quebra um pouco de Garabandal (o aviso, o castigo, o sinal sobrenatural permanente), Medjugorje em si mais se parecia com as aparições igualmente falsas de Marpingen, na Alemanha, que, por um breve momento, em 1870, superou até Lourdes, na qual também se baseava. No início do século XIX, as aparições tomaram a forma que ainda mantêm até hoje. Acontecem a crianças de minorias oprimidas ou de pais negligentes, nas proximidades ou em tempos de importantes mudanças sociais. Medjugorje e Marpingen preenchem ambos os critérios. Marpingen ocorreu numa parte da Alemanha que tinha passado de um país para outro e que no momento das alegadas aparições sofria, sob Bismarck, uma tentativa de esmagar a Igreja Católica, conhecida comoKulturkampf. Em seu clássico estudo sobre as “aparições" de Marpingen, David Blackbourn pinta uma imagem de semelhanças notáveis com Medjugorje:
A luta na Prússia entre o Estado e a Igreja, conhecido como Kulturkampf, já havia aumentado as tensões confessionais e disseminado o medo entre parte substancial da minoria católica, e, em 1876, a recessão econômica iniciada três anos antes estava causando graves perigos e exigindo a tomada de medidas corretivas.
... Foi para colher mirtilos – 
Waelen, no dialeto local - que, na quente segunda-feira de 3 de julho, vários jovens se encontraram em Haertelwald, área montanhosa arborizada, com muitas ravinas rochosas, a alguns minutos a sudeste de Marpingen .... Em menos de uma semana, milhares de peregrinos foram a Marpingen. Relatórios falam em 20.000 na aldeia, com até 4.000 no local da aparição, cantando, rezando e arrancando folhagens ou um punhado de terra do lugar para levar consigo... as autoridades civis fecharam a área, os três videntes começaram a alegar aparições na escola, no cemitério e na igreja .... Marpingen tornou-se uma cause célèbre. Jornalistas, sacerdotes e vendedores de souvenirs piedosos desceram à cidade, bem como peregrinos da Alemanha e do exterior. Defensores e opositores dos eventos lá ocorridos apelidaram Marpingen de 'Lourdes alemã,' ou até ' Belém da Alemanha '…  Não há dúvida de que as aparições modernas foram geralmente desencadeada por eventos de grande porte: períodos de guerra ou pós-guerra, tensões, conflitos políticos, crise socio-econômica. Também é claro que muitas aparições tiveram, por sua vez, impacto sobre os conflitos políticos contemporâneos, sobretudo na promoção da identidade católica contra as pretensões do Estado ou contra o desafio dos anticlericais.


Blackbourn vê "provas irrefutáveis ... da ligação entre as aparições e uma combinação de perseguição política, penúria material e mudança social. Isso é verdade não só dos eventos originais de Marpingen, mas do movimento de aparições, revitalizado no século XX " (p. xxi-xxvii).

Convém lembrar que a Bósnia-Herzegovina era a fronteira final da Europa. Assinalava o limite entre o Oriente e o Ocidente no Império Romano, entre as terras católicas e ortodoxas, na Idade Média, entre a Áustria e o Império Otomano e, até mais recentemente, a fronteira mais ocidental do confronto do comunismo com o Ocidente,  versão do século XX do cisma entre o Oriente e o Ocidente.

As crianças que deram início tanto a Marpingen quanto a Medjugorje foram influenciadas por Lourdes, tendo Mirjana lido um livro a respeito das aparições francesas no período entre 6 de junho e 21 de junho de 1981. As crianças representam uma população católica oprimida que procura libertar-se do protestantismo prussiano ou do comunismo, respectivamente. Não sendo possível obter alívio por meio da política , por via intelectual ou pela força das armas, a população oprimida voltou-se para a piedade mariana popular como expressão de protesto. Em ambos os casos, foi a expectativa e a aspiração suprimida de um povo católico oprimido, sob a liderança do padre local, o que reuniu as multidões e se tornou a força motriz por trás das aparições.


O padre tornou-se também o mediador da intensa pressão psicológica que viria a se exercer sobre as crianças, à medida que a multidão crescia em tamanho e expectativa. Em troca de proteção contra a exposição, as crianças tornaram-se os peões dos sacerdotes, que, sobretudo no caso de Medjugorje, as usaram para seus próprios fins políticos, primeiro como arma contra o bispo local e depois cada vez mais como arma contra os comunistas, enquanto crescia a onda de nacionalismo, que preenchia o vazio criado por uma ideologia em que ninguém mais acreditava.

