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sábado, 17 de setembro de 2011

Mestre André de Resende e frei Pedro, porteiro de São Domingos


Trecho do maravilhoso livrinho de Mestre André de Resende (1499-1573), A Santa vida e religiosa conversação de Frei Pedro, porteiro do Mosteiro de São Domingos de Évora. É o capítulo XXI:

Foi no mosteiro de São Domingos de Évora um padre, frei Fernando Amado, que muitos anos no ofício sacerdotal, e máxime em ouvir confissões, tinha servido a Deus e, por derradeiro, sendo já muito velho, entrevou. E, chegando-se o tempo que aprouve ao Senhor, com o seu passamento, se acabar aquela prolongada infirmidade, esteve três dias, ora fazendo termos, ora tornando em si.

Vigiavam e estavam com ele os religiosos, quando uns, quando outros.

O derradeiro dia, acabadas as matinas, o nosso mestre nos levou todos à enfermaria, que éramos então dezoito, todos moços, que nenhum passava de treze anos, e mandou-nos que vigiássemos com o padre e, se víssemos chegar-se a hora, dous de nós lho fôssemos dizer. Frei Pedro se foi pera nós e sentou-se a um cabo, calado. Nós, a coros, estivemos rezando os sete salmos e depois frei Antônio Farcto e eu, que concertávamos ambos bem, começamos a cantar os hinos Ave, Maris Stella e Quem terra pontus, aethera, dizendo nós um verso, e os outros todos, outro. Quando chegamos ao verso Maria, mater gratiae, mater misericordiae, tu nos ab hoste protege et hora mortis suscipe, o padre levantou os braços caídos e bateu as palmas, dizendo:

- Cantai, cantai, cantai!

Alçou frei Pedro os olhos por ver como acordara assim e logo se levantou subitamente e, pregando os olhos no ar, contra o pé do leito, começou a rir e alegrar-se, em estranha maneira, e levantar as mãos juntas, adorando. Nós, atônitos, olhando ora para ele, ora para o padre, que tangia as palmas, disse-nos frei Pedro:

- Levantai-vos, fradinhos, e fazei reverência à Madre de Deus.

Nós, levantando-nos, atentávamos pera onde frei Pedro tinha fixos os olhos, sem de ali os apartar, mas não merecemos ver o que ele via. Dous de nós foram chamar o mestre, o qual tangendo a tábua de espertar e bradando: - Credo! fez os religiosos acudir à enfermaria.

Os moços, que ficamos, todavia repetíamos:

- Maria, mater gratiae!

Nisto, frei Pedro abaixou os olhos e, volto ao padre que agonizava, lhe meteu um crucifixo nas mãos, dizendo:

- Credo, credo, credo, Jesu, Jesu, Jesu!

De maneira que, quando os religiosos chegaram, o padre era passado. E ouvindo o que acontecera, deram todos muitas graças a Deus e à gloriosa Virgem Nossa Senhora, sua madre que houve por bem visitar aquele religioso em seu trânsito e tomar frei Pedro por testemunha desta sua misericórdia. E eu tomo a Deus e a ela por testemunhas desta verdade, assim me ela visite, quando minha alma naquele passo se achar.

(Mestre André de Resende, A Santa vida e religiosa conversação de Frei Pedro, porteiro do Mosteiro de São Domingos de Évora, Rio, Dois Mundos, 1947, pp163-165).

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