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segunda-feira, 28 de março de 2011

Frei Luís de Granada e a generosidade de Deus



Considera quão generoso seja o Senhor em pagar os serviços que se lhe fazem. Mandou Deus ao patriarca Abraão que lhe sacrificasse um filho que tanto amava, e estando ele para sacrificá-lo, disse-lhe Deus: "Não o sacrifiques, porque já vi tua lealdade e obediência. Mas te juro por quem sou dar-te por esse filho tantos filhos quantas estrelas há no céu e areias no mar, e entre eles um que será Salvador do mundo e ao mesmo tempo teu filho e Filho de Deus." Não achas que este seja um bom pagamento? É pagamento digno de Deus, porque Deus em todas as coisas há de ser Deus: Deus em pagar e Deus em castigar e Deus em tudo o mais.

Pôs-se Davi uma noite a pensar como tinha casa e a arca de Deus não a tinha, e tratou em seu pensamento de edificar-Lhe uma casa. No dia seguinte de manhã enviou-lhe Deus um Profeta que lhe dissesse: "Porque trataste em teu coração de edificar-me uma casa, eu te juro que edificarei para ti e para teus descendentes uma casa eterna e um reino perpétuo, de quem jamais apartarei a minha misericórdia." Assim o disse e assim o cumpriu, porque até vir Cristo, reinaram homens da família de Davi na casa de Israel; e depois nasceu Cristo, filho de Davi, que nos séculos dos século nela reinará. Pois se nada mais é a glória do Paraíso senão uma gratificação e um pagamento universal pelos serviços de todos os santos, e sendo tão generoso o Senhor neste ponto, que poderemos aqui conjecturar sobre qual será essa glória? Há aqui muito que pensar e aprofundar.

Há também outra conjectura para isso, que é considerar quão grande seja o preço que Deus pede por tal glória, sendo Ele tão liberal e tão magnífico. Pois para nos dar esta glória não se contentou com outro preço menor, depois do pecado, do que o sangue e a morte de seu Unigênito Filho. De maneira que pela morte de Deus se dá ao homem vida de Deus; pelas tristezas de Deus se lhe dá alegria de Deus, e porque esteve Deus na Cruz entre dois ladrões, se dá ao homem estar entre os coros dos anjos. Pois me diz então ( se se puder dizer): qual é esse bem que para que te fosse dado foi mister que suasse Deus gotas de sangue e fosse preso, açoitado, cuspido, esbofeteado e pendurado à cruz? Que terá Deus preparado (sendo tão magnifico) para dar por este preço? Quem soubesse aprofundar-se neste abismo, mais entenderia por aqui a grandeza da glória do que por todos os outros meios que se possam imaginar.

E além disso nos pede o Senhor, em acréscimo, o último que se pode a um homem pedir, ou seja, que tomemos a nossa cruz  nas costas e arranquemos o olho direito se nos escandalizar e não tenhamos lei com pai nem mãe, nem com outra coisa criada, quando se chocar com o que manda Deus. E sobre tudo isto que de nossa parte fazemos, diz aquele soberano Senhor que nos dá a glória da graça. E assim diz por São João: "Eu sou princípio e fim de todas as coisas. Darei ao que tiver sede beber água de vida em abundância". Diz-me então, agora: Como será esse bem pelo qual tanto nos pede Deus e depois de tudo isso dado, diz que nos dará em abundância? E digo em abundância, considerando o que nossas obras valem por si, não pelo valor que têm por parte da graça. Diz-me, portanto:se esse Senhor é tão generoso em fazer mercês; se a sua divina magnificência concedeu nesta vida a todos os homens tanta diversidade de coisas; se a todos indiferentemente servem as criaturas do céu e da terra, e dos justos e dos injustos é comum a posse deste mundo, que bens terá guardado só para os justos? Quem tão graciosamente deu tão grandes tesouros sem devê-los, que dará a quem forem devidos? Quem tão liberal é em fazer mercês, quão mais o será ao pagar serviços? Se tão inestimável é a generosidade do que dá, qual será a magnificência do que restitui? Sem dúvida não se pode com palavras declarar a glória que dará aos agradecidos, pois tais coisas deu aos ingratos.

(Frei Luís de Granada, Guia de Pecadores, I, IX; tradução de Yours Truly).

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