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quarta-feira, 25 de dezembro de 2013

Pierre Nicole: Que devemos pedir a Deus na oração?


Como o objetivo da oração é obter de Deus o que Lhe pedimos, é importantíssimo para nós instruírmo-nos sobre o que é justo Lhe pedir, pois, sendo Ele a justiça mesma, não podemos dEle esperar senão o que é justo.

Ora, isso é fácil de saber, se seguirmos os princípios dos santos Padres. Pois como o amor é a fonte da oração, só nos é permitido pedir em nossas orações o que é permitido amar; porque se amássemos coisas más e tal amor nos levasse a pedi-las, Deus nos trataria com misericórdia ao recusá-las e só poderia ser efeito de sua ira contra nós se as concedesse. Propitius Deus, diz Santo Agostinho, cum male amamus, negat quod amamus: iratus autem, dat amanti quod male amat. (In Psal. 26)

Basta, portanto, examinar o que é preciso amar. Isso é decidido pelo primeiro de todos os mandamentos, que nos ordena amar a Deus de tal modo, segundo Santo Agostinho, que lhe dediquemos todo o nosso espírito, todos os nossos pensamentos e toda a nossa vida; para que não haja nenhuma parte de nosso amor que se dirija para outra coisa e diminua a plenitude da caridade que devemos a Deus; quae nullum rivum duci extra se patitur, cujus derivatione minuatur (De doctr. Chr., I, c.22).

Pois se só devemos amar a Deus, segue-se que só devemos pedir o próprio Deus, ou seja, Deus deve ser o único objeto de nossos desejos e de nossas orações. E é isso que Santo Agostinho ensina expressamente em diversos lugares. Quereis invocar a Deus, diz ele (In Psal., 30), invocai-O gratuitamente. Por avaros que sejais, será que Deus não é capaz de vos preencher? Avare an parum est si te impleat Deus? Quereis que vos diga, diz ele em outro lugar (In Psal. 85), qual deve ser o objeto de vossas orações? Invocai a Deus como Deus, amai a Deus como Deus. Nada há melhor que Deus. Ele é que vós deveis desejar. A Ele é que deveis aspirar. Vede o que diz em outro Salmo um homem que invocava a Deus de verdade: Só fiz, diz ele, um pedido ao Senhor. E qual foi o pedido? Permanecer na casa do Senhor todos os dias de minha vida. E por quê? Para, diz ele,  contemplar a alegria do Senhor. Se, portanto, quiserdes ser um verdadeiro amador de Deus, imbuí-vos de Seu amor até o fundo do coração; desejai-O com castos suspiros; inflamai-vos por Ele com vivo ardor; tende uma santa avidez de possuí-Lo, pois não poderíeis nada encontrar de mais maravilhoso, de melhor, nem de mais duradouro. Pois o que há de tão duradouro quanto o que é eterno?

Muitos há que O invocam em aparência, diz ele ainda (In Psal. 76), e que não O invocam na verdade. Pois não buscam a Deus, mas alguma outra coisa. Quem é, então, que o invoca verdadeiramente? Aquele que prefere Deus a tudo o que dEle recebeu. É então que Ele vos escuta, quando só a Ele buscais, e não quando O quereis fazer servir para obter alguma outra coisa. Vere tunc tibi attendit, quando ipsum quaeris, non quando per ipsum aliud quaeris.

Deus mesmo, portanto, é o que devemos pedir a Deus, pois só a Deus devemos amar e só de Deus devemos gozar. Mas que é pedir Deus a Deus? É pedir para Lhe estarmos unidos. É pedir para possuirmos a sua justiça, ou melhor, que a sua justiça nos possua. E que é pedir para possuirmos a justiça ou ser por ela possuídos? É pedir para amá-Lo perfeitamente, ser-Lhe perfeitamente conforme, nada ter em nós que Lhe seja contrário, evitar tudo o que possa magoá-Lo.

Assim, o desejo de Deus contém o desejo de tudo o que nos une a Ele, de tudo o que ajuda a ser-Lhe perfeitamente submisso. Contém, portanto, o desejo de todas as virtudes e de todas as graças que nos são necessárias e vantajosas para obtermos a Deus. Compreende o desejo de conhecer a Sua vontade para segui-la; o desejo de Lhe ser fiel em tudo. Compreende a busca e o desejo de todas as coisas temporais que estão relacionadas com Deus, que o amor que Lhe dediquemos seja para nós uma razão de desejá-las. Enfim, contém o desejo do fim e de todos os meios que a ele conduzem.

(Traité de la prière, t. II, l. 2, cap. 1)

Domine Jesu Christe,
qui dixisti:
petite, et accepietis;
quaerite, et invenietis;
pulsate, et aperietur vobis:
quaesumus, da nobis petentibus
divinissimi tui amoris affectum,
ut te toto corde, ore et opere diligamus,
et a tua nunquam laude cessemus.

2 comentários:

  1. Bom dia,

    Tem a tradução dessa oração em latim?

    Desejo a você e aos seus um feliz ano novo com uma alma renovada para um novo combate. Abraço!

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    1. Oi, Magna, Aqui vai a tradução: "Senhor Jesus Cristo, que dissestes, pedi e recebereis, buscai e encontrareis, batei e vos será aberto; pedimos, dai a nós pedintes o afeto por vosso diviníssimo amor, para que vos amemos de todo o coração, com nossas palavras e atos, e jamais deixemos de vos louvar." Faz parte da ladainha dos nomes de Jesus. Abraço e feliz 2014!

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