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segunda-feira, 3 de agosto de 2015

Quesnel: Oração em forma de meditação sobre o Mistério da Encarnação


É, pois, verdade, meu Deus, que amastes realmente o mundo, lhe destes vosso Filho único e esse Filho que gerais eternamente em vosso seio, como a segunda Pessoa da Santíssima Trindade: esse Filho igual a Vós em tudo, que é a Vossa Sabedoria, a Vossa Potência e o Vosso Verbo; a imagem viva, eterna e substancial de Vossa Essência divina: que esse Filho adorável Se aniquilou a Si mesmo, tomando um corpo e uma alma semelhantes às nossas e unindo-as a Si de tal maneira, que eles não são senão uma mesma Pessoa com Ele; e que enquanto for Deus, ou seja, em toda a eternidade, também será verdade dizer que Deus é homem e da mesma natureza que todos os outros homens.

E como se não bastasse ao seu amor fazer-se homem, Ele ainda quis ser Filho do homem, pois em vez de Se formar um corpo perfeito e acabado como o do primeiro Adão, em vez de Se dar um corpo todo brilhante de luz e glória, como era devido ao Filho único de Deus, Ele quis ser concebido como todos os filhos de Adão, no seio de uma mulher, e tão pequeno como os outros. Pois embora tenha sido o Espírito Santo que formou esse corpo adorável, esse corpo é, porém, tão pequeno, que não é quase nada no momento da concepção; é um corpo sujeito a toda sorte de doenças e até à morte e que, embora unido à divindade, isto é, à santidade mesma, em nada difere no exterior da carne corrompida dos pecadores.

Mas o que confunde a minha razão e mais ultrapassa toda inteligência criada é ver, soberana bondade, que é aos mesmos pecadores e Vossos inimigos que entregais Vosso Filho único. Grande Deus, quem pode sondar o abismo de Vossos conselhos e os desígnios de Vossa Sabedoria? Quem pode olhar sem pavor esse dom de Vossa bondade e de Vossa misericórdia e tudo o que fazeis nesse mistério para a salvação de Vossas criaturas?

Adoro esses conselhos e esses desígnios de Vossa sabedoria, meu Deus: recebo com todo reconhecimento de meu coração esse dom incompreensível de vossa generosidade, que compreende todos os outros dons, e desejo que tudo o que é capaz de Vos louvar cante a Vós eternamente este Cântico de vosso Apóstolo: Graças a Deus pelo dom inefável que nos fez.

Sois Vós mesmo, Jesus, o dom de Deus, esse dom predestinado antes de todos os séculos, preparado durante quatro mil anos, dado no fim dos tempos e  que diz Ele mesmo àqueles a quem se dá: Se conhecêsseis o dom de Deus!

Senhor, conheço esse dom, pois Vos conheço pela Fé que me destes; e é esta fé que me cobre de confusão, mostrando-me de onde descestes e até que ponto Vos rebaixastes e aniquilastes por mim. Mas fazei por Vossa graça que eu faça continuamente uso desta fé para Vos adorar, para Vos amar, para Vos imitar.

Que ela me leve a me esquecer, a me humilhar e a me aniquilar por Vós, pois Vós Vos esqueceis ao Vos humilhar e Vos aniquilar por mim. E como Vos despojais, de certo modo, de Vossas grandezas para cobrir-Vos com as minhas misérias e me cobrir conVosco e com Vossa santidade, renuncie eu a mim mesmo também, a Vosso exemplo, e me despoje das minhas inclinações corruptas, para entrar em Vossas inclinações santas e me cobrir de Vossas virtudes.

Espírito Santo, que operastes esse mistério de aniquilação na Santa Virgem, operai sua semelhança e imitação no meu coração; fazei que a graça que dela emana se espalhe por todas as ações da minha vida. Fazei-me também entrar na adoração, no amor, no reconhecimento e em todos os deveres que exige de mim esse primeiro de todos os mistérios de Jesus Cristo, que é o fundamento e a base de todos os outros. Enfim, uni-me a Ele de tal sorte que eu mereça ser unido a Ele na eternidade. Amém.

(Pasquier Quesnel, Prières chrétiennes en forme de méditations sur tous les Mystères de Notre Seigneur & de la Sainte Vierge, & sur les Dimanches & les Fêtes de l'année)

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