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quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

Rino Cammilleri propõe explicação acerca do comportamento do papa Francisco


No jornal italiano Il Giorno de 10/10/13, Rino Camilleri, comentarista católico de linha conservadora, propôs uma explicação para o comportamento e para as palavras do papa Francisco. Segundo ele, Francisco se baseia numa corrente presente há séculos na Companhia de Jesus, desde os idos das polêmicas de Ricci sobre os ritos asiáticos.

A ideia de base seria que o homem de hoje, graças a décadas e décadas de lavagem cerebral, se tornou imune a uma pregação evangelizadora baseada na compreensão da mensagem de Cristo, e deve ser tratado, em linhas gerais, como os índios guaranis ao se estabelecerem as missões do Paraguai.

Eis a parte central do texto, que pode ser lido em versão francesa também aqui:

O homem contemporâneo está hoje completamente subjugado por uma cultura relativista que  destruiu todo valor ao mesmo tempo divino e humano. Falar-lhe dos princípios não negociáveis é pura perda de tempo: ele não os compreende mais. O ataque, durante séculos, ao princípio de autoridade triunfou e as pessoas já não suportam os mestres. Mas a civilização de hoje é também um moedor de carne que aumenta exponencialmente o número dos rejeitados. O homem moderno, ferido e mutilado pelo lado obscuro da modernidade (que, prometendo a felicidade a todos, alcançou um grau de mal-estar jamais visto), enquanto jaz no chão, todo ensanguentado, só vê a mão que o ergue e o trata, pouco lhe importa se é um Samaritano (isto é, o representante de uma categoria que lhe ensinaram a odiar). 
Eis, portanto, o programa: abrir os braços para os que sofrem, para os abandonados, sem entrar em polêmicas, sem discutir, sem censurar os erros. Quando a couraça mental tiver sido dissolvida, o infeliz verá na Igreja uma mãe misericordiosa e não, como lhe inculcaram, um centro ideológico de poder. O problema urgente é a crise da fé, de que a crise moral é só uma consequência. É daí, diz o papa Francisco, que é preciso partir. Do zero. À luz disso, o modus operandi de Bergoglio torna-se mais claro.

O que ele propõe é uma espécie de gigantesca «opção religiosa » da parte da Igreja inteira: tratar primeiro dos sofrimentos humanos, e depois, só depois, ensinar o catecismo e tudo o mais. Daí também a reticência quanto a falar de assuntos «incômodos», como o casamento homossexual, o aborto, a eutanásia. Diz ele: todos conhecem a posição da Igreja sobre estas questões, e é inútil que o papa a repita constantemente. E, no entanto, - cabe pensar – até o primado da ortopráxis sobre a  ortodoxia (para usar o jargão clerical) já é um 'déjà-vu'.


Depois, do primado ao afastamento é só um passo, e já vimos a prática desligada da ortodoxiana famosa «teologia da libertação». Se não injetarmos continuamente a nossa doutrina na prática, outra doutrina tomará o seu lugar, talvez alguma que se lhe assemelhe: ontem o marxismo, hoje o bom-mocismo relativista. É um risco, que esperamos tenha sido calculado. Será suficiente para a nova evangelização transformar a Igreja inteira numa grande Caritas? Dar às pessoas essa imagem das Igreja que elas querem (assistência gratuita, silêncio sobre o pecado e o erro), será essa realmente a melhor ideia? A estas perguntas, só o futuro poderá responder.

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