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sábado, 7 de dezembro de 2013

Análise: Evangelii Gaudium e os falsos Pentecostes



Tradução feita por este vosso servo de um artigo do padre italiano Ariel S. Levi di Gualdo sobre a exortação apostólica Evangelii Gaudium, a Grande Avacalhação pós-conciliar e o único verdadeiro Pentecostes. O ensaio pode ser lido em italiano no sites Riscossa Cristiana, Concilio Vaticano Secondo e Chiesa e Post Concilio.


1. AQUELA PERGUNTA INSIDIOSA
Passo boa parte do tempo  entre o confessionário e os espaços privados em que se desenvolvem os encontros de direção espiritual, onde, com frequência cada vez maior, me cabe curar as feridas sangrentas de confrades sacerdotes, mas também de seminaristas que partiram com toda a pureza gerada pelas melhores esperanças cristãs, muitas vezes desiludidas, ou pior, às vezes traídas. Afirmar: “Cabe-me curar” é inexato. Sabemos muito bem  que só a graça de Deus cura, servindo-se, conforme o caso, de muitos instrumentos diferentes, inclusive de uma ferramenta grosseira como eu.
Um seminarista, estudante de teologia numa pontifícia universidade romana, fez-me uma pergunta interessante, mas também complexa; na verdade, insidiosa, até. Por isso decidi compartilhar com os leitores desta Revista teológica o diálogo que se desenvolveu entre esse jovem mal chegado aos trinta anos e eu, já à beira dos cinquenta. Foi esta a pergunta: «O período pós-conciliar foi celebrado como a era do “novo pentecostes” anunciado por João XXIII. Na realidade, ele viu manifestar-se uma crise sem precedentes, como nenhuma outra que a Igreja tivera de enfrentar. Como explicar uma devastação tão radical e um período tão longo de cegueira e silêncio da parte de quem teria o dever de proteger a fé e guiar o rebanho?». Respondi com considerações teológico-pastorais centradas na “hermenêutica da continuidade” e na “hermenêutica da descontinuidade”(…)
Nos anos do pós-Concílio surgiram duas hermenêuticas contrárias, às vezes antitéticas. A hermenêutica da descontinuidade e da ruptura, com grande repercussão nos mass-media, graças ao prolífico empenho de muitos expoentes da teologia moderna; e a hermenêutica da reforma, da renovação na continuidade. A hermenêutica da descontinuidade leva a uma ruptura inevitável entre a Igreja pré-conciliar e a Igreja pós-conciliar, com todas as perigosas consequências que daí se seguem.
Creio que Nosso Senhor Jesus Cristo tenha sido claro ao afirmar: «Eu estou convosco todos os dias, até o fim do mundo ». E também explica como seria «útil para vós que eu me vá; pois se não partir, não virá até vós o Consolador. Mas, se partir, eu vo-lo mandarei ». E nos tranquiliza: «O Consolador, o Espírito Santo, que o Pai mandará em meu nome, vos ensinará todas as coisas e vos recordará tudo o que eu vos disse ». O evento de Pentecostes começou no cenáculo do Espírito Santo, nunca teve fim e desde então fermenta num processo de ininterrupta continuidade, em que pese aos padres da Escola de Bolonha: Giuseppe Dossetti e Giuseppe Alberigo e da chamada hermenêutica da descontinuidade produzida, segundo eles, pelo Vaticano II. Teoria sobre a qual soam— permitam-me o termo de fato insolente, mas divertido — flautins e contrafagotes, como alguns de nossos leigos católicos italianos, de Alberto Melloni a Enzo Bianchi, circundados por um reverente coro secular de ateus devotos assentados dentro e fora do Pátio dos Gentios do Cardeal Gianfranco Ravasi; e que há demasiado tempo vem pontificando sem possibilidade de contraditório doutrinal ortodoxo. Presenças às vezes absolutas nas televisões públicas e privadas, promovidas pela imprensa anticatólica e pelas grandes editoras italianas, inclusive, infelizmente, a imprensa e as editoras católicas, a começar por aquelas administradas por congregações religiosas, como a Sociedade São Paulo ou até pela Conferência Episcopal Italiana, como no caso da revista Avvenire, órgão oficial dos Bispos da Itália, desde sempre vitrina e tribuna para diversos desses personagens notórios pela doutrina discutível.
