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terça-feira, 31 de dezembro de 2013

Abolição do pecado


É inacreditável, mas é verdade.

A confusão doutrinal chegou a tal ponto com o papa Francisco, que é necessária uma intervenção especial de seu porta-voz para explicar aos fiéis boquiabertos que não é verdade que o papa tenha abolido o pecado.

Ou seja, embora argentino, o papa não acha que não existe pecado do lado de baixo do equador -  ou de cima.

Que a revogação de ponto tão fundamental da Fé cristã possa ser levada a sério pelos fiéis mostra o grau de escuridão e breu a que chegou a exposição da doutrina católica.

Doutrina cuja revelação nos custou a vida do Filho de Deus e sua horrorosa morte na Cruz, depois de torturado, humilhado, achincalhado.

Doutrina cuja defesa, transmissão e preservação custou o martírio e as tribulações de tantos e tantos e tantos santos ao longo dos séculos.

A confusão doutrinal é hoje absoluta e, o que é pior, o restabelecimento de nítidas balizas para o estudo do sagrado depósito da Fé não só não aparece entre as prioridades de Francisco, mas é até mesmo tida como perigosa e, pasmem, pelagiana!!!! Pelagiana !!!!! Herética !!!!!! Imaginem a cara de Santo Agostinho se ouvisse uma coisa dessas...

Pelo andar da carruagem, mais um pouco e teremos de recorrer ao mesmo porta-voz para sabermos que o papa não aboliu a existência de Deus.

Pelo menos por enquanto.

O conferencista e o operador de som


Um conferencista dá uma palestra num grande auditório. Para falar a tanta gente, precisa de um microfone, de um sistema de som e de alto-falantes. Acontece que o operador de som é inimigo do conferencista, discorda radicalmente dele em muitos pontos cruciais e, por isso, quando o conferencista fala algo que lhe desagrada, ele corta o som, e ninguém ouve nada.
O público, confuso com tantos silêncios e cansado de só ouvir sempre as mesmas banalidades, vai deixando o auditório.
Desanimado e impotente, o conferencista resolve mudar de estratégia.
Busca fazer amizade com o operador, deixa de falar sobre determinados assuntos controversos, expulsa do auditório os simpatizantes das causas que o operador mais abomina.
Os dois ficam grandes amigos, trocam abraços e beijos, mas, quando olham para a plateia, não veem mais ninguém.
Um olha para o outro e riem: o que estamos fazendo aqui?
Resolvem sair pelas ruas. Lá fora, a multidão é grande, mas dá com prazer passagem a tão alegre par.
Nuvens negras cobrem o céu sobre suas cabeças, porém.

segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

O mundo a um passo de se converter em massa ao Catolicismo


Coisas muito estranhas estão acontecendo.
Depois da revista gay que escolheu como personalidade do ano o papa Francisco, chegou a vez do Google homenagear o pontífice.
Se, no Google Translator, se digitar a palavra Bergoglio e se pedir a tradução do italiano para qualquer outra língua, o resultado será o equivalente nessa língua da expressão "mundo melhor": better world, mundo mejor, mundo melhor, mundo melius etc. etc.
É o mundo que se rende aos encantos do papa argentino!
Das duas, uma: ou o mundo foi finalmente tocado pela Graça e está próximo da conversão, ou o Vaticano é que foi finalmente tocado pelo mundo.

domingo, 29 de dezembro de 2013

Os Franciscanos da Imaculada e a maçonaria



Conferência do pe. Paolo Siano, FI, sobre as relações da maçonaria com a Igreja, pronunciada poucos dias antes da renúncia de Bento XVI.

Pe. Siano, grande estudioso da maçonaria, com a recente intervenção de Dom Braz de Aviz, foi nada menos que destituído de seu trabalho de professor no seminário da Ordem e exilado na África.

Sinal dos tempos: quando Paulo VI descobriu que Annibale Bugnini, o grande arquiteto da missa Novus Ordo, era maçom, destituiu-o imediatamente de seus cargos na Cúria e o nomeou núncio apostólico em Teerã. Hoje, os que se opõem aos irmãos são gentilmente convidadados a passar os próximos 50 anos na África.

Bruxos e padres em alegre diálogo: o mesmo deus?



Adorável vídeo. Entre outras preciosidades, em 43:07, pastores e bruxos unidos contra um inimigo comum, a Igreja.

sábado, 28 de dezembro de 2013

A Eucaristia segundo os Franciscanos da Imaculada e segundo Dom Braz de Aviz



A missa Novus Ordo tal como rezada pelo pe. Manelli, fundador dos Franciscanos da Imaculada, recentemente afastado pelo cardeal Braz de Aviz.



A missa tal como celebrada pelo cardeal Braz de Aviz, o Calvo, um dos grandes entusiastas da liturgia e da espiritualidade do parabéns a você e do bingo.

Franciscanos da Imaculada: a mais sublime homilia



Homilia do padre Stefano Manelli, fundador dos Franciscanos da Imaculada, recentemente deposto por determinação de Dom Braz de Aviz.

Certamente uma das mais sublimes homilias a que Deus me deu a graça de assistir em minha vida.

Como é possível que em meio à lama espiritual da Igreja de hoje, Roma tenha escolhido castigar justamente ao padre Manelli?

Temos notícia, por uma carta escrita por um dos Franciscanos sob cativeiro (literalmente), de que o pe. Manelli foi absolutamente isolado. Hoje os frades e freiras  sob intervenção não podem escrever ou telefonar para ele, falar com ele e muito menos encontra-se com ele. É o pária absoluto.

Qual a razão de perseguição tão estapafúrdia e brutal?

Subsídios abundantes   para uma resposta no vídeo acima.

Regina confessorum, ora pro nobis!






sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

Nouvelle théologie, oração e bibliografia


A nouvelle théologie era o catolicismo acadêmico, adaptado ao irrespirável narcisismo da universidade leiga.
Depois de rezarem, Yves Congar, De Lubac e Urs von Balthasar faziam questão de explicar para Deus o Pai Nosso, com notas de rodapé e bibliografia atualizada.

Religiosidade recreativa


A essência da chamada nova religiosidade - e que com a única verdadeira religião absolutamente nada tem em comum - é o seu caráter recreativo. Pede-se ao sagrado uma viagem, um pouco de adrenalina, um friozinho na barriga. Não é de admirar a presença maciça nos novos movimentos pseudocatólicos, como o culto animista de Medjugorje e a renovação carismática, de convertidos vindos do mundo das drogas recreativas. Para não falar das seitas new wave, wicca, satanistas etc. em que as drogas ocupam o lugar principal.

Já as seitas neopentecostais juntam o útil ao agradável: o friozinho na barriga do "espírito" e a chance de ganhar muito dinheiro investindo no "sr. Jesus". Paga cem por um! Sem dúvida, o melhor investimento.Sopa no mel!

Franciscanos da Imaculada e a hermenêutica do Concílio Vaticano II

Agradeço do fundo do coração ao nosso felliniano cardeal Braz de Aviz por ter-me chamado a atenção para os Franciscanos da Imaculada. Sem a sua intervenção punitiva contra estes piedosíssimos discípulos do Poverello, possivelmente jamais teria ouvido falar nessa congregação exemplar, raio de luz em meio às trevas pós-conciliares em que rastejamos.

Tentando entender essa intervenção absolutamente estapafúrdia, numa de minhas navegações topei com uma série de vídeos publicados no canal do pe. Lanzetta no Youtube. Esses vídeos mostram diversas alocuções pronunciadas no âmbito de um simpósio patrocinado pela congregação franciscana a respeito do caráter pastoral do Vaticano II.

Trata-se de um tesouro.

Seleciono aqui algumas intervenções que me pareceram particularmente brilhantes: a do pe. Gherardini, grande teólogo, acerca do conceito de pastoralidade no concílio; a de Dom Athanasius Schneider sobre o culto de Deus como fundamento da teologia pastoral; a do prof De Mattei sobre a história do concílio; e a do teólogo Florian Kolfhaus sobre a natureza do ensinamento conciliar.

Outros vídeos relativos ao mesmo simpósio, ocorrido em Roma, em 2010 podem ser encontrados no citado canal do pe. Lanzetta.

Enjoy.



Brunero Gherardini . O texto original pode ser lido aqui.



Dom Athanasius Schneider. Texto original, aqui.



Roberto De Mattei. Texto original, aqui.



Florian Kolfhaus. Texto original aqui.

