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domingo, 23 de agosto de 2015

Doutrina católica: vai mais gente para o Céu ou para o inferno?


Traduzimos a seguir, pela primeira vez em português,  um texto do padre Adrien Gambart (1600-1668), discípulo de São Francisco de Sales e de São Vicente de Paula, que responde sem papas (no pun intended) na língua a esta pergunta, de que fogem como o diabo da Cruz os defensores da heresia bergogliana e da Grande Avacalhação pós-conciliar.

Boa leitura.

Questão do número de salvos ou de condenados: qual será o maior?

Multi vocati, pauci vero electi. Mt. 20, 16.

Prelúdio

Propomos uma questão, depois de tudo o que dissemos da Vida eterna, acerca do número de condenados ou de salvos; ou, numa palavra, dos que irão à Vida eterna ou à morte eterna; qual será o maior? A questão não é apenas curiosa, mas muito útil; é por isso que dela trataremos hoje. E como esta matéria é da máxima importância, peço que prestem, por favor, uma atenção extraordinária ao que digo.

II Prelúdio

Antes de abordar esta questão, convém bem estabelecer duas verdades, ambas de fé.
A primeira é esta: que o número dos que chegarão à Vida eterna será enorme. Digo que isto é de fé, porque São João nos garante isso em seu Apocalipse, onde diz que depois de ter visto o número de cento e quarenta e quatro mil do povo judeu que estava marcado para a Vida eterna, viu em seguida uma multidão extraordinariamente grande de toda espécie de nações e de povos que se mantinham de pé diante do Trono do Cordeiro, e que esse número era tão grande que não podia ser contado. Vidi turbam magnam quam dinumerare nemo poterat.  É o que Deus nos queria ensinar quando dizia a Abraão: Suspice coelum & numera stellas, si potes & dixit ei, sic erit semen tuum (Gn 15, 5).  Escuta, Abraão, olha o Céu e conta, se puderes, todas as Estrelas; tua semente será tão ampla quanto o número delas. E em outro lugar (Gn 22, 17): Multiplicabo semen tuum sicut stellas coeli & velut arenam quae est in littore maris. Multiplicarei a sua semente como as Estrelas do Céu, e como a areia à beira-mar. A qual multiplicação e bênção não se devem entender, diz Santo Agostinho, dos israelitas segundo a carne, mas dos israelitas segundo o espírito, a saber, de todos os fiéis e eleitos de Deus: Illa repetita expositione caelestium stellarum, mihi magis promissa videtur posteritas caelesti falicitate sublimis (S. Agostinho, Lib. de Civ. Dei, cap. 23). E, com efeito, Vocês sabem que só entre os mártires, que serão minoria entre os Santos, já houve mais de doze milhões, como o prova muito bem Genebrard e vários outros grandes autores, acerca do Salmo 78 do Profeta Rei. Se assim é, que será do número incontável dos Confessores e das Virgens. Santa Brígida, em suas Revelações, livro 3, capítulo 27, assinala um número prodigioso deles. Isso não é difícil de crer, se contarmos todos os Santos, desde Adão até o fim do mundo.
A segunda verdade é que, embora seja verdade que o número dos bem-aventurados seja extremamente grande, no entanto, é também artigo de Fé que o número dos reprovados será ainda incomparavelmente maior. Digo que é de Fé porque nosso Senhor no-lo diz claramente na Escritura, e não uma só vez, mas várias: Multi vocati, pauci electi (Mt. 10, 16); muitos são os chamados, poucos os escolhidos. E em outro lugar: Arcta est via quae ducit ad vitam, quoniam pauci sunt qui intram per eam  (Mt. 7, 14). O caminho que leva ao Céu é muito estreito, e é por isso que são poucos os que nele entram. O que se prova também pelo que dizem os santos Padres, que afirmam com frequência que de cada mil pessoas, não haverá uma sequer salva. Baronius o relata de São Simão e do Abade Nilo. O mesmo é o parecer de São Bernardo. O que se prova também por algumas Revelações, entre outras uma muito assinalada, que aconteceu com o bispo de Langres no dia em que morreu São Bernardo, de um eremita falecido havia poucos dias, que esse bispo havia conhecido antes como um rico e famoso Deão, que pelo temor do Juízo de Deus e para melhor operar a sua própria salvação se havia retirado na solidão. Como o bispo o interrogava acerca do seu estado e do rigor dos Juízos de Deus, respondeu ele: No instante em que saí de meu corpo, trinta mil pessoas passaram da vida à morte, entre as quais estava o Abade de Claraval: o Abade e eu voamos para o Céu, três outros apenas foram ao Purgatório e todo o resto foi para o Inferno. O que não é muito difícil de crer, visto que, sem comparação, os Gentios, os Sarracenos, os Turcos, os Heréticos e maus Católicos excedem o número dos bons e dos eleitos de Deus.
Suposto isso:
A questão, agora, a saber, se, falando apenas dos Católicos, o número dos salvos será maior que o dos condenados; falando só dos que estão em idade de discrição. No que se refere à solução desta questão, há duas espécies de opiniões entre os Doutores.
A primeira é dos que pretendem que haverá mais salvos. Isso porque, dizem eles, vemos pouca gente que morre sem os Sacramentos, que são os remédios seguros contra todos os pecados.  Igualmente a parábola das Núpcias do Reino parece favorecer tal opinião, onde um só dos convidados representa o número dos reprovados excluídos do banquete, por não terem vestido o traje nupcial.
A segunda opinião, a mais comum, que se funda em melhores razões e em autoridades mais fortes da Escritura e dos Santos Padres, é a que garante que o número dos Católicos que são reprovados é maior que o dos salvos. É o que mostraremos a seguir.