2. A DITADURA DESTRUTIVA DOS MESTRES DO «MAIS DIÁLOGO, MAIS COLEGIALIDADE, MAIS DEMOCRACIA NA IGREJA»
No sentido mais finamente gramsciano do termo, flautins e contrafagotes vêm há muito monopolizando toda a cena pública, no plano histórico, teológico e pastoral, desencadeando um perigoso processo que, de facto, exclui qualquer voz contrária, mas sobretudo qualquer  voz autenticamente católica. Um fenômeno que já se transformou em tumor, com metástases espalhadas pelas nossas igrejas do Norte europeu, onde há décadas se tem até a ousadia de chamar o todo: “Mais diálogo … mais colegialidade … mais democracia”, enquanto são cada vez mais numerosas as igrejas antigas dos grandes centros históricos urbanos já vazias há décadas e por isso postas à venda pelas dioceses, para serem adquiridas por particulares e por empresas e por eles transformadas em elegantes restaurantes ou em lojas de luxo. Creio que afixar sobre esses edifícios lápides em memória do Padre Edward Cornelis Florentius Alfonsus Schillebeeckx O.P. ou do Padre Karl Rahner S.J, para celebrar e transmitir aos pósteros os resultados concretos da sua evidente obra e daquela ainda pior dos seus “netinhos” sócio-políticos disfarçados de teólogos, mais que ironia seria só pura e simples honestidade intelectual e eclesial, justamente o que hoje parece faltar mais do que nunca, de cima a baixo.
3.  AS PÉROLAS: BRUNO FORTE E O “PAPADO COLEGIAL”, O PORTA-VOZ  DA SALA DE IMPRENSA DO VATICANO E ENZO BIANCHI QUE “REINVENTA A IGREJA”
Recentemente, pouco depois da eleição do novo Romano Pontífice, S.E. Mons. Bruno Forte, responsável pela doutrina da fé da Conferência Episcopal Italiana — de que tratou há pouco o presbítero e teólogo Brunero Gherardini, sem que isso produzisse os frutos esperados por poucos ou muitos — voltou a nos deliciar, cunhando um novo instituto eclesial numa entrevista dada em março  de 2013 a um Especial da Rai Uno: o «Papado colegial». Nos dias seguintes, para nós, presbíteros, que vivemos em contato com os membros vivos do Povo de Deus, não foi fácil responder aos que pediram explicações a este respeito. Isso nem tanto pela pérola eclesiológica em si, mas pela autorizada boca que pelo éter a fez chegar aos ouvidos de milhões de telespectadores.
Analogamente, gostaria de analisar rapidamente — mas por honestidade católica, pastoral e teológica não posso fazê-lo — o discurso público pronunciado pelo porta-voz oficial da Sala de Imprensa Vaticana por ocasião do 70° aniversário do “prior” de Bose, ou seja, aquela deliciosa pessoa de Enzo Bianchi, que «nos ajuda a reinventar a Igreja». Uma frase, «reinventar a Igreja» ou  «reinventar a fé», cheirando a velha naftalina dos anos setenta, entre obscuros comitês de base onde se brincava de falar sério quando se discutia sobre “a síntese dialética da alternância ideológica” e nos quais a efígie de Nosso Senhor Jesus Cristo era perigosamente confundida com a de Ernesto Guevara, conhecido como el Che. E se em 2013, à luz das velinhas postas sobre o bolo de aniversário de um septuagenário, presente como ilustre relator também o porta-voz oficial de Sua Santidade, ele nos entretém ainda com esse «reinventar», francamente só nos resta implorar: miserere nostri, Domine, miserere nostri. In te, Domine, speravi: non confundar in aeternum. E, por fim, confiar: quoniam in aeternum misericordia eius.