Vergonha nacional: mais da metade dos padres em situação de concubinato


No blog italiano Chiesa e Post Concilio, escreve hoje o padre Ariel Levi di Gualdo acerca da Igreja no Brasil:

Boa noite, Igreja do Brasil, onde os padres que vivem em situação  irregular são tão numerosos, que já quase se aceita que os filhos de certos párocos sirvam a Missa com o papai padre.  Ou, como disse anos atrás o Sumo Pontífice a um arcebispo metropolitano brasileiro – que naquela mesma tarde me contou pessoalmente o caso depois desse encontro matinal – «Não é aceitável que as mulheres dos padres vivam diretamente nas casas canônicas com seus filhos». Respondeu desolado o arcebispo a essa sacrossanta admoestação do Romano Pontífice: « … mas se eu tivesse de punir canonicamente os padres que vivem em tais situações, eu teria de reduzir ao estado leigo uma média de cinco ou seis padres em cada dez». Nesse momento eles concordaram – ah, bendita diplomacia eclesiástica! – que pelo menos os filhos e as mulheres dos padres não  vivessem nas casas paroquiais.

O Santo Padre que me perdoe, mas continuo achando que antes de sair alegremente em missão para convidar os existencialmente periféricos para cear conosco, talvez fosse melhor consertar o cano de esgoto que está vazando no meio da sala. 

quarta-feira, 25 de dezembro de 2013

O padre Lanzetta ensina como interpretar o Vaticano II



Brilhante conferência do padre Serafino Lanzetta, dos Franciscanos da Imaculada, sobre as grandes linhas interpretativas do Concílio Vaticano II. Nela, o teólogo franciscano aborda o problema da hermenêutica conciliar a partir de algumas interpretações paradigmáticas, entre as quais as de Küng, Rahner, R. Laurentin e da escola de Bolonha.
Trata-se de uma conferência que demonstra grande capacidade de síntese e uma acuidade ímpar. A expressão é serena e clara; o raciocínio preciso e rigoroso. Uma conferência exemplar. Não é sequer possível imaginar que ela possa ter dado margem a medidas drásticas da parte da autoridade eclesiástica.
Daí o nosso estupor ante a intervenção vaticana contra esse padre, que foi nada menos que exilado numa aldeia da Áustria, sem poder dar sequência a seu trabalho acadêmico e teológico, que tantos frutos promete.
E esse estupor chega quase ao paroxismo quando sabemos que por trás dessas medidas drásticas está o cardeal brasileiro Dom João Braz de Aviz. Foi ele quem assinou a sentença contra os Franciscanos da Imaculada. E receio que seja difícil repetir a respeito do cardeal o que dissemos acerca do trabalho intelectual do pe. Lanzetta.
Para se ter ideia do absurdo da situação, veja-se abaixo o vídeo de uma palestra de Dom Braz de Aviz, o Calvo, proferida em Maringá alguns anos atrás e depois se faça a comparação entre o nível intelectual e espiritual de um e de outro.
Certamente existe uma hierarquia eclesiástica que deve ser respeitada, mas não se pode esquecer que existe também uma hierarquia intelectual e espiritual que não pode ser jogada no lixo. Um bom teólogo, ortodoxo quanto à doutrina, fiel a Cristo e à sua Igreja, tem de ser respeitado. Principalmente num momento da Igreja em que o trabalho intelectual atinge graus de inanidade sem precedentes. Se numa crise gravíssima como a de hoje, a hierarquia insiste em perseguir as poucas cabeças pensantes dentro da Igreja, onde vamos parar?



Para participar do abaixo-assinado que pede a demissão do padre Volpi, interventor nomeado pelo felliniano Dom João Braz de Aviz contra os Franciscanos da Imaculada, clique aqui.

Jesu sapientissime, miserere nobis.


Pierre Nicole: Que devemos pedir a Deus na oração?


Como o objetivo da oração é obter de Deus o que Lhe pedimos, é importantíssimo para nós instruírmo-nos sobre o que é justo Lhe pedir, pois, sendo Ele a justiça mesma, não podemos dEle esperar senão o que é justo.

Ora, isso é fácil de saber, se seguirmos os princípios dos santos Padres. Pois como o amor é a fonte da oração, só nos é permitido pedir em nossas orações o que é permitido amar; porque se amássemos coisas más e tal amor nos levasse a pedi-las, Deus nos trataria com misericórdia ao recusá-las e só poderia ser efeito de sua ira contra nós se as concedesse. Propitius Deus, diz Santo Agostinho, cum male amamus, negat quod amamus: iratus autem, dat amanti quod male amat. (In Psal. 26)

Basta, portanto, examinar o que é preciso amar. Isso é decidido pelo primeiro de todos os mandamentos, que nos ordena amar a Deus de tal modo, segundo Santo Agostinho, que lhe dediquemos todo o nosso espírito, todos os nossos pensamentos e toda a nossa vida; para que não haja nenhuma parte de nosso amor que se dirija para outra coisa e diminua a plenitude da caridade que devemos a Deus; quae nullum rivum duci extra se patitur, cujus derivatione minuatur (De doctr. Chr., I, c.22).

Pois se só devemos amar a Deus, segue-se que só devemos pedir o próprio Deus, ou seja, Deus deve ser o único objeto de nossos desejos e de nossas orações. E é isso que Santo Agostinho ensina expressamente em diversos lugares. Quereis invocar a Deus, diz ele (In Psal., 30), invocai-O gratuitamente. Por avaros que sejais, será que Deus não é capaz de vos preencher? Avare an parum est si te impleat Deus? Quereis que vos diga, diz ele em outro lugar (In Psal. 85), qual deve ser o objeto de vossas orações? Invocai a Deus como Deus, amai a Deus como Deus. Nada há melhor que Deus. Ele é que vós deveis desejar. A Ele é que deveis aspirar. Vede o que diz em outro Salmo um homem que invocava a Deus de verdade: Só fiz, diz ele, um pedido ao Senhor. E qual foi o pedido? Permanecer na casa do Senhor todos os dias de minha vida. E por quê? Para, diz ele,  contemplar a alegria do Senhor. Se, portanto, quiserdes ser um verdadeiro amador de Deus, imbuí-vos de Seu amor até o fundo do coração; desejai-O com castos suspiros; inflamai-vos por Ele com vivo ardor; tende uma santa avidez de possuí-Lo, pois não poderíeis nada encontrar de mais maravilhoso, de melhor, nem de mais duradouro. Pois o que há de tão duradouro quanto o que é eterno?

Muitos há que O invocam em aparência, diz ele ainda (In Psal. 76), e que não O invocam na verdade. Pois não buscam a Deus, mas alguma outra coisa. Quem é, então, que o invoca verdadeiramente? Aquele que prefere Deus a tudo o que dEle recebeu. É então que Ele vos escuta, quando só a Ele buscais, e não quando O quereis fazer servir para obter alguma outra coisa. Vere tunc tibi attendit, quando ipsum quaeris, non quando per ipsum aliud quaeris.

Deus mesmo, portanto, é o que devemos pedir a Deus, pois só a Deus devemos amar e só de Deus devemos gozar. Mas que é pedir Deus a Deus? É pedir para Lhe estarmos unidos. É pedir para possuirmos a sua justiça, ou melhor, que a sua justiça nos possua. E que é pedir para possuirmos a justiça ou ser por ela possuídos? É pedir para amá-Lo perfeitamente, ser-Lhe perfeitamente conforme, nada ter em nós que Lhe seja contrário, evitar tudo o que possa magoá-Lo.

Assim, o desejo de Deus contém o desejo de tudo o que nos une a Ele, de tudo o que ajuda a ser-Lhe perfeitamente submisso. Contém, portanto, o desejo de todas as virtudes e de todas as graças que nos são necessárias e vantajosas para obtermos a Deus. Compreende o desejo de conhecer a Sua vontade para segui-la; o desejo de Lhe ser fiel em tudo. Compreende a busca e o desejo de todas as coisas temporais que estão relacionadas com Deus, que o amor que Lhe dediquemos seja para nós uma razão de desejá-las. Enfim, contém o desejo do fim e de todos os meios que a ele conduzem.

(Traité de la prière, t. II, l. 2, cap. 1)

Domine Jesu Christe,
qui dixisti:
petite, et accepietis;
quaerite, et invenietis;
pulsate, et aperietur vobis:
quaesumus, da nobis petentibus
divinissimi tui amoris affectum,
ut te toto corde, ore et opere diligamus,
et a tua nunquam laude cessemus.

terça-feira, 24 de dezembro de 2013

Dúvida: contradição entre Magistério e Concílio

Admitindo a existência de contradição entre certas afirmações conciliares - por exemplo, sobre a liberdade religiosa - e certos documentos magisteriais anteriores - por exemplo, o Syllabus -, como dirimir o conflito? Deixando de lado a solução ratzingeriana baseada na contingência da matéria, o que levaria a uma solução de compromisso, prevalece o critério cronológico ou se deve admitir a prioridade do documento conciliar, por mais solene? Se alguém me puder explicar, agradeço de coração.

