Pesquisar este blog

domingo, 15 de dezembro de 2013

Frei Luis de León e as palavras


Como pode voar alto a doutrina cristã, quando se deixa pensar e exprimir livremente, longe do bom-mocismo alegrão que assola a nossa Igreja! Exemplo disso são as obras do grande frei Luis de León (1527-1591), um dos maiores nomes da literatura católica de todos os tempos, tanto na prosa como nos versos.

Abaixo, uma indigníssima tradução para um pobre Brazilian Portuguese de um trecho da obra-prima De los Nombres de Cristo:

"O nome, se houvermos de dizê-lo em poucas palavras, é uma palavra breve que substitui aquele de quem se diz e se toma por ele mesmo. Ou nome é aquele mesmo que se nomeia, não no ser real e verdadeiro que ele tem, mas no ser que lhe dá a nossa boca e entendimento.
Porque se há de entender que a perfeição de todas as coisas, e em especial das que são capazes de entendimento e razão, consiste em que cada uma delas tenha em si todas as outras, e em que, sendo uma só, seja todas o quanto lhe for possível; porque nisso se aproxima de Deus, que em si contém tudo. E quanto mais nisso crescer, mais se aproximará dele, fazendo-se-lhe semelhante. Tal semelhança é, se assim convém dizê-lo, o anseio geral de todas as coisas e o fim e como o alvo aonde enviam seus desejos todas as criaturas. Consiste, pois, a perfeição das coisas em que cada um de nós seja um mundo perfeito, para que assim, estando todos em mim e eu em todos os outros, e tendo eu o ser de todos eles, e todos e cada um deles tendo o meu ser, se abrace e se enlace toda esta máquina do universo, e se reduza à unidade a multidão de suas diferenças e, ficando não misturadas, se misturem, e, permanecendo muitas, não o sejam; e para que estendendo-se e como desdobrando-se diante dos olhos a variedade e diversidade, vença e reine e ponha seu trono a verdade sobre tudo. Isto é avizinhar-se a criatura de Deus, de quem mana, que em três pessoas é uma essência e, em infinito número de excelências não compreensíveis, uma só perfeita e simples excelência.
Pois sendo a nossa perfeição isso que digo, e desejando cada qual naturalmente a própria perfeição, e não sendo avara a natureza em prover a nossos necessários desejos, proveu nisto, como em tudo o mais, com admirável artifício; e assim, por não ser possível que as coisas, de materiais e toscas que são, estivessem todas umas nas outras, deu-lhes a cada uma delas, além do ser real que têm em si, outro ser de todo semelhante a ele, mas mais delicado, e que nasce de certa maneira dele, no qual estivessem e vivessem cada uma delas nos entendimentos de seus vizinhos e cada uma em todas, e todas em cada uma. E ordenou também que dos entendimentos saíssem, de modo semelhante, com a palavra às bocas. E dispôs que as que em seu ser material pedem cada qual seu próprio lugar, naquele ser espiritual pudessem estar muitas, sem confundir-se, num mesmo lugar, juntas em companhia; e ainda, o que é mais maravilhoso, uma mesma ao mesmo tempo em muitos lugares."
(edição Aguilar, Austral, pp. 20-21)

Nenhum comentário:

Postar um comentário