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quinta-feira, 27 de março de 2014

O padre Surin e o deserto interior


Direi, portanto, acerca da santa solidão, que a atração da Graça nos leva todos ao deserto, pela separação das criaturas, para nos refugiarmos e nos estabelecermos em Deus. Imagino Jesus em seu retiro, todo absorto nas grandezas de seu Pai, e a sua santa alma imersa e como perdida nesse maravilhoso abismo das verdades, das riquezas e das delícias divinas. É nessa solidão interior que devemos segui-Lo, afastando-nos de todas as coisas da terra; e em primeiro lugar das que estão fora de nós, como os bens, os pais, as conversas e as diversões do século. A boa Carmelita maravilha-se por se ver livre de tudo isso e com a liberdade que seu estado lhe dá de tratar só de Deus e de nele mergulhar, se assim posso dizer: é o que ela faz todas as vezes que se volta para si mesma; como aquelas pessoas que, cansadas de carregar um pesado fardo, põe-no abaixo para descansar; ou àqueles navios que, ao saírem de um rio onde estavam apertados, adentram o mar, onde, de vento em popa, navegam a plenas velas.
Assim a alma liberta de tudo ganha o alto-mar em Deus; não vê, não sente senão Deus, não por um conhecimento distinto das divinas perfeições, mas por uma visão confusa do Ser soberano, por um gosto universal do soberano bem, por ela vislumbrado mais ou menos como olhamos o mar, onde só vemos uma imensa e uniforme extensão de água. Nesse simples olhar, a alma saboreia seu verdadeiro contentamento; e, mergulhando fundo no oceano da divindade, lá encontra, por fim, as riquezas particulares e distintas que estão em Jesus Cristo: assim como os que mergulham bem longe no mar, ali encontram o coral, as pérolas e as outras coisas preciosas que ele encerra. Mas o segredo para isso é afastar-se muito da terra e de todos os objetos exteriores, sem lhes dar afeto, sem neles buscar apoio e sem neles procurar sua própria satisfação. Isso não basta: também é preciso afastar-nos e separar-nos de tudo o que temos de próprio, de nossos interesses, de nossos planos, de nossas vontades, de nossas inclinações, de nossos sentimentos, de nossas maneiras humanas e naturais, até de nossos gostos sobrenaturais; entregando-nos a tudo, até à morte, como quem embarca se entrega aos trabalhos da navegação, às tempestades, aos naufrágios, a todos os perigos do mar.
Esse perfeito despojamento de nós mesmos é a última disposição para entrarmos na divina solidão, aonde a Graça nos atrai e onde, não estando limitados, gozamos de uma imensa liberdade. Daí vêm aqueles santos arroubos do coração livre, que, vendo-se só com Deus só, mergulha em Deus com um profundo recolhimento: daí vinha esse admirável fervor de nossa Santa Mãe, que víamos sempre voltar-se para Deus com a mesma rapidez com que um grande rio vai perder-se no mar. Isso vem da perfeita liberdade que a alma recolhida possui em seu deserto.

(Père Surin, Lettres spirituelles, t. III (ed. 1728), IX, pp. 30-33; trad. Yours Truly).

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