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quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

A excelência da Virgindade



Quando queremos estabelecer uma verdade que é do âmbito da fé, procedemos sempre por via de autoridade; se em seguida os raciocínios vêm reunir-se, por assim dizer, ao redor da verdade já estabelecida sobre um fundamento inabalável, tais raciocínios são uma homenagem prestada à autoridade divina pela pobre razão humana; são úteis a grande número de homens que precisam de uma demonstração qualquer para se dar conta do acordo perfeito da razão com a fé; este é um grande bem para sua fraqueza, é uma glória para a Igreja, sempre pronta para desafiar seus adversários a descobrirem a menor oposição entre as verdades por ela ensinadas e as puras luzes da razão, que o homem considera com justiça o mais belo apanágio de sua natureza.

Aplicando-se tal princípio à verdade já anunciada mais acima, ou seja, a EXCELÊNCIA DA VIRGINDADE, ele me leva naturalmente ao exame desta importante questão: Que pensa Deus da virgindade?

É evidente que se Deus aprecia a virgindade, ela é realmente estimável; se Deus a ama, ela é digna de meu amor; se Deus a coloca acima de qualquer outro estado, se a prefere ao casamento, sou obrigado também eu a colocá-la, em minha estima, acima do estado contrário, a preferi-la, não praticando-a, pois a virgindade é apenas um conselho evangélico, mas em meu juízo, na especulação, a preferi-la, digo, a tudo o que lhe seja oposto; enfim, a não conceber nenhuma dúvida sobre a sua excelência.

Pois bem! Para saber o que Deus acha da virgindade, devo perguntá-lo a Jesus Cristo.

Jesus Cristo é a sabedoria eterna que se revestiu de nossa natureza; é o filho de Deus, a luz do mundo, É A VERDADE (João XIV). A autoridade de Jesus Cristo é, portanto, a pedra fundamental sobre a qual cumpre erguer o edifício a construir em honra da virgindade.

Jesus Cristo, considerado em sua santa humanidade, era virgem? Ninguém ousará pôr em dúvida esta verdade. Seria preciso ser capaz de uma blasfêmia diante da qual o mesmo Satanás recuou, para ousar questionar a pureza infinita da pessoa adorável do Filho de Deus feito homem; a eminente santidade de Deus exclui radicalmente a ideia de um estado oposto à santa virgindade. Ora, Jesus Cristo era DEUS! Por isso lá se vão já dezoito séculos que se erguem para proclamar a virgindade do Salvador dos homens; e de todas as bocas sai este grito de admiração cheio de fé e de amor: Jesus é o rei dos virgens! Jesus é o amador da virgindade! Jesus é a pureza dos virgens!

Mas não bastava que Jesus Cristo fosse virgem para nos mostrar o seu amor, a sua predileção pela virgindade. Teriam podido dizer que como a natureza divina se opõe no Homem-Deus ao estado e à condição do matrimônio, a virgindade do Salvador nada provava para nós mesmos e para a nossa conduta; Jesus Cristo devia explicar-se de outra maneira para revelar aos homens a sua estima pela virgindade, o que Ele fez.

No momento de se fazer homem, o Filho de Deus escolheu uma mãe; este é o primeiro e mais magnífico triunfo da virgindade. Quem será a Mãe do Salvador, a Mãe de Deus? Uma VIRGEM. Mas como? Não foi Deus que disse no começo do mundo, dirigindo-se a um homem e a uma mulher: crescei e multiplicai-vos? E, com essas palavras, não estabeleceu o casamento como o único meio de propagar a espécie humana? Será que alguém, desde o Paraíso terrestre, foi louco o bastante para pedir ao céu um filho, um rebento de Adão, recusando-se a se valer do único meio, necessário, desejado por Deus, o casamento?

Pois bem! O Filho de Deus vai tornar-se o Filho do homem, filho de Adão, homem verdadeiro no tempo, como é Deus verdadeiro desde toda eternidade. Será concebido, carregado durante nove meses no seio de uma mulher, nascerá, mamará o leite destinado às crianças, será em tudo semelhante a nós, exceto o pecado, exclama o grande Apóstolo (Hebr. IV).

