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sexta-feira, 31 de agosto de 2012

Texto profético de Bento XVI sobre o futuro da Igreja, de 1969



Final de uma alocução a uma rádio alemã proferida em 1968 pelo jovem professor e sacerdote Joseph Ratzinger,  em resposta à pergunta "Como estará a Igreja no ano 2000?". Traduzido da versão espanhola publicada na revista católica chilena Humanitas.

A Igreja se fará pequena, terá de começar tudo de novo. Já não conseguirá lotar muitos dos edifícios construídos em conjunturas mais favoráveis. Perderá adeptos, e com eles muitos de seus privilégios na sociedade. Apresentar-se-á, de modo muito mais intenso que até agora, como a comunidade da livre vontade, a que só se pode ter acesso por uma decisão. Como comunidade pequena, exigirá com muito mais força a iniciativa de cada um dos seus membros. Certamente conhecerá também novas formas ministeriais e ordenará sacerdotes a cristãos comprovados que continuem exercendo sua profissão: em muitas comunidades menores e em grupos sociais homogêneos, a pastoral se exercerá normalmente deste modo. Junto com estas formas continuará sendo indispensável o sacerdote dedicado por inteiro ao exercício do ministério, como até agora. Mas nestas mudanças que se podem imaginar, a Igreja encontrará de novo e com toda a determinação o que é essencial para ela, o que sempre foi seu centro: a fé no Deus trinitário, em Jesus Cristo, o Filho de Deus feito homem, na ajuda do Espírito, que durará até o fim. A Igreja reconhecerá de novo na fé e na oração seu verdadeiro centro e experimentará novamente os sacramentos como celebração e não como um problema de estrutura litúrgica.

Será uma Igreja interiorizada, que não suspira pelo mandato político, nem flerta com a esquerda nem com a direita. Será muito difícil para ela. De fato, o processo de cristalização e clarificação também lhe custará muitas forças preciosas. Torna-la-á pobre, converte-la-á numa Igreja dos pequenos. O processo será ainda mais difícil porque terá de eliminar tanto a estreiteza de vistas sectária como a voluntariedade arrogante. É de prever que isso demandará tempo. o processo será longo e árduo, como também foi muito longo o caminho que levou dos falsos progressismos, nas vésperas da revolução francesa – quando também entre os bispos estava na moda ridicularizar os dogmas e talvez até dar a entender que nem mesmo a existência de Deus estava de algum modo segura– até a renovação do século XIX. Mas após a provação dessas divisões surgirá, de uma Igreja interiorizada e simplificada, uma grande força, porque os seres humanos serão indizivelmente solitários num mundo plenamente planificado. Experimentarão, quando Deus tiver desaparecido totalmente para eles, sua absoluta e horrível pobreza. E então descobrirão a pequena comunidade dos fiéis como algo totalmente novo. Como uma esperança importante para eles, como resposta que sempre buscaram, tateando. Estou convencido de que a Igreja terá pela frente tempos muito difíceis. Sua verdadeira crise ainda mal começou. Devemos esperar fortes abalos. Mas também estou plenamente convencido do que permanecerá ao final: não Igreja do culto político, que fracassou já em Gobel, mas a Igreja da fé. Certamente nunca mais será a força dominante na sociedade, como o era pouco tempo atrás. Mas florescerá de novo e se tornará visível aos seres humanos como a pátria que lhes dá vida e esperança para além da morte.

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