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quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

São Jerônimo a Santo Agostinho sobre a bem-aventurança eterna

São Jerônimo de José de Ribera

Determinado tinha Santo Agostinho consultar a seu amigo São Jerônimo sobre o que sentia da glória dos Bem-aventurados. Foi este no mesmo tempo chamado ao felicíssimo número destes; e, por dispensação divina, veio a dar-lhe a resposta desejada da consulta ainda não feita; e o que disse, melhor será ouvi-lo ao mesmo Santo Agostinho.
Estava eu (diz o Santo) sossegado no retiro da minha celinha, revolvendo no pensamento quanta seria a glória e alegria das almas bem-aventuradas, porque desejava compor sobre esta matéria um breve tratado. Pegando, pois, do papel e pena para escrever a Jerônimo santíssimo uma carta, em que lhe pedisse me dissesse neste particular o que sentia, subitamente entrou no aposento um resplendor ou claridade inefável, nunca vista cá no século e que excede a explicação das nossas línguas; e juntamente uma fragrância, que semelhança sua nunca experimentou o sentido. E logo do meio daquela luz saiu uma voz, que dizia: Agostinho, Agostinho, que fazes? Intentas, porventura, encerrar em breve vaso as profundezas do mar todo? Cuidas, porventura, que poderás entender o que nem subir pode ao coração humano? De coisa que é infinita, qual será o fim; e da que é imensa, qual será a medida? Sabe que mais facilmente fecharás no punho a redondeza da terra e farás que os celestes orbes cessem de seu perpétuo movimento do que da glória dos Bem-aventurados possas dizer ou entender a mínima parte, até que não sejas, como eu, ensinado pela experiência.  Neste ponto desapareceu a visão, na qual todos (ainda os que logramos só por este reflexo) temos juntamente a consolação e o desengano de que é tão grande o bem da glória que esperamos que ninguém pode entendê-lo senão quando chegar a possuí-lo: Nemo scit, nisi qui accipit.

(Padre Manuel Bernardes, Nova Floresta, II, 79)

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