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domingo, 17 de abril de 2011

Reflexões sobre o Evangelho do domingo de Ramos


Contemplemos com atenção o segundo Adão, que vem expiar num jardim de dores o pecado que o primeiro Adão cometeu num jardim de delícias. Consideremo-Lo tomado de dor e tristeza, abatido sob o peso enorme dos nossos crimes, prosternado diante da majestade de seu Pai, dirigindo-Lhe esta humilde e fervorosa prece: "Pai, se for possível, afaste-se este cálice de mim, mas seja feita a Vossa vontade, e não a Minha." Assim é que Ele instruiu seus discípulos a recorrerem à prece, sobretudo nas grandes tribulações, a pedirem a Deus a força e a paciência de suportá-las cristãmente e a fazerem o sacrifício de todas as repugnâncias da nossa vontade, que sempre se revolta contra os sofrimentos. Mas que devo pensar do estado em que vejo esse divino Salvador, mergulhado num mar de dores, derramando rios de suor e de sangue à vista da morte que lhe é apresentada, e precisando de que um anjo desça do céu para consolá-Lo e para fazê-Lo superar seu abatimento? Reconheço aqui o Filho do Homem, que se cobriu com os langores e as fraquezas dos outros homens e quis ser semelhante a nós em todas as coisas, salvo o pecado; mas será esse o homem que desejava tão ardentemente beber o cálice da sua paixão e ser batizado com o batismo de seus sofrimentos? Será esse o Filho de Deus, que dispõe soberanamente do Seu tempo e da Sua hora e é senhor de dar a alma e tornar a tomá-la quando quiser! Pode acontecer-Lhe algo que não tenha previsto, e será a novidade e o horror do espetáculo a causa da sua perturbação e das suas angústias? Como? Os mártires mostraram-se firmes sobre o cadafalso, e permaneceram intrépidos em meio às torturas, às chamas e às espadas. Até mesmo as mocinhas, apesar da delicadeza de seu sexo, enfrentaram a mais cruel das mortes e a encararam sem estremecer; e o chefe dos mártires parece ter-Se entregue ao medo, ao pavor e ao desânimo ao aproximar-Se desse cruz onde deve consumar seu sacrifício! Rasguemos o véu que cobre o mistério e adoremos Jesus Cristo, que Se enfraquece para nos fortalecer, treme para nos tranquilizar, e não Se recusa a sentir tudo o que a dor e a tristeza têm de mais amargo, para nos fazer corar de nossas falsas alegrias e de nossos prazeres criminosos. Vede com que coragem Ele vai ao encontro de Judas, que avança para entregá-Lo aos inimigos. Ele não ignora nem a traição, nem a perfídia de Judas. Já o vê à frente dos soldados e dos capangas que são enviados para prendê-Lo; e muito longe de fugir, Ele o aguarda, recebe o seu beijo e suporta que aquela boca ímpia e sacrílega toque os seus lábios tão puros e inocentes. Quem ousará, depois de tal exemplo, queixar-se da infidelidade de um amigo ou dos ultrajes de um inimigo? Quem não confessará que não há crimes de que um homem entregue a si mesmo não seja capaz, ao ver um apóstolo transformado de repente em chefe de bandidos e de homicidas? Quem não pedirá continuamente a Deus a graça de não se abandonado a esse fundo inesgotável de corrupção que reside em seu coração? Sigamos Jesus Cristo que se deixa amarrar; mas para mostrar que é voluntariamente que Ele permite aos pecadores envolvê-Lo com suas cordas, segundo a expressão do profeta, Ele os derruba com uma só palavra, ordena-lhes que se levantem e lhe prescreve com energia tudo o que têm a fazer, como se fosse seu mestre e seu Senhor, e não um criminoso entregue ao seu poder. Eu vos adoro, divino cativo, que me retirais da vergonhosa servidão a que o pecado me reduz. Beijo seus laços sagrados que me servem para romper os laços em que o demônio me prendeu. Reverencio essas bem-aventuradas correias que me dão a liberdade dos filhos de Deus.

Deus Onipotente e Eterno, que quisestes que o nosso Salvador se revestisse com a nossa carne e sofresse o suplício da Cruz, para dar aos homens exemplo de humildade que fossem obrigados a seguir, dai-nos a graça de imitá-Lo em seus sofrimentos, para que mereçamos participar da sua ressurreição gloriosa.

( Pierre de Bernis, Epîtres et Evangiles pour tous les dimanches et fêtes de l'année, pp 398-400).

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