4.  NÃO SE BRINCA COM AS PALAVRAS: O EVENTO DE PENTECOSTES É NEGAÇÃO DA HERMENÊUTICA DA RUPTURA

O evento histórico e real de Pentecostes é a negação cristológica e pneumatológica da hermenêutica da ruptura, para não falar de certas reconstruções que nascem depois de devastadoras desconstruções, sobre as cinzas das quais se busca, em seguida, reinventar a Igreja de Cristo. Na experiência cristológica, somos chamados a descobrir e acolher o Verbo Encarnado e a vivê-lo em união de mútua transformação, não, é claro, a pô-lo sobre a mesa das autópsias exegéticas, para desmembrá-lo e depois recosturá-lo ao nosso gosto modernista, tomando do corpo de Cristo o que nos agrada e como nos agrada. Ou melhor: «Afirmou-se um catolicismo à la carte, em que cada qual escolhe a porção que prefere e rejeita o prato que considera indigesto».
O convite a ser «perfeitos na unidade» implica como corolário a harmônica continuidade, para que «o mundo creia que me mandaste ». Essas afirmações joânicas delineiam um início e uma continuidade incessante, até a parusia. De Pentecostes nasce e parte a história da Igreja e começam os  “Atos dos apóstolos¨. A Igreja é, portanto, fruto vivo de um início que nunca teve fim e desde sempre é missionária e peregrina sobre a terra. Com a expressão «novo Pentecostes» talvez pretendessem referir-se de modo mais sedutor que teológico, ou melhor, talvez, poético-mediático, não tanto a uma nova descida do Espírito Santo ao Cenáculo, quanto ao trabalho incessante sobre a Igreja do Donum Dei altissimi que Jesus nos prometeu até o fim dos tempos. Porque se a Igreja não fosse de fato governada pelo Espírito Santo de Deus, hoje não estaríamos aqui; seríamos só o objeto de estudos antropológicos, do mesmo modo como são hoje estudadas as antigas e extintas crenças religiosas dos egípcios, etruscos, gregos …
A teologia tem, porém, sua linguagem própria, direta e precisa. Basta pensar no problema teológico da Pessoa de Jesus que abala os primeiros oito séculos de história da Igreja, entre intermináveis heresias e problemas semânticos entre Oriente e Ocidente. E hoje, enquanto adentramos este fim do ano de 2013, a falta de clareza e as afirmações ambíguas parecem muitas vezes servir de padrão dentro da Igreja, com uma desorientação da parte dos fiéis católicos jamais vista, assim como, antes de hoje, nunca se haviam visto hordas de anticatólicos militantes e de ateus devotos celebrarem a clara simpatia mediática da pessoa humana em si e fim em si, em vez do sólido ministério petrino edificado sobre uma rocha que, por mistério de graça, jamais deveria ser cindida da pessoa que a encarna, uma vez que o Príncipe dos Apóstolos deixa de ser Simão para tornar-se Pedro, a pedra sobre a qual Cristo edificou a sua Igreja.
Hoje, até que ponto está claro, para o pescador Simão, que hoje ele é Pedro, o pastor universal, e até que ponto está claro para o pastor universal, Pedro, que ele não pode continuar sendo o pescador Simão, perdido pelas periferias existenciais das aldeias de pescadores da Judeia?
A boa e sã teologia e, por consequência lógica, o melhor e mais sadio ministério pastoral não contemplam expressões extemporâneas ou as chamadas comunicações “de improviso”, estilo “moções” de carismáticos-animistas ou “ressonâncias” de neocatecumenais-pentecostais, mas palavras claras e precisas, não circunlocuções que podem querer dizer tudo, mas querendo também o exato oposto, segundo a lógica das “palavras novas” revelada ao longo do último meio século tragicamente falimentar.