O Natal e o menino cego


Entre os pastores que foram avisados pelos Anjos estava também o jovem Joel. Logo voltou correndo para casa, para anunciá-lo também à mulher, Raquel. Queria que também ela viesse admirar e homenagear o  Salvador tão esperado. Tinha um filho chamado Nayum, cego de nascença. O menininho ouviu todo o tumulto e, quando o pai explicou que tinha visto cumprirem-se as profecias, manifestou o desejo de ir também ele à gruta, para ver o Messias. Os pais, depois de tê-lo tranquilizado (é o que acreditavam) dizendo que partiriam no dia seguinte, puseram-no na cama e, quando parecia já estar dormindo, saíram. Julgavam perigoso, além de inútil, expor o coitadinho ao frio da noite. Nayum tinha só fingido pegar no sono. Assim que teve certeza de que eles haviam saído, o menininho levantou e, às apalpadelas, chegou até o seu cordeirinho predileto. Amarrou uma corda no seu pescoço e he disse para levá-lo até a gruta dos pastores. Saíram e para lá se dirigiram. Pelo caminho havia pedras pontiagudas e espinhos, mas os evitaram todos. Nevava muito, mas nenhum floco os tocou. Chegaram à gruta. Os pastores se afastaram ao vê-los chegarem, perguntando-se como teriam conseguido chegar até lá. Joel e Raquel não acreditavam no que viam. Nayum aproximou-se da manjedoura,  o menino Jesus o viu e olhou para ele. O menininho cego aproximou-se do recém-nascido. O bebezinho divino tocou em seus olhos que, de repente, pela primeira vez, começaram a ver. 
Passaram-se trinta e três anos. O bebê de então é agora um homem, ou melhor, o Homem perfeito, mesmo na aflição que parece tê-lo atingido. Estamos no Calvário. Jesus foi crucificado em meio a dois ladrões. Todos, dos Anciãos do povo, aos escribas, aos seus próprios companheiros de desventura, o estão insultando. A certa altura, um dos ladrões, o que tinha sido crucificado à direita do Redentor, se calou. Viu aquela mulher que chorava aos pés da Cruz do Filho. Embora torturado pela dor extrema, aquele rosto conserva uma beleza que impressiona e que, sobretudo, não lhe é nova. Fica pensando consigo mesmo: - Conheço aquela mulher! Mas quem é? Onde já a vi? Faz tempo, mas de um rosto assim não se esquece. AGORA LEMBRO!  -SENHOR, LEMBRA-TE DE MIM QUANDO ESTIVERES NO TEU REINO!- - NA VERDADE TE DIGO: HOJE ESTARÁS COMIGO NO PARAÍSO.)

Leggende popolari palestinesi, raccolte da Mons. Giuseppe Pace S.D.B. -13/ XII/1911-01/XI/2000- nella Vita della Madonna "Mio Figlio sarà RE!" )

Traduzido do post de um leitor do blog italiano Chiesa e post Concilio. 

domingo, 22 de dezembro de 2013

Os cordeiros, os lobos e o hospital depois da batalha



Saiu ontem no site italiano Concilio Vaticano Secondo um brilhante artigo assinado por Nicodemo Grabber, com o título de A alegria da rendição, ou quando os pastores brincam com os lobos. Trata-se de uma análise da famosa declaração do papa Francisco, que descreveu a Igreja de hoje como um hospital de campo depois da batalha.

Aqui vai a tradução brasileira, feita por este Vosso servo:

O papa Francisco, na célebre entrevista a Civiltà Cattolica, descreveu a Igreja como “um hospital de campo depois da batalha”. Isso para convidar os Pastores a “tratarem das feridas” dos fiéis, e o fez com expressões dolorosas: “Devemos tratar das feridas. Depois poderemos falar de tudo o mais. tratar das feridas, tratar das feridas …”.
Toda a mídia ressaltou a vontade papal de reprovar aquilo que Francisco parece julgar uma excessiva atenção aos preceitos morais: “É inútil perguntar a um ferido grave se está com colesterol e glicemia altos!” Muito provavelmente era essa a intenção subjetiva do papa Francisco ao desenvolver a imagem do hospital de campo, mas as palavras gravadas no papel dizem, na sua objetividade, muito mais. Um muito mais trágico, que interpela todos os católicos!
Se a Igreja pode ser vista como “hospital de campo depois da batalha”, isso quer dizer pelo menos uma coisa com certeza: que estamos em guerra! E que a batalha atinge os católicos, ferindo-os gravemente (o fiel a que a Igreja deve prestar socorro é visto como “ferido grave”).
A Igreja sempre foi também um “hospital”, tendo os Pastores entre seus encargos o de tratar das  feridas espirituais dos fiéis. Por que, então, Bergoglio diz que “hoje” a Igreja deva ser um “hospital de campo”? O que torna o hoje assim tão diferente? Não o tratamento dos feridos, que sempre aconteceu, mas o fato de já não se pensar a Igreja como cidade santa fortificada, em que funcione também o hospital, junto com a  cátedra, onde se ensina a Doutrina, o Templo, onde se presta culto a Deus, e as casas seguras onde flui ordenadamente a vida cristã. O fato de pensar a Igreja principalmente, senão exclusivamente, como hospital e, ademais, “de campo depois de uma batalha” é o próprio de “hoje”. Pela metáfora, diz-se uma Igreja toda feita de “tratamento”, sem mais a defesa da ortodoxia, o ensino da Verdade, a centralidade do Culto Divino, a ortopráxis moral ordinária.  É  ainda o Povo de Deus uma realidade assim concebida? Seria tal “hospital de campo” fiel à vontade positiva de Cristo, fundador e Chefe da Igreja?
Mesmo deixando de lado questões tão graves, perguntamo-nos: é possível tratar verdadeiramente do espírito ferido de uma pessoa colocando entre parênteses a Verdade, as virtudes e o Culto a Deus? Que tratamento será esse? Será que não seria, ao contrário, o melhor e até o único remédio justamente o reencontro da fidelidade à Verdade inteiramente crida, vivida e anunciada?
Mas permaneçamos na expressão usada pelo papa Francisco: se guerra há, deve haver pelo menos duas forças em campo, inimigas e irredutíveis. Nas palavras do papa Bergoglio, porém, não é possível identificá-las, uma vez que a Igreja é apresentada como “hospital de campo”, como se indicando seu papel não beligerante. Ao mesmo tempo, porém, se fala de “fiéis” cujas feridas devem ser “tratadas”, por terem sido feridos gravemente na violenta batalha. Mas os fiéis são Igreja e, quando são feridos, é a Igreja que é ferida. A Igreja, portanto, seria ao mesmo tempo “ferido” e médico. Combatente também? Poderia parecer que não, já que os feridos de que fala Bergoglio não são os cristãos militantes agredidos pelo mundo, mas antes aqueles que se deixaram enganar pelo século, vivendo as suas lógicas devastadoras no plano individual, familiar e social.
Dando sequência à leitura da entrevista, poder-se-ia conjeturar que o papa Francisco entenda os Pastores como médicos dos fiéis feridos. Os fiéis seriam as vítimas da batalha, enquanto os Pastores seriam convocados a serem os médicos daquelas graves feridas.
Resta sem solução a questão da identidade dos combatentes e da natureza da batalha. O que não é irrelevante.
A Escritura e a Tradição falam da guerra entre a Igreja e o mundo, a vida da graça e o pecado mortífero, os filhos de Deus e os filhos do diabo (príncipe deste mundo), a Luz e as trevas.  Aquele mundo de trevas que não acolheu o Verbo Encarnado rejeita e combate também os que renasceram em Cristo, combate a Igreja e odeia seus filhos. Mas…
Se a “batalha” de que fala o papa Francisco é a batalha de sempre, entre a Igreja e o mundo, por que só “hoje” e não ontem  “a capacidade de tratar das feridas” se torna “aquilo de que a Igreja mais precisa”? Além disso, por que o hospital de campo seria uma imagem da Igreja de “hoje” e não da Igreja de sempre?
Talvez porque a batalha que  hoje se combate seja de uma violência inaudita? Isso é provável, mas não suficiente para explicar a imagem.
Além disso, por que a Igreja, os fiéis não são considerados militantes, combatentes? Se o fiel de hoje é levado em consideração como “ferido grave” e não mais como miles Christi envolvido na boa batalha, isso quer dizer que o mundo fere cada vez mais enquanto a Igreja desistiu de lutar!
A Igreja, portanto, é pensada como “hospital de campo” e não como aprisco seguro, capaz de proteger as suas ovelhas, como fortaleza inexpugnável onde vivem seguros os seus filhos; torna-se inevitável, então, uma ideia: a batalha foi dada por perdida, já nem sequer se combate! Não há mais ovil, não há mais a certeza de quem seja ovelha e quem seja lobo, o lobo disfarçou-se de ovelha, obtendo cidadania no rebanho, e as ovelhas corajosas que não se deixam enganar pelos lobos são muitas vezes acusadas de serem elas os lobos.
Predomina um espírito de rendição, onde o máximo que a Igreja pode fazer é tratar dos feridos, e não, sem dúvida, impedir que os seus filhos sejam feridos com gravidade. Pois se a Igreja seria “um hospital de campo depois de uma batalha”, isso quer dizer que a batalha já aconteceu e foi perdida, restando apenas os feridos.

