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sábado, 7 de maio de 2011

Fredegiso (século IX) e o nada


"Compatriota, discípulo de Alcuíno e seu sucessor como abade de Saint-Martin de Tours, Fredegiso (+ 834) foi uma mente de estilo mais especulativo e mais aventuroso. Devemos-lhe uma Epistola de nihilo et tenebris, onde ele sustenta que o nada e as trevas são algo, e não só a ausência de algo. O princípio de sua argumentação é que todo nome de sentido determinado significa algo: homem, pedra, madeira, por exemplo; portanto "nada" está relacionado a algo. Onde, aliás, nada há, não se pode significar nada: omnis significatio est ejus significatio quod est, id est rei existentis. Tais fórmulas não eram tão carentes de sentido como se disse, e é até curioso que os seus críticos não o tenham reparado. Seria absurdo dizer: nihil designa uma coisa, se admitíssemos ao mesmo tempo que nihil significa o nada. Ora, é justamente isso que Fredegiso nega. O nada a que ele se refere é aquele a partir de que Deus criou o mundo (ex nihilo), ou seja, uma espécie de matéria comum e indiferenciada, de que teria formado todo o resto. Somemos a isso que o Liber contra objectiones Fredegisi abbatis, escrito por Agobardo, bispo de Lyon, contra um tratado de Fredegiso atualmente perdido, atribui-lhe a doutrina da preexistência das almas, e une assim as duas teses: "Nós acusamos você de ter dito das almas que vão ser unidas aos corpos: Anima quando ad corpus pervenit, como se você soubesse de que região ela vem, ou talvez como se você soubesse em que região fica essa matéria desconhecida, de que segundo você as almas são criadas." Agobardo, por seu lado, sustenta, ao contrário, que a alma é criada ao mesmo tempo que o corpo."

(Étienne Gilson, La Philosophie au Moyen Âge, Payot, p. 196-97)

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