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segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

O Padre Manuel Bernardes e o gozo da eternidade





Aqui vai este trecho do Pão Partido em Pequeninos, do padre Manuel Bernardes. Texto antológico por excelência e certamente uma das mais belas joias da literatura de língua portuguesa e mundial. 


Secular: Por quanto tempo hão de ver a Deus os venturosos que se salvam?


Religioso: Já disse que para sempre, enquanto o mesmo Deus for Deus; considerai este para sempre, para sempre, e pasmareis da bondade de Deus, que tal prêmio promete, e do descuido dos homens, que tal felicidade não estimamos e procuramos.


Secular: Tanto tem Deus que ver? E tanto que ser amado e louvado, que hão de estar as almas ocupadas nisso sempre, sempre, sem se cansarem?


Religioso: Filho: os bens e gostos do mundo, uns mais, outros menos, todos finalmente enfastiam e cansam, porque em si são limitados, e o homem não é feito para eles. Porém a formosura de Deus é infinita: suas perfeições, excelências e grandezas não têm limite. E assim, ainda que houvera infinitos Anjos e almas bem-aventuradas, nunca por toda a eternidade acabariam de compreender tão grande bem, nem se cansariam de o amar e louvar, e especialmente sendo os Anjos e os homens criados para o logro deste bem. E se não, dizei-me vós: a pedra porventura cansa-se de estar quieta e sentada sobre o seu centro? Não, por certo; porque esse é o seu lugar próprio, e aí se acha bem. Sendo pois a vista de Deus o centro das nossas almas, e o seu lugar próprio onde se acham sumamente ditosas: que muito que não cansem de ver a Deus, e por conseguinte de o amar e louvar eternamente? Para que esta verdade se vos faça mais crível, vos contarei um exemplo, que trazem graves Autores:


Estando um monge em Matinas com os outros Religiosos do seu Mosteiro, quando chegaram àquilo do Salmo, onde se diz que: Mil anos à vista de Deus são como o dia de ontem que já passou; admirou-se grandemente, e começou a imaginar como aquilo podia ser. Acabadas as Matinas, ficou em Oração, como tinha de costume, e pediu afetuosamente a Nosso Senhor, se servisse de lhe dar inteligência daquele verso. Apareceu-lhe ali no coro um passarinho, que cantando suavissimamente, andava diante dele dando voltas de uma para a outra parte, e deste modo o foi levando pouco a pouco até um bosque que estava junto do mosteiro, e ali fez seu assento sobre uma árvore; e o servo de Deus se pôs debaixo dela a ouvir. Dali a um breve intervalo (conforme o Monge julgava) tomou o voo, e desapareceu com grande mágoa do servo de Deus, o qual dizia mui sentido: Ó passarinho da minha alma, para onde te foste tão depressa? Esperou, e como viu que não tornava, recolheu-se para o Mosteiro, parecendo-lhe que aquela  mesma madrugada, depois das Matinas tinha saído dele. Chegando ao Convento, achou tapada a porta, que de antes costumava servir, e aberta outra de novo em outra parte. Perguntou-lhe o Porteiro quem era, e a quem buscava. Respondeu-lhe: Eu sou o Sacristão, que poucas horas há saí de casa e agora torno, e tudo acho mudado. Perguntando também pelos nomes do Abade, e do Prior, e Procurador, ele lhos nomeou, admirando-se muito de que o não deixasse entrar no Convento, e de que se mostrava não se lembrar daqueles nomes. Disse-lhe que o levasse ao Abade; e, posto em sua presença, não se conheceram um a outro, nem o bom Monge sabia que dissesse, ou fizesse, mais que estar confuso e maravilhado de tão grande novidade. O abade então alumiado por Deus mandou vir os anais e histórias da Ordem: onde, buscando, e achando os nomes que o Monge apontava, se veio a averiguar com toda a clareza, que eram passados mais de trezentos anos desde que o Monge saíra do Mosteiro até que tornara para ele. Então este contou o que lhe havia sucedido e os Religiosos o aceitaram como a Irmão seu do mesmo hábito. E ele considerando na grandeza dos bens eternos, e louvando a Deus por tão grande maravilha, pediu os Sacramentos, e brevemente passou desta vida, com grande paz em o Senhor.
Este é o exemplo. Vede agora que se a música de um passarinho pode entreter aquele Monge trezentos anos com tanto gosto seu, que lhe pareceram poucas horas, e ainda desejava que durasse mais; como não bastará a vista de Deus, que é um bem, onde se encerram juntos infinitos bens, para suspender a nossa alma sem fastio nem cansaço por toda a eternidade? Antes com satisfação, e gozo tão cabal, como se naquele instante começara a ver a Deus.

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