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segunda-feira, 15 de novembro de 2010

O conceito de Eternidade na teologia e na filosofia católicas tradicionais



Dürer: O anjo do Apocalipse


Segue abaixo a tradução do artigo da Catholic Encyclopedia sobre a Eternidade, este adorável atributo de Deus, cuja meditação torna mais fácil o cumprimento do Primeiro Mandamento. 

O texto original pode ser encontrado aqui ou aqui.

(aeternum, originalmente aeviternum, aionion, aeon — longo).
A eternidade é definida por Boécio (De Consol. Phil., V, vi) como "a posse sem sucessão e perfeita da vida interminável" (interminabilis vitae tota simul et perfecta possessio). A definição, que foi adotada pelos escolásticos, pelo menos quando se aplica à eternidade propriamente dita, a de Deus, implica quatro coisas: que a eternidade é
  • uma vida,
  • sem começo nem fim,
  • nem sucessão, e
  • do mais perfeito tipo.
Deus não só existe, mas vive. A noção de vida, como todas as noções, por mais abstratas e espirituais que sejam, não é, quando aplicada a Deus, senão analógica. Ele não só não vive exatamente como vive qualquer outro ser com que estamos familiarizados; Ele nem sequer existe como qualquer outra coisa existe. As nossas noções de vida e de existência derivam-se das criaturas, em que a vida implica mudança e a existência é algo adicionado à essência, implicando, assim, composição. Em Deus não pode haver composição ou mudança ou imperfeição de nenhum tipo, mas tudo é puro ato ou ser. Nem por isso, porém, o agnóstico tem razão ao dizer que nada podemos saber e nada devemos predicar de Deus. É verdade que, seja como for que O concebamos ou sejam quais forem os termos com que Dele falemos, as nossas ideias e a nossa terminologia estão completamente aquém Dele e são totalmente indignas Dele. Mesmo, porém, quando assim argumenta, o agnóstico pensa e fala de Deus tanto como nós; nem podem eles ou podemos nós fazer outra coisa, por estarmos obrigados a rastrear as coisas até sua primeira causa. Curvando-nos a esta necessidade, só podemos pensar e falar sobre Ele nos termos mais espirituais e mais elevados que conhecemos; não meramente como existente, por exemplo, mas como vivente; corrigindo ao mesmo tempo, na medida do possível, a forma de nosso pensamento e de nossa predicação, acrescentando que a vida Divina é perfeita, livre de todo vestígio de defeito. Esta é a razão pela qual representamos a existência Divina como uma vida. É uma vida, ademais, não só sem começo nem fim, mas também sem sucessão — tota simul, ou seja, sem passado nem futuro; um instante ou “agora” imutável. Não é tão difícil formar uma noção artificial de uma duração que nunca começou e nunca acabará. Esperamos que a nossa própria vida não tenha fim; e os materialistas nos acostumaram à noção de uma série que se prolonga sem limite para trás no tempo, à noção de um universo material que nunca nasceu, mas sempre existiu. A existência Divina é isso e muito mais; excluindo toda sucessão, todo o tempo passado e futuro – na verdade, todo o tempo, que é sucessão – deve ser concebida como um perpétuo e imutável "presente".
Ao formar esta noção de eternidade cabe pensar na imensidão da imensidade Divina em sua relação com o espaço e as coisas extensas. Podemos conceber primeiro uma linha reta pontilhada — uma linha de pontos separados; em seguida, uma linha contínua dentro de dois limites, começo e fim. A linha pode ser, mas não é, dividida em partes, linhas mais curtas ou pontos, e o todo é finito de ambos os lados. Isso é semelhante mas também dissemelhante de um espírito finito; semelhante, porque não tem partes divisórias atuais e é limitado; mas dissemelhante porque pode ser dividido, enquanto um espírito não pode ser dividido. Os espíritos existem completos e inteiros sempre que existem; e embora possam preencher o espaço ocupado por um corpo humano, por assim dizer, ele está completo e inteiro em cada parte possível dele; não de modo distinto da linha contínua. Se em seguida pensarmos que as extremidades ou limites da linha foram removidos, que o eixo da terra, por exemplo, se estenda indefinidamente pelo espaço, a linha torna-se não só contínua ou não-pontilhada, mas infinita, sem fim ou começo, mas ainda divisível; semelhante, mas também dissemelhante, à imensidão de Deus. Pois Deus é um espírito, e como a alma humana preenche o espaço ocupado pelo corpo a que está unido, mas está inteira e completa em cada possível parte desse espaço, assim também Deus preenche todo espaço, estendendo-se sem limites em todas as direções, e no entanto está completo e inteiro em cada lugar, no menor ponto que se possa conceber, no mesmo sentido aproximado ou impróprio em que podemos pensar ou dizer que Deus esteja “completo”. Mesmo as relações espaciais da alma com o corpo são grosseiras quando comparada às que a existência de Deus mantém com a existência das criaturas e os espaços em que elas existem ou podem existir. Pois por mais carentes de extensão que sejam os espíritos criados, eles não são incapazes de mudança interna real, de algum tipo de movimento real dentro de si mesmos; ao passo que Deus, preenchendo todo espaço, é incapaz da menor mudança ou movimento, mas é tão verdadeiramente o mesmo o tempo todo, que é mais bem concebido como um ponto infinitamente extenso, o mesmo aqui, ali e em todos os lugares.
