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sábado, 31 de dezembro de 2011

Hino "Lucis Creator optime"



A execução é do coral da Schola Gregoriana Monostorinensis da Romênia.

Feliz ano novo para todos!


Lucis Creator optime,
lucem dierum proferens,
primordiis lucis novae
mundi parans originem;

Qui mane iunctum vesperi
diem vocari praecipis:
tetrum chaos illabitur,
audi preces cum fletibus.

Ne mens gravata crimine,
vitae sit exsul munere,
dum nil perenne cogitat
seseque culpis illigat.

Caeleste pulset ostium,
vitale tollat praemium;
vitemus omne noxium,
purgemus omne pessimum.

Praesta, Pater piissime,
Patrique compar Unice,
cum Spiritu Paraclito
regnans per omne saeculum.
Amen.

Sobre a liberdade religiosa e o Magistério


Quanto à contradição apontada pelos lefebvristas entre, por um lado, a doutrina sobre a liberdade religiosa tal como é apresentada na Declaração Dignitatis Humanae do Concílio Vaticano II e por outro, o que o Magistério ensina nas encíclicas Mirari Vos de Gregório XVI e Quanta Cura de Pio IX, tenho uma dúvida, sem dúvida provocada por minha indubitável ignorância. É sabido que o Magistério é infalível em questões de fé e de moral. Será também infalível em questões de política, ou estas se definiriam como matéria contingente, aberta ao debate? Pois parece claro que a liberdade de que trata Dignitatis Humanae é "a liberdade de coação na sociedade civil" (Compêndio, 1535), o que não parece ser uma questão de moral, mas de política. Salvo erro, naturalmente.

De qualquer forma, o problema parece vir de mais longe e não se limitar à Dignitatis Humanae, pois o mesmo Pio XII, de saudosa memória,  em "Con sempre nuova freschezza", mensagem de Natal de 1942, cita a liberdade religiosa entre os direitos da pessoa humana, num dos cinco pontos fundamentais para a ordem e a pacificação da sociedade humana dilacerada pela guerra:

"[Quem quiser que a estrela da paz desponte e se detenha sobre a sociedade] apoie o respeito e a prática atuação dos seguintes direitos fundamentais da pessoa: o direito a manter e desenvolver a vida corporal, intelectual e moral e, em particular, o direito à formação e educação religiosa; o direito ao culto de Deus privado e público, inclusive a ação caritativa religiosa; o direito, em princípio, ao matrimônio etc."
[Enchiridion delle Encicliche 6, Pio XII, EDB, p. 1376, pár. 1704)

Além disso, vale lembrar que também no caso dos textos conciliares, como na leitura da Bíblia, não cabe o princípio da Sola Scriptura, ou seja uma relação direta entre a escrita e o leitor. Também aí a Igreja tem a exclusividade da interpretação de seus próprios textos. Não é porque o Concílio significou certa abertura em relação às seitas protestantes que devemos usar na hermenêutica do corpus conciliar de uma chave de leitura ortodoxamente protestante.

Quem já discutiu alguma vez com os evangélicos sabe que eles vêm sempre com uma listinha pronta de versículos bíblicos que à primeira vista contradizem o dogma católico, e é nestes casos que se faz necessário o recurso à interpretação da Igreja. Exatamente o que reivindica Bento XVI para os textos do CV2.

Kyrie eleison, Christe eleison, Kyrie eleison.

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

A excelência da Virgindade



Quando queremos estabelecer uma verdade que é do âmbito da fé, procedemos sempre por via de autoridade; se em seguida os raciocínios vêm reunir-se, por assim dizer, ao redor da verdade já estabelecida sobre um fundamento inabalável, tais raciocínios são uma homenagem prestada à autoridade divina pela pobre razão humana; são úteis a grande número de homens que precisam de uma demonstração qualquer para se dar conta do acordo perfeito da razão com a fé; este é um grande bem para sua fraqueza, é uma glória para a Igreja, sempre pronta para desafiar seus adversários a descobrirem a menor oposição entre as verdades por ela ensinadas e as puras luzes da razão, que o homem considera com justiça o mais belo apanágio de sua natureza.

Aplicando-se tal princípio à verdade já anunciada mais acima, ou seja, a EXCELÊNCIA DA VIRGINDADE, ele me leva naturalmente ao exame desta importante questão: Que pensa Deus da virgindade?

