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sábado, 8 de dezembro de 2012

A diferença entre o Velho e o Novo Testamento segundo Lemaistre de Sacy




Uma das mais perniciosas e omnipresentes confusões que vem sendo cometida nos dias de hoje pelo maltratado rebanho de Cristo é a que diz respeito à relação entre a antiga Aliança e a nova. Mesmo em meios católicos, muitos há que confundem as profecias messiânicas relativas à encarnação do Verbo, com as façanhas políticas do governo de Bibi Netanyahu.

Como subsídio à reflexão sobre tema tão essencial, apresentamos parte do Prefácio de Lemaistre de Sacy à sua tradução do livro do Êxodo. Nele, o amigo de Pascal esboça magistralmente a doutrina paulina e agostiniana da relação entre o velho e o novo Testamento.

Este vosso servo pretende publicar neste blog a tradução completa desse Prefácio. Por enquanto, aqui vai o capítulo 7.

Nossa tradução do texto quase completo do prefácio já pode ser lida aqui.


Diferença entre o Velho Testamento e o Novo. Lei de temor gravada na pedra. Lei de amor escrita no coração pelo Espírito Santo

A sequência do que foi dito até agora leva-nos naturalmente a explicar aqui uma verdade grande e muito útil: mostrar pelo testemunho dos Apóstolos e dos Profetas em que consiste propriamente a diferença entre a lei de Moisés e a de Jesus Cristo.
As duas leis têm o mesmo Deus por autor; e são ambas santas. “Os mandamentos de Deus, com exceção do sábado compreendido judaicamente, são os mesmos em ambas” (Aug. De Spir. & lit., c. 14): prescreveu sempre a Igreja  e ainda hoje prescreve a seus filhos o mesmo Decálogo, ou seja, os mesmos dez mandamentos dados por Deus ao povo hebreu.
Disse a lei antiga, segundo São Paulo: Não tereis maus desejos: Non concupisces (Rom. 7.7). Disse também, como o reconheceram os judeus na presença do mesmo Jesus Cristo no Evangelho: Amareis a Deus de todo coração (Marc. 12. 32;  Aug. Ib. cap. 13; Mat. 22. 38-40).
Diz-nos a lei natural igualmente por todos os mandamentos que nos dá que não pequemos: Não tereis maus desejos: Non concupisces. “E nos diz pela boca de Jesus Cristo que o mandamento de amar a Deus de todo coração e o próximo como a si mesmo contém toda a lei e todos os Profetas.”
Se, portanto, os mandamentos de Deus dados aos judeus e aos cristãos são os mesmos, em que consiste propriamente essa diferença entre o Velho Testamento e o Novo?
Disse-o o Espírito Santo claramente pela boca do profeta Jeremias, num excelente trecho citado e confirmado duas vezes por São Paulo na Epístola aos Hebreus, tal a importância que lhe concedia para a instrução de toda a Igreja.
“Virá um tempo, diz o Senhor, em que farei nova aliança com a casa de Israel, não segundo a aliança que fiz com seus pais, no dia em que os tomei pela mão para fazê-los saírem do Egito, porque não permaneceram nessa aliança que fiz com eles, e é por isso que os desprezei”, diz o Senhor. “Mas eis a aliança que farei, eu, o Senhor, com a casa de Israel, quando esse tempo chegar: Imprimirei as minhas leis em seu espírito, escreve-las-ei em seu coração e serei o seu Deus e eles serão o meu povo; e cada um deles já não precisará ensiná-las ao próximo e ao irmão, dizendo: Conhecei o Senhor; porque todos me conhecerão, desde o menor até o maior. Pois eu lhes perdoarei as iniquidades e não me lembrarei de seus pecados.” (Jerem. 31.31; Hebr. 8. 9 & seq. & cap. 10. 16.)
Aprendemos com estas palavras, diz Santo Agostinho, que dos dois Testamentos, ou seja, das duas alianças que Deus fez com os homens, uma é chamada velha e a outra, nova. “São assim chamadas primeiro por causa do tempo; porque a velha foi feita quinze séculos antes da nova.”
Em segundo lugar, a primeira aliança é chamada de velha por causa da corrupção do velho homem, cujo desregramento não pôde ser destruído pela lei, que apenas mandava e ameaçava, mas não curava a vontade. E a segunda aliança é chamada nova porque Jesus Cristo, com essa segunda aliança, dá ao homem um espírito novo, curando-o pela novidade do Espírito Santo da corrupção do homem velho”: Propter veteris hominis noxam, quae per litteram jubentem & minantem minime sanabatur, dicitur illud testamentum vetus: hoc autem novum, propter novitatem spiritus, quae hominem novum sanat a vitio vetustatis. (Aug. De spir. & litt. Cap. 20)
Por isso, nesse excelente trecho de Jeremias de que São Paulo quis apropriar-se, citando-o duas vezes na mesma Epístola, o próprio Deus, que nele fala, expressa toda a essência da lei nova com estas palavras: Imprimirei as minhas leis em seu espírito e as escreverei em seu coração.
