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domingo, 9 de outubro de 2011

Descrição da Virgem Maria por Joris-Karl Huysmans


Para o dia de Nossa Senhora de Aparecida, próxima quarta-feira, esta descrição da Virgem Santíssima feita pelo magistral Joris-Karl Huysmans:

Santo Epifânio no-la descreve alta, de olhos esverdeados, sobrancelhas arqueadas, bem negras, nariz aquilino, boca rosada e pele dourada: uma visão de homem do Oriente.

Tomemos, por outro lado, Maria de Agreda. Para ela, a Virgem é alta e magra, de cabelos e sobrancelhas negras, olhos tendendo ao verde escuro, nariz reto, lábios vermelhos e pele morena. Reconhece-se aí o ideal espanhol de graça concebido por essa abadessa.

Consultemos, por fim, a Irmã Emmerich. Segundo ela, Maria é loura, tem olhos grandes, nariz longo, queixo um pouco pontudo, pele clara e não é muito alta. Lidamos aqui com uma alemã que a beleza morena não satisfaz.

E tanto uma como outra dessas duas mulheres são duas videntes a que a Madona apareceu, assumindo justamente a única forma que as podia seduzir, assim como se mostra com uma beleza um tanto insípida, a única que elas podiam compreender, a Mélanie de La Salette e a Bernadette de Lourdes.

Eu, por meu lado, que não sou visionário e tenho de recorrer à imaginação para figurá-la, parece-me percebê-la nos contornos, na expressão mesma da catedral; os traços são pouco nítidos no pálido deslumbre da grande rosa que fulgura por trás de sua cabeça, como um nimbo. Ela sorri, e seus olhos, todos luz, têm o brilho incomparável dessas safiras claras que iluminam a entrada da nave. Seu corpo fluido exala-se num traje cândido de chamas, estriado, listrado, como o traje da falsa Berthe. O rosto tem uma brancura nacarada, e a cabeleira, como tecida por um fuso de sol, voa em fios de ouro; Ela é a Esposa do Cântico:" Pulchra ut luna, electa ut sol." A basílica onde reside e que com Ela se confunde, ilumina-se com suas graças; as gemas dos vitrais cantam suas virtudes; as colunas magras e delicadas que se estiram num só jato, das lajes até os cimos, desvelam suas aspirações e seus desejos; o assoalho conta sua humildade; as abóbadas que se reúnem, como um dossel, sobre Ela, narram sua caridade; as pedras e os vidros repetem suas ladainhas; e tudo, o aspecto belicoso de alguns pormenores do santuário, essa maneira cavalheiresca que lembra as Cruzadas, com as lâminas das espadas e os escudos das janelas e das rosas, o casco das ogivas, as cotas de malha do campanário velho, a grade de ferro de certas janelas, que evocam a recordação do capítulo de Primas e da ladainha de Laudes de seu pequeno ofício, traduz a "terribilis ut castrorum acies ordinata", relata esse privilégio que Ela tem, quando quer, de ser "como um exército em batalha, terrível".

Aqui, porém, poucas vezes ela o quer, acho; por isso esta catedral é sobretudo o reflexo de sua inesgotável mansidão, o eco de sua incomparável glória!

(Joris-Karl Huysmans; tradução Yours Truly)

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