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domingo, 3 de julho de 2011

O abbé Carron, a fé e a prosperidade


Infelizmente, num mundo aviltado e bestializado, o abbé Carron (1760-1821) caiu no mais profundo esquecimento. Só mesmo um  ou outro blogueiro perdido nestas selvas ainda faz referência a ele.

Foi homem de fé profunda, criador de inúmeras instituições de socorro aos pobres e autor de muitos livros de espiritualidade.

Exemplo de uma vida ativamente dedicada aos humilhados e perseguidos, unida a uma alta espiritualidade e a uma doutrina rigorosa. Lendo o que ele escrevia sobre o seu tempo, em que porém a doutrina permanecia intacta no seio da Igreja, ficamos curiosos sobre o que diria ele sobre o catolicismo de hoje:

"O caminho da salvação, cheio de espinhos; a estrada do céu, estreita; os esforços contínuos de nossos inimigos; o demônio, sempre a nos prender em suas redes; o mundo, não menos desejoso de nos seduzir com seus falsos encantos; o grito das paixões, a sufocar as luzes de nosso entendimento, extinguindo a sensibilidade do nosso coração; tudo isso é, sem dúvida, verdade até demais, confesso-o gemendo sobre as fragilidades da nossa natureza e deplorando minhas misérias pessoais. Quando os nossos antepassados na Fé abraçaram o cristianismo, reconheceram que a coroa eterna estava prometida só à corajosa e fiel devoção, só aos sacrifícios magnânimos: quem, então, os encheu de confiança?  Esta preciosa recordação religiosamente conservada, de que o Filho de Deus assumiu para Si a nossa pobreza, as nossas misérias, para nos tornar partícipes de suas riquezas. Deslumbrante perspectiva desses antigos, nossos ilustres mestres nos caminhos espirituais! Meditavam dia e noite os frutos inefáveis do maior dos nossos mistérios e, para defender a sua verdade, exclamavam, subindo aos cadafalsos: "Os sofrimentos de Jesus Cristo um dia nos tornarão impassíveis; sua morte nos fará imortais". Vide o ilustre Gregório de Nazianzo, trancado em sua casa de Arianzo para terminar sua corrida; vive como monge, mortifica o corpo com as lágrimas, os jejuns, as vigílias e as orações; só tem um hábito, anda descalço, passa o inverno sem fogo, só dorme sobre a palha. No entanto, apesar das enferimidades do corpo e dessa vida tão dura, ainda sente os combates violentos da carne contra o espírito; mas seu principal remédio contra essas tentações importunas é a oração e a confiança na graça de Deus: 'Sou eu, dizia ele, que corro no meio da pista; mas Jesus Cristo é meu guia e minha força; por ele respiro, vejo e corro feliz; sem Ele somos vãos fantasmas, cadáveres vivos, infectados de pecados: como os pássaros não podem voar sem ar, nem os peixes nadar sem água, o homem não pode dar um passo sem Jesus Cristo'.

"Irmão bem-amados, confessemo-lo envergonhados de nós mesmos; naquele tempo havia cristãos sobre a terra; havia homens fortes que, criados em contínuos alarmes, haviam desenvolvido o glorioso hábito de sofrer pelo amor de Deus. Criam que era demasiada moleza buscar o prazer neste mundo e no outro; considerando a terra um exílio, julgavam não haver nada mais importante do que sair daqui o quanto antes. Então a piedade era sincera, porque não se tornara uma arte; ainda não aprendera o segredo de se adaptar ao mundo e de servir a seus negócios, seus artifícios; simples e inocente, não contemplava senão o céu, ao qual manifestava a sua fidelidade por uma longa paciência. Assim eram os cristãos daqueles primeiros tempos; ei-los em sua pureza, tal como os gerava o sangue dos mártires, como os formavam as perseguições. Hoje veio a paz e a disciplina se relaxou; aumentou o número de fiéis; o ardor da fé esmoreceu e, como dizia eloquentemente um antigo: "Nós te vimos, Igreja Católica, debilitada por tua fertilidade, diminuída pelo crescimento e quase abatida por tuas próprias forças". De onde vem esse esmorecimento das coragens? É que elas não são mais exercitadas pela perseguição. O mundo entrou na Igreja; quiseram unir Jesus Cristo com Belial e dessa indigna mescla, que raça enfim nos nasceu? Uma raça mista e corrompida de semicristãos; de cristãos mundanos e seculares; piedade bastarda, falsificada, só de palavras e de um exterior hipócrita.

"Piedade na moda! Como rio de tuas jactâncias e dos discursos estudados que pronuncias complacente, enquanto o mundo te diz: Vem, para que eu te ponha à prova. Eis uma tempestade que se eleva, uma perda de bens, um insulto, uma contrariedade, uma doença; pobre piedade desconcertada, não podes te sustentar; piedade sem força e sem fundamento, vai, não passavas de um simulacro da piedade cristã; não passavas de um falso ouro que brilha ao sol, mas não resiste ao fogo, desaparece no cadinho. A virtude cristã não é assim: Aruit tanquam testa virtus mea. Ela se assemelha à terra argilosa, mole e sem consistência até que o fogo a cozinhe e a torne firme; e se assim é, meus irmãos, se os sofrimentos são necessários para sustentar o espírito do cristianismo, Senhor, trazei de volta os tiranos; dai-nos os Domicianos, os Neros, para que, sob seu império de ferro, nos tornemos os gloriosos discípulos, os fiéis imitadores do Homem-Deus."

(Abbé Carron, Pensées Chrétiennes, tome I, partie 2, Paris, 1815, pp 37-42).

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