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segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

O Abbé de Rancé, o Natal e o carteado


Conta o padre de Marsollier em sua Vida de Dom Armand Jean le Bouthilier de Rancé, fundador dos Trapistas, o seguinte episódio ocorrido durante a viagem de Rancé a Roma para tratar de problemas referentes aos Cistercienses da estrita observância:

Durante a viagem e durante toda a estada em Roma, só bebeu água, só comeu pão e ervas; no máximo, algum cozido mal temperado era o seu alimento habitual; seus gastos por dia quase nunca iam além de dois tostões. (...) Não devemos tampouco calar que, embora a vida do Abade da Trapa fosse sempre muito penitente, quando chegavam as grandes Festas, ele cortava todo comércio para passar esses dias santos na oração e no silêncio. O primeiro ano que passou em Roma, estando próximas as Festas de Natal, aconteceu-lhe nessa ocasião algo muito singular, que merece ser contado.Sua vontade de passar essas santas Festas em completo afastamento do mundo fez com que concebesse o projeto de se retirar num Mosteiro de sua Ordem que fica na cidade. Lá foi ele pedir ao Abade a permissão de passar ali alguns dias com seus Religiosos. Ao chegar ao Claustro, encontrou um Religioso muito idoso, que, tendo reconhecido que ele era francês, o tratou com toda delicadeza, e logo se informou  sobre o assunto que o trazia à sua casa. Disse-lhe o Abade que vinha para saudar o Superior e lhe pedir a graça de lhe permitir passar sete ou oito dias com seus Religiosos. O bom velhinho, mais sincero do que costumam ser os italianos, disse-lhe francamente que não lhe aconselhava fazer esse pedido, que aparentemente não lhe recusariam, mas que não lhe traria toda a satisfação esperada:

- O senhor é francês - disse-lhe - e não se adaptará facilmente ao nosso modo de viver, o que lhe causará tristeza e também a nós. Os franceses - prosseguiu - são delicados demais quanto á observação da Regra da Ordem, e facilmente se escandalizam quando veem que não praticamos todas as coisas com a máxima exatidão; os senhores se horrorizam com o que consideramos ninharias, como se fossem imoralidades pavorosas; dou-lhe um exemplo: jamais lemos durante as refeições, cada um se porta como bem quiser. Terminado o almoço ou o jantar, lançam um baralho sobre a mesa e joga quem quiser, ou vão divertir-se com alguma outra coisa. Tenho certeza que se o senhor visse essas coisas, elas lhe desagradariam. Por isso julguei meu dever avisá-lo, para que o senhor tome as suas medidas com relação a isso.

É fácil imaginar que as medidas foram tomadas de imediato pelo Abade da Trapa. Espantadíssimo com um comportamento tão irregular, saiu rapidamente do Mosteiro e resolveu não procurar em Roma outro retiro senão a sua própria Casa.
(pp. 344-348)

Fico imaginando o que diria o velho trapista se lhe caísse entre as mãos a exortação do papa Francisco.

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