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sexta-feira, 23 de novembro de 2012

A Vida eterna segundo São João

São João, Alessandro Algardi

2. Et vita manifestata est, & vidimus, & testamur, & annuntiamus vobis vitam aeternam, quae erat apud Patrem, & apparuit nobis. [Pois a vida se tornou visível: nós a vimos, dela testemunhamos e vos anunciamos essa Vida eterna que estava no Pai e se mostrou a nós.] [1 João, 1, 1]

As primeira palavras deste versículo ensinam-nos o que devemos pensar de Jesus Cristo.

1. Mostram-nos que Ele é Deus, pois é a vida por essência. Com efeito, fora dito ao povo judeu acerca de Deus: "Amai o Senhor vosso Deus; obedecei a sua voz e apegai-vos a Ele; pois é Ele a vossa vida" (Deut. 30, 20). Ipse est enim vita tua. Era a Deus que dizia Davi: "Em vós, Senhor, está a fonte da vida; e só podemos ver a luz quando Vos apraz iluminar-nos." Apud te est fons vitae, & in lumine tuo videbimus lumen. (Sl. 35, 11). Só a Divindade pode fazer viver nossas almas, comunicando-nos a luz da verdade, o calor da caridade e a felicidade da eternidade. Só podemos ser santos ou felizes quando aprouver a Deus tornar-nos partícipes da sua santidade pela graça e de sua beatitude pela comunicação da sua glória. Adoremos Jesus Cristo como a fonte da vida. Apeguemo-nos a Ele, se não quisermos permanecer na morte.

2. O que deve inspirar-nos confiança, mostrando-nos qual é a misericórdia de Jesus Cristo Nosso Salvador e que bondade teve Ele por nós, é que a vida se tornou visível pela Encarnação. Et vita manifestata est. Sem este mistério, como poderíamos ser unidos à Divindade, uma vez que nos tornáramos completamente carnais e seus inimigos pelo pecado? Como poderíamos sustentar a vista dessa Majestade tão terrível, ante a qual tremem os Serafins, e dessa santidade ultrajada, que é para o homem criminoso um fogo devorador? (Hebr. 12, 29) "O homem não me poderá ver sem morrer" (Ex. 33,20), dizia o Senhor no velho Testamento; e sua voz já era o bastante, ainda que Ele se mostrasse sob símbolos estrangeiros, para abalar o céu e a terra; e os que O ouviram suplicaram que não lhes falasse mais. Diz o mesmo Moisés: Estou todo trêmulo e apavorado; tudo o que se via era terrível Que esperança restava ao homem, ele que não podia nem viver sem ver a Deus, nem ver ou ouvir a Deus sem morrer?  Nenhuma teríamos, se a vida não se tivesse feito visível para se adaptar à nossa fraqueza. O Verbo se fez carne: nele estava a vida, e essa vida era a luz dos homens. Aquele que estava desde toda a eternidade no seio do Pai se fez homem no seio de uma Virgem. Habitou entre nós, como um de nós. Nós o ouvimos, vimos, e Ele conquistou o nosso amor por favores perceptíveis. Confirmou com suas obras maravilhosas a verdade do que dizia, que "como o Pai ressuscita os mortos, também o Filho dá a vida a quem quiser. Na verdade, na verdade vos digo, aquele que ouve a minha palavra e crê naquele que me enviou tem a vida eterna e não é condenado, mas já passou da morte para a vida." (Jo, 21, 24-25) E ainda: "Na verdade, na verdade vos digo, o tempo virá, e já veio, onde os mortos ouvirão a voz do Filho de Deus; e aqueles que a ouvirem viverão: pois como o Pai tem a vida em Si mesmo, também deu ao Filho ter a vida em Si mesmo."

Ó vida soberana e essencial, vivificai completa e eternamente as nossas almas e os nossos corpos. Tornastes-Vos visível pelos mistérios de vossa Encarnação, de vossa vida mortal e de vossa Ressurreição. Tornai-Vos cada vez mais visível pelos efeitos de vossa graça, para que fique claro por marcas não equívocas que sois Vós que viveis em nós; e que vivendo de Vós, em Vós e para Vós, somos libertos da morte a que nos sujeitara o pecado. Amém.

(Abbé Nicolas Legros, Méditations sur les épistres catholiques de S. Jacques, S. Pierre et S. Jean, V (1a epístola de Sâo João); Paris, 1754, pp 9-12))

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