A tal propósito, basta recordar que era tão grande o mistério daquele «Verbo que se fez carne» e «era no princípio e era junto de Deus», que sequer existiam palavras no dicionário para defini-lo. Por isso tivemos de criar antes de tudo as palavras, tomadas muitas vezes emprestadas do pensamento filosófico grego e por ele moduladas. Basta pensar no conceito de hipóstase, que indica a natureza humana e a natureza divina do Verbo feito carne que habitam a mesma pessoa. Estamos diante de uma arquitetura teológica, de uma estrutura de engenharia construída milimetricamente ao longo dos séculos. E nascem justamente daí certos problemas: algumas correntes do último concílio introduziram diversas ambiguidades nas sessões, que depois explodiram de modo virulento no pós-concílio, até criarem a ideia por si só eclesialmente aberrante de hermenêutica da descontinuidade, e, por fim, desembocarem — e isto com todas as mais dramáticas e evidentes consequências — na autêntica ditadura do relativismo daqueles que por algumas décadas brincaram com “palavras novas”. E hoje, de uma cátedra teológica à outra, alguns ensinam como superdogmática “verdade” de “fé” que o Concílio teria rompido com a tradição anterior. Mas o que é pior é que eles falam da Igreja “anterior” como se, em tudo e por tudo, fosse realmente outra Igreja…
5.  AS PIORES HERESIAS SEMPRE COMEÇAM JOGANDO COM AS PALAVRAS
Afirmar de modo aberto ou ambíguo que a Igreja do pós-concílio Vaticano II é outra Igreja em relação à anterior é pura contradição teológica nos termos, além de letal em outras delicadas vertentes eclesiológicas, pastorais e formativas. Assim procedendo, pratica-se uma verdadeira corrupção das mentes de nossos  jovens e dos futuros sacerdotes, primeiro obrigados a assimilar essas doutrinas enganosas e depois obrigados a repeti-las com as mesmas palavras com as quais muitos dialogantes docentes “liberal-colegiais” exigem ouvi-las  repetidas em muitas universidades e colégios pontifícios romanos, e não só lá. Sob pena de serem totalmente podados — de modo naturalmente dialogante e liberal-colegial, é claro! — os que ousam não dobrar-se às suas fraseologias hereticizantes, ou pior, os que ousam não pensar como eles. Não é, sem dúvida, novidade, mas já se sabe há muito como os ultras liberistas ou heréticos são por íntima natureza arrogantes, agressivos e coercitivos; de modo especial aqueles disfarçados por trás do véu de noiva do “mais diálogo … mais colegialidade … mais democracia”. Jamais nos esqueçamos de que as piores heresias começam sempre jogando com as palavras, para enfim chegarem a desconstruir ou destruir a fé nos membros vivos do Povo de Deus, depois de terem esvaziado as palavras de seu significado e de tê-las preenchido com outro.   E o discurso ambíguo, além de ser um não discurso teológico, provoca sempre o efeito de um discurso perigoso, tanto mais grave quanto mais autorizados forem os lábios dos quais fluam tais ambiguidades. Eis aqui um exemplo claro a este respeito: eliminar do vocabulário eucarístico a palavra transubstanciação e substituí-la pelo termo mais socialmente correto de transignificação e transfinalização, como ensinam certos perigosos e medíocres netinhos da Nouvelle Théologie na Pontifícia Universidade Gregoriana ou naquele covil de filoprotestantes que é notoriamente o Pontifício Ateneu Santo Anselmo, não é uma simples renovação da metafísica tomista, mas algo que leva à inevitável alegorização, à Eucaristia como mero símbolo, não mais ao divino mistério da presença real de Cristo vivo e verdadeiro.
Quem pretende ultrapassar a metafísica deve fazê-lo produzindo outro pensamento de rigor superior. Santo Tomás de Aquino pode até ser superado, ou substituído, se quiserem, no fundo é só um santo doutor da Igreja, decerto não é a palavra encarnada de Deus, além de não estar imune, como todos os mortais, a diversas imperfeições. Duvido, porém, que essa superação e essa substituição possam acontecer mediante a equívoca filosofia religiosa do Santo Tomás de Aquino dos jesuítas da década de 60, Karl Rahner, que pretende ultrapassar a metafísica clássica, correndo o risco, na maioria dos casos, de reassumir, por vezes sem ter disso nenhuma consciência nem preparo para tal, a confusa característica de fundo, tendendo a articular certas suas especulações com base na neoescolástica decadente, com o uso do metro de Francisco Suarez, que, partindo, por sua vez, do aristotelismo escolástico tomista, elaborou doutrinas teológicas e filosóficas, por assìm dizer, originais. De fato, Karl Rahner é, sem dúvida, genial! É o gênio da tudologia-confuso-teológico-filosófica-sociológica, que, como tal, passeia da dogmática à patrologia à eclesiologia à escolástica, sem conhecer bem e a fundo nem umas, nem outras, tudo reduzindo a uma sócio-filosofia religiosa que alguns até hoje teimam em chamar de escola teológica rahneriana. Já faz meio século que nas nossas bocas muitas vezes cheias de ar remexemos o conceito de “palavras novas”, esquecendo cada vez mais e cada vez mais perigosamente aquela Palavra viva, eterna e sem tempo que nasce do mistério do Verbo Encarnado. É Deus que é palavra viva, e é só Deus que nos pode dar um «coração novo». Não somos nós que podemos dar um coração novo a Deus com algumas de nossas frívolas “palavras novas”.
