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quinta-feira, 5 de abril de 2012

O Ofício das Trevas dos três últimos dias da Semana Santa


Dá-se normalmente o nome de Trevas ao Ofício de Matinas e de Laudes dos três últimos dias da Semana Santa, porque esse Ofício era  antigamente celebrado à noite, como os outros dias do ano. Esse nome também lhe pertence por outra razão: ele tem início à luz do dia e só termina depois do pôr-do-sol. Um rito imponente e misterioso, próprio somente destes Ofícios, vem também confirmar esse nome. Coloca-se no santuário, perto do altar, um grande candelabro triangular, sobre o qual estão dispostos quinze círios. Esses círios, assim como os seis do altar, são de cera amarela, como no Ofício dos Mortos. Ao fim de cada Salmo ou Cântico, apaga-se sucessivamente um dos círios do grande candelabro; um só, aquele que está colocado na extremidade superior do triângulo, permanece aceso. Durante o cântico Benedictus, nas Laudes, os seis círios que estavam acesos sobre o altar também são apagados. Então o Cerimoniário toma o único círio que permanecera aceso no candelabro e o mantém apoiado sobre o altar durante o canto da Ladainha que se repete depois do Cântico. Em seguida, ele sai e vai esconder o círio, sem apagá-lo, atrás do altar. Ele se mantém assim longe de todos os olhares durante a recitação do Miserere e da Oração de conclusão que se segue a esse Salmo. Acabada essa Oração, bate-se ruidosamente nos assentos do coro, até que o círio que fora escondido atrás do altar reapareça e anuncie por sua luz sempre conservada que o Ofício das Trevas chegou ao fim.


O Ofício das Trevas tal como é celebrado ainda 
hoje em Sessa Aurunca, Campania, Italia.

Expliquemos agora o sentido dessas diversas cerimônias. Estamos nos dias em que a glória do Filho de Deus é eclipsada sob as ignomínias da Paixão. Ele era a "luz do mundo", potente em obras e em palavras, acolhido havia pouco pelas aclamações de todo um povo; ei-lo agora despido de toda grandeza, "o homem doloroso, um leproso", diz Isaías; "um verme da terra e não um homem", diz o Rei Profeta; um "motivo de escândalo para os discípulos", diz Ele Mesmo. Todos se afastam dEle ;até Pedro nega tê-Lo conhecido. Esse abandono, essa defecção quase geral são representados pelo apagamento sucessivo dos círios do candelabro triangular, até os que estão sobre o altar. No entanto, a luz desdenhada do nosso Cristo não se apaga, embora não lance mais seu fulgor e as trevas se tenham feito ao seu redor. Colocam por um momento o círio misterioso sobre o altar. Está ali como o Redentor sobre o Calvário, onde sofre e morre. Para exprimir a sepultura de Jesus, esconde-se o círio atrás do altar; sua luz não mais é visível. Então um ruído confuso se faz ouvir no santuário, que a ausência dessa última chama mergulhou na escuridão. O ruído, unido às trevas, exprime as convulsões da natureza no momento em que, tendo o Salvador expirado na cruz, a terra estremeceu, os rochedos se fenderam, os sepulcros se abriram. Mas de repente a luz reaparece sem nada ter perdido de sua luz; o ruído cessa, e todos prestam homenagem ao vencedor da morte.

(Dom Prosper Guéranger, L'Année Liturgique, La Passion et la Semaine Sainte, 1875, pp.343-345; trad. Yours Truly).

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