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quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Jean Racine: A educação em Port-Royal

O claustro da abadia de Port-Royal

Jean Racine, talvez o maior poeta da França e certamente o maior dramaturgo de língua francesa, escreveu no fim da vida uma história da abadia de Port-Royal, núcleo do jansenismo francês, lugar onde passara parte da infância como interno. Foi lá que ele recebeu a cultura clássica que lhe permitiria mais tarde escrever suas grandes tragédias. Foi aluno de Nicole, de Hamon e de Lancelot. A obra foi publicada postumamente. O livrinho é uma defesa inflamada e convincente do jansenismo e um forte ataque aos jesuítas.

Os jansenistas, mais ou menos como os lefebvristas de vinte anos atrás, eram um grupo de elite do catolicismo francês. Em rota de colisão com os jesuítas, acabaram levando a pior e foram condenados pelo papa Clemente XI na bula Unigenitus, em 1713, data trágica para a Igreja e para o catolicismo francês em especial. Dizem alguns que o pecado dos jansenistas foi muito menos alguma heresia que se encontrasse nas obras de Jansenius, do que o orgulho. Mais ou menos o mesmo que E. Michael Jones descreve em seu artigo sobre o encontro que teve com o bispo Williamson. Esperamos que a FSSPX, depois da heróica resistência aos desmandos pós-conciliares na defesa da Missa tridentina, possa atender aos apelos de união do papa Bento XVI e aceitar a oferta que Monsenhor Lefebvre decerto aceitaria. Segunda oportunidade que os jansenistas nunca tiveram.


Uma das coisas que tornavam esta Casa mais recomendável e talvez também lhe tenha atraído mais ciúmes era a excelente educação dada à juventude. Jamais houve asilo em que a inocência e a pureza estivessem mais defendidas do ar contagioso do século, nem escola em que as verdades do cristianismo fossem mais solidamente ensinadas. As lições de piedade ministradas às moças causavam uma impressão ainda mais forte em seu espírito por serem apoiadas não só pelo exemplo de suas mestras, mas também pelo exemplo de toda uma grande Comunidade, unicamente ocupada em louvar e em servir a Deus. Mas não se contentavam em educá-las para a piedade: davam extrema atenção a formar sua inteligência e sua razão; e trabalhavam para torná-las igualmente capazes de serem um dia ou perfeitas Religiosas ou excelentes mães de família. Poderíamos citar inúmeras moças educadas nesse Mosteiro que mais tarde edificaram o mundo pela sabedoria e pela virtude. Sabemos com  que sentimentos de admiração e de reconhecimento elas sempre falam da educação que ali receberam; e algumas delas ainda conservam em meio ao mundo e da Corte, pelos restos dessa casa arrasada, o mesmo amor que os antigos judeus conservavam no cativeiro pelas ruínas de Jerusalém. No entanto, por mais santa que fosse essa Casa, uma prosperidade mais longa talvez tivesse nela introduzido o relaxamento; e Deus, que queria não só firmá-la no bem, mas levá-la a um grau ainda mais alto de santidade, permitiu que ela fosse provada pelas maiores tribulações que jamais provaram uma Casa Religiosa.

(Jean Racine, Abrégé de l'histoire de Port-Royal)

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