É evidente que se Deus aprecia a virgindade, ela é realmente estimável; se Deus a ama, ela é digna de meu amor; se Deus a coloca acima de qualquer outro estado, se a prefere ao casamento, sou obrigado também eu a colocá-la, em minha estima, acima do estado contrário, a preferi-la, não praticando-a, pois a virgindade é apenas um conselho evangélico, mas em meu juízo, na especulação, a preferi-la, digo, a tudo o que lhe seja oposto; enfim, a não conceber nenhuma dúvida sobre a sua excelência.

Pois bem! Para saber o que Deus acha da virgindade, devo perguntá-lo a Jesus Cristo.

Jesus Cristo é a sabedoria eterna que se revestiu de nossa natureza; é o filho de Deus, a luz do mundo, É A VERDADE (João XIV). A autoridade de Jesus Cristo é, portanto, a pedra fundamental sobre a qual cumpre erguer o edifício a construir em honra da virgindade.

Jesus Cristo, considerado em sua santa humanidade, era virgem? Ninguém ousará pôr em dúvida esta verdade. Seria preciso ser capaz de uma blasfêmia diante da qual o mesmo Satanás recuou, para ousar questionar a pureza infinita da pessoa adorável do Filho de Deus feito homem; a eminente santidade de Deus exclui radicalmente a ideia de um estado oposto à santa virgindade. Ora, Jesus Cristo era DEUS! Por isso lá se vão já dezoito séculos que se erguem para proclamar a virgindade do Salvador dos homens; e de todas as bocas sai este grito de admiração cheio de fé e de amor: Jesus é o rei dos virgens! Jesus é o amador da virgindade! Jesus é a pureza dos virgens!

Mas não bastava que Jesus Cristo fosse virgem para nos mostrar o seu amor, a sua predileção pela virgindade. Teriam podido dizer que como a natureza divina se opõe no Homem-Deus ao estado e à condição do matrimônio, a virgindade do Salvador nada provava para nós mesmos e para a nossa conduta; Jesus Cristo devia explicar-se de outra maneira para revelar aos homens a sua estima pela virgindade, o que Ele fez.

No momento de se fazer homem, o Filho de Deus escolheu uma mãe; este é o primeiro e mais magnífico triunfo da virgindade. Quem será a Mãe do Salvador, a Mãe de Deus? Uma VIRGEM. Mas como? Não foi Deus que disse no começo do mundo, dirigindo-se a um homem e a uma mulher: crescei e multiplicai-vos? E, com essas palavras, não estabeleceu o casamento como o único meio de propagar a espécie humana? Será que alguém, desde o Paraíso terrestre, foi louco o bastante para pedir ao céu um filho, um rebento de Adão, recusando-se a se valer do único meio, necessário, desejado por Deus, o casamento?

Pois bem! O Filho de Deus vai tornar-se o Filho do homem, filho de Adão, homem verdadeiro no tempo, como é Deus verdadeiro desde toda eternidade. Será concebido, carregado durante nove meses no seio de uma mulher, nascerá, mamará o leite destinado às crianças, será em tudo semelhante a nós, exceto o pecado, exclama o grande Apóstolo (Hebr. IV).

Ora , o que prova essa inversão de todas as leis, essa reviravolta de todas as ideias do homem animal que não seria capaz de escrutar  as profundezas de Deus, esse prodígio dos prodígios, esse milagre dos milagres? Podemos ver nele outra coisa do que a estima da virgindade, o amor da virgindade, a glorificação da virgindade, digo até, a deificação da virgindade?

Virgens, elevai vosso espírito, elevai vosso coração e começai a compreender o que sois no pensamento de Deus!

Compreendera tão bem Santo Ambrósio as relações íntimas de Deus com a virgindade, que exclama num sentimento de profunda admiração: Não, uma virgem que dá à luz, só pode dar à luz um Deus; um Deus que nasce, só pode nascer de uma virgem!

Será isso o bastante para nos fazer compreender a excelência da virgindade? Mas Jesus Cristo continua a nos provar por seus atos a estima que tem pela virgindade e o amor que devora o seu coração por essa sublime prerrogativa.

