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domingo, 21 de novembro de 2010

Castidade: Da necessidade da mortificação segundo o padre Alonso Rodriguez SJ


A atual onda de escândalos sobre pedofilia no clero, embora obviamente exagerada e orquestrada pelos inimigos de Deus e da Igreja, manipuladores natos da opinião pública - crucifica-o, crucifica-o -, revela, porém, uma situação mais do que preocupante. Como demonstra E. Michael Jones em artigo que vimos aos poucos publicando neste blog - ver aqui a primeira parte, e aqui a segunda - , as raízes desses escândalos estendem-se até os negros tempos do pós-Concílio Vaticano II,  em que, segundo o mesmo Paulo VI