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domingo, 3 de julho de 2011

Dom Guéranger, o jejum e o Catolicismo aguado



É notório que a Grande Avacalhação pós-conciliar se empenhou e se empenha em oferecer a seus fiéis uma versão morna e aguada do Catolicismo. Foi cortado pela raiz tudo o que implicasse algum sacrifício, alguma noção de ascetismo e de participação na paixão do Verbo encarnado, em nome de uma versão "jovial" e positiva do Evangelho, voltada para a prosperidade, a saúde e o dinheiro no bolso.

Para termos uma ideia do Amazonas de água por eles lançado na verdadeira Fé cristã, aqui vai um trecho do grande Dom Prosper Guéranger, abade de Solesmes, acerca do jejum na Semana Santa nos primeiros séculos da Igreja:

"Esta semana já era objeto de grande veneração no século III, segundo o testemunho contemporâneo de São Dionísio, bispo de Alexandria. Já no século seguinte, vemo-la chamada de Grande Semana, numa homilia de São João Crisóstomo: "Não, diz o santo Doutor, que ela tenha mais dias que as outras, ou que os dias sejam compostos de um maior número de horas, mas por causa da grandeza dos mistérios nela celebrados." Vemo-la também designada com o nome de Semana Dolorosa ou  penosa (poenosa), por causa dos sofrimentos de Jesus Cristo e das santas fadigas que exige a sua celebração; de Semana de Indulgência, porque nela os pecadores recebiam a penitência; enfim, de Semana Santa, em razão da santidade dos mistérios nela comemorados. Tal designação é a mais comum entre nós; e se tornou tão própria a esta semana, que se associa a cada um dos dias que a compõem: dizemos, assim, segunda-feira santa, terça-feira santa etc.

"O rigor do jejum quadragesimal aumenta nestes últimos dias, que são como o supremo esforço da penitência cristã. Mesmo entre nós, a dispensa concedida de se fazer uso de ovos cessa no meio da semana, e permanece suspensa até a festa de Páscoa; mas as Igrejas do Oriente, mais fiéis à tradição da Antiguidade, tornam ainda mais rigorosa a sua abstinência. Chamam os gregos essa semana Xerofagia, isto é, o tempo em que só é permitido comer alimentos secos. A comida consiste unicamente de pão, água e sal, aos quais se podem acrescentar apenas frutas e legumes crus, sem nenhum tipo de tempero.

"Quanto ao jejum, na Antiguidade, ele se estendia até onde as forças humanas podiam permitir. Vemos em Santo Epifânio que havia cristãos que a prolongavam desde a segunda-feira de manhã até o canto do galo do dia de Páscoa. Sem dúvida, só uns poucos fiéis conseguiam alcançar tal esforço; os outros se contentavam em passar, sem comer, dois, três ou quatro dias consecutivos; o uso comum, porém, era permanecer sem comer desde o fim da tarde da quinta-feira santa até a manhã do dia de Páscoa. Não são raros os exemplos desse rigor, mesmo hoje, entre os cristãos orientais e na Rússia: felizes se tais obras de uma penitência corajosa fossem sempre acompanhados de uma firme adesão à fé e à unidade da Igreja, fora da qual o mérito de tantas fadigas se torna nulo para a salvação!"

(Dom Prosper Guéranger, L'Année Liturgique: La Passion et la Semaine Sainte, Paris, 1875, p, 2-4).

Kyrie eleison, Christe eleison, Kyrie eleison.

Um comentário:

  1. Sem duvida um refrigerio para a alma.Vivendo em uma sociedade tao materialista que um simples jejum a pao e agua na sexta-feira (comum dos meses antes ou depois da Sexta-feira Santa) parece um excrecencia,um exagero a beira do fanatismo,ler um texto tao lucido e tao incisivo que resume a nossa passagem por essa vida,torna -de alguma forma- nossos sacrificios um pouco mais suaves.

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