No dia 10 de janeiro de 1983, o padre Tomislav Vlasic entrevistou Mirjana e em seguida transcreveu a fita, que foi posteriormente publicada sob forma muito modificada em livros de Svetozar Kraljević e Robert Faricy/ Lucy Rooney. Assim resume Sivric o perfil da vidente que emerge da entrevista:

Ao ler a entrevista com Mirjana, é evidente que ela ouve vozes. Mirjana é muito franca quanto à sua conduta e quanto à sua atitude interior; uma ou outra vez, ela sofreu de uma "disposição terrivelmente depressiva", comportou-se de modo tão estranho na escola, em Sarajevo, que os colegas a consideravam louca. Tem crises repentinas de choro, assim como é tomada pelo "riso inesperado", "chora sem razão," "é muito sensível, etc" Quando as visões começaram, o padre Zovko perguntou a Mirjana se ela estava exausta. Respondeu ela: "Só queria dormir." Como Vicka, queixou-se apenas uma vez de uma "crise de lágrimas." Mas tinha essas crises de choro desde o início das visões. Parece que ela gostava de chorar. Tenho a impressão de que ela é uma pessoa vulnerável.
Um dos trechos suprimidos da entrevista original, provavelmente porque poderia lançar dúvidas sobre a sua estabilidade mental, é a descrição do purgatório feita por Mirjana. "Há almas no Purgatório", diz-nos ela,

.. que rezam muito para Deus, mas ninguém aqui na terra reza por elas. Outras almas há no Purgatório que não rezam, mas algumas pessoas na Terra oram por eles. Estas orações não são aplicadas às almas do purgatório para quem as orações são oferecidas, mas sim para aquelas que rezam. Para as almas [no Purgatório] que rezam muito, Deus lhes permite comunicar-se com o seu povo aqui [na terra]. Havia uma mulher, cujas duas filhas foram mortas, e apareceram à sua mãe em sonho e pediram a ela para orar por elas... Perguntei então à Gospa o que isso queria dizer, e ela respondeu que elas estão no purgatório e necessitam de um pouco de esperança para chegar ao céu: elas pediram à mãe que rezasse por elas enquanto oravam por si mesmas. Havia uma outra mulher que morava numa casa e algo constantemente batia em sua janela.  Mais tarde, esta mesmíssima mulher comprou um apartamento no sexto andar e, de novo, algo continuou a bater em sua janela. Perguntei à Gospa o que seria. Ela me respondeu que as almas do Purgatório estavam fazendo isso porque ela se havia esquecido de rezar por elas e estavam pedindo suas orações.

Não há nenhuma explicação simples, de estilo Sherlock Holmes, para as entidades que vêm bater na janela de Mirjana. Esse mistério não vai ser resolvido por detetives ou cientistas iluministas, mas apenas por alguém que possa compreender as necessidades psicológicas e religiosas das pessoas que colaboraram para instituir o significado do evento.

Mirjana pode muito bem ter adivinhado, de alguma forma mediúnica, as forças motrizes psíquicas da região e, em seguida, como que chocada com o que descobriu, ter tentado tirar aquele peso dos ombros, progressivamente, envolvendo mais pessoas como colaboradores. Primeiro, as outras crianças, depois Marinko, depois Zovko e os franciscanos, depois o povo croata e, em seguida, os católicos do estrangeiro e, finalmente, as forças que tentam desestabilizar o comunismo. A melhor metáfora é mais predatória do que isso. Não houve conspiração, pelo menos não no início, não até que os franciscanos assumissem o controle, e mesmo depois, foi sempre um caso de peixes grandes comendo peixes pequenos. Assim que uma pessoa reúne num lugar certo número de pessoas dispostas a jogar fora uma quantia x de marcos alemães, essa pessoa é candidata a ser comida por alguém mais poderoso do que ela. Uma vez que se tornou significativo o tamanho das multidões, Zovko foi motivado a assumir o controle de Marinko, e o mesmo processo tem acontecido desde então. Peixe grande come peixe pequeno, abre a boca e o morde, os peixes pequenos comem peixes ainda mais pequenos, e assim por diante, 
ad infinitum.


