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domingo, 21 de abril de 2013

Pedro de Santa Maria (+ 1564) e a morte prolixa

Sé de Lisboa

E pois que trás desta vida tão breve vem a triste morte tão certa, e sua hora tão incerta, cousa justa é que havendo até agora nesta obra escrito o que convém para bem viver, digamos agora do fim e acabamento desta a que chamam vida, scilicet, da morte, que logo se segue. Ou por melhor dizer, como diz Sêneca, cada dia e contino morremos, pois que cada dia e cada momento nos cortam um pedaço da mísera vida, e tanto quanto mais imos crescendo, tanto decresce e mingua a vida e se achega a morte. De maneira que se bem queremos atentar veremos claramente o que diz S. Gregório, scilicet, que esta vida não é senão uma morte prolixa, pois no mesmo dia que nascemos se nos começa de descontar da vida todo o tempo que vivemos. De modo que se perguntarem quantos anos haveis, poderás responder com verdade: hei ou tenho menos ou tirados de minha vida quarenta anos, que há que nasci: Et nos nati continuo definimus esse. Em nascendo começamos a morrer, e certamente que se isto considerássemos como devemos, sem duvidar faríamos muito caso de tudo o que se contém neste tratado para concertar a vida, e para nos aproveitar do tempo, pois é tão breve (...).

Devíamos também considerar, como diz S. Bernardo, o como morreremos, porque mui grão mercê receberemos se a morte não for supitânea e arrebatada. E já que seja conhecida e sossegada ou quieta, todavia lhe acompanham muitas angústias e terríveis dores e trabalhos, sem nos poder valer nem remediar todo o mundo, ainda que todo fosse nosso e desejasse muito nossa vida, nada nos pode aproveitar, mas pouco e pouco se vai afeando e desfazendo este mísero corpo que tanto amamos e amimamos. O rosto amarelece, os olhos se quebram, a língua emudece, os temores e dores crescem, os espantosos demônios aparecem mui cruéis inimigos e mais importunos que nunca, por não perderem o que hão trabalhado todo o tempo passado, em sujeitar a seu serviço os viciosos. E ainda contra os virtuosos trabalham fortemente, porém estes são socorridos da parte do grande Senhor Deus a quem serviram e obedeceram, e vencerão a si mesmos e aos inimigos de seu Deus.

Oh dia tão certo, e não sei quando, como, nem onde! Dia temeroso e digno de contínua memória, e tão esquecido; e dia tão necessitado de muita provisão e tão desprovido; dia quando tanto se deseja a vida, sem poder ser a vida nem cobrada!...

Oh, dia para o qual nos foram concedidos todos os dias da vida, e quão poucos ou nenhuns lhes demos nem aplicamos como devíamos!

(Texto extraído da excelente Antologia  de Espirituais Portugueses, Lisboa, Inmc, 1994, pp 113-114).

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