Aquela que alguns chamam, ou pior, rotulam de “ tradição anterior” parte do Concílio de Jerusalém e se desenvolve ao longo dos séculos até o Vaticano II, um concílio pastoral fruto da continuidade teológico-eclesial de todas as experiências precedentes. A Igreja não nasce da pastoralidade do Vaticano II, menos ainda do pós-concílio dos teólogos intérpretes que transformaram suas próprias elucubrações num autêntico superdogma, hoje elevado à condição de verdadeira ditadura. Declarar a ruptura e a descontinuidade com a tradição anterior quer dizer transformar a Igreja em outra coisa e romper a união com a continuidade ininterrupta do Cenáculo. Como se de repente o Espírito Santo descesse na sua Igreja pela primeira vez por volta da metade do século XX, para júbilo de todos os altos notáveis da Nouvelle Théologie, ou da New Theology, da Teologia da Libertação, da Teologia Sincretista, enfim, da Teologia Indigenista, que transformou a “Igreja anterior” em algo entre uma serva a soldo dos colonizadores e uma perigosa inimiga.

6  A TRADIÇÃO SÃO OS PILARES QUE SUSTENTAM A VELHA PONTE QUE UNE O HUMANO E O DIVINO, O DIVINO E O HUMANO. RECONHECEM-SE OS BISPOS QUE PARTICIPARAM DO SÍNODO NO DOCUMENTO FINAL EVANGELII GAUDIUM?
A “devastação radical” que hoje temos diante dos olhos nasce do fato de que, em vez de “renovar” a Igreja no respeito e no fortalecimento da tradição e do dogma, muitos se dedicaram a solapar os delicados equilíbrios que surgiram e depois se solidificaram a partir da primeira época apostólica, reforçando-se através dos grandes concílios dogmáticos e da obra dos grandes padres da Igreja. Com a temporada do pós-concílio teve início a grande crise do dogma, e as verdades divinas e eternas acabaram sendo substituídas pela dogmatização dos pensamentos humanos, pois quando o homem já não crê nas verdades fundamentais, acaba crendo em tudo, lançando-se cegamente às palavras ambíguas escondidas por trás das inevitáveis “palavras novas” dos piores provocadores: os falsos profetas.
A tradição são os pilares que sustentam a velha ponte que une o humano e o divino, o divino e o humano. Quando a ponte foi construída e depois ampliada e reforçada ao longo do tempo, não existiam os automóveis, viajava-se a pé ou a cavalo. É claro que, em certo momento, a velha ponte devia ser preparada para receber também o trânsito de automóveis. Infelizmente, porém, alguns “rapazitos teólogos”, aqueles que discutiam, nos bares e nos cafés de Roma, com os jornalistas sobre as estratégias a adotar na assembleia conciliar, vieram a solapar exatamente os pilares. E hoje nos vemos com uma ponte periclitante e insegura, graças aos vários Giuseppe Ruggieri e aos vários Andrea Grillo que nossos bispos deixaram irresponsavelmente ensinar nos cursos de teologia, para envenenarem pela raiz as mentes dos nossos futuros sacerdotes, enviados depois para confundir e escandalizar o Povo de Deus na doutrina da fé e na sagrada liturgia, chamando impiedosa e agressivamente aqueles que se declaram escandalizados com suas palavras de “católicos infantis” e “imaturos”, que ainda não se tornaram verdadeiros “cristãos adultos” sob o vento do novo Pentecostes, graças ao qual no século XX finalmente nasceu a Igreja, depois de passar os dezenove séculos anteriores apenas brincando.
