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sábado, 8 de setembro de 2012

Guicciardini e a manipulação das massas

Francesco Guicciardini

Uma rápida busca no Google pode dar uma ideia da diferença de popularidade entre Nicolò Machiavelli e Francesco Guicciardini, ambos diplomatas florentinos e teóricos da política, que floresceram na mesma época, o início do Cinquecento italiano. Há 63 milhões de referências a Machiavelli e só 1.300.000 a Guicciardini.

No entanto, há uma brutal diferença de brilho entre Guicciardini e Machiavelli, e em favor do primeiro. Tal superioridade não se limitou ao êxito nas respectivas carreiras diplomáticas - o primeiro foi governador da Romanha e primeiro diplomata do Papa, ao passo que Machavelli nunca passou de um diplomata de segundo plano - mas se revela sobretudo na diferença de profundidade entre os dois pensadores. 

Enquanto a teoria política de Machiavelli ainda se move na esfera ingênua da luta entre poderes igualmente conscientes, numa arena transparente a seus planos e cálculos, Guicciardini não precisa de mais do que de meia dúzia de linhas que servem de Abertura às suas Storie Fiorentine para colocar a essência da política moderna sob seu verdadeiro signo: a manipulação das massas.

Como o italiano de Guicciardini é ainda mais saboroso do que as massas de sua Firenze natal (no sentido culinário, é claro), não resisto á tentação de citar no original esse triunfo histórico da perspicácia sobre a burrice:


Nel 1378 sendo gonfaloniere di giustizia Luigi di messer Piero Guicciardini successe la novità de' Ciompi, di che furno autori gli otto della guerra, e' quali per essere stati raffermati piú volte in magistrato, s'avevano recata adosso grande invidia e grande contradizione da' cittadini potenti, e per questo si erano rivolti a' favori della moltitudine; e però procurorono questo tumulto, non perché e' Ciompi avessino a essere signori della città ma acciò che col mezzo di quegli, sbattuti e' potenti ed inimici sua loro rimanessino padroni del governo.

Ou seja, a uma divisão por dois entre dominantes e dominados, em que se compraz Machiavelli como ainda boa parte dos nossos "teóricos", Guicciardini propõe uma divisão tripartite, entre um grupo dominante de cidadãos, que tem como inimigos dentro das altas esferas da cidade (sob diversos aspectos: financeiras, intelectuais, morais, religiosas, políticas, militares) um outro grupo de cidadãos. Para derrotar esse segundo grupo, os primeiros lançam mão das massas, fingindo dar a elas o poder, mas na verdade apenas jogando-as contra o grupo de seus rivais, enquanto permanecem invisíveis os primeiros. Não há um espaço neutro em que se desenrole o confronto. Trata-se de um jogo em que as regras, as metas e os adversários são ocultos, e nisso consiste a sua essência.

O fundamento mesmo do que tem sido a grande política em toda a Modernidade e, de modo ainda mais exacerbado, em nossos tristes tempos.

Eis aí o que se chama brilho intelectual.

2 comentários:

  1. Luís, aproveitando o canal só para te indicar esta biblioteca de Chesterton. Você deve conhecer, mas corro o risco de ser redundante assim mesmo.

    Abraço, Nik.

    http://www.cse.dmu.ac.uk/%7Emward/gkc/books/

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  2. Muito legal esse site. Já acrescentei à lista de links interessantes do blog. Abraço!

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