O Filho de Deus que vem visitar a terra precisa de um precursor, um profeta que o designe ao povo como o Messias, que o nomeie solenemente: o Cordeiro de Deus que veio para tirar o pecado do mundo. Pois bem! De que boca deve escapar essa palavra admirável? Quem será digno de revelar o grande mistério? Nós o sabemos: é escolhido um homem virgem, o santo Precursor é virgem, a imitação dAquele que anuncia; os lábios de João Batista participam da pureza dos de Jesus; João Batista, o primeiro apóstolo da lei evangélica, parece uma fronte que irradia pureza; João Batsita é virgem, foi Jesus que o quis!

No fim da vida, o divino Salvador escolheu entre os discípulos um homem que deve ser objeto de um favor todo especial. Tal favor não é um grande poder, uma autoridade, uma dignidade que o eleve acima dos irmãos, é algo mais extraordinário, algo mais precioso, é a AMIZADE do Mestre, um amor especialíssimo que fez o Espírito Santo dizer: O DISCÍPULO QUE JESUS AMAVA (Jo XXI), o que significa o amigo do coração de Jesus, aquele pelo qual Jesus sentia um afeto particular, um amor mais terno, um amor de predileção, de preferência.

Esse discípulo recebe na última Ceia, um favor que só a ele é concedido; descansa a cabeça no peito de Jesus. Que dizer da excelência de tal privilégio? Quem pode sondar o coração de Jesus, para nos dizer a força de seu amor por João, o Discípulo bem-amado?

Mas se somos incapazes de bem apreciar o amor de Jesus por João, podemos dizer a causa dessa preferência, desses favores que Jesus Cristo quis conceder a um só entre tantos discípulos fiéis. Conhecemos essa causa. Os mais ilustres doutores da Igreja, São Jerônimo e Santo Agostinho, afirmam que a razão pela qual São João foi o discípulo bem-amado é que ele era virgem. Diz a Igreja o mesmo no ofício desse apóstolo e canta estas belas palavras: Jesus amava João porque a prerrogativa da pureza o tornara digno de ser amado mais ternamente que os outros; pois tendo sido chamado ao apostolado quando ainda era virgem. permaneceu virgem a vida inteira.

Foi muito inspirado aquele que aplicou a João, ao discípulo do amor, estas palavras ditadas pelo Santo Espírito: "Quem ama a pureza do coração terá o Rei por amigo." (Prov.)

Pois bem! Que pensava Jesus Cristo da virgindade? Que pensa sobre ela Deus? É possível ter a mínima dúvida acerca da excelência dessa virtude, depois de um juízo divino tão formal, tão eloquente, tão solene?

Posso concluir de tudo o que acaba de ser dito que São João Crisóstomo não exagerava nem um pouco quando exclamava que a virgindade supera o matrimônio pela excelência tanto quanto o céu está acima da terra!

Feliz a alma fiel que compreende estas coisas! Ai daquela que, por não ter forças para se elevar à altura sublime de uma virgindade perpétua, se recusa a se humilhar e a reconhecer que seu estado é menos perfeito que o das virgens.

Virgens, considerai Jesus Cristo, considerai sua divina Mãe, olhai para o santo Precursor, para José o esposo virgem da Rainha das virgens; contemplai João que repousa sobre o peito de Jesus e dizei então se vosso estado não é digno de inveja. Eis a sociedade a que pertenceis; eis o vosso lugar.

(Abbé Coulin, La Virginité, Paris, Casterman, 1863, pp. 3-9).

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

Mundo às avessas

Santa Catarina de Sena

O problema não é provar que Deus existe. Muito mais difícil é provar que o mundo exista.
Como dizia o Verbo a uma grande santa:
- Eu sou o que sou, tu és o que não é.

domingo, 25 de dezembro de 2011

Ciência e Fé


A ciência é uma câmara de tortura, onde os cientistas extraem pela violência as confissões da natureza. Eles a forçam a falar com seus métodos e equipamentos.
Quando se voltam, porém, para Deus, seus esforços são vãos. Deus não se deixa capturar pelas astúcias da técnica, nem mesmo permite que os cientistas o vejam.
Se Cristo se deixou flagelar e crucificar, foi por nossa salvação pela Fé, não para nossa vã e orgulhosa curiosidade.