II Ponto

1) A Escritura parece favorecer esta última opinião: Multi vocati, pauci electi (Mt. 20, 16). Há muitos chamados e poucos eleitos. Ora, os chamados são os Católicos propriamente ditos: Lata porta & spatiosa est via quae ducit ad perditionem etc. (Mt. 7, 13). A via que conduz à perdição é muito larga e espaçosa, mas a que conduz à vida é muito estreita. Diz São Gregório que muitos chegam à Fé, mas poucos ao Reino Celeste: Ad fides pluris venerunt, sed ad caelestia regna pauci perducuntur. Isto serve como glosa ao Capítulo acima mencionado de São Mateus, e é interpretado no mesmo sentido por Orígenes, Beda e Santo Tomás.
Poderíamos ainda citar aqui o que diz São Paulo, que os Eleitos se assemelham aos vasos de ouro e de prata, e os reprovados aos vasos de terra e argila, de que há um número muito maior numa casa do que dos outros; ou o que diz Santo Agostinho, que as Estrelas do Céu e os grãos de areia do mar representam a multidão dos filhos de Abraão, e que pelas Estrelas são representados os predestinados e pelos grãos de areia os reprovados. Ora, há incomparavelmente mais grãos de areia à beira-mar do que estrelas no Céu, portanto mais reprovados do que salvos. Mas me contento com citar o que diz sobre isso a Boca de Ouro, o grande São João Crisóstomo, ao pregar um dia sobre este assunto na cidade de Constantinopla, que era cidade pelo menos tão grande quanto Paris. Eis o que ele diz.
“Quantas pessoas creem Vocês que haja nesta cidade de Constantinopla que serão salvas? Sei muito bem que o que direi não será agradável e, no entanto, eu o direi: em meio a tantos milhares de pessoas, não se acharão cem que serão salvas, e ainda tenho dúvidas se cheguem a cem. Pois quanta malícia encontramos em meio à juventude! Quanta preguiça entre os velhos! etc.” (Hom. 4 ao povo).
Isso quanto ao que diz respeito à Escritura e aos Santos Padres. Vejamos agora as suas razões.
A primeira razão que nos pode persuadir desta verdade – que haverá pouca gente salva – é que ou as máximas do Evangelho são falsas ou deve haver pouca gente salva. Ora, eis aqui três máximas que nele encontramos.
A primeira é esta: Non omnis qui dicit Domine, Domine intrabit in Regnum caelorum, sed qui facit voluntatem Patris. (Mt. 7, 21). Nem todos os que me dirão Senhor, Senhor entrarão em meu Reino, mas só os que fizerem a vontade de meu Pai. Ora, quem são os que fazem a vontade de Deus? Cada qual quer viver segundo o mundo. Fulano, dirão, vive assim, também quero fazer o mesmo. Vive-se pelo costume, não pela razão.
A segunda é esta: A diebus Ioannis Baptistae Regnum caelorum vim patitur, et violenti rapiunt illud (Mt. 11, 12).  Desde os dias de João Batista, isto é, desde que São João ensinou a penitência e conferiu o Batismo de Jesus Cristo, a porta do Céu foi aberta aos Cristãos em virtude dos Méritos da Morte e da Paixão do Salvador do Mundo; no entanto, nele só se entra pela força e pela violência, e só os ousados e os corajosos levam a melhor. Ora, vejamos quem são os que exercem a força e a violência contra si mesmos entre os Cristãos. Cada qual segue as suas inclinações naturais, ninguém sabe o que seja mortificação ou penitência; não se sabe o que seja a paciência, nada se quer sofrer por amor de Deus.
