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sábado, 15 de janeiro de 2011

Julien Green sobre o catolicismo

Julien Green na época do Panfleto

O século XX foi pródigo em grandes escritores católicos: Gustavo Corção e Jorge de Lima, Huysmans e Léon Bloy, Mauriac e Bernanos, Claudel e Francis Jammes, Clemente Rebora e Papini, Damaso Alonso e José Bergamín,  Gertrud von Le Fort e Sigrid Undset, Greene, Chesterton e Belloc e tantos outros são prova disso. Todos grandes autores, todos souberam tirar da Cruz matéria para criação literária do mais alto nível. Mas se eu tivesse de escolher um só, escolheria Julien Green.

Nascido em Paris de pais americanos da Georgia, perfeitamente bilíngue, criado na igreja anglicana e convertido ao catolicismo aos 16 anos, Green passou por uma crise religiosa que o fez trocar a Igreja por uma vida devassa no homossexualismo. Reconvertido à fé, Green teve o desgosto de assistir à  avacalhação da fé pelo famigerado fantasma do Concílio, contra o qual se rebelou. Morreu com mais de cem anos, em plena atividade. Era escritor de talento infinito, de sensibilidade religiosa abissal.

Aqui vão alguns dos 249 aforismos que compõem o seu extraordinário Panfleto contra os Católicos de França, publicado anonimamente em 1924.

39. As pessoas que voltam da missa falam e riem; acham que não viram nada de extraordinário. Não desconfiam de nada porque não se deram ao trabalho de ver. Até parece que acabam de assistir a algo simples e natural, e esse algo, se não tivesse acontecido mais que uma vez, já bastaria para levar ao êxtase um mundo apaixonado.
40. Voltam do Gólgota e falam da temperatura.
42. Se lhes dissessem que João e Maria desceram do Calvário conversando sobre frivolidades, elas diriam que é impossível. Mas é exatamente o que fazem.
45. Estiveram 25 minutos numa igreja sem compreender o que se passava. Viram entrar um padre de casula e nem por um instante suspeitaram de que se tratava do Cristo das Escrituras (pois é caridoso supor que não o sabiam ou haviam esquecido). Algumas permaneceram sentadas.
46. Alguns permanecem de pé durante a elevação e não sei qual é mais maravilhosa, a elevação mesma ou a atitude dos que a veem.
51. Prefiro a atitude dos incrédulos que acham que o catolicismo é absurdo à dos católicos que o acham natural. Acho até que a atitude dos incrédulos é a única que está no espírito do catolicismo.
71. A mera presença do padre tem uma virtude misteriosa. Newman, quando era protestante, não podia ver um padre sem sentir uma emoção secreta. Cristo veste a nossa humanidade. Mandam-nos por nossa vez vestir o Cristo. Troca de roupas.
75. Os padres parecem não saber quem são nem o que podem fazer. Moisés nada é ao lado de um padre católico. Moisés teria reverenciado esse padre como o ser mais admirável, o mais douto e o mais forte da criação, acima dos anjos, mais perto do Criador do que qualquer outro ser no mundo, pois a mesma Santa Virgem não tem um poder comparável ao seu.
89. Servir o céu é sofrer, pois ele pede ao homem mais do que este parece poder dar. Dir-se-ia que ao lhe ordenar coisas impossíveis, queira arrancá-lo de si mesmo e torná-lo infinito como ele.
93. O céu só deseja o que o mundo rejeita; o rebotalho da humanidade é sua presa e ele se afasta do que eles honram. Se, portanto, o apóstolo disse que não devemos conformar-nos ao mundo, era um cálculo prudente.
94. Mas esse amor divino é tão temível, que o clero não quer saber dele e tenta dele preservar os chamados fiéis.
101. Há no catolicismo uma vertigem. Isso se deve a que ele foi feito à proporção do céu, não dos homens; foi feito para puxar os homens para si, não para se abaixar até eles.
102. Essa religião prega a humildade e oferece à fé dos homens dogmas que pareceriam dever torná-los loucos de orgulho. Explica-lhes que o céu suportou por eles sofrimentos que não conseguirão imaginar, pois são infinitos; que um paraíso está reservado à humanidade e que a alegria desse paraíso não cessará jamais.
110. O que faz a grandeza do homem não é a razão, é o conhecimento que ele tem das coisas que estão acima da razão e das faculdades imaginativas. O Criador tomou-o como confidente.
113. A MORTE NA CRUZ NÃO ABOLIU O INFERNO.
143. Gosto que me falem da infinidade das estrelas e dos planetas e da mediocridade do nosso globo, de que me dizem não passar de um grão de pó perdido numa massa enorme, pois tenho então uma ideia mais precisa do amor que se vincula à salvação desse globo infinitamente pequeno e a ele se vincula com uma espécie de furor. É possível que haja almas em outros planetas, mas não terão sido amadas como nós, a quem foi dado o Filho único do Criador.

Etc. etc.

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