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sábado, 30 de abril de 2011

Frei Tomé de Jesus e a leitura dos "Trabalhos de Jesus"

Frei Tomé de Jesus

Instrução de frei Tomé de Jesus para os exercícios espirituais e a oração que devem acompanhar a leitura ("Lição") de seu livro Trabalhos de Jesus, uma das maiores obras-primas da literatura mística do século XVI:

Leia um dos trabalhos que o Senhor passou, e a doutrina que neles achar, devagar, com atenção. E se na lição se achar movido, vá-se após o movimento que Deus lhe dá, enquanto dura, e cesse a lição para tornar a ela cessando o movimento interior. Acabada a lição, logo com aspirações suaves ao Senhor, como se o visse com seus olhos naquele trabalho, lhe fale brandas palavras, que Deus lhe dará ou, sem palavras, afetos suaves da alma, de agradecimento, de vida e de amor. E entre no exercício, levando sempre a memória no Senhor com quem fala, e usando do que aqui se escreve só para entrada ou caminho para o amor fazer seu ofício, o qual nunca se há de impedir, mas antes assoprar e atiçar, porque isto é o que se pretende.

Ocupe o menos que puder o entendimento, porque como alcança pouco enquanto a alma está cativa neste corpo, nesta vida mortal, basta que sirva de abrir porta à vontade e amor, para fazerem seu ofício. E se Deus lhe fizer mercê que calem os discursos do entendimento e imaginação, e sentir em sua alma uma suave paz e repouso, cheia de admiração do que em Deus com a viva e alumiada fé vê, ou de sentimento de dor, do que lhe vê padecer, e de o ter ofendido ou desejo de o ver de toda a criatura amado e servido, ou de inflamação de vontade que se abraça e apega ao Senhor, ou algum movimento interior que o ajunta e embebe no Senhor, e a ele o alevanta, que tem presente: persevere nesta paz quanto puder, sem dar entrada a nenhum outro pensamento, por santo que seja. E isto não porque os santos pensamentos possam fazer mal à alma, mas porque nesta paz e alevantamento de alma recolhe ela e logra o fruto dos santos pensamentos, e como não pode juntamente estar ocupada em muitas cousas diferentes, pode muito bem ser que seja tentação, no tempo que há de recolher o fruto dos pensamentos bons, atravessarem-se-lhe outros, para que assim nem de uns nem de outros tire o fruto desejado, e por isso é melhor perseverar na paz e sossego interior e afetos de amor, enquanto nosso Senhor os dá, e depois aproveitar-se de outros pensamentos santos para o mesmo efeito. Como a ovelha, que quando está descansada remoendo e gostando do que tem comido, não pega de outra erva, por boa que seja, porque não pode o estômago com tanta coisa junta. Chegará aquele bem-aventurado dia da glória celestial, onde desimpedidas  as potências da alma do peso desta carne terrena, se alargará cada uma delas em seu mar sem fundo de amor, sabedoria e conhecimento de Deus juntamente, sem haver cousa que lhe possa impedir seus ofícios. 

Acabada a hora e tempo que tomou para o exercício e oração, se esteve nele brando e visitado do Senhor, alevante-se com suspiros ou com paz e sossego, como quem leva a Deus consigo, se vá ao que há de fazer, suspirando muitas vezes ao Senhor ou abraçando-se com tão bom companheiro como consigo leva, e trabalhe por conservar quanto puder aquela luz, paz e fervor que lhe foi comunicada, e naquele gaste quantos momentos puder, até chegar a outra hora de oração.

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