A terceira máxima é esta: Nisi efficiamini sicut parvuli intrabitis in Regnum coelorum (Mt 18, 3). Se não vos tornardes como criancinhas, não entrareis no Reino dos Céus. E onde estão os que se assemelham a criancinhas? Ninguém se humilha; é só orgulho, nada se quer suportar do companheiro.
A segunda razão que nos prova o pequeno número dos salvos é que a Regra de Santo Agostinho afirma que se morre como se viveu. Ora, a maioria do mundo vive em pecado mortal, como é fácil provar.
1) Quantos são os que ignoram os principais Mistérios, que não sabem o que é ser cristão e em que consiste o Cristianismo, e que não querem deixar-se instruir na matéria?
2) Quantos dos que são instruídos nesta matéria vivem sem preocupar-se com sua salvação? Uns se divertem amontoando riquezas, construindo casas, enfeitando jardins, de modo que raramente pensam em Deus e na Vida eterna, senão, talvez, na Páscoa.
3) Outros estão metidos com a usura, a simonia, as posses injustas e jamais pensam em restituir: A minore quippe usque ad majorem, omnes avaritiae student, & a Propheta usque ad Sacerdotem cuncti faciunt dolum, diz o Profeta Jeremias (Jr. 6, 13).
4) Outros cultivam más amizades, com que não poderiam romper, já que não o querem.
Outros, enfim, têm ódios mortais, processos, brigas etc. com as quais nos danamos.
A terceira razão que nos mostra haver tão grande números de condenados é que, embora a maioria se confesse e comungue no momento da morte, como são as confissões que fazem nesse estado? Poenitentia infirmorum, infirma est. A penitência dos doentes é uma penitência doente. Damos Absoluções, diz Santo Agostinho, mas não damos garantias.
A quarta razão é que por um justo juízo de Deus, muitos dos que zombaram dos Sacramentos durante a vida serão privados deles na hora da morte. Eles pensam, então, em seus médicos, farmacêuticos e muitas vezes não se preocupam em chamar um padre: Hac justa animaversionis punitur peccator, ut qui vivens oblitus est Dei moriens obliviscatur sui,  diz São Gregório. É o juízo de Deus, que assim pune o pecador que, tendo esquecido Deus durante a vida, se esquece de si mesmo no momento da morte.
Diz Santo Agostinho quase a mesma coisa: Illa est poena peccati iustissima, ut qui recte facere cum posset noluit, amittat posse cum velit (S. Aug. l. 3 de Lib. Arb.). É muito justa a pena do pecado do homem que, quando podia fazer o bem, não o quis, e perde o poder de fazê-lo quando quer.
A quinta razão é que muitos, embora pareçam ter o firme propósito de se corrigir, ao se voltarem para a convalescença, isso não passa de aparência. Um mero temor natural de morrer, que todos têm, muitas vezes leva a Confissões que são nulas ante Deus, porque não vão até o fundo do coração, como prova a penitência de Antíoco [Epifânio].
A sexta razão é que, com muitos que se confessaram com firmes propósitos, sendo um pouco longa a enfermidade, eles voltam facilmente a seus malditos consentimentos; sendo o Diabo mais astuto que eles, ele os espera na passagem; de modo que, de cem que viveram mal, não se salvam três nessa última passagem. Devemos tirar daí dois ou três proveitos.

