Pesquisar este blog

terça-feira, 30 de novembro de 2010

A crucifixão de Jesus segundo frei Tomé de Jesus

Elevação da Cruz
de Decostre-Duclercq

Os Trabalhos de Jesus de frei Tomé de Jesus (1529-1582) constituem um dos  pontos mais altos da literatura  mística de língua portuguesa, juntamente com as obras do padre Manuel Bernardes. Traduzidos em várias línguas, foram leitura habitual nos conventos de toda a Europa até o século XIX.

Tendo acompanhado a Dom Sebastião em sua campanha africana, frei Tomé foi capturado na batalha de Alcácer Quibir e feito prisioneiro. Mística batalha, em que participaram dois dos maiores escritores místicos da península ibérica, frei Tomás e o grande poeta e general espanhol Francisco de Aldana, que lá deixaria este baixo mundo!

Foi justamente na prisão africana que frei Tomás redigiu a sua obra-prima, sem recurso a livros de nenhuma espécie. Foi lá também que ele viria a falecer.

Um dos maiores absurdos da absurda história da editoração católica no Brasil é que esta obra não tenha sido jamais publicada no Brasil. Mas, como se sabe, as editoras brasileiras, católicas e não-católicas,  não primam pelo brilho.

Aqui vai um pequeno trecho da obra:

Pregado o Senhor na Cruz, estava já feita no chão uma cova bastante para a ter, acunhada e direita; e não se podia já bulir com a Cruz, tendo em si o senhor pregado, que lhe não custasse imensas dores; mas como tudo era feito por quem não desejava outra cousa que dar-lhas muito grandes, faziam-lhe tudo com desumaníssima crueldade. Assim arrojaram a Cruz pelo chão (por lhe não faltar o tormento de ser arrastado) até lhe porem o pé pegado com a cova que estava feita. Logo a começaram a levantar pelos braços até ser em altura que pudessem outros tirar por diante por cordas que neles tinham atadas, e ora viraria para uma parte ou para outra, para mais tormento do Senhor. E quando caiu de pancada na cova, e depois ao apertar do pé e acunhar, que se fazia à força de pancadas, para assegurar a Cruz que não pendesse a nenhuma parte, dava ao Senhor tão incomportável trabalho, que como falta experiência dele, faltam também palavras para o declarar. Mas vemos que as maiores dores, e mais insofríveis, que o corpo passa, é se sai fora de seu lugar um osso e desminte uma junta. E sendo o Senhor alevantado na Cruz, que seu corpo sacratíssimo ficou em vão sobre os cravos, todas as junturas do corpo começaram a estalar e apartar-se uns ossos dos outros tão conhecidamente, que com verdade (como estava por David profetizado) todos seus ossos de seu corpo se podiam contar; e assim em tudo geralmente padecia (como mais largamente diremos adiante). Padecendo o Senhor estes tormentos, seus inimigos, que tanto desejaram vê-lo crucificado, em lugar de compaixão, estavam contentes festejando a vitória. A grita do povo ao levantar da Cruz enchia tudo de brados. Ali ficou o Filho de Deus com os pés alevantados da terra, mas não tão altos que lhe não pudessem chegar; e com o corpo direito ao Céu, mas com os olhos na terra; e os braços estendidos, que não se podiam ajuntar. Porque assim quis naquela postura estar, que a terra e terrenos amores não tivessem nela parte, e os amadores de sua Cruz lhe chegassem; e todos os que o buscassem crucificado o achassem abertos para os receber, como os olhos claros para os agasalhar, e com amor aceso para os encher de bens. Tudo leva a si, como Ele prometeu. O céu roubando-o para os pecadores, a Deus reconciliando-o com eles, aos justos inflamando-os em seu amor, aos pecadores convidando-os a penitência e a misericórdia, e satisfazendo-se por eles.

Kyrie eleison, Christe eleison, Kyrie eleison.

Nenhum comentário:

Postar um comentário