Este é o quadro completo que, apertis verbis, o papa Francisco cala, mas cujas palavras implicam. Um Povo de Deus derrotado, que sequer combate, que escolheu render-se, ferido gravemente, um rebanho destroçado e disperso. Pastores incapazes de garantir a paz do ovil e a proteção contra os lobos, chamados doravante só a remediar as feridas que afligem as pobres ovelhas, a suturar as chagas abertas nos cordeiros pelas mordidas das feras ou pelos espinhos dos matagais onde os mais inquietos deles se aventuraram sem guia, sem pastor.
Por trás da euforia otimista que parece dominar a comunicação do papa Francisco se entrevê um cenário de ruínas e feridos, de guerra perdida e dor.
Surge espontaneamente uma pergunta: por que a Igreja não é mais um redil seguro? Por que os fiéis são “feridos graves”? Quem derrubou a paliçada, quem abateu as muralhas de defesa? Quem permitiu que os lobos e os espinhos ferissem o rebanho?
Alguns dirão: os tempos são estes, tempos de secularização e de revolução cultural, não era/é mais possível manter em segurança o rebanho, as muralhas teriam igualmente se esboroado …  Mas então é preciso dizer que estes nossos tempos são tempos de espinhas e lobos, “tristíssima idade” como a definiu o beato Pio IX. O otimismo que proclama os “magníficos avanços e progressos” da humanidade, taxando de “profetas da desgraça” os espíritos previdentes e realmente proféticos  (estes sim, realmente proféticos!) que foram capazes de ver o abismo para o qual se dirigia a modernidade, deverá ser julgado no mínimo cego. Não parece, porém, ser esta a posição do papa Francisco … e então?
Se a defesa dos bastiões sociais, culturais e institucionais não era mais possível, taticamente se poderia ter optado pelo maquis, como o clero refratário na França revolucionária, passando de uma guerra regular à guerrilha, mas sempre sabendo que  o mundo é inimigo e o espírito da modernidade é inconciliável com a Verdade de que a Igreja é a fiadora. Clero e leigos deveriam ter sido formados para resistir. Não foi o que aconteceu!
Em vez disso, foram abertas as portas e as janelas, pelas quais entrou a fumaça de Satanás, foram derrubadas muralhas de defesa, esvaziou-se o redil, empurrando as ovelhas para  florestas ignotas, pediu-se aos valentes que ainda estavam dispostos a combater em defesa do ovil que depusessem as armas e deixassem os lobos passearem sem serem perturbados.  Tudo isso por quê?
Nosso Senhor define como mercenários os pastores que, vendo chegarem os lobos, abandonam o rebanho. Que definição dar, então, aos que não se limitam a não defender as ovelhas, mas até as empurram para os lobos ou trazem os lobos para dentro do redil, talvez em nome do diálogo e depois de os terem camuflado sob pele de ovelha postiça? Já o antigo autor das fábulas havia compreendido como acaba o diálogo entre um lobo e um cordeiro! Talvez também ele fosse um “profeta da desgraça”, incapaz de ver a beleza do diálogo?
Voltando à imagem do hospital de campo: quem se deixaria tratar por um médico que fosse cúmplice dos que o feriram?  Se o mundo (moderno) fere gravemente os fiéis (é o que diz o Papa), como podem os fiéis feridos, uma vez compreendida a causa das suas próprias chagas, confiar em médicos que não cessam de correr atrás daquele mundo e de adequar-se a ele? Como podem ser médicos os mesmos que, voluntária ou involuntariamente, exercem a profissão de untores,  escandalizando continuamente o povo fiel a ponto de chegar, de fato, a contaminar o rebanho inteiro? Como pode uma palavra curar se for continuamente abastardada com o veneno que produz o mal? 
A verdadeira misericórdia opera admoestando os pecadores, corrigindo os errantes, instruindo os ignorantes. A verdadeira caridade pastoral é defender dos lobos o rebanho, mesmo ao preço da própria vida. É reencontrar a ovelhinha perdida, mas só para trazê-la de volta ao redil, e não, sem dúvida, para levá-la para o meio dos perigos, depois de ter escandalizado o rebanho e devastado o aprisco.
Quem chamaria de caridoso ou misericordioso aquele que, depois de ter deixado torturarem um coitado, talvez até confraternizando com os algozes, dissesse ao ferido o seu imenso desejo de curá-lo?


(Nicodemo Grabber)

sábado, 21 de dezembro de 2013

Os verdadeiros marginalizados


Artigo duro, mas pertinente, no blog italiano Opportune Importune, acerca dos soi-disant marginalizados convidados por Francisco para o seu aniversário. Há tradução francesa em Benoît et Moi.

Eis uma amostra:

À mesa do Bispo de Roma, se queriam mesmo convidar os deserdados de verdade, daqueles que são desprezados por todos e dos quais as pessoas de bem se mantêm distantes, podiam convidar sacerdotes tradicionalistas, marginalizados pelos próprios confrades, caluniados por seu Bispo, ostracizados pela Hierarquia. Quem sabe alguns sacerdotes da Fraternidade São Pio X, que vivem sem prebenda e graças à caridade dos poucos fiéis; ou também algum Frade da Imaculada, daqueles que as delações e as mentiras reduziram ao silêncio imposto pela Autoridade, porém tão compreensiva com religiosos, Prelados e Cardeais abertamente heréticos e rebeldes. Podiam convidar o professor de religião cuja cátedra lhe foi retirada pela Cúria porque não é modernista (...). E no entanto são justamente eles os novos samaritanos, de quem se mantêm distantes os que se consideram puros e observantes da Lei, quer mosaica, que conciliar. São estes novos publicanos, hoje como nos tempos de Nosso Senhor, aqueles que o Verbo Encarnado quis frequentar, visitando suas casas, para demonstrar o quanto odiava a hipocrisia farisaica então e a modernista hoje.

O Papa e a TV


Julio Rimoldi, diretor do canal de TV da arquidiocese de Buenos Aires, conta ao Osservatore Romano o primeiro encontro com seu amigo Bergoglio depois de eleito, em seus aposentos papais:

Quando me recebeu em  Santa Marta, a primeira vez, olhei à minha volta e disse-lhe: «Este lugar não é adequado para ti: há uma televisão». «Sim, mas não a vejo» respondeu.

Francisco: a Cruz sem o Crucificado



A Cruz que o papa traz no peito.

Nos autem praedicamus Christum crucifixum. (1 Cor, 1, 23)

Per Crucem et derelictionem tuam, libera nos, Jesu.

quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

Fim de linha


Quando se pensa que cada bispo alegrão traz no peito a imagem de Cristo, NOSSO SENHOR, massacrado, torturado, cuspido, humilhado, ridicularizado e crucificado!
O mais vergonhoso é que não se vê UM ÚNICO que se tenha recusado a essa palhaçada.

terça-feira, 17 de dezembro de 2013

Francisco eleito personalidade do ano pela maior revista gay dos EUA


A grande imprensa sodomita brinca de gato e rato com o Vaticano.
Sabemos que também Pio IX no início de seu pontificado foi assim alegrão como o papa Francisco. Todos sabem também o que aconteceu depois. Esperamos que a história se repita.

domingo, 15 de dezembro de 2013

Frei Luis de León e as palavras


Como pode voar alto a doutrina cristã, quando se deixa pensar e exprimir livremente, longe do bom-mocismo alegrão que assola a nossa Igreja! Exemplo disso são as obras do grande frei Luis de León (1527-1591), um dos maiores nomes da literatura católica de todos os tempos, tanto na prosa como nos versos.