sábado, 24 de dezembro de 2011

São Bernardo de Claraval e o Natal


Acabamos de ouvir uma notícia cheia de graça e digna de ser aceita com júbilo: Jesus Cristo, Filho de Deus, nasceu em Belém da Judeia. Funde-se a minha alma a estas palavras; meu espírito ferve em mim, louco que estou de vos anunciar tal felicidade. Jesus quer dizer Salvador. Que há de mais necessário que um Salvador para os que estavam perdidos, de mais desejável aos desgraçados, de mais vantajoso aos que o desespero afligia? Onde estava a salvação, onde estava até a esperança de salvação, por mais tênue que fosse, sob essa lei de pecado, nesse corpo de morte, em meio a essa perversidade, nesse lugar de aflição, se tal salvação não não tivesse nascido de repente e contra toda esperança? Homem, desejas é verdade, tua cura; mas tendo consciência de sua fraqueza e fragilidade, temes o rigor do tratamento. Não temas; Cristo é suave e manso; é imensa a sua misericórdia; como Cristo, recebeu para Si o óleo, mas para passá-lo em tuas feridas. E se te digo que Ele é manso, não vá pensar que teu Salvador careça de poder; pois Ele é também o Filho de Deus. Estremeçamos, portanto, ruminando em nós mesmos e proclamando fora de nós esta doce sentença, esta suave palavra: Jesus Cristo, Filho de Deus, nasceu em Belém da Judeia.

São Gregório de Nazianzo, Teólogo, sobre o Natal



Nasce Cristo; glorificai-O. Cristo desce dos céus; ide ao Seu encontro. Cristo está sobre a terra; homens, elevai-vos. Cante toda a terra ao Senhor! E para reunir tudo numa só palavra: Rejubilem os céus e estremeça a terra, por Aquele que é ao mesmo tempo do céu e da terra. Cristo reveste-se de nossa carne; comovei-vos de temor e alegria; temor, por causa do pecado; alegria, por causa da esperança. Cristo nasce de uma Virgem: mulheres, honrai a virgindade, para se tornarem mães de Cristo.

Quem não adoraria Aquele que era desde o começo? Quem não louvaria e celebraria Aquele que acaba de nascer? Eis que as trevas se dissipam; cria-se a luz; o Egito permanece sob as sombras, e Israel é iluminado pela coluna de luz. O povo, que estava sentando nas trevas da ignorância, vê o brilho de uma ciência profunda. Acabaram as coisas antigas; tudo é novo. Foge a letra, triunfa o espírito; passaram-se as sombras, entra a verdade. A natureza vê suas leis serem violadas: chegou a hora de povoar o mundo celeste: Cristo manda; não resistamos.

Batam palmas todas as nações: pois uma criancinha nasceu, um Filho nos foi dado. A marca do seu principado é sobre o ombro: pois a Cruz será o meio de Sua elevação; seu nome é o Anjo do grande conselho, ou seja, do conselho paternal.

Exclame João: Preparai os caminhos do Senhor! Eu, por meu lado, quero fazer ecoar também o poder de tão grande dia: Aquele que é sem carne se encarna; o Verbo assume um corpo; o Invisível mostra-se aos olhos, o Impalpável deixa-se tocar; Aquele que não conhece o tempo tem um começo: o Filho de Deus se faz filho do homem. Jesus Cristo era ontem, é hoje, será para sempre. Ofenda-se o judeu; caçoe o grego; agite-se a língua do herético na boca impura. Crerão quando virem o Filho de Deus subir aos céus; e se mesmo então se recusarem, crerão quando Ele descer e aparecer como Juiz em seu tribunal.

Pavoroso equívoco


Não deve adaptar-se a Igreja aos tempos, mas adaptarem-se os tempos à Igreja.

