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domingo, 22 de dezembro de 2013

Os cordeiros, os lobos e o hospital depois da batalha



Saiu ontem no site italiano Concilio Vaticano Secondo um brilhante artigo assinado por Nicodemo Grabber, com o título de A alegria da rendição, ou quando os pastores brincam com os lobos. Trata-se de uma análise da famosa declaração do papa Francisco, que descreveu a Igreja de hoje como um hospital de campo depois da batalha.

Aqui vai a tradução brasileira, feita por este Vosso servo:

O papa Francisco, na célebre entrevista a Civiltà Cattolica, descreveu a Igreja como “um hospital de campo depois da batalha”. Isso para convidar os Pastores a “tratarem das feridas” dos fiéis, e o fez com expressões dolorosas: “Devemos tratar das feridas. Depois poderemos falar de tudo o mais. tratar das feridas, tratar das feridas …”.
Toda a mídia ressaltou a vontade papal de reprovar aquilo que Francisco parece julgar uma excessiva atenção aos preceitos morais: “É inútil perguntar a um ferido grave se está com colesterol e glicemia altos!” Muito provavelmente era essa a intenção subjetiva do papa Francisco ao desenvolver a imagem do hospital de campo, mas as palavras gravadas no papel dizem, na sua objetividade, muito mais. Um muito mais trágico, que interpela todos os católicos!
Se a Igreja pode ser vista como “hospital de campo depois da batalha”, isso quer dizer pelo menos uma coisa com certeza: que estamos em guerra! E que a batalha atinge os católicos, ferindo-os gravemente (o fiel a que a Igreja deve prestar socorro é visto como “ferido grave”).
A Igreja sempre foi também um “hospital”, tendo os Pastores entre seus encargos o de tratar das  feridas espirituais dos fiéis. Por que, então, Bergoglio diz que “hoje” a Igreja deva ser um “hospital de campo”? O que torna o hoje assim tão diferente? Não o tratamento dos feridos, que sempre aconteceu, mas o fato de já não se pensar a Igreja como cidade santa fortificada, em que funcione também o hospital, junto com a  cátedra, onde se ensina a Doutrina, o Templo, onde se presta culto a Deus, e as casas seguras onde flui ordenadamente a vida cristã. O fato de pensar a Igreja principalmente, senão exclusivamente, como hospital e, ademais, “de campo depois de uma batalha” é o próprio de “hoje”. Pela metáfora, diz-se uma Igreja toda feita de “tratamento”, sem mais a defesa da ortodoxia, o ensino da Verdade, a centralidade do Culto Divino, a ortopráxis moral ordinária.  É  ainda o Povo de Deus uma realidade assim concebida? Seria tal “hospital de campo” fiel à vontade positiva de Cristo, fundador e Chefe da Igreja?
Mesmo deixando de lado questões tão graves, perguntamo-nos: é possível tratar verdadeiramente do espírito ferido de uma pessoa colocando entre parênteses a Verdade, as virtudes e o Culto a Deus? Que tratamento será esse? Será que não seria, ao contrário, o melhor e até o único remédio justamente o reencontro da fidelidade à Verdade inteiramente crida, vivida e anunciada?
Mas permaneçamos na expressão usada pelo papa Francisco: se guerra há, deve haver pelo menos duas forças em campo, inimigas e irredutíveis. Nas palavras do papa Bergoglio, porém, não é possível identificá-las, uma vez que a Igreja é apresentada como “hospital de campo”, como se indicando seu papel não beligerante. Ao mesmo tempo, porém, se fala de “fiéis” cujas feridas devem ser “tratadas”, por terem sido feridos gravemente na violenta batalha. Mas os fiéis são Igreja e, quando são feridos, é a Igreja que é ferida. A Igreja, portanto, seria ao mesmo tempo “ferido” e médico. Combatente também? Poderia parecer que não, já que os feridos de que fala Bergoglio não são os cristãos militantes agredidos pelo mundo, mas antes aqueles que se deixaram enganar pelo século, vivendo as suas lógicas devastadoras no plano individual, familiar e social.
Dando sequência à leitura da entrevista, poder-se-ia conjeturar que o papa Francisco entenda os Pastores como médicos dos fiéis feridos. Os fiéis seriam as vítimas da batalha, enquanto os Pastores seriam convocados a serem os médicos daquelas graves feridas.
Resta sem solução a questão da identidade dos combatentes e da natureza da batalha. O que não é irrelevante.
A Escritura e a Tradição falam da guerra entre a Igreja e o mundo, a vida da graça e o pecado mortífero, os filhos de Deus e os filhos do diabo (príncipe deste mundo), a Luz e as trevas.  Aquele mundo de trevas que não acolheu o Verbo Encarnado rejeita e combate também os que renasceram em Cristo, combate a Igreja e odeia seus filhos. Mas…
Se a “batalha” de que fala o papa Francisco é a batalha de sempre, entre a Igreja e o mundo, por que só “hoje” e não ontem  “a capacidade de tratar das feridas” se torna “aquilo de que a Igreja mais precisa”? Além disso, por que o hospital de campo seria uma imagem da Igreja de “hoje” e não da Igreja de sempre?
Talvez porque a batalha que  hoje se combate seja de uma violência inaudita? Isso é provável, mas não suficiente para explicar a imagem.
Além disso, por que a Igreja, os fiéis não são considerados militantes, combatentes? Se o fiel de hoje é levado em consideração como “ferido grave” e não mais como miles Christi envolvido na boa batalha, isso quer dizer que o mundo fere cada vez mais enquanto a Igreja desistiu de lutar!
A Igreja, portanto, é pensada como “hospital de campo” e não como aprisco seguro, capaz de proteger as suas ovelhas, como fortaleza inexpugnável onde vivem seguros os seus filhos; torna-se inevitável, então, uma ideia: a batalha foi dada por perdida, já nem sequer se combate! Não há mais ovil, não há mais a certeza de quem seja ovelha e quem seja lobo, o lobo disfarçou-se de ovelha, obtendo cidadania no rebanho, e as ovelhas corajosas que não se deixam enganar pelos lobos são muitas vezes acusadas de serem elas os lobos.
Predomina um espírito de rendição, onde o máximo que a Igreja pode fazer é tratar dos feridos, e não, sem dúvida, impedir que os seus filhos sejam feridos com gravidade. Pois se a Igreja seria “um hospital de campo depois de uma batalha”, isso quer dizer que a batalha já aconteceu e foi perdida, restando apenas os feridos.