São Paulo parece ter querido explicar com clareza ainda maior estas palavras, quando, tendo-as em vista, diz aos coríntios: “Sois a letra em Jesus Cristo, de que fomos apenas os secretários, que está escrita, não com tinta, mas com o Espírito de Deus vivo, não sobre tábuas de pedra, mas sobre tábuas de carne, que são vossos corações” (2 Cor. 3.3).
Que devemos aprender com essas palavras, diz Santo Agostinho (Aug. De Spirit. & Litt.. cap. 20), senão que a lei antiga foi escrita sobre tábuas de pedra, para marcar a dureza e o coração de pedra dos judeus que não guardaram essa lei que lhes fora imposta e sempre foram rebeldes a Deus; e que, pelo contrário, a lei nova está escrita sobre tábuas de carne, isto é, está escrita  nos corações dos cristãos, que já não são mortos e insensíveis, como eram os corações dos judeus, mas estão vivos pela fé e animados pelo Espírito de Deus? Por isso diz o Apóstolo no mesmo lugar que é ministro do Testamento novo e da nova aliança, não da letra, mas do Espírito.
“Quando, pois, ouvimos Deus mesmo falar, acrescenta Santo Agostinho, que, querendo ensinar-nos em que consiste propriamente a religião de Jesus Cristo, nos declara que imprimirá suas leis no espírito dos homens e as escreverá em seu coração, que devemos entender por essas palavras, senão que derramará seu Espírito no coração deles, que, sendo o dedo de Deus, ali escreverá sua lei, nele imprimindo com celestial doçura a sua graça e a sua caridade, chamada por São Paulo o cumprimento de toda a lei e o fim de todos os preceitos?” (Aug. De Spir. & Litt. Cap. 21) Quid sunt leges Dei, ab ipso Deo scriptae in cordibus, nisi ipsa praesentia Spiritus Sancti, qui est digitus Dei, quo praesente diffunditur charitas in cordibus nostris, quae plenitudo legis est, & praecepte finis?
Veremos neste livro do Êxodo a maneira como Moisés dá aos israelitas a lei de Deus no monte Sinai. Mas mostra excelentemente Santo Agostinho a proporção que se encontra entre essas duas leis; já que uma é a imagem da outra; e, ao mesmo tempo, a extrema diferença que se pode observar entre as duas, já que uma é apenas a figura, e a outra, a verdade mesma.
“Quem não se impressiona, diz esse Santo, ao comparar os dois tempos em que as duas leis foram dadas?” (Aug., de Spir. & litt. Cap. 16). Os israelitas comemoram a Páscoa pela ordem que Moisés recebeu de Deus. Imolam o cordeiro pascal, cujo sangue, derramado sobre suas portas, devia salvá-los do Anjo exterminador, que entrava nas casas dos egípcios e matava todos os primogênitos.
O mesmo Filho de Deus, no fim de sua pregação, também celebra  a Páscoa e come com seus discípulos o cordeiro pascal em Jerusalém. Mas de imediato une a verdade à figura: e sendo ele mesmo o verdadeiro cordeiro pascal, o cordeiro de Deus e o cordeiro sem mácula, no dia seguinte dessa ceia pascal ele é realmente imolado sobre a cruz; e seu sangue nos protege da tirania desse Anjo cruel, que havia quatro mil anos se tornara o exterminador e o assassino de todas as almas.
No dia de Pentecostes, ou seja, conforme o sentido da palavra grega, o quinquagésimo dia depois daquele em que o cordeiro pascal fora imolado pela primeira vez,, os israelitas recebem a velha lei sobre o monte Sinai: assim também em Pentecostes, ou seja, cinquenta dias depois da Páscoa e da Ressurreição do verdadeiro Cordeiro pascal, os Apóstolos recebem a lei nova e a plenitude das graças do Espírito Santo.
Quem consegue permanecer insensível a essa relação maravilhosa, diz Santo Agostinho? Quem non moveat ista congruentia? (Aug. De spir. & lit. cap. 16.) Mas ao mesmo tempo observamos uma extrema diferença entre essas duas leis. “Na primeira, Deus aparece em meio a raios e tempestades e faz fulgurar sua terrível grandeza; na segunda, Deus derrama sobre os fiéis a plenitude de suas graças e só demonstra a sua misericórdia e a sua bondade.
“Na primeira, Deus proíbe sob pena de morte que alguém se aproxime dessa montanha coberta de fogo e fumaça, no alto da qual a Sua majestade residia; na segunda, Ele mesmo desce ao coração dos homens e os enche de uma paz e de uma alegria inefável. (Aug. Ibidem)
“Na primeira, Deus escreve a sua lei sobre tábuas de pedra. Na segunda, o Espírito Santo, que é o dedo de Deus, escreve a sua lei no coração dos homens. Assim, a primeira foi apenas uma lei exterior que Deus impôs a um povo duro, que intimidou com ameaças e permaneceu sempre carnal e sempre rebelde. A segunda foi uma lei interior, que penetrou até o fundo do coração dos homens, lhes inspirou o amor da lei e os tornou justos aos olhos de Deus: “Ibi in tabulis lapideis digitus Dei operatus est: hic in cordibus humanis. Ibi lex intrinsecus posita est qua injusti terrerentur; hic intrinsecus data est, qua justificarentur. (Aug. De Spir. & lit. cap. 17)
