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quarta-feira, 15 de agosto de 2012

A alegria sensível e a alegria espiritual


O que está por trás de boa parte da desorientação que hoje atinge amplos setores da Igreja de Cristo é a desastrosa perda do senso da separação entre o espiritual e o sensível.

A Fé justifica-se pelos sentimentos que proporciona. É preciso sentir mais do que crer: eis o grande erro.

Exemplo disso é a interpretação sensível do que dizem as Escrituras sobre a alegria dos filhos de Deus. É essa interpretação que abre caminho para monstruosidades como o showzinho de Medjugorje mostrado abaixo, com seu balé composto por padres e freiras. Se já tínhamos de aguentar chacretes e paniquetes, agora temos também os medjugoretes. Tudo em nome da alegria evangélica!

Mas nunca foi essa a leitura feita pela Tradição da recomendação de Jesus Cristo: Não se perturbe o vosso coração.

Aqui vai a tradução inédita de um belo texto do padre Gilles Vauge, oratoriano, a respeito das relações entre a sensibilidade e a alegria dos filhos de Deus. Tradução Yours Truly.


Não devem aqueles que vivem na piedade deixar-se abater e desencorajar por não sentirem em si essa paz e  essa alegria e, ao contrário, muitas vezes se sentirem angustiados e agitados; nem se deixem persuadir com isso de que não participem da justiça Cristã. No admirável sermão após a ceia, em que Jesus Cristo recomenda tantas vezes a alegria e a paz como o legado mais precioso que queria deixar a todos os verdadeiros discípulos, encontramos de que tranquilizar essas pessoas piedosas. Jesus Cristo teve o cuidado de dizer expressamente: Não se perturbe o vosso coração. Teve até o cuidado de dizer uma segunda vez: Não se perturbe o vosso coração e não se deixe abater pelo medo. Jesus Cristo, portanto, só proíbe a aflição do coração que vem da pouca confiança em seu poder e bondade. Não proíbe a aflição nem as angústias dos sentidos e da imaginação, de que nem sempre a alma é senhora. Enquanto a parte inferior está agitada, a parte superior da alma pode e deve conservar-se na paz.
O mesmo Jesus Cristo, por espantosa humilhação, mas tanto mais digna de seu amor infinito, quanto mais indigna de sua majestade, quis experimentar a aflição, o medo e a tristeza, até cair numa agonia que, por inaudito prodígio, tirou de todas as partes de seu corpo um suor de sangue que escorria para o chão; e enquanto sobre a cruz sacrifica a vida pela glória do Pai, queixa-se de que seu Pai o abandonou, fazendo que sua alma santa carregue todo o peso de sua justiça e da santidade, mergulhando-a num mar de dores, de amargor e de desolação; tirando-lhe todo outro prazer, toda outra alegria, todo outro consolo senão o de obedecer, apesar de tudo, à vontade do Pai. Eis até onde a caridade infinita o rebaixou, para tranquilizar e consolar os mais fracos dos seus seguidores na aflição, no medo, na tristeza e na privação de toda alegria e de todo consolo sensível que sentem ao longo da vida cristã; e para lhes  ensinar, tanto quanto aos mais perfeitos, que devem tudo sacrificar a Deus, considerar-se felizes por obedecerem a Ele e por sofrerem por seu amor a privação de todo outro consolo e de toda outra alegria, a não ser a de fazer a sua santa vontade apesar de tudo.
Enquanto a parte inferior da alma está entregue à aflição, ao temor e à tristeza, pode, portanto, haver na parte superior certa alegria e certa paz. E essa alegria e essa paz são muito verdadeiras, embora não sejam sentidas por causa do medo e da tristeza que ocupam a imaginação e os sentidos. Está escrito que o justo vive da fé, mas não do sentimento. Quando os Ministros da Igreja batizam, consagram o Corpo de Jesus Cristo, dão a absolvição, esses Ministros não sentem em si esses poderes divinos de tornar presente corporalmente Jesus Cristo em nossos altares, de retirar as almas do inferno e de lhes abrir o Céu pela remissão dos pecados que lhes dão pelo Sacramento do Batismo ou da Penitência; nem os que recebem esses Sacramentos sentem em si esses efeitos admiráveis: e no entanto nem uns nem outros jamais duvidam disso: julgam pela fé, e não pelo sentimento. É preciso igualmente julgar essa paz e essa alegria que Deus nos recomenda com tanta força nas Escrituras do velho e do novo Testamento, não pelo sentimento, mas pelos princípios da fé. É verdade que essa paz e essa alegria é às vezes sensível; é, então, certa doçura, certo afeto, certo gosto que Deus dá com maior frequência no começo da conversão do que depois. Devemos receber essa graça com humildade, mas sem nos apegarmos demais a ela; pois Deus muitas vezes a retira depois que as almas se fortalecem e tomam raiz nas virtudes cristãs. É útil para elas que essa alegria sensível não dure para sempre. Mas em seu lugar Ele põe uma alegria mais íntima, uma alegria totalmente espiritual, uma alegria que apesar até da aflição dos sentidos e da parte inferior da alma permanece oculta no fundo do coração e no imo da vontade. E tal alegria não é senão certo vigor, certa força toda interior e espiritual, que sustenta a alma contra as tentações; que a faz cumprir todos os deveres, pelo menos nas coisas essenciais; que a mantém submissa a Deus e à sua santa vontade em meio até às maiores agitações; que a torna superior a todas as falsas alegrias e às doçuras mortais do pecado, e que a faz preferir o prazer e a alegria de viver na castidade, na humildade, na caridade, na temperança e nas outras virtudes cristãs, ao prazer que poderia obter, como tantas outras, nos crimes opostos a essas virtudes.
Essa paz e essa alegria é inseparável da justiça Cristã, e está sempre no fundo do coração de todos os justos, embora a aflição e o temor que agitem a parte inferior as levem a crer que não a têm. Assim é que São Bernardo tranquiliza e consola essas almas piedosas: “Muitos há, diz esse Padre (1), que se queixam de raramente experimentarem essa afeição sensível e esse prazer mais doce que o mel mais excelente, como diz a Escritura. Não veem que isso vem de Deus exercitá-los nas tentações e nos combates; e que mostram muito mais firmeza e coragem quando abraçam assim as virtudes, não pelo prazer que nelas encontram, mas pelas virtudes mesmas, apenas no desejo de agradar a Deus; e a isso se dedicam com toda aplicação, embora não com total satisfação. E não há dúvida de que aquele que assim age obedece perfeitamente a essa recomendação salutar do Profeta: Alegrai-vos no Senhor, porque o Profeta não fala tanto dessa alegria sensível que nasce do afeto, quanto de uma alegria efetiva que produz a ação; pois esse afeto pertence propriamente à beatitude que esperamos no céu; e a ação pertence à virtude que devemos praticar nesta vida”.
(Pe. Gilles Vauge, De l'Espérance Chrétienne contre l'Esprit de Pusillanimité & de Défiance, & contre la Crainte excessive, Paris, 1778, pp. 38-44).



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