Abaixo, uma indigníssima tradução para um pobre Brazilian Portuguese de um trecho da obra-prima De los Nombres de Cristo:

"O nome, se houvermos de dizê-lo em poucas palavras, é uma palavra breve que substitui aquele de quem se diz e se toma por ele mesmo. Ou nome é aquele mesmo que se nomeia, não no ser real e verdadeiro que ele tem, mas no ser que lhe dá a nossa boca e entendimento.
Porque se há de entender que a perfeição de todas as coisas, e em especial das que são capazes de entendimento e razão, consiste em que cada uma delas tenha em si todas as outras, e em que, sendo uma só, seja todas o quanto lhe for possível; porque nisso se aproxima de Deus, que em si contém tudo. E quanto mais nisso crescer, mais se aproximará dele, fazendo-se-lhe semelhante. Tal semelhança é, se assim convém dizê-lo, o anseio geral de todas as coisas e o fim e como o alvo aonde enviam seus desejos todas as criaturas. Consiste, pois, a perfeição das coisas em que cada um de nós seja um mundo perfeito, para que assim, estando todos em mim e eu em todos os outros, e tendo eu o ser de todos eles, e todos e cada um deles tendo o meu ser, se abrace e se enlace toda esta máquina do universo, e se reduza à unidade a multidão de suas diferenças e, ficando não misturadas, se misturem, e, permanecendo muitas, não o sejam; e para que estendendo-se e como desdobrando-se diante dos olhos a variedade e diversidade, vença e reine e ponha seu trono a verdade sobre tudo. Isto é avizinhar-se a criatura de Deus, de quem mana, que em três pessoas é uma essência e, em infinito número de excelências não compreensíveis, uma só perfeita e simples excelência.
Pois sendo a nossa perfeição isso que digo, e desejando cada qual naturalmente a própria perfeição, e não sendo avara a natureza em prover a nossos necessários desejos, proveu nisto, como em tudo o mais, com admirável artifício; e assim, por não ser possível que as coisas, de materiais e toscas que são, estivessem todas umas nas outras, deu-lhes a cada uma delas, além do ser real que têm em si, outro ser de todo semelhante a ele, mas mais delicado, e que nasce de certa maneira dele, no qual estivessem e vivessem cada uma delas nos entendimentos de seus vizinhos e cada uma em todas, e todas em cada uma. E ordenou também que dos entendimentos saíssem, de modo semelhante, com a palavra às bocas. E dispôs que as que em seu ser material pedem cada qual seu próprio lugar, naquele ser espiritual pudessem estar muitas, sem confundir-se, num mesmo lugar, juntas em companhia; e ainda, o que é mais maravilhoso, uma mesma ao mesmo tempo em muitos lugares."
(edição Aguilar, Austral, pp. 20-21)

Pé na tábua


À vista do poste, Bento tentou frear, mas Francisco preferiu pisar no acelerador.
Jesu Deus noster, miserere nobis.

sábado, 14 de dezembro de 2013

Arcebispo preso por defender intocáveis na Índia


O governo indiano mandou prender o arcebispo católico de Delhi, Dom Anil Couto, por participar de uma manifestação contra a discriminação dos delits, a casta mais baixa da sociedade indiana, também conhecidos como intocáveis.
Acima, um vídeo sobre a degradante situação vivida pelos dalits na próspera Índia globalizada.

sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

As massas, a manipulação e Francisco


Talvez muito mais importante do que o catolicismo de massa 2.0 sonhado pelo Papa Francisco fosse uma corajosa teologia da manipulação e do escândalo.

quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

Medjugorje, aborto e guerra

Frei  Tomislav Vlasic, o inventor da fraude

Parece que, salvo imponderáveis considerações  existencialmente periféricas, a fraude de Medjugorje vai finalmente receber o seu golpe de misericórdia em breve. Sinais eloquentes já vêm aparecendo aqui e ali há algum tempo, de que por fim o Vaticano vai pôr um ponto final nessa longa e trágica mentira.  Enfim uma boa notícia.

No último número de Culture Wars, o dr. Michael Jones escreve mais um lúcido e devastador artigo sobre o tema.

Como aperitivo, aqui vai uma amostra:

Medjugorje tornou-se parte da narrativa convencional do que significava ser católico nos Estados Unidos. Na verdade, há duas narrativas convencionais aceitáveis para os católicos nos Estados Unidos. São conhecidas como liberalismo e conservadorismo, o que significa, como mostraram as últimas eleições, que os católicos deste país têm a liberdade de escolher entre a guerra e o aborto. Os católicos que votaram contra o aborto e apoiaram George Bush em 2000 obtiveram a guerra do Iraque, e os católicos que votaram contra a guerra do Iraque em 2008, apoiando Obama, ganharam o aborto. Assim, no que se refere à narrativa convencional para os católicos, é: cara, eu ganho; coroa, você perde. O que quero dizer é que a imposição dessa mentira aos católicos americanos levou à divisão. Medjugorje tornou-se um papel de tornassol para ver se você é um católico sério. Se você discordar da narrativa convencional, será punido.

Rino Cammilleri propõe explicação acerca do comportamento do papa Francisco


No jornal italiano Il Giorno de 10/10/13, Rino Camilleri, comentarista católico de linha conservadora, propôs uma explicação para o comportamento e para as palavras do papa Francisco. Segundo ele, Francisco se baseia numa corrente presente há séculos na Companhia de Jesus, desde os idos das polêmicas de Ricci sobre os ritos asiáticos.

A ideia de base seria que o homem de hoje, graças a décadas e décadas de lavagem cerebral, se tornou imune a uma pregação evangelizadora baseada na compreensão da mensagem de Cristo, e deve ser tratado, em linhas gerais, como os índios guaranis ao se estabelecerem as missões do Paraguai.

Eis a parte central do texto, que pode ser lido em versão francesa também aqui:

O homem contemporâneo está hoje completamente subjugado por uma cultura relativista que  destruiu todo valor ao mesmo tempo divino e humano. Falar-lhe dos princípios não negociáveis é pura perda de tempo: ele não os compreende mais. O ataque, durante séculos, ao princípio de autoridade triunfou e as pessoas já não suportam os mestres. Mas a civilização de hoje é também um moedor de carne que aumenta exponencialmente o número dos rejeitados. O homem moderno, ferido e mutilado pelo lado obscuro da modernidade (que, prometendo a felicidade a todos, alcançou um grau de mal-estar jamais visto), enquanto jaz no chão, todo ensanguentado, só vê a mão que o ergue e o trata, pouco lhe importa se é um Samaritano (isto é, o representante de uma categoria que lhe ensinaram a odiar). 
Eis, portanto, o programa: abrir os braços para os que sofrem, para os abandonados, sem entrar em polêmicas, sem discutir, sem censurar os erros. Quando a couraça mental tiver sido dissolvida, o infeliz verá na Igreja uma mãe misericordiosa e não, como lhe inculcaram, um centro ideológico de poder. O problema urgente é a crise da fé, de que a crise moral é só uma consequência. É daí, diz o papa Francisco, que é preciso partir. Do zero. À luz disso, o modus operandi de Bergoglio torna-se mais claro.

O que ele propõe é uma espécie de gigantesca «opção religiosa » da parte da Igreja inteira: tratar primeiro dos sofrimentos humanos, e depois, só depois, ensinar o catecismo e tudo o mais. Daí também a reticência quanto a falar de assuntos «incômodos», como o casamento homossexual, o aborto, a eutanásia. Diz ele: todos conhecem a posição da Igreja sobre estas questões, e é inútil que o papa a repita constantemente. E, no entanto, - cabe pensar – até o primado da ortopráxis sobre a  ortodoxia (para usar o jargão clerical) já é um 'déjà-vu'.


Depois, do primado ao afastamento é só um passo, e já vimos a prática desligada da ortodoxiana famosa «teologia da libertação». Se não injetarmos continuamente a nossa doutrina na prática, outra doutrina tomará o seu lugar, talvez alguma que se lhe assemelhe: ontem o marxismo, hoje o bom-mocismo relativista. É um risco, que esperamos tenha sido calculado. Será suficiente para a nova evangelização transformar a Igreja inteira numa grande Caritas? Dar às pessoas essa imagem das Igreja que elas querem (assistência gratuita, silêncio sobre o pecado e o erro), será essa realmente a melhor ideia? A estas perguntas, só o futuro poderá responder.

terça-feira, 10 de dezembro de 2013

"Ser cristão" de Hans Küng e Evangelii Gaudium

Não é para menos que Hans Küng tenha soltado rojões depois da publicação de Evangelii Gaudium. Como mostra um post do interessante site ratzingeriano francês Benoît et Moi, há inquietantes semelhanças entre trechos de Ser Cristão, o principal livro de Küng, e a exortação vaticana. 

Aqui vai um exemplo:

"Ao contrário dos que, piedosamente, fogem do mundo, JESUS não anuncia um juízo de vingança em prol de uma elite de perfeitos, a exemplo dos essênios e dos monges de Qumrân. Ele proclama, pelo contrário, a alegre mensagem da bondade ilimitada de Deus e de sua graça incondicional para os que estão perdidos e miseráveis. 
Se a Igreja, comunidade de fé, chamada a seguir os passos de Jesus Cristo, quiser anunciar a alegre mensagem dessa bondade sem limites e dessa graça absoluta, deve assumir alguns IMPERATIVOS.
Aqui embaixo, enquanto se opõe ao mundo e às suas potências, ela não deve assumir a postura de uma instituição inquietante, ameaçadora, anunciadora de desgraças e criadora de angústia. Não é a ameaça, mas a alegria que ela deve anunciar aos homens; deve dispensar, não o medo de Deus, mas a alegria em Deus. Pois a Igreja não existe só para as pessoas religiosa e moralmente irrepreensíveis; existe também para os que violam a moral e a piedade, para os que, por qualquer motivo, escolheram o ateísmo. Não condene nem dane, mas, apesar da gravidade do juízo incluído na mensagem, cure, perdoe e salve, deixando a Deus o trabalho de julgar. Não faça de suas exortações e alertas, não raro indispensáveis, um fim em si, mas a recordação da amizade misericordiosa de Deus pelo homem e do que é a a verdadeira humanidade do homem. Apesar de todas as promessas que lhe foram feitas, ela não pode jamais fazer-se passar por uma casta ou uma classe de puros e de santos, por uma elite moral; não pode jamais imaginar-se, em nome de um retiro ascético fora do mundo, que só há mal, pecado, ateísmo fora dela."


