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sábado, 8 de setembro de 2012

São Francisco de Sales e a preparação à oração


Mas, Filóteo, talvez você não saiba orar, pois infelizmente essa é uma ciência que pouco se conhece em nosso século. Cumpre, pois, que em poucas regras eu lhe esboce aqui um método, na esperança de que os bons livros, e sobretudo o costume, venham a instruí-lo a fundo.

A primeira regra diz respeito à preparação, e eu a reduzo a estes três pontos: colocar-se na presença de Deus, pedindo-lhe o auxílio de suas luzes e de suas inspirações; escolher o Mistério que se queira meditar.

No que se refere ao primeiro destes três pontos, proponho quatro meios principais com que você pode ajudar seu novo fervor.

O primeiro consiste numa viva atenção à imensidão de Deus, que está de modo universalíssimo e realíssimo presente em todas as coisas e em todos os lugares. Assim como os pássaros, que em qualquer região onde voem, em toda parte encontram ar, assim também aonde quer que vamos ou estejamos, sempre encontramos Deus muito presente em nós mesmos e em todas as coisas; esta verdade é bastante conhecida de todos, mas nem todos lhe dão a necessária atenção. Os cegos que sabem estar na presença de um Príncipe mantêm-se respeitosos, embora não o vejam; mas por não o verem, perdem facilmente a ideia de sua presença; e, uma vez perdida, perdem com facilidade ainda maior o respeito que lhe é devido. Ah, Filóteo, não vemos Deus que nos está presente e, embora a fé e a razão nos alertem de Sua presença, logo perdemos a ideia dEle e nos comportamos como se estivesse muito longe de nós. Pois embora saibamos que está presente em todas as coisas, a falta de atenção em sua presença nos coloca na mesma condição de se o ignorássemos. É por isso que sempre devemos dispor nossa alma à Oração, por uma profunda reflexão sobre a presença de Deus. O espírito de Davi muito se impressionava com ela, quando dizia: Se subo ao Céu, ó meu Deus, lá estais; se desço ao inferno, lá também estais Vós. Sirvamo-nos, assim, das palavras de Jacó, que, depois de ter visto a escada misteriosa de que lhe falei, exclamou: Ah! Como é temível este lugar! Deus está verdadeiramente aqui, e eu de nada sabia. Queria dizer que não havia refletido a respeito, pois não podia ignorar que Deus estivesse em toda parte. Portanto, Filóteo, quando se apresentar à Oração, diga de todo coração para o seu coração mesmo: meu coração! meu coração, Deus está realmente aqui.

A segunda maneira de se colocar na presença de Deus é pensar que não só Ele está onde você está, mas também em você, no fundo de sua alma, que a vivifica, a anima e a sustenta com sua divina presença: pois como a alma que está presente em todo o corpo reside, porém, no coração com um tipo de presença mais especial, assim também Deus, que está presente em todas as coisas, está muito mais em nossa alma, e por isso se pode dizer com razão que Ele é a alma mesma. É por isso que Davi chamava Deus o Deus de seu coração. É o que quer dizer São Paulo quando diz que vivemos, nos movemos e somos em Deus. É também esse pensamento que provocará em você uma profunda veneração por Deus, que lhe está tão intimamente presente.

O terceiro meio de que você pode valer-se é considerar que o Filho de Deus, em sua humanidade, olha do Céu todas as pessoas do mundo, mas em particular os Cristãos, que são seus filhos; e de modo ainda mais especial os que estão atualmente em oração e nos quais observa o bom ou mau uso que dela fazem. Ora, o que lhe digo aqui não é mera imaginação, mas um fato muito real: pois embora não O vejamos como Santo Estêvão o viu em seu Martírio, Ele tem no entanto os olhos fitos em nós como os tinha nele, e podemos Lhe dizer algo semelhante ao que a Esposa do Cântico diz ao Esposo: ali está ele, ele mesmo, ele está oculto de mim e não posso vê-lo; mas ele me vê e me observa.

A quarta maneira consiste em imaginar que Jesus Cristo está no mesmo lugar onde estamos, como se O víssemos à nossa frente e quase como costumamos imaginar nossos amigos, e dizer: imagino ver fulano que faz isso e aquilo; parece até que o vejo, que o ouço. Mas, Filóteo, se você estivesse diante do Santíssimo Sacramento do altar, essa presença de Jesus Cristo na Igreja com você seria muitíssimo real, e não só imaginária; pois as espécies ou as aparências do pão são como um véu que O oculta a nossos olhos: Ele verdadeiramente nos vê e nos considera, embora não O vejamos em sua forma própria. Use, pois, de uma dessas quatro práticas para colocar-se na presença de Deus, e não das quatro ao mesmo tempo, e isso mesmo deve ser feito com brevidade e simplicidade.

(Introduction à la Vie dévote, II, 2)


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