Mirjana sempre foi caracterizada como a mais "sensível" das videntes. Chora muito. As crianças da aldeia referem-se a ela como uma Pankerica , uma punk da cidade grande, suspeita de tráfico de entorpecentes. Mirjana leu um livro sobre Lourdes em algum momento do início de junho e, em seguida, refletindo sobre sua situação como parte de uma minoria católica perseguida, numa zona de fronteira negligenciada pelo regime por causa de seu catolicismo, sempre associada, na mente do regime, às atrocidades cometidas contra os sérvios, Mirjana tem uma visão e seu povo é energizado pela concretização local de eventos que parecem estar sacudindo o mundo inteiro. Um mês após um atentado contra a vida do papa, a Virgem aparece para consolar e admoestar. Como disse uma mulher que ouviu falar da aparição poucos dias depois, ao ver televisão em Split: “aquilo tinha de ser verdade."
Mesmo com a autoridade e o consolo e proteção que os sacerdotes ofereciam, a pressão psicológica sobre os videntes era enorme, e uma vez que foi ela que orquestrou tudo no início, talvez não seja surpreendente que Mirjana Dragicevic tenha sido a primeira a sucumbir sob tal pressão. No dia de Natal de 1982, 18 meses depois do dia da primeira aparição, Mirjana anunciou que as aparições haviam cessado. Antes de partir, porém, a Santíssima Virgem revelara a Mirjana dez segredos, que seriam expostos ao mundo após três avisos, sob a forma de três eventos extraordinários que ocorreriam pouco antes de surgir no céu o sinal visível. Manifestado o grande sinal, se o mundo não se converter a Deus, sofrerá terrível punição.

"Quanto ao décimo [segredo]", Mirjana advertiu o mundo, "ele é terrível, e nada pode alterá-lo. Ele vai acontecer. "

Em fevereiro de 1997, 15 anos após a Santíssima Virgem lhe ter dito que as aparições haviam cessado, a Santíssima Virgem mudou, evidentemente, de ideia e decidiu reaparecer a Mirjana todo mês, agora que Mirjana tinha aquela casa grande, podia receber peregrinos, garantindo uma renda estável com a exploração seletiva de um número cada vez maior de crédulos turistas espirituais. A melhor explicação do misterioso reaparecimento da Santíssima Virgem é dado por um dos guias turísticos que conheceu Mirjana pessoalmente:

"Marko [Soldo]", explicou ele, "levou a melhor sobre o namorado de Mirjana e casou com ela. Construiu, então, uma casa, passou a enfrentar dificuldades financeiras e precisava de dinheiro, então ela começou a ter aparições novamente. Agora ele está vendendo carros a diesel importados da Itália. Ele anuncia no rádio, na Croácia, a venda de carros usados. "

A partir de junho de 1997, Mirjana parece estar tentando em grande estilo preservar dos desgastes do tempo o castigo - que está demorando demais para chegar. Mirjana agora vive numa mansão de estilo alemão bem em frente do casarão alemão de Ivan. Ambas as mansões não fariam feio nos ricos subúrbios de Karlsruhe e de Stuttgart, símbolos da terra prometida para a geração de Mirjana, cujos pais muitas vezes iam para longe de casa trabalhar como Gastarbeiter na Bundesrepublik. Ambas as casas têm gramados que exigem muita água para irrigação, algo em falta num lugar como Medjugorje.

Phil Kronzer provavelmente não notou nada disso enquanto caminhávamos os dois até a porta da frente da casa de Mirjana. Ele já tivera uma bela casa em Los Gatos, mas a perdera com o divórcio. Tinha uma casa ainda mais esplêndida em Carmel, a bela cidade costeira da Califórnia um pouco ao sul de Monterey, mas viria também a perdê-la bem antes do fim do ano. Mirjana e o marido Marko Soldo se haviam hospedado naquela naquela casa durante uma das inúmeras conferências marianas dadas por ela na costa oeste, e até disseram a Phil que seu segundo filho havia sido concebido ali. O plano de Phil era simples. Phil queria ter a esposa de volta, e queria para isso a ajuda de Mirjana. Seu raciocínio parecia bastante plausível. Se Ardie o havia deixado por causa de Medjugorje, que melhor maneira de recuperá-la do que por meio de uma das videntes? Mirjana poderia até dizer que tinha falado sobre o caso com a Mãe de Deus, uma declaração não menos plausível do que os dez segredos em que a média dos entusiastas por Medjugorje não tinha dificuldade em acreditar.

Quando chegamos à porta de Mirjana, fomos recebidos — embora com alguma desconfiança — por um grupo de peregrinas de meia-idade vindo da Califórnia, que nos disseram que Mirjana não estava em casa. Estava ocupada com os festejos relativos ao décimo sexto aniversário. “Volte mais tarde,” disseram a Phil, e foi só depois que começamos a nos afastar dali que ele mencionou que quem o despediu era uma guia turística da Califórnia. Se ele a reconheceu, raciocinou Phil, muito provavelmente ela também o havia reconhecido.
Enquanto nos afastamos da casa de Mirjana, dou-me conta pela primeira vez durante a minha estada em Medjugorje que as partes financeiramente mais interessadas na preservação das aparições sabiam exatamente da minha presença ali. Aquele não foi um pensamento agradável. Lembrei-me da expressão no rosto de Slavko Barbaric quando nos cruzamos na base do sr. Krisovac. Se um olhar pudesse matar, eu estaria morto. Pensei, então, que agora eles sabiam onde íamos estar e quando. Não era uma ideia divertida.
(continua)