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Tauler e a ascese do espírito

Johannes Tauler
(1300-1361)

Pois a alma é criada entre o tempo e a eternidade. Por sua parte superior, ela pertence à eternidade; por sua parte inferior, pelas potências sensíveis e animais, pertence ao tempo. Ora, a alma, tanto pelas potências superiores como pelas inferiores, esparrama-se pelo tempo e pelas coisas temporais em razão da relação que as potências mais altas têm com as mais baixas; assim, ela não precisa ir muito longe; ela se dispõe a se dispersar nas coisas sensíveis e não dá mais a sua parte à eternidade.
Na verdade, é absolutamente necessário que haja o retorno para que ocorra esse nascimento [como filho de Deus na alma]; é preciso um enérgico retorno a si mesmo, um recolhimento, uma concentração interior de todas as potências, as mais altas e as mais baixas; é preciso reunir tudo o que estava disperso, pois são as coisas unidas as mais fortes. Quando o arqueiro quer acertar o alvo, fecha um olho para que o outro mire com maior exatidão; quem quer conhecer a fundo uma coisa, nela concentra todos os pensamentos e força suas potências a retornar à alma de onde se espalharam para fora, como os galhos saem do tronco da árvore. Quando todas as potências sensíveis, afetivas e ativas se reúnem nas potências superiores, no fundo, é a entrada em si mesmo.
Para que aconteça a saída, e até mesmo a ultrapassagem para fora e por sobre nós mesmos, temos de aniquilar todo querer, todo desejo, todo agir próprios; temos de só deixar subsistir uma pura e simples atenção a Deus, sem procurar de modo nenhum tornarmo-nos ou adquirirmos algo para nós mesmos; só ser e Lhe dar lugar, da maneira mais alta e mais íntima, para que possa executar sua obra e seu nascimento em ti sem que O impeças. Pois quando dois devem tornar-se um, é preciso que um seja passivo e o outro ativo: para que os meus olhos percebam as imagens na parede ou em algum outro objeto, têm de se despojar de toda imagem; pois se tiverem alguma imagem com certo colorido, não verão mais nenhuma cor. Ou ainda: se a orelha está cheia de som, não ouve nenhum outro som. Para podermos receber, temos de estar disponíveis, livres e despojados. É o que diz Santo Agostinho "Esvazia-te para que possas preencher-te; sai para que possas entrar".
(Johannes Tauler in Jeanne Ancelet-Hustache, Maître Eckhart et la mystique rhénane, Paris, Seuil, pp 149-150)

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

A Eucaristia, a substância e o sensível



Deus já está substancialmente presente entre nós, pela Eucaristia. O que dEle nos separa é só uma película, o acidente sensível.
Não é de estranhar, portanto, que toda vida espiritual cristã esteja voltada contra a sensibilidade.

São Jerônimo a Santo Agostinho sobre a bem-aventurança eterna

São Jerônimo de José de Ribera

Determinado tinha Santo Agostinho consultar a seu amigo São Jerônimo sobre o que sentia da glória dos Bem-aventurados. Foi este no mesmo tempo chamado ao felicíssimo número destes; e, por dispensação divina, veio a dar-lhe a resposta desejada da consulta ainda não feita; e o que disse, melhor será ouvi-lo ao mesmo Santo Agostinho.
Estava eu (diz o Santo) sossegado no retiro da minha celinha, revolvendo no pensamento quanta seria a glória e alegria das almas bem-aventuradas, porque desejava compor sobre esta matéria um breve tratado. Pegando, pois, do papel e pena para escrever a Jerônimo santíssimo uma carta, em que lhe pedisse me dissesse neste particular o que sentia, subitamente entrou no aposento um resplendor ou claridade inefável, nunca vista cá no século e que excede a explicação das nossas línguas; e juntamente uma fragrância, que semelhança sua nunca experimentou o sentido. E logo do meio daquela luz saiu uma voz, que dizia: Agostinho, Agostinho, que fazes? Intentas, porventura, encerrar em breve vaso as profundezas do mar todo? Cuidas, porventura, que poderás entender o que nem subir pode ao coração humano? De coisa que é infinita, qual será o fim; e da que é imensa, qual será a medida? Sabe que mais facilmente fecharás no punho a redondeza da terra e farás que os celestes orbes cessem de seu perpétuo movimento do que da glória dos Bem-aventurados possas dizer ou entender a mínima parte, até que não sejas, como eu, ensinado pela experiência.  Neste ponto desapareceu a visão, na qual todos (ainda os que logramos só por este reflexo) temos juntamente a consolação e o desengano de que é tão grande o bem da glória que esperamos que ninguém pode entendê-lo senão quando chegar a possuí-lo: Nemo scit, nisi qui accipit.

