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domingo, 21 de julho de 2013

Michel de Certeau e as ruínas da Igreja

Um dia, se aparecer um escritor de talento, ele certamente escreverá uma Teológica Comédia, com os diversos avatares da teratologia doutrinal pós-conciliar. E nesse novo  tour pelo inferno, um canto de destaque será certamente dedicado a Michel de Certeau, SJ.

Brilhante e cultíssimo, o padre De Certeau iniciou sua diversificada carreira de erudito estudando a mística do Grande Século francês, mais especificamente, a obra do grande pe. Surin, de que foi o competente editor e ao qual devotou diversos estudos.

Pego na praia pelo gigantesco tsunami pós-conciliar, deu início a uma diversificada jornada pela psicanálise, pela historiografia, pela política e pela sociologia universitárias. Foi um dos superstars da nova história francesa, ao lado de Michel Foucault, Paul Veyne, Philippe Ariès e G. Duby.

Partir de Loudun de 1630 para chegar à Sorbonne de 68 é um périplo e tanto, ao fim do qual a figura do Mal se inverte. Não se sai da mais alta espiritualidade católica para cair no mais baixo freudo-marxismo impunemente. O contraste exagerado não fez bem ao estudioso jesuíta, como antes para o mesmo Surin.

Mas não o fez perder a lucidez. Prova disso é este trecho do seu livro póstumo, la Faiblesse de croire, quadro dantesco e exato das ruínas da Igreja no Ocidente maçônico:

Hoje, semelhante a essas ruínas majestosas de onde se tiram pedras para construir outros edifícios, o cristianismo tornou-se para as nossas sociedades o fornecedor de um vocabulário, de um tesouro de símbolos, de signos e de práticas reutilizados em outros lugares. Cada qual os usa à sua maneira, sem que a autoridade eclesial possa administrar a sua distribuição ou definir à vontade o seu valor de sentido. A sociedade ali se serve para encenar o religioso no grande teatro dos mass media ou para compor um discurso tranquilizador e genérico sobre os «valores». Indivíduos e grupos tomam emprestados « materiais cristãos» que articulam ao seu jeito, praticando ainda hábitos cristãos sem, porém, se sentirem obrigados a assumir seu sentido cristão completo. Por isso o corpo (unidade social constituída por redes de práticas, de ideologias e de quadros de referência) cristão já não tem identidade; fragmentado, disseminado, perdeu confiança e o poder de gerar, em seu único nome, militâncias. (p. 299)

Pode-se ler um resumo do livro no site dos jesuítas franceses .

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