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terça-feira, 8 de março de 2011

Duas árvores, dois frutos e a fraqueza dos cristãos


A indiferença dos cristãos em receber o sacramento da Eucaristia

Jamais penso sem profundo espanto nos dois preceitos que Deus deu ao homem, um sob a lei da natureza, outro sob a lei da graça, os dois muito diferentes um do outro, os dois igualmente violados. O primeiro, dado no paraíso terrestre, proibia-lhe, sob pena de morte, saborear o fruto da árvore; o homem o saboreou. O segundo, promulgado na Igreja, ordena-lhe comer o corpo do Salvador; ele nada faz. Em vão Jesus, do fundo do tabernáculo, repete que a sua carne é o pão vivo que dá a vida; o homem desdenha sentar-se à sua mesa. A Escritura, falando de Absalão que só cortava os cabelos uma vez por ano, diz que ele se curvava ao peso da cabeleira.  Pois é também só uma vez por ano que o homem se despoja do fardo de suas iniquidades para vir ao pé do santo tabernáculo. Este sacramento é o pão de cada dia, e vocês o transformam no pão do ano inteiro, dizia Santo Ambrósio. Eis aí, sem dúvida, o princípio da fraqueza dos cristãos. Eis por que eles perdem tão facilmente a graça de Deus e, de seus amigos que eram, se tornam escravos do demônio. O sábio padre Ruppert afirmava que os anjos só caíram por não se alimentarem com o pão divino da Eucaristia. Achava impossível que, se desfrutassem do favor hoje concedido a todos os cristãos, eles tivessem pensado em se revoltar contra um Deus que levava o amor até o ponto de nutri-los com a sua carne e o seu sangue.

É preciso, pois, concluir que a queda é certa e o abismo inevitável para quem só raramente ou jamais participa do banquete celeste. Era o que pensava o grande condestável Nuno Álvares Pereira, que comungava todos os dias, mesmo no meio dos campos de batalha e do tumulto das armas: "Se quereis ver-me vencido, basta tirar-me a Santa Eucaristia". Quando acontecia a Santa Catarina de Sena de não comungar, ela logo caía gravemente doente. Se olharmos para os séculos da Igreja primitiva, veremos com que fervor os fiéis participavam todos os dias dos divinos mistérios. Quem  os perdesse um só dia que fosse, não se julgava mais digno do nome e do caráter de cristão.

Diante de tanto ardor e tanto amor ao divino Sacramento, que dirão as almas preguiçosas e frias, que passam quase toda a vida sem aproximar-se da Mesa Sagrada? O que diziam no deserto os israelitas ingratos, quando o maná, figura da Eucaristia, caía do céu para alimentá-los: Só sentimos repulsa por esse alimento.


Objetam que não convém que homens imperfeitos e mundanos aproximem  tantas vezes os lábios do coração de Jesus e recebam em suas almas impuras aquele que vê manchas nos Serafins. "Essas, responde São Bernardo, são palavras de ignorância palpável ou de ingratidão disfarçada, porque quanto mais doentes estiverdes, mais precisais do médico." Ó louca e ingrata criatura, se as trevas te envolvem, porque não buscas o sol e sua luz? Isso não é respeito pela adorável Eucaristia, é a tepidez, é o apego às coisas deste mundo que te detêm e te afastam dos braços do teu Criador. Eis porque não vais a ele, quando nos altares ele te abre o seu coração, como mãe carinhosa, e quer te alimentar com seu sangue. Ah! Se tivesses o amor e a fé de um Crisóstomo, dirias, como ele, que na terra o único desastre real é estar privado da Eucaristia. Se tivesses o amor e a fé dessas duas rainhas da Escócia, Maria e Catarina, que sofreram com alegria e constância o exílio, a prisão e a morte, tendo como único consolo e amparo o pão dos anjos, o alimento celeste não te veria tão negligente e morno.

(Mgr. de la Bouillerie, Méditations sur l'1Eucharistie,  Paris, 1873, pp. 359-363).

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