Se, porém, aplicarmos à linha do tempo o que vimos tentando aplicar à do espaço, o ponto infinito e imutável que é a imensidão torna-se eternidade; não uma sucessão real de atos ou mudanças separadas (o que chamamos "tempo"); nem tampouco a duração contínua de um ser imutável em sua substância, embora possa variar em suas ações (que é o que Santo Tomás entende por aevum); mas uma linha sem fim de existência e ação que não só não é atualmente interrompida, mas é incapaz de interrupção ou da menor mudança ou movimento. E como, se um instante passar e outro sucedê-lo, tornando-se passado o presente e o futuro, presente, há necessariamente uma mudança ou movimento de instantes; assim, se não quisermos ser irreverentes em nosso conceito de Deus, mas representá-Lo da melhor maneira possível, devemos tentar concebê-Lo como algo que exclui toda mudança ou sucessão, mesmo mínima; e sua duração, por conseguinte, como algo sem sequer um passado ou futuro possíveis, mas um “agora” sem começo e sem fim, absolutamente imutável. Assim é apresentada a eternidade na filosofia e na teologia católicas. A noção é de especial interesse por nos ajudar a compreender, ainda que artificialmente, as relações de Deus com as coisas criadas, sobretudo no que se refere à presciência . Nele não há antes ou depois e, portanto, nenhuma presciência, objetivamente falando; a distinção que costumamos traçar entre o Seu conhecimento de inteligência ou ciência ou presciência e Seu conhecimento de visão é meramente a nossa maneira de representar as coisas, muito natural para nós, mas de modo algum objetiva ou real Nele. Não há diferença objetiva entre a Sua inteligência e a Sua visão, nem entre nenhuma destas duas e a Divina substância, em que não há possibilidade de diferença ou mudança.
Essa inteligência substancial infinitamente perfeita, imensa e eterna, além de existir inteira e imutável como um ponto indivisível no espaço e como um instante indivisível no tempo, é coextensiva, no sentido de estar intimamente presente, com o espaço-extensão e com o tempo-sucessão de todas as criaturas; não ao lado delas, nem paralela a elas, nem antes ou depois delas; mas presente em e com elas, sustentando-as, cooperando com elas e, portanto, vendo — não prevendo — o que elas podem fazer em qualquer ponto particular da extensão do espaço ou em qualquer instante da sucessão do tempo em que elas possam existir ou operar. Deus pode ser considerado um ponto imutável no centro de um mundo que, quer como um grupo mais ou menos compacto de indivíduos granulados, quer como uma massa absolutamente contínua de éter, gira ao redor Dele como se pode supor que uma esfera gire em todas as direções ao redor do seu centro (
Santo Tomás, Cont. Gent., I, c. lxvi). A imagem, porém, deve ser corrigida, observando-se que enquanto na linha do tempo a duração de Deus é um ponto ou “agora” perpétuo, sua imensidão na linha do espaço não é de modo algum semelhante ao centro de um círculo ou esfera; mas é antes um ponto coextensivo com, no sentido de estar intimamente presente a, qualquer outro ponto, atual ou possível, na massa contínua ou descontínua que supostamente se mova ao Seu redor.
Sem perder de vista esta noção corretiva, podemos concebê-Lo como esse ponto imutável no centro de um, embora aqui e ali contínuo, circulo ou esfera em perpétuo movimento. As relações de espaço e de tempo estão constantemente mudando entre Ele e as coisas móveis ao Seu redor, não por nenhuma mudança Nele, mas só em razão da constante mudança nelas. Nelas há antes e depois, mas não Nele, Que está igualmente presente a todas elas, seja qual for o modo e o momento em que vieram a ser ou como sucedam umas às outras no tempo e no espaço. Algumas delas são atos livres; e praticamente desde que a mente humana começou a especular sobre estas questões, e em todo lugar onde ainda houver especulações, mesmo rudimentares, se levantou a questão, e ainda se levanta, de como um ato pode ser livre e não acontecer se, como supomos, a presciência absolutamente infalível de Deus viu desde toda a eternidade que ele