(Padre Manuel Bernardes, Nova Floresta, II, 79)

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Lutero e a proibição das imagens


A história do protestantismo é a história de um trambolhão que desaba em queda livre da pura luz da Fé católica até o esgoto a céu aberto da teologia da prosperidade neopentecostal.
Podemos avaliar a distância percorrida ainda em vida de Lutero, numa discussão que travou com os anabatistas analfabetos e iconoclastas. Estes, retomando sem saber velhas heresias judaizantes do século VII, invocavam uma leitura simplória de Êxodo 20 para acusar a Igreja de idolatria, até hoje o cavalo de batalha principal na descristianização das massas.

Eis o texto tal como reportado na História de Lutero de Audin:

A discussão era viva e animada: o sapateiro gritava e gesticulava como um autêntico possuído, citando todos os farrapos da palavra santa que lhes vinham à cabeça:
- Você é cristão? diz ele a Lutero em tom furioso; já que rejeita Moisés, há pelo menos de aceitar o Evangelho que você mesmo traduziu.
- Vamos lá, o que ensina o Evangelho?
- Jesus diz no Evangelho, não sei bem o lugar, mas meus irmãos sabem por mim: Que a mulher casada deve despir-se e tirar até a camisa quando quer dormir com o esposo.
Lutero que estava de pé, sentou-se ao ouvir a estranha citação e tapou o rosto para esconder a louca hilaridade:
- Espere aí, diz ele depois de uma longa gargalhada, é verdade, isso significa mesmo que devemos abolir as imagens: é admirável mesmo!
- Sim, é claro, diz outro assistente, que Deus quer que a alma se dispa de toda ideia terrestre. Quando colocamos nosso deleite numa criatura terrestre, nosso coração se enche de sua imagem. Com mais forte razão, nossa alma é conspurcada quando se detém em imagens proibidas.
Trouxeram os livros de Moisés traduzidos em alemão por Lutero e alguém leu os capítulos 20 do Êxodo e 4 do Deuteronômio, e concluiu, desses dois textos, que as imagens e todas as outras figuras eram proibidas por Deus e que um cristão não poderia fazê-las ou guardá-las.
- Mas leiam o que está escrito, repetia o doutor; trata-se de ídolos que são adorados.
- Não há ídolo nenhum no texto, diz um dos ouvintes. "Não fareis nem guardareis nenhuma imagem".
- Mas o texto do Deuteronômio é claro e preciso, insistia o sapateiro. "Cuidai de vossas almas; o dia em que o Senhor vos falou, não vistes nenhuma semelhança, para que não vos corrompêsseis e não fizésseis nenhuma imagem talhada ou representação sob a forma de macho ou fêmea". Não está claro?
- Prossiga na leitura, por favor.
- "Para que não eleveis os olhos para o céu e, vendo o sol e a lua, não adoreis, por um erro grosseiro, os astros do céu."
- Pois bem, prosseguiu Lutero, por que não excluís da criação o sol e a lua?

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Cruz para a eternidade


A cruz é o dardo que rompe e arromba as portas da eternidade.

A Grande Avacalhação e a doutrina católica


Os doutores da Grande Avacalhação pós-conciliar amarraram a doutrina católica e a arrastaram a uma lúgubre sala de cirurgia, onde executaram sobre ela os mais cruéis experimentos: extraíam-lhe um órgão e anotavam as reações. Ora a fé na ressurreição, ora a imortalidade da alma, ora os novíssimos, ora o valor da castidade lhe foram amputados.
Não é de estranhar que o paciente passasse mal.
Aliás, já estaria morto se uma migalha da hóstia consagrada não pudesse infinitamente mais do que todos os batalhões de teólogos modernistas somados.