Ora , o que prova essa inversão de todas as leis, essa reviravolta de todas as ideias do homem animal que não seria capaz de escrutar  as profundezas de Deus, esse prodígio dos prodígios, esse milagre dos milagres? Podemos ver nele outra coisa do que a estima da virgindade, o amor da virgindade, a glorificação da virgindade, digo até, a deificação da virgindade?

Virgens, elevai vosso espírito, elevai vosso coração e começai a compreender o que sois no pensamento de Deus!

Compreendera tão bem Santo Ambrósio as relações íntimas de Deus com a virgindade, que exclama num sentimento de profunda admiração: Não, uma virgem que dá à luz, só pode dar à luz um Deus; um Deus que nasce, só pode nascer de uma virgem!

Será isso o bastante para nos fazer compreender a excelência da virgindade? Mas Jesus Cristo continua a nos provar por seus atos a estima que tem pela virgindade e o amor que devora o seu coração por essa sublime prerrogativa.

O Filho de Deus que vem visitar a terra precisa de um precursor, um profeta que o designe ao povo como o Messias, que o nomeie solenemente: o Cordeiro de Deus que veio para tirar o pecado do mundo. Pois bem! De que boca deve escapar essa palavra admirável? Quem será digno de revelar o grande mistério? Nós o sabemos: é escolhido um homem virgem, o santo Precursor é virgem, a imitação dAquele que anuncia; os lábios de João Batista participam da pureza dos de Jesus; João Batista, o primeiro apóstolo da lei evangélica, parece uma fronte que irradia pureza; João Batsita é virgem, foi Jesus que o quis!

No fim da vida, o divino Salvador escolheu entre os discípulos um homem que deve ser objeto de um favor todo especial. Tal favor não é um grande poder, uma autoridade, uma dignidade que o eleve acima dos irmãos, é algo mais extraordinário, algo mais precioso, é a AMIZADE do Mestre, um amor especialíssimo que fez o Espírito Santo dizer: O DISCÍPULO QUE JESUS AMAVA (Jo XXI), o que significa o amigo do coração de Jesus, aquele pelo qual Jesus sentia um afeto particular, um amor mais terno, um amor de predileção, de preferência.

Esse discípulo recebe na última Ceia, um favor que só a ele é concedido; descansa a cabeça no peito de Jesus. Que dizer da excelência de tal privilégio? Quem pode sondar o coração de Jesus, para nos dizer a força de seu amor por João, o Discípulo bem-amado?

Mas se somos incapazes de bem apreciar o amor de Jesus por João, podemos dizer a causa dessa preferência, desses favores que Jesus Cristo quis conceder a um só entre tantos discípulos fiéis. Conhecemos essa causa. Os mais ilustres doutores da Igreja, São Jerônimo e Santo Agostinho, afirmam que a razão pela qual São João foi o discípulo bem-amado é que ele era virgem. Diz a Igreja o mesmo no ofício desse apóstolo e canta estas belas palavras: Jesus amava João porque a prerrogativa da pureza o tornara digno de ser amado mais ternamente que os outros; pois tendo sido chamado ao apostolado quando ainda era virgem. permaneceu virgem a vida inteira.

Foi muito inspirado aquele que aplicou a João, ao discípulo do amor, estas palavras ditadas pelo Santo Espírito: "Quem ama a pureza do coração terá o Rei por amigo." (Prov.)

Pois bem! Que pensava Jesus Cristo da virgindade? Que pensa sobre ela Deus? É possível ter a mínima dúvida acerca da excelência dessa virtude, depois de um juízo divino tão formal, tão eloquente, tão solene?

Posso concluir de tudo o que acaba de ser dito que São João Crisóstomo não exagerava nem um pouco quando exclamava que a virgindade supera o matrimônio pela excelência tanto quanto o céu está acima da terra!

Feliz a alma fiel que compreende estas coisas! Ai daquela que, por não ter forças para se elevar à altura sublime de uma virgindade perpétua, se recusa a se humilhar e a reconhecer que seu estado é menos perfeito que o das virgens.

Virgens, considerai Jesus Cristo, considerai sua divina Mãe, olhai para o santo Precursor, para José o esposo virgem da Rainha das virgens; contemplai João que repousa sobre o peito de Jesus e dizei então se vosso estado não é digno de inveja. Eis a sociedade a que pertenceis; eis o vosso lugar.

(Abbé Coulin, La Virginité, Paris, Casterman, 1863, pp. 3-9).

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