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terça-feira, 19 de abril de 2011

Léon Bloy e a Teologia da Prosperidade


Ao padre  Flavio de Mello

A Pobreza reúne os homens, a Miséria os isola, porque a pobreza é de Jesus, a miséria, do Espírito Santo.

A Pobreza é o Relativo - privação do supérfluo.

A Miséria é o Absoluto - privação do necessário.

A Pobreza é crucificada, a Miséria é a Cruz mesma. Jesus carregando a cruz é a Pobreza carregando a Miséria. Jesus crucificado é a Pobreza sangrando sobre a Miséria.

Aqueles dentre os ricos que não são exatamente reprovados podem compreender a pobreza, pois eles mesmos são pobres, em certo sentido; não conseguem entender a miséria. Capazes de esmola, talvez, incapazes de despojamento, eles se enternecerão, ao som de uma bela música, com Jesus que padece, mas sua Cruz os horrorizará, a realidade de sua Cruz! Para eles, ela tem de ser toda luz e toda ouro, suntuosa e leve, agradável de se ver sobre um belo pescoço de mulher.

Padres elegantes, afastai deles o leito de amor de Jesus Cristo, a cruz miserável, infinitamente dolorosa, plantada no meio de um matadouro de criminosos, entre imundícies e fedores, a verdadeira Cruz, simplesmente medonha, completamente infame, atroz, ignominiosa, parricida, matricida, infanticida; a cruz da renúncia absoluta, do abandono e da renegação para sempre de todos aqueles, sejam eles quais forem, que não a querem; a cruz do jejum extenuante, da imolação dos sentidos, do luto de tudo o que pode consolar; a cruz do fogo, do óleo fervente, do chumbo derretido, da lapidação, do afogamento, do esfolamento, do esquartejamento, da intercisão, da devoração pelos animais selvagens, de todas as torturas imaginadas pelos bastardos dos demônios... A Cruz negra e baixa, no centro de um deserto de medo tão vasto quanto o mundo; não mais luminosa como nas imagens infantis, mas fustigada sob um céu sombrio que nem sequer o raio ilumina, a apavorante cruz da Derrelição do Filho de Deus, a Cruz de Miséria!

Se esses malditos se contentassem em não querê-la para si! Mas eles pretendem que ela não é para eles, valendo-se de seu dinheiro, que é o Preciosíssimo Sangue de Cristo, para lá enviar em seu lugar a manada dos pobres que eles mesmos sangraram e desesperaram!

E ousam falar de caridade, pronunciar a palavra Caridade, que é o nome mesmo da Terceira Pessoa divina! Prostituição das palavras, de dar medo até ao diabo! Essa bela dama, que não tem sequer a lealdade de entregar seu corpo aos infelizes que atiça, irá esta noite mostrar o máximo que puder de sua carne branca de sepulcro, onde estremecem joias como vermes, e fazê-la adorar por esses imbecis, em pretensas festas de caridade, por ocasião de alguma tragédia, para engordar ainda mais os tubarões ou os provocadores de nufrágios. A riqueza dita cristã ejaculando sobre a miséria!

Deus suportará isso tudo até esta noite, que poderia ser a "Grande Noite", como dizem os rebentos da Anarquia. Mas ainda é dia. São só três horas, é a hora da Imolação do Pobre. Os escravos das minas e das fábricas ainda trabalham. Milhões de braços dão duro em toda a terra para a fruição de alguns homens, e as milhões de almas sufocadas por essa labuta continuam a não saber que há um Deus para abençoar os que os esmagam: o Deus das luxúrias e das elegâncias, cujo "jugo é suave e o fardo tão leve" para os opressores.

É verdade que há refúgios: o alcoolismo, a prostituição dos corpos, o suicídio ou a loucura. Porque não continuar a dança?

Mas não há refúgio para a Indignação de Deus. Ela é uma mulher desvairada e faminta para quem todas as portas se fecharam, uma autêntica filha do deserto, que ninguém conhece. Os leões em meio aos quais ela foi gerada estão mortos, assassinados à traição pela fome e pelos vermes. Ela se contorceu diante de todas as portas, suplicando por abrigo, e ninguém teve pena da Indignação de Deus.

Ela é bela, porém, mas inseduzível e incansável, e dá tanto medo que a terra treme quando ela passa. A Indignação de Deus está aos farrapos e não tem quase nada para esconder sua nudez. Caminha descalça, está coberta de sangue e há sessenta e três anos - isto é terrível - ela não tem mais lágrimas! Seus olhos são abismos escuros e a sua boca não diz mais palavra. Quando encontra um padre, ela se torna ainda mais pálida e silenciosa, pois os padres a condenam, a consideram mal vestida, exagerada e pouco caridosa. Ela sabe muito bem que já tudo é inútil! Às vezes ela toma as criancinhas nos braços, oferecendo-as ao mundo, e o mundo lança esses inocentes ao lixo, dizendo-lhe:

- És livre demais para o meu gosto! Tenho leis, policiais, meirinhos, proprietários! Tu te tornarás uma mulher submissa e pagarás a tua prestação na hora certa..

- Minha hora está perto e pagarei com toda exatidão, responde a Indignação de Deus.

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