Vale a pena ler o resto do post.


segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

Algumas reflexões sobre Evangelii Gaudium


No blog francês Benoît et moi, interessantes e pertinentes comentários sobre Evangelii Gaudium de uma perspectiva ratzingeriana.
No mesmo site, um rico dossier sobre o papa Francisco com artigos de personagens importantes da cena católica europeia.

O sentido do inferno


Se Deus é o Ser e Cristo, o Lógos, a fonte de todo sentido, o inferno é o nonsense, a contradição, o absurdo.

Pseudo-Francisco


Se um dia, daqui a muitos séculos, caírem nas mãos de um historiador da Igreja os textos de Lumen Fidei e de Evangelii Gaudium, sem mais nenhuma outra informação, nosso estudioso terá  horas difíceis pela frente para explicar como, em tão curto espaço de tempo, o mesmo Papa Francisco possa ter escrito textos tão opostos e de qualidade tão desigual. Levado por essa disparidade, talvez acabe supondo que um dos dois documentos é falso. Neste caso, é bem provável que atribua Lumen Fidei ao verdadeiro Francisco, entregando Evangelii Gaudium ao almaxorifado das obras espúrias, sob o rótulo de pseudo-Francisco. Infelizmente, estará enganado.

Está tudo bem com Ravignan

Pe. Xavier de Ravignan em seu leito de morte.

Encontro isto num belo livrinho de orações e meditações publicado em 1965 (ah!) por dois jesuítas (!) e depois nunca mais reeditado (por que será?):

Ravignan está doente. Deus está bem. Está tudo perfeito.
(Pe. Xavier de Ravignan, SJ, 1795-1858)

sábado, 7 de dezembro de 2013

Análise: Evangelii Gaudium e os falsos Pentecostes



Tradução feita por este vosso servo de um artigo do padre italiano Ariel S. Levi di Gualdo sobre a exortação apostólica Evangelii Gaudium, a Grande Avacalhação pós-conciliar e o único verdadeiro Pentecostes. O ensaio pode ser lido em italiano no sites Riscossa Cristiana, Concilio Vaticano Secondo e Chiesa e Post Concilio.


1. AQUELA PERGUNTA INSIDIOSA
Passo boa parte do tempo  entre o confessionário e os espaços privados em que se desenvolvem os encontros de direção espiritual, onde, com frequência cada vez maior, me cabe curar as feridas sangrentas de confrades sacerdotes, mas também de seminaristas que partiram com toda a pureza gerada pelas melhores esperanças cristãs, muitas vezes desiludidas, ou pior, às vezes traídas. Afirmar: “Cabe-me curar” é inexato. Sabemos muito bem  que só a graça de Deus cura, servindo-se, conforme o caso, de muitos instrumentos diferentes, inclusive de uma ferramenta grosseira como eu.
Um seminarista, estudante de teologia numa pontifícia universidade romana, fez-me uma pergunta interessante, mas também complexa; na verdade, insidiosa, até. Por isso decidi compartilhar com os leitores desta Revista teológica o diálogo que se desenvolveu entre esse jovem mal chegado aos trinta anos e eu, já à beira dos cinquenta. Foi esta a pergunta: «O período pós-conciliar foi celebrado como a era do “novo pentecostes” anunciado por João XXIII. Na realidade, ele viu manifestar-se uma crise sem precedentes, como nenhuma outra que a Igreja tivera de enfrentar. Como explicar uma devastação tão radical e um período tão longo de cegueira e silêncio da parte de quem teria o dever de proteger a fé e guiar o rebanho?». Respondi com considerações teológico-pastorais centradas na “hermenêutica da continuidade” e na “hermenêutica da descontinuidade”(…)
Nos anos do pós-Concílio surgiram duas hermenêuticas contrárias, às vezes antitéticas. A hermenêutica da descontinuidade e da ruptura, com grande repercussão nos mass-media, graças ao prolífico empenho de muitos expoentes da teologia moderna; e a hermenêutica da reforma, da renovação na continuidade. A hermenêutica da descontinuidade leva a uma ruptura inevitável entre a Igreja pré-conciliar e a Igreja pós-conciliar, com todas as perigosas consequências que daí se seguem.
Creio que Nosso Senhor Jesus Cristo tenha sido claro ao afirmar: «Eu estou convosco todos os dias, até o fim do mundo ». E também explica como seria «útil para vós que eu me vá; pois se não partir, não virá até vós o Consolador. Mas, se partir, eu vo-lo mandarei ». E nos tranquiliza: «O Consolador, o Espírito Santo, que o Pai mandará em meu nome, vos ensinará todas as coisas e vos recordará tudo o que eu vos disse ». O evento de Pentecostes começou no cenáculo do Espírito Santo, nunca teve fim e desde então fermenta num processo de ininterrupta continuidade, em que pese aos padres da Escola de Bolonha: Giuseppe Dossetti e Giuseppe Alberigo e da chamada hermenêutica da descontinuidade produzida, segundo eles, pelo Vaticano II. Teoria sobre a qual soam— permitam-me o termo de fato insolente, mas divertido — flautins e contrafagotes, como alguns de nossos leigos católicos italianos, de Alberto Melloni a Enzo Bianchi, circundados por um reverente coro secular de ateus devotos assentados dentro e fora do Pátio dos Gentios do Cardeal Gianfranco Ravasi; e que há demasiado tempo vem pontificando sem possibilidade de contraditório doutrinal ortodoxo. Presenças às vezes absolutas nas televisões públicas e privadas, promovidas pela imprensa anticatólica e pelas grandes editoras italianas, inclusive, infelizmente, a imprensa e as editoras católicas, a começar por aquelas administradas por congregações religiosas, como a Sociedade São Paulo ou até pela Conferência Episcopal Italiana, como no caso da revista Avvenire, órgão oficial dos Bispos da Itália, desde sempre vitrina e tribuna para diversos desses personagens notórios pela doutrina discutível.
2. A DITADURA DESTRUTIVA DOS MESTRES DO «MAIS DIÁLOGO, MAIS COLEGIALIDADE, MAIS DEMOCRACIA NA IGREJA»
No sentido mais finamente gramsciano do termo, flautins e contrafagotes vêm há muito monopolizando toda a cena pública, no plano histórico, teológico e pastoral, desencadeando um perigoso processo que, de facto, exclui qualquer voz contrária, mas sobretudo qualquer  voz autenticamente católica. Um fenômeno que já se transformou em tumor, com metástases espalhadas pelas nossas igrejas do Norte europeu, onde há décadas se tem até a ousadia de chamar o todo: “Mais diálogo … mais colegialidade … mais democracia”, enquanto são cada vez mais numerosas as igrejas antigas dos grandes centros históricos urbanos já vazias há décadas e por isso postas à venda pelas dioceses, para serem adquiridas por particulares e por empresas e por eles transformadas em elegantes restaurantes ou em lojas de luxo. Creio que afixar sobre esses edifícios lápides em memória do Padre Edward Cornelis Florentius Alfonsus Schillebeeckx O.P. ou do Padre Karl Rahner S.J, para celebrar e transmitir aos pósteros os resultados concretos da sua evidente obra e daquela ainda pior dos seus “netinhos” sócio-políticos disfarçados de teólogos, mais que ironia seria só pura e simples honestidade intelectual e eclesial, justamente o que hoje parece faltar mais do que nunca, de cima a baixo.
3.  AS PÉROLAS: BRUNO FORTE E O “PAPADO COLEGIAL”, O PORTA-VOZ  DA SALA DE IMPRENSA DO VATICANO E ENZO BIANCHI QUE “REINVENTA A IGREJA”
Recentemente, pouco depois da eleição do novo Romano Pontífice, S.E. Mons. Bruno Forte, responsável pela doutrina da fé da Conferência Episcopal Italiana — de que tratou há pouco o presbítero e teólogo Brunero Gherardini, sem que isso produzisse os frutos esperados por poucos ou muitos — voltou a nos deliciar, cunhando um novo instituto eclesial numa entrevista dada em março  de 2013 a um Especial da Rai Uno: o «Papado colegial». Nos dias seguintes, para nós, presbíteros, que vivemos em contato com os membros vivos do Povo de Deus, não foi fácil responder aos que pediram explicações a este respeito. Isso nem tanto pela pérola eclesiológica em si, mas pela autorizada boca que pelo éter a fez chegar aos ouvidos de milhões de telespectadores.
Analogamente, gostaria de analisar rapidamente — mas por honestidade católica, pastoral e teológica não posso fazê-lo — o discurso público pronunciado pelo porta-voz oficial da Sala de Imprensa Vaticana por ocasião do 70° aniversário do “prior” de Bose, ou seja, aquela deliciosa pessoa de Enzo Bianchi, que «nos ajuda a reinventar a Igreja». Uma frase, «reinventar a Igreja» ou  «reinventar a fé», cheirando a velha naftalina dos anos setenta, entre obscuros comitês de base onde se brincava de falar sério quando se discutia sobre “a síntese dialética da alternância ideológica” e nos quais a efígie de Nosso Senhor Jesus Cristo era perigosamente confundida com a de Ernesto Guevara, conhecido como el Che. E se em 2013, à luz das velinhas postas sobre o bolo de aniversário de um septuagenário, presente como ilustre relator também o porta-voz oficial de Sua Santidade, ele nos entretém ainda com esse «reinventar», francamente só nos resta implorar: miserere nostri, Domine, miserere nostri. In te, Domine, speravi: non confundar in aeternum. E, por fim, confiar: quoniam in aeternum misericordia eius.