Este é o quadro completo que, apertis verbis, o papa Francisco cala, mas cujas palavras implicam. Um Povo de Deus derrotado, que sequer combate, que escolheu render-se, ferido gravemente, um rebanho destroçado e disperso. Pastores incapazes de garantir a paz do ovil e a proteção contra os lobos, chamados doravante só a remediar as feridas que afligem as pobres ovelhas, a suturar as chagas abertas nos cordeiros pelas mordidas das feras ou pelos espinhos dos matagais onde os mais inquietos deles se aventuraram sem guia, sem pastor.
Por trás da euforia otimista que parece dominar a comunicação do papa Francisco se entrevê um cenário de ruínas e feridos, de guerra perdida e dor.
Surge espontaneamente uma pergunta: por que a Igreja não é mais um redil seguro? Por que os fiéis são “feridos graves”? Quem derrubou a paliçada, quem abateu as muralhas de defesa? Quem permitiu que os lobos e os espinhos ferissem o rebanho?
Alguns dirão: os tempos são estes, tempos de secularização e de revolução cultural, não era/é mais possível manter em segurança o rebanho, as muralhas teriam igualmente se esboroado …  Mas então é preciso dizer que estes nossos tempos são tempos de espinhas e lobos, “tristíssima idade” como a definiu o beato Pio IX. O otimismo que proclama os “magníficos avanços e progressos” da humanidade, taxando de “profetas da desgraça” os espíritos previdentes e realmente proféticos  (estes sim, realmente proféticos!) que foram capazes de ver o abismo para o qual se dirigia a modernidade, deverá ser julgado no mínimo cego. Não parece, porém, ser esta a posição do papa Francisco … e então?
Se a defesa dos bastiões sociais, culturais e institucionais não era mais possível, taticamente se poderia ter optado pelo maquis, como o clero refratário na França revolucionária, passando de uma guerra regular à guerrilha, mas sempre sabendo que  o mundo é inimigo e o espírito da modernidade é inconciliável com a Verdade de que a Igreja é a fiadora. Clero e leigos deveriam ter sido formados para resistir. Não foi o que aconteceu!
Em vez disso, foram abertas as portas e as janelas, pelas quais entrou a fumaça de Satanás, foram derrubadas muralhas de defesa, esvaziou-se o redil, empurrando as ovelhas para  florestas ignotas, pediu-se aos valentes que ainda estavam dispostos a combater em defesa do ovil que depusessem as armas e deixassem os lobos passearem sem serem perturbados.  Tudo isso por quê?
Nosso Senhor define como mercenários os pastores que, vendo chegarem os lobos, abandonam o rebanho. Que definição dar, então, aos que não se limitam a não defender as ovelhas, mas até as empurram para os lobos ou trazem os lobos para dentro do redil, talvez em nome do diálogo e depois de os terem camuflado sob pele de ovelha postiça? Já o antigo autor das fábulas havia compreendido como acaba o diálogo entre um lobo e um cordeiro! Talvez também ele fosse um “profeta da desgraça”, incapaz de ver a beleza do diálogo?
Voltando à imagem do hospital de campo: quem se deixaria tratar por um médico que fosse cúmplice dos que o feriram?  Se o mundo (moderno) fere gravemente os fiéis (é o que diz o Papa), como podem os fiéis feridos, uma vez compreendida a causa das suas próprias chagas, confiar em médicos que não cessam de correr atrás daquele mundo e de adequar-se a ele? Como podem ser médicos os mesmos que, voluntária ou involuntariamente, exercem a profissão de untores,  escandalizando continuamente o povo fiel a ponto de chegar, de fato, a contaminar o rebanho inteiro? Como pode uma palavra curar se for continuamente abastardada com o veneno que produz o mal? 
A verdadeira misericórdia opera admoestando os pecadores, corrigindo os errantes, instruindo os ignorantes. A verdadeira caridade pastoral é defender dos lobos o rebanho, mesmo ao preço da própria vida. É reencontrar a ovelhinha perdida, mas só para trazê-la de volta ao redil, e não, sem dúvida, para levá-la para o meio dos perigos, depois de ter escandalizado o rebanho e devastado o aprisco.
Quem chamaria de caridoso ou misericordioso aquele que, depois de ter deixado torturarem um coitado, talvez até confraternizando com os algozes, dissesse ao ferido o seu imenso desejo de curá-lo?


(Nicodemo Grabber)

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