Não sei o que pretenda fazer aquele que, por alto e inefável ministério, è chamado a custodiar a fé e a guiar o rebanho, só sei é que ele é a ponte, ou melhor, segundo o étimo de pontem facere, um construtor de pontes. A palavra pontífice nasceu na primeira época romana do antigo Pons Sublicius. De fato, era assim chamado o grão-sacerdote da antiga religiopontifex maximus, que, sentado sobre aquela ponte, vigiava os movimentos das águas e o voo dos pássaros, além de praticar diversos outros ritos. Hoje, o nosso Sumo Pontífice corre o risco de ver os céus que cobrem a ponte carregados de bandos de urubus, aos quais esperamos de coração que ele não sirva de alvo. Com mais forte razão nele confiamos para ver de novo as andorinhas voando nos céus e para trazer de volta a primavera de sempre, a do cenáculo dos apóstolos. A única e verdadeira primavera nascida do Espírito Santo de Deus, que teve início naquele cenáculo apostólico e desde então jamais cessou, apesar do empenho forte e incessante de muitos homens, ao longo dos séculos, de fazerem cair as cortinas das trevas, ora através de “palavras novas” pronunciadas sobre o cadáver estendido sobre a maca das autópsias do anatomopatologista, ora com a “hermenêutica da descontinuidade” … Por isso considero razoável afirmar que, do cenáculo do Espírito Santo até a parusia, não é possível chegar ao «Seu reino que não terá fim » através da descontinuidade e das ambíguas “palavras novas”, em especial as dos falsos profetas que “reinventam a Igreja”, mas só através daquela continuidade perfeita e daquelas palavras precisas de que o homem, embora falível e imperfeito, é chamado a ser fiel instrumento, porque templo privilegiado da ação da graça de Deus desde a aurora dos tempos.
Este é o motivo pelo qual, depois de ler a exortação pós-sinodal Evangelii Gaudium, me fechei no silêncio, consciente de que em certos momentos a eficácia da oração cristã, nascida da verdadeira fé, serve muito mais à Igreja do que sair correndo para ir bater a cabeça contra uma parede de borracha, movido por desespero inteiramente humano e, talvez, também pouco cristão.
A resposta a esse documento decerto não posso dá-la eu, que sou o último presbítero do mundo católico. Deveriam dá-la, porém, os bispos, em especial aqueles que participaram daquele sínodo, respondendo a uma pergunta simples e óbvia: reconhecem-se eles, de modo livre e colegial, na patente falta de clareza das palavras às vezes ambíguas que caracterizam aquele documento conclusivo, que parece ora dizer tudo e pouco depois, talvez, o seu exato contrário?
Com dor e aflição só posso  dizer que aquele documento parece um absurdo: não se sabe a quem fala nem o que quer. Não é nem teologia nem homilética, mas retórica, com não poucos pontos de ambiguidade. Não se diz “sim” e não se diz “não”, diz-se que talvez possa ser um pouco não e talvez um pouco sim. Parece inteiramente ditado por aqueles teólogos progressistas hoje no poder, que visam a “reinventar a Igreja” com as suas ruinosas “palavras novas”.
E que o Espírito Santo de Deus assista a sua Igreja e assista todos nós, seus servos fiéis e devotos.
Ariel S. Levi di Gualdo  

Ariel Stefano Levi di Gualdo nasceu em Maremma Toscana em 19.08.1963. Foi consagrado sacerdote em Roma. Dirige a Coleção teológica Fides Quaerens Intellectum das Edições Bonanno. Desenvolve o ministério sacerdotal principalmente como confessor, diretor espiritual e pregador. É autor de diversos ensaios editados pela editora Bonanno e de vários artigos publicados em diversas revistas teológicas internacionais italianas e estrangeiras.


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