4.  NÃO SE BRINCA COM AS PALAVRAS: O EVENTO DE PENTECOSTES É NEGAÇÃO DA HERMENÊUTICA DA RUPTURA

O evento histórico e real de Pentecostes é a negação cristológica e pneumatológica da hermenêutica da ruptura, para não falar de certas reconstruções que nascem depois de devastadoras desconstruções, sobre as cinzas das quais se busca, em seguida, reinventar a Igreja de Cristo. Na experiência cristológica, somos chamados a descobrir e acolher o Verbo Encarnado e a vivê-lo em união de mútua transformação, não, é claro, a pô-lo sobre a mesa das autópsias exegéticas, para desmembrá-lo e depois recosturá-lo ao nosso gosto modernista, tomando do corpo de Cristo o que nos agrada e como nos agrada. Ou melhor: «Afirmou-se um catolicismo à la carte, em que cada qual escolhe a porção que prefere e rejeita o prato que considera indigesto».
O convite a ser «perfeitos na unidade» implica como corolário a harmônica continuidade, para que «o mundo creia que me mandaste ». Essas afirmações joânicas delineiam um início e uma continuidade incessante, até a parusia. De Pentecostes nasce e parte a história da Igreja e começam os  “Atos dos apóstolos¨. A Igreja é, portanto, fruto vivo de um início que nunca teve fim e desde sempre é missionária e peregrina sobre a terra. Com a expressão «novo Pentecostes» talvez pretendessem referir-se de modo mais sedutor que teológico, ou melhor, talvez, poético-mediático, não tanto a uma nova descida do Espírito Santo ao Cenáculo, quanto ao trabalho incessante sobre a Igreja do Donum Dei altissimi que Jesus nos prometeu até o fim dos tempos. Porque se a Igreja não fosse de fato governada pelo Espírito Santo de Deus, hoje não estaríamos aqui; seríamos só o objeto de estudos antropológicos, do mesmo modo como são hoje estudadas as antigas e extintas crenças religiosas dos egípcios, etruscos, gregos …
A teologia tem, porém, sua linguagem própria, direta e precisa. Basta pensar no problema teológico da Pessoa de Jesus que abala os primeiros oito séculos de história da Igreja, entre intermináveis heresias e problemas semânticos entre Oriente e Ocidente. E hoje, enquanto adentramos este fim do ano de 2013, a falta de clareza e as afirmações ambíguas parecem muitas vezes servir de padrão dentro da Igreja, com uma desorientação da parte dos fiéis católicos jamais vista, assim como, antes de hoje, nunca se haviam visto hordas de anticatólicos militantes e de ateus devotos celebrarem a clara simpatia mediática da pessoa humana em si e fim em si, em vez do sólido ministério petrino edificado sobre uma rocha que, por mistério de graça, jamais deveria ser cindida da pessoa que a encarna, uma vez que o Príncipe dos Apóstolos deixa de ser Simão para tornar-se Pedro, a pedra sobre a qual Cristo edificou a sua Igreja.
Hoje, até que ponto está claro, para o pescador Simão, que hoje ele é Pedro, o pastor universal, e até que ponto está claro para o pastor universal, Pedro, que ele não pode continuar sendo o pescador Simão, perdido pelas periferias existenciais das aldeias de pescadores da Judeia?
A boa e sã teologia e, por consequência lógica, o melhor e mais sadio ministério pastoral não contemplam expressões extemporâneas ou as chamadas comunicações “de improviso”, estilo “moções” de carismáticos-animistas ou “ressonâncias” de neocatecumenais-pentecostais, mas palavras claras e precisas, não circunlocuções que podem querer dizer tudo, mas querendo também o exato oposto, segundo a lógica das “palavras novas” revelada ao longo do último meio século tragicamente falimentar.
A tal propósito, basta recordar que era tão grande o mistério daquele «Verbo que se fez carne» e «era no princípio e era junto de Deus», que sequer existiam palavras no dicionário para defini-lo. Por isso tivemos de criar antes de tudo as palavras, tomadas muitas vezes emprestadas do pensamento filosófico grego e por ele moduladas. Basta pensar no conceito de hipóstase, que indica a natureza humana e a natureza divina do Verbo feito carne que habitam a mesma pessoa. Estamos diante de uma arquitetura teológica, de uma estrutura de engenharia construída milimetricamente ao longo dos séculos. E nascem justamente daí certos problemas: algumas correntes do último concílio introduziram diversas ambiguidades nas sessões, que depois explodiram de modo virulento no pós-concílio, até criarem a ideia por si só eclesialmente aberrante de hermenêutica da descontinuidade, e, por fim, desembocarem — e isto com todas as mais dramáticas e evidentes consequências — na autêntica ditadura do relativismo daqueles que por algumas décadas brincaram com “palavras novas”. E hoje, de uma cátedra teológica à outra, alguns ensinam como superdogmática “verdade” de “fé” que o Concílio teria rompido com a tradição anterior. Mas o que é pior é que eles falam da Igreja “anterior” como se, em tudo e por tudo, fosse realmente outra Igreja…
5.  AS PIORES HERESIAS SEMPRE COMEÇAM JOGANDO COM AS PALAVRAS
Afirmar de modo aberto ou ambíguo que a Igreja do pós-concílio Vaticano II é outra Igreja em relação à anterior é pura contradição teológica nos termos, além de letal em outras delicadas vertentes eclesiológicas, pastorais e formativas. Assim procedendo, pratica-se uma verdadeira corrupção das mentes de nossos  jovens e dos futuros sacerdotes, primeiro obrigados a assimilar essas doutrinas enganosas e depois obrigados a repeti-las com as mesmas palavras com as quais muitos dialogantes docentes “liberal-colegiais” exigem ouvi-las  repetidas em muitas universidades e colégios pontifícios romanos, e não só lá. Sob pena de serem totalmente podados — de modo naturalmente dialogante e liberal-colegial, é claro! — os que ousam não dobrar-se às suas fraseologias hereticizantes, ou pior, os que ousam não pensar como eles. Não é, sem dúvida, novidade, mas já se sabe há muito como os ultras liberistas ou heréticos são por íntima natureza arrogantes, agressivos e coercitivos; de modo especial aqueles disfarçados por trás do véu de noiva do “mais diálogo … mais colegialidade … mais democracia”. Jamais nos esqueçamos de que as piores heresias começam sempre jogando com as palavras, para enfim chegarem a desconstruir ou destruir a fé nos membros vivos do Povo de Deus, depois de terem esvaziado as palavras de seu significado e de tê-las preenchido com outro.   E o discurso ambíguo, além de ser um não discurso teológico, provoca sempre o efeito de um discurso perigoso, tanto mais grave quanto mais autorizados forem os lábios dos quais fluam tais ambiguidades. Eis aqui um exemplo claro a este respeito: eliminar do vocabulário eucarístico a palavra transubstanciação e substituí-la pelo termo mais socialmente correto de transignificação e transfinalização, como ensinam certos perigosos e medíocres netinhos da Nouvelle Théologie na Pontifícia Universidade Gregoriana ou naquele covil de filoprotestantes que é notoriamente o Pontifício Ateneu Santo Anselmo, não é uma simples renovação da metafísica tomista, mas algo que leva à inevitável alegorização, à Eucaristia como mero símbolo, não mais ao divino mistério da presença real de Cristo vivo e verdadeiro.
Quem pretende ultrapassar a metafísica deve fazê-lo produzindo outro pensamento de rigor superior. Santo Tomás de Aquino pode até ser superado, ou substituído, se quiserem, no fundo é só um santo doutor da Igreja, decerto não é a palavra encarnada de Deus, além de não estar imune, como todos os mortais, a diversas imperfeições. Duvido, porém, que essa superação e essa substituição possam acontecer mediante a equívoca filosofia religiosa do Santo Tomás de Aquino dos jesuítas da década de 60, Karl Rahner, que pretende ultrapassar a metafísica clássica, correndo o risco, na maioria dos casos, de reassumir, por vezes sem ter disso nenhuma consciência nem preparo para tal, a confusa característica de fundo, tendendo a articular certas suas especulações com base na neoescolástica decadente, com o uso do metro de Francisco Suarez, que, partindo, por sua vez, do aristotelismo escolástico tomista, elaborou doutrinas teológicas e filosóficas, por assìm dizer, originais. De fato, Karl Rahner é, sem dúvida, genial! É o gênio da tudologia-confuso-teológico-filosófica-sociológica, que, como tal, passeia da dogmática à patrologia à eclesiologia à escolástica, sem conhecer bem e a fundo nem umas, nem outras, tudo reduzindo a uma sócio-filosofia religiosa que alguns até hoje teimam em chamar de escola teológica rahneriana. Já faz meio século que nas nossas bocas muitas vezes cheias de ar remexemos o conceito de “palavras novas”, esquecendo cada vez mais e cada vez mais perigosamente aquela Palavra viva, eterna e sem tempo que nasce do mistério do Verbo Encarnado. É Deus que é palavra viva, e é só Deus que nos pode dar um «coração novo». Não somos nós que podemos dar um coração novo a Deus com algumas de nossas frívolas “palavras novas”.
Aquela que alguns chamam, ou pior, rotulam de “ tradição anterior” parte do Concílio de Jerusalém e se desenvolve ao longo dos séculos até o Vaticano II, um concílio pastoral fruto da continuidade teológico-eclesial de todas as experiências precedentes. A Igreja não nasce da pastoralidade do Vaticano II, menos ainda do pós-concílio dos teólogos intérpretes que transformaram suas próprias elucubrações num autêntico superdogma, hoje elevado à condição de verdadeira ditadura. Declarar a ruptura e a descontinuidade com a tradição anterior quer dizer transformar a Igreja em outra coisa e romper a união com a continuidade ininterrupta do Cenáculo. Como se de repente o Espírito Santo descesse na sua Igreja pela primeira vez por volta da metade do século XX, para júbilo de todos os altos notáveis da Nouvelle Théologie, ou da New Theology, da Teologia da Libertação, da Teologia Sincretista, enfim, da Teologia Indigenista, que transformou a “Igreja anterior” em algo entre uma serva a soldo dos colonizadores e uma perigosa inimiga.

