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domingo, 11 de agosto de 2013

Conselhos a uma jovem religiosa



Carta do pe. Surin, SJ,  a Françoise Milon, religiosa beneditina, escrita em Loudun pouco depois do início dos exorcismos das religiosas ursulinas:

Dizes, minha querida irmã, que queres entregar-te ao santo Amor, que te faz sentir sua atração. Fico feliz com isso. Mas sabes bem o que isso vai te custar? Terás de tornar-te selvagem aos olhos do mundo, de passar por louca ao juízo da prudência humana, de estar como perdida para ti mesma, não sentindo-te tu mesma; de te comportar como pessoa alienada mentalmente, como não mais te possuindo, tendo teu espírito te sido tirado.

Será esse divino amor que terá feito esse rapto, como tantos outros. Pois Seus golpes são ousados. Executa façanhas surpreendentes. Quando dirige os olhos a uma alma, vem dela apoderar-se com autoridade, e a leva a um país estranho, onde lhe mostra um mundo novo. É fácil julgar que tal alma não mais se pertence. Percebe-se bem que ela tem um novo Senhor, mas nem sempre se sabe quem seja esse novo Senhor. Muitas vezes ignoramos que é esse amor vitorioso, esse divino conquistador dos corações. Ele sabe a arte de encantar e tem encantos a que não se pode resistir. Toma quem bem Lhe parece e não temos o direito de Lhe perguntar por que assim age. Pois responderia que tem todo o poder no céu e na terra.

E se Lhe dissessem: "Por que, depois de ter raptado esta alma, a tornais selvagem? Por que a fazeis parecer insensata aos olhos do mundo?" Ele replicaria: "Porque é este o meu prazer. Nada tens que ver com isso. Eu vou pelo mundo. Procuro súditos. Faço conquistas. Esta se entregou a mim. Usarei dela como de coisa que me pertence; separa-la-ei do que lhe é mais querido; despoja-la-ei do que tinha de mais íntimo. Fa-la-ei sair de si pelo sentimento de Minha pureza e de Minha potência. Digam o que quiserem; pouco nos importa que o mundo aprove o nosso amor. Esse mundo perverso recebeu o poder de crucificar a inocência e de condenar a sabedoria."

O amor divino tem o direito de falar assim. Seu poder é soberano, e felizes os súditos sobre o qual Ele Se exerce. Desejo, minha querida irmã, que dele use para contigo e que te leve para tão longe, que venhas a te esquecer de tudo, até de ti mesma.

Entrega-te a Ele sem reservas. Não tenhas medo de acostumar-te com Suas maneiras. Ele vai querer comunicar-te Seu humor. Seus sentimentos são opostos aos do mundo; Ele vai querer dar-te Seu espírito e pôr de ponta cabeça as tuas ideias, para te conformar às dEle. Ele se veste de um jeito estranho; vai querer que sigas a mesma moda.Ele mora num clima de fogo, que consome seus habitantes; Ele te levará para lá. Segue-O sem resistência. Abandona-te à Sua guia e decide-te a viver em tudo segundo Suas leis. Quanto mais submissa Lhe fores, mais feliz serás.

É esta a felicidade que te desejo.

Loudun, 13 de abril de 1635.


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