O próprio São Paulo descreveu essa diferença entre a lei antiga e a lei nova, de maneira realmente digna de Jesus Cristo, de que era o porta-voz. “Vede, diz ele aos Hebreus que se tornaram cristãos, que não vos aproximastes de uma montanha sensível e terrestre, de um fogo ardente, de uma nuvem escura, de tempestades e raios, de sorte que o mesmo Moisés dizia: Estou todo trêmulo e apavorado, tão terrível era o que se via. Mas vos aproximastes da montanha de Sião, da cidade do Deus vivo, da Jerusalém celeste, da assembleia e da Igreja dos primogênitos que estão escritos no céu, e de Jesus, que é o mediador da nova aliança, cujo sangue fala e não pede para ser vingado como o de Abel, mas atrai para si a misericórdia de Deus e nos purifica de todas as nossas máculas.” (Hebr. 12. 18 & seq)
Assinala ainda Santo Agostinho a diferença entre as duas leis por estas palavras: Quando as obras da caridade escritas sobre tábuas são impostas aos homens carnais com grandes ameaças de punição, a menos que façam o que lhes é ordenado; é a lei antiga e a lei das obras. Essa lei mata quem a viola, quer exteriormente, quer apenas no coração, aos olhos de Deus que sonda os corações. Mas quando o amor e a caridade mesma é derramada pelo Espírito Santo no coração dos fiéis, como ocorreu no estabelecimento da Igreja, é a lei da fé, a lei da graça, a lei do Espírito Santo que dá a vida, dando o amor: Cum ad prudentiam carnis terrendam scribuntur in tabulis opera charitatis, lex & operum & littera occidens praevaricatorem. Cum autem ipsa charitas diffunditur in corde credentium, lex est fidei & Spiritus vivificans dilectorem. (Aug. De Spir. & lit. cap. 17)
É por isso que o mesmo Santo se admira de que, embora os sacramentos e o sacrifício da lei nova, que Jesus Cristo encheu de tantas graças, fossem tão diferentes dos da antiga, que não passavam de sombras e de figuras; no entanto, o Espírito Santo, falando pela boca de Jeremias e mais tarde pela de São Paulo, e querendo mostrar precisamente a diferença entre a lei de Moisés e a de Jesus Cristo, indicou o caráter da lei nova dizendo apenas que a imprimiria no espírito, e a escreveria nos corações dos fiéis, não com tinta, como diz São Paulo, mas pelo Espírito do Deus vivo, que é Espírito de amor e de humildade. (Aug. De Spir. & litt. Cap. 25)
Deus, portanto, segundo sua sabedoria, levou-nos à salvação  por diversas etapas. Mostrando ao homem o pecado sem curá-lo, persuadiu o homem de sua fraqueza. Vendo a impotência de sua vontade, o homem implorou a graça do Salvador. A graça curou a vontade. E, curada, a vontade observou a lei, tendo obtido pela fé a força de fazer com alegria o que lhe era prescrito pela lei: Voluntas ostenditur infirma per legem, ut sanet gratia voluntatem, & sanata voluntas impleat legem. Quod operum lex minando imperat, hoc fidei lex credendo impetrat (Aug. De Spir. & lit. cap. 9). É o que diz também o mesmo Santo nestas poucas palavras: Lex data est, ut gratia quareretur; gratia data est, ut lex impleretur. (August. Ibidem c. 9)
Mas para compreender mais claramente a diferença entre essas duas leis, basta considerar as consequências e os efeitos de uma e de outra.
Deus dá a sua lei no monte Sinai. Proíbe sobre todas as coisas a idolatria aos israelitas. E logo em seguida eles O abandonam para adorar um bezerro de ouro. Entregam-se à impiedade. “Queixa-se Deus por um profeta de que eles adoraram no deserto os astros do céu e não lhe ofereceram sacrifícios durante quarenta anos. E de seiscentos mil homens armados que saíram do Egito, apenas dois, Josué e Caleb, entraram na terra prometida”. (Act. 7. 42)
Eis as consequências da lei antiga, e eis o fruto da nova. O Espírito Santo desce do céu sobre os discípulos com os seus dons. Enche-os de fogo e de luz. Eles calcam com os pés os bens da terra. Formam todos juntos um só coração e uma só alma. Adoram como o Deus do céu e autor da vida aquele que viram com seus olhos ser tratado da maneira mais vergonhosa e mais cruel do mundo. Alegram-se com o desprezo e os sofrimentos. Só pensam em viver e morrer por Aquele que por eles morreu.

(Lemaistre de Sacy, L'Exode, le Lévitique et les Nombres traduits en François avec l'explication du Sens littéral & du sens spirituel tirée des Saints Pères & des Auteurs Ecclésiastiques, Nîmes, 1781, pp. xxxi a xxxvii).

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