6  A TRADIÇÃO SÃO OS PILARES QUE SUSTENTAM A VELHA PONTE QUE UNE O HUMANO E O DIVINO, O DIVINO E O HUMANO. RECONHECEM-SE OS BISPOS QUE PARTICIPARAM DO SÍNODO NO DOCUMENTO FINAL EVANGELII GAUDIUM?
A “devastação radical” que hoje temos diante dos olhos nasce do fato de que, em vez de “renovar” a Igreja no respeito e no fortalecimento da tradição e do dogma, muitos se dedicaram a solapar os delicados equilíbrios que surgiram e depois se solidificaram a partir da primeira época apostólica, reforçando-se através dos grandes concílios dogmáticos e da obra dos grandes padres da Igreja. Com a temporada do pós-concílio teve início a grande crise do dogma, e as verdades divinas e eternas acabaram sendo substituídas pela dogmatização dos pensamentos humanos, pois quando o homem já não crê nas verdades fundamentais, acaba crendo em tudo, lançando-se cegamente às palavras ambíguas escondidas por trás das inevitáveis “palavras novas” dos piores provocadores: os falsos profetas.
A tradição são os pilares que sustentam a velha ponte que une o humano e o divino, o divino e o humano. Quando a ponte foi construída e depois ampliada e reforçada ao longo do tempo, não existiam os automóveis, viajava-se a pé ou a cavalo. É claro que, em certo momento, a velha ponte devia ser preparada para receber também o trânsito de automóveis. Infelizmente, porém, alguns “rapazitos teólogos”, aqueles que discutiam, nos bares e nos cafés de Roma, com os jornalistas sobre as estratégias a adotar na assembleia conciliar, vieram a solapar exatamente os pilares. E hoje nos vemos com uma ponte periclitante e insegura, graças aos vários Giuseppe Ruggieri e aos vários Andrea Grillo que nossos bispos deixaram irresponsavelmente ensinar nos cursos de teologia, para envenenarem pela raiz as mentes dos nossos futuros sacerdotes, enviados depois para confundir e escandalizar o Povo de Deus na doutrina da fé e na sagrada liturgia, chamando impiedosa e agressivamente aqueles que se declaram escandalizados com suas palavras de “católicos infantis” e “imaturos”, que ainda não se tornaram verdadeiros “cristãos adultos” sob o vento do novo Pentecostes, graças ao qual no século XX finalmente nasceu a Igreja, depois de passar os dezenove séculos anteriores apenas brincando.
Não sei o que pretenda fazer aquele que, por alto e inefável ministério, è chamado a custodiar a fé e a guiar o rebanho, só sei é que ele é a ponte, ou melhor, segundo o étimo de pontem facere, um construtor de pontes. A palavra pontífice nasceu na primeira época romana do antigo Pons Sublicius. De fato, era assim chamado o grão-sacerdote da antiga religiopontifex maximus, que, sentado sobre aquela ponte, vigiava os movimentos das águas e o voo dos pássaros, além de praticar diversos outros ritos. Hoje, o nosso Sumo Pontífice corre o risco de ver os céus que cobrem a ponte carregados de bandos de urubus, aos quais esperamos de coração que ele não sirva de alvo. Com mais forte razão nele confiamos para ver de novo as andorinhas voando nos céus e para trazer de volta a primavera de sempre, a do cenáculo dos apóstolos. A única e verdadeira primavera nascida do Espírito Santo de Deus, que teve início naquele cenáculo apostólico e desde então jamais cessou, apesar do empenho forte e incessante de muitos homens, ao longo dos séculos, de fazerem cair as cortinas das trevas, ora através de “palavras novas” pronunciadas sobre o cadáver estendido sobre a maca das autópsias do anatomopatologista, ora com a “hermenêutica da descontinuidade” … Por isso considero razoável afirmar que, do cenáculo do Espírito Santo até a parusia, não é possível chegar ao «Seu reino que não terá fim » através da descontinuidade e das ambíguas “palavras novas”, em especial as dos falsos profetas que “reinventam a Igreja”, mas só através daquela continuidade perfeita e daquelas palavras precisas de que o homem, embora falível e imperfeito, é chamado a ser fiel instrumento, porque templo privilegiado da ação da graça de Deus desde a aurora dos tempos.
Este é o motivo pelo qual, depois de ler a exortação pós-sinodal Evangelii Gaudium, me fechei no silêncio, consciente de que em certos momentos a eficácia da oração cristã, nascida da verdadeira fé, serve muito mais à Igreja do que sair correndo para ir bater a cabeça contra uma parede de borracha, movido por desespero inteiramente humano e, talvez, também pouco cristão.
A resposta a esse documento decerto não posso dá-la eu, que sou o último presbítero do mundo católico. Deveriam dá-la, porém, os bispos, em especial aqueles que participaram daquele sínodo, respondendo a uma pergunta simples e óbvia: reconhecem-se eles, de modo livre e colegial, na patente falta de clareza das palavras às vezes ambíguas que caracterizam aquele documento conclusivo, que parece ora dizer tudo e pouco depois, talvez, o seu exato contrário?
Com dor e aflição só posso  dizer que aquele documento parece um absurdo: não se sabe a quem fala nem o que quer. Não é nem teologia nem homilética, mas retórica, com não poucos pontos de ambiguidade. Não se diz “sim” e não se diz “não”, diz-se que talvez possa ser um pouco não e talvez um pouco sim. Parece inteiramente ditado por aqueles teólogos progressistas hoje no poder, que visam a “reinventar a Igreja” com as suas ruinosas “palavras novas”.
E que o Espírito Santo de Deus assista a sua Igreja e assista todos nós, seus servos fiéis e devotos.
Ariel S. Levi di Gualdo  

Ariel Stefano Levi di Gualdo nasceu em Maremma Toscana em 19.08.1963. Foi consagrado sacerdote em Roma. Dirige a Coleção teológica Fides Quaerens Intellectum das Edições Bonanno. Desenvolve o ministério sacerdotal principalmente como confessor, diretor espiritual e pregador. É autor de diversos ensaios editados pela editora Bonanno e de vários artigos publicados em diversas revistas teológicas internacionais italianas e estrangeiras.