devia acontecer. A esta questão a filosofia católica dá a única resposta que pode ser dada; que não é verdade dizer que Deus viu ou previu qualquer coisa ou que Ele vai vê-la, mas só que Ele a vê. E como o fato de eu ver você agir não interfere na sua liberdade de ação, mas vejo você agir livre ou necessariamente, conforme o caso, assim Deus vê todas as coisas finitas, quiescentes ou ativas, agindo por necessidade ou livremente, de acordo com o que possa ser objetivamente real, sem com isso interferir minimamente no modo ou na qualidade da existência ou da ação delas. Aqui também, porém, devemos tomar cuidado para não concebermos o conhecimento Divino como algo determinado pelo que o finito pode ser ou fazer; do mesmo modo como vemos as coisas porque o conhecimento chega a nós vindo do que vemos. Não é do infinito que Deus recebe o Seu conhecimento, mas de Sua Divina essência, em que todas as coisas estão representadas ou espelhadas como são, existentes ou meramente possíveis, necessárias ou livres. Sobre este aspecto da questão vide o artigo DEUS. Quando, portanto, alguém pergunta ou esteja tentado a perguntar o que Deus fazia ou onde Ele estava antes de o tempo e o espaço começarem, com a criação do mundo, a resposta deve ser a negação da legitimidade da suposição de que Ele estivesse "antes". É só em relação com o finito e o mutável que pode pode haver um antes e um depois. E quando dizemos que, como ensina a fé, o mundo foi criado no tempo e não existe desde toda a eternidade, o que queremos dizer não deve ser que a existência do Criador se estendesse infinitamente antes de Ele dar o ser ao mundo; mas antes que enquanto a Sua existência em si mesma permanece como um presente imutável, sem possibilidade de antes ou depois, de mudança ou sucessão, a sucessão fora da existência Divina, a cada instante da qual ele corresponde como o centro corresponde a qualquer ponto na circunferência, teve um começo e poderia estender-se indefinidamente mais para trás, sem, porém, escapar à omnipresença do eterno “agora” (Vide Billot, De Deo Uno et Trino, q. 10, p. 122).
Tudo isto se refere à noção de eternidade propriamente dita, que se aplica somente à existência Divina. Há um sentido amplo ou impróprio em que estamos acostumados a representar como eterno o que é meramente infinita sucessão no tempo, e isto mesmo se o tempo em questão tenha tido um começo, como quando chamamos de eterna a recompensa dos bons e a punição dos maus, entendendo por eternidade só o tempo ou a sucessão sem fim ou limite no futuro. No Apocalipse, há um famoso trecho em que um grande anjo é representado com um pé no mar e outro em terra, que jura por Aquele que vive para sempre que não haverá mais tempo. Seja qual for o significado desse juramento, ele encontrou eco em nossa terminologia religiosa, e estamos acostumados a pensar e dizer que com a morte, e sobretudo com o Juízo Final, o tempo cessará. O significado não é que não haverá mais nenhum tipo de sucessão; mas que não haverá mais mudança substancial ou corrupção no que sobreviver à morte, a alma; ou no corpo que se tiver erguido dentre os mortos; ou nos céus e na terra tal como serão renovados depois da segunda vinda de Cristo. Há, ademais, uma implicação ou conotação da doutrina que na vida futura das almas, tanto no céu como no inferno, a sucessão será acidental, sendo o ato em que consistirá sua felicidade ou miséria essenciais uma contínua e ininterrupta visão acompanhada de amor, ou uma visão cega e errônea de Deus, acompanhada de ódio. Este tipo de duração é em nossa linguagem ordinária chamada de vida ou morte eternas, por uma espécie de participação, num sentido amplo ou impróprio, do caráter da eternidade Divina (Billot, op. cit., 119). Foram levantadas questões da mais alta importância quanto à possibilidade de um mundo eterno, no sentido de um mundo de matéria, tal como o conhecemos, que nunca tenha tido um começo e, portanto, não precise de uma causa primeira; também quanto à possibilidade de uma criação eterna, no sentido de um ser, com ou sem sucessão, não ter tido um começo de existência e no entanto ter sido criado por Deus (vide o artigo CRIAÇÃO). Quanto a outras questões relativas à eternidade, vide os artigos CÉU, INFERNO. "Vida eterna" é um termo por vezes aplicado ao estado e à vida na graça, mesmo antes da morte; sendo esta a fase inicial ou semente, por assim dizer, da interminável vida de bem-aventurança no céu, que, por uma espécie de metonímia, é vista como presente neste primeiro estágio, o da graça. Este, se formos verídicos conosco mesmos e com Deus, certamente passará para um segundo estágio, a vida eterna.

(Tradução Yours Truly)

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