Frutos e proveitos

O primeiro proveito será para todos, de operar sua salvação com temor e tremor, segundo o conselho do Apóstolo: Cum metu et tremore salutem vestram operamini (Filip. 2,12). Embora não me sinta culpado de nada, nem por isso estou justificado, diz ele em outro lugar: Nihil mihi conscius sum, sed in hoc justificatus non sum.  O Sábio a isso nos exorta: Beatus homo qui semper est pavidus (Prov. 28, 14). Feliz é o homem que caminha sempre no temor do Senhor e tem medo de ofendê-Lo.
O segundo proveito é que, uma vez que o número dos salvos será tão pequeno, nem por isso desanimemos, mas procuremos fazer parte dessa minoria: Contendite intrare per angustam portam (Lc 13, 24). E para isso mudar de vida, sair do infeliz estado de pecado. Em suma, fazer penitência, mas verdadeira penitência, sólida e permanente, como a praticaram todos esses grandes Penitentes, Davi, São Pedro, São Mateus e Madalena. Não há outro jeito de garantir a salvação depois do Batismo e de estar entre os predestinados, senão a penitência. Façamo-la, portanto, Cristãos, e tratemos de satisfazer à Justiça de Deus nesta vida, para que, tendo-Lhe satisfeito por frutos dignos de penitência, sejamos bem tratados por sua misericórdia na outra.
O terceiro proveito é convencermo-nos bem de que se quisermos, podemos pertencer ao número dos predestinados. Porque temos todos os motivos para crer que Deus assim o quer; pois o que nos falta para isso? Temos a graça, os Sacramentos etc. Só nos resta a prática das boas obras, segundo o conselho que nos dá o Apóstolo São Pedro: Sagitte ut per bona opera certam vestram vocationem & electionem faciatis (2 Pd. 1). Mas acrescentemos o que diz o Apóstolo São Paulo, Castigo corpus meum & in servitutem redigo; ne forte cum aliis praedicaverim, ipse reprobus efficiar (1 Cor. 9, 27).  Castigo, diz ele, o meu corpo e o reduzo à servidão, para que, tendo salvado os outros com minha pregação, não seja eu mesmo reprovado. Assim sendo, meus Irmãos, pensemos conscientemente em nossa salvação: e como para isso é preciso ter a Esperança, vamos falar a Vocês dessa virtude na continuação de nossas conversas.

Perguntas

P. Depois de ter falado do Juízo, da Ressurreição dos mortos e da Vida Eterna, é bom saber qual será o maior número, o de salvos ou o dos condenados. Poderia o Senhor nos dizer qual será o maior?
R. O dos condenados.
P. Por quê?
R. Porque diz Nosso Senhor no Evangelho que muitos serão chamados e poucos os escolhidos.
P. E por que mais?
R. Porque o número de Cristãos Católicos é muito menor que o dos pagãos, idólatras e heréticos etc.
P. Mas, falando só dos Cristãos, deve haver entre eles mais salvos do que condenados?
R. Não.
P. Por quê?
R. Porque poucos deles vivem em conformidade com o Evangelho e seguem as máximas que Jesus Cristo nos ensinou, sem as quais é impossível salvar-se.

Exemplos

É verdade certa que, falando apenas dos cristãos, haverá muito mais condenados que salvos; pois há sem comparação muito mais cristãos que vivem mal do que os que vivem bem. Nós lhes mostramos isso com clareza em nossa Exortação, tanto pela autoridade como pela razão e pelo exemplo. Dar-lhes-ei apenas um exemplo ou dois sobre isso.
Contam do Papa Inocêncio IX que, sendo ainda cardeal, costumava visitar com frequência um santo eremita e que, um dia, tendo lá ido, encontrou a porta fechada; e depois de ter nela batido sem obter resposta, mandou derrubar a porta, temendo que tivesse acontecido alguma coisa com aquele santo homem. De fato, ele o encontrou deitado ao chão como um cadáver e, tendo-o remexido e beliscado várias vezes para fazê-lo voltar a si, ele despertou como de um sono profundo e exclamou: Ah! Que coisas maravilhosas e horríveis eu vi! E o que Você viu, perguntou-lhe o cardeal? Eu vi, disse ele, almas descerem ao Inferno como nevascas densíssimas; vi outras como neves muito claras irem ao Purgatório: a saber, um Bispo, um Cartuxo e uma viúva de Roma, chamando-os a cada um pelo nome. O cardeal enviou diversos mensageiros para investigar a verdade do fato e, tendo-lhe sido relatado que aquelas três pessoas haviam morrido no tempo que ele havia dito, mandou construir uma Cartuxa. Mart. Carth. vol. 2, c. 102.
Lemos também de um certo Doutor condenado, que, tendo aparecido a seu Bispo, perguntou-lhe se o mundo ainda durava. Por que me perguntas isso? disse o Bispo. Porque, disse ele, vi descerem aos Infernos tal quantidade de almas, que mal posso crer que haja tanta gente no mundo.

Reflexão


Embora o número de salvos seja extremamente pequeno, cumpre tratar, porém, de fazer parte deles e, para tanto, pedi-lo muitas vezes a Nosso Senhor; ter firme Esperança em sua misericórdia. 

(A. Gambart, Le Missionnaire Paroissial ou Sommaire des exhortations familières, VII partie, 1677).

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