São Bernardo acerca da solidão



Além disso, só nos prescrevem a solidão de espírito e de alma. Estamos sós quando nosso pensamento não está voltado para as preocupações comuns, quando nos separamos do presente e desdenhamos o que busca a multidão.
Também sós quando não temos nenhum gosto pelo que se costuma desejar, quando evitamos as discussões, permanecemos insensíveis aos prejuízos sofridos e nos esquecemos das injúrias.
Senão, mesmo na solidão do corpo não estaremos sós.
Entendam bem que podemos estar sós em meio à multidão e misturados à gente na solidão.
Somos solitários, seja qual for a aglomeração ao nosso redor, desde que evitemos examinar com demasiada curiosidade a conduta do outro ou julgá-la temerariamente.
(São Bernardo de Claraval)

domingo, 18 de dezembro de 2011

A Cruz, o tempo e a eternidade

Georges Borges

A morte é a contradição entre o tempo e a eternidade. A mesma contradição é elevada ao infinito na Cruz, e com isso superada.
(Georges Borges)

sábado, 17 de dezembro de 2011

Max Jacob e o pecado de Judas


Do escritor surrealista francês, homossexual de origem judaica, convertido ao catolicismo:
"Você se julga menos culpado do que Judas, você, que recebeu a Hóstia de manhã e não se prepara para recebê-La de novo amanhã? Nossa! Este é o crime de Judas: receber seu Senhor e ir tratar de seus próprios negócios, traindo-O."
(Max Jacob, Méditations religieuses, Paris, Gallimard, 1947, p. 51)

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Natal, Herodes e Ben 10



Em comemoração ao nascimento de Cristo, a máfia que domina nosso pobre planetinha bolou um novo esquema de recepção para as criancinhas que chegam ao mundo. Ainda mal sabem falar e já entopem suas mentes indefesas com todo tipo de porcaria: é Ben 10, Princesas, Moranguinho, Barbie, Homem Aranha e por aí vai... Uma recepção digna de Herodes!
É assim que desde a mais tenra idade nossos brasileirinhos já se acostumam a ser imbecilizados, manipulados e explorados pela elite iluminada que nos guia no caminho da luz.
Bem-vindas ao planeta laico, crianças!

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Encontros de Assis



Uma feijoada, uma canja de galinha, um uísque, um copo de veneno de cobra e um churrasquinho de gato.
Bater no liquidificador. Servir frio.

domingo, 11 de dezembro de 2011

A caixa preta de Darwin, cada vez mais preta


A coisa está cada vez mais preta para a polícia neodarwinista que monopoliza pela força os estudos de biologia nas universidades do mundo inteiro e em especial dos EUA.

Pesquisas recentes têm mostrado que os processos básicos da vida tidos até agora como "simples" e "diretos" são na verdade muito mais complexo do que se supunha. Uma delas mostra que o DNA é capaz de reconhecer o spin das partículas atômicas; outra, que o processo de fotossíntese também supõe estranhos efeitos quânticos jamais sonhados nos tempos de Darwin.

Leia os comentários no site Uncommon Descent, aliás, parada obrigatória para todos os que pretendem pensar com inteligência os grandes debates metafísicos que subjazem à ciência de hoje.

A caixa preta de Darwin está cada vez mais preta!

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Tempo e eternidade, again


Importante: não há relação temporal entre o tempo e a eternidade: porque Deus é o senhor do tempo.

O Infante Dom Henrique e a teologia do Símbolo dos Apóstolos


Não percam a bela edição de Horologium Fidei - Diálogo com o Infante Dom Henrique, de Mestre André do Prado, lançada alguns anos atrás pela Casa da Moeda de Portugal. Trata-se de uma exposição do Símbolo dos Apóstolos em forma de diálogo entre o teólogo franciscano e o príncipe navegador. O texto é bilingue, latim/português.

Nele vemos a verdadeira face do Infante, e o lugar essencial que a pura doutrina católica ocupava em seu universo intelectual.

Muito útil em épocas em que a figura do grande príncipe se vê desvirtuada pela infame propaganda que quer transformá-lo numa espécie de protomaçom templário, burro e esotérico.


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quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Escrever, verbo intransitivo


Tentaram fazer do verbo escrever um verbo intransitivo. Conseguiram. Tiveram menos sucesso em evitar que o resultado fosse  parar automaticamente na lata de lixo.

Kant e a manipulação das massas


Que a escolástica laica inaugurada por Kant abriu todas as porteiras para a manipulação ("construção") da realidade via mass media é inegável. Era o que o grande Dom Besse já via  em 1913:

"Le subjectivisme kantien a achevé d'émasculer la raison pour livrer enfin l'homme par ses sentiments et ses instincts à tous les entrepreneurs de suggestion."
(Dom Besse, les Religions laiques, Paris, Nouvelle Librairie Nationale, 1913, pp 92-3).

Proféticas palavras.