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sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Tauler e a ascese do espírito

Johannes Tauler
(1300-1361)

Pois a alma é criada entre o tempo e a eternidade. Por sua parte superior, ela pertence à eternidade; por sua parte inferior, pelas potências sensíveis e animais, pertence ao tempo. Ora, a alma, tanto pelas potências superiores como pelas inferiores, esparrama-se pelo tempo e pelas coisas temporais em razão da relação que as potências mais altas têm com as mais baixas; assim, ela não precisa ir muito longe; ela se dispõe a se dispersar nas coisas sensíveis e não dá mais a sua parte à eternidade.
Na verdade, é absolutamente necessário que haja o retorno para que ocorra esse nascimento [como filho de Deus na alma]; é preciso um enérgico retorno a si mesmo, um recolhimento, uma concentração interior de todas as potências, as mais altas e as mais baixas; é preciso reunir tudo o que estava disperso, pois são as coisas unidas as mais fortes. Quando o arqueiro quer acertar o alvo, fecha um olho para que o outro mire com maior exatidão; quem quer conhecer a fundo uma coisa, nela concentra todos os pensamentos e força suas potências a retornar à alma de onde se espalharam para fora, como os galhos saem do tronco da árvore. Quando todas as potências sensíveis, afetivas e ativas se reúnem nas potências superiores, no fundo, é a entrada em si mesmo.
Para que aconteça a saída, e até mesmo a ultrapassagem para fora e por sobre nós mesmos, temos de aniquilar todo querer, todo desejo, todo agir próprios; temos de só deixar subsistir uma pura e simples atenção a Deus, sem procurar de modo nenhum tornarmo-nos ou adquirirmos algo para nós mesmos; só ser e Lhe dar lugar, da maneira mais alta e mais íntima, para que possa executar sua obra e seu nascimento em ti sem que O impeças. Pois quando dois devem tornar-se um, é preciso que um seja passivo e o outro ativo: para que os meus olhos percebam as imagens na parede ou em algum outro objeto, têm de se despojar de toda imagem; pois se tiverem alguma imagem com certo colorido, não verão mais nenhuma cor. Ou ainda: se a orelha está cheia de som, não ouve nenhum outro som. Para podermos receber, temos de estar disponíveis, livres e despojados. É o que diz Santo Agostinho "Esvazia-te para que possas preencher-te; sai para que possas entrar".
(Johannes Tauler in Jeanne Ancelet-Hustache, Maître Eckhart et la mystique rhénane, Paris, Seuil, pp 149-150)

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