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sábado, 18 de agosto de 2012

Bergson e Péguy


Uma página importante do catolicismo europeu foi escrita a quatro mãos por Henri Bergson, o grande filósofo, e Charles Péguy, poeta e presença importante nas guerras culturais da virada do século XIX para o XX.

De origens e itinerários absolutamente distintos, tanto o filósofo judeu como o poeta de origem humilde acabariam convertendo-se ao catolicismo.

Se a obra poética de Péguy é uma amostra impressionante de como a Fé pode moldar o mais puro lirismo, a filosofia de Bergson continua sendo fonte inesgotável de ensinamentos para o cristão que dela se aproxime com a devida atenção. De grande atualidade sobretudo é a sua defesa da espiritualidade da memória e sua refutação do monismo e do paralelismo mente/corpo, desenvolvido em seu genial Matéria e Memória. O mesmo Maritain, que lhe dedicou uma crítica devastadora, reconhecia que em muitos pontos a argumentação bergsoniana nesta área havia sido definitiva. No fim da vida, Bergson, já uma celebridade mundial, vencedor do prêmio Nobel e um dos intelectuais de maior prestígio no planeta, reconheceu a pertinência de muitos pontos levantados pelo tomismo do jovem Maritain, numa demonstração de amor à verdade e de honestidade intelectual e espiritual rara na história da filosofia.

Aqui vai um trecho de um belíssimo livro, hoje esquecido, que trata exclusivamente da relação entre Bergson e Péguy:  Bergson maître de Péguy, de André Henry, Paris, Elzévir, 1948. É um breve paralelo entre a incomensurabilidade da intuição à linguagem em Bergson e da mística à sua diluição política em Péguy:


Se é verdade que para Bergson toda intuição filosófica se nega ao se exprimir e que para Péguy toda mística se degrada em política, é para o centro de origem de toda intuição e de toda mística que se voltarão Bergson e Péguy para satisfazer uma sede de absoluto que a multiplicidade enganosa do criado não poderia saciar. É o que verificamos continuamente, tanto para um como para outro. Para Bergson, o verdadeiro filósofo não é o que exprime de uma só vez e de maneira definitiva a sua intuição, mas o que é atormentado por uma insatisfação inata e que não cessa de sofrer da distância que separa uma intuição viva de sua expressão necessariamente aproximada. Nunca, para Bergson, o verdadeiro filósofo poderia transmitir a totalidade de seu testemunho, e é o doloroso destino de uma obra permanecer eternamente inferior à intenção que a suscitou. Da mesma forma, para Péguy, o revolucionário místico não é o que faz só uma vez a sua revolução e só estilhaça os quadros sociais para promover outros sistemas hierárquicos que lhe pareçam mais justos ou lhe sejam mais proveitosos. É aquele em que a dolorosa certeza de ver seu sonho inevitavelmente desfigurado pelas sucessivas realizações alimenta uma indignação insaciável. Mas é também aquele que sabe que o fervor criador supera em dignidade os mais brilhantes sucessos da criação. É por isso que ele acabará alimentando essa insatisfação metafísica que é o sinal mais seguro da presença nele de uma graça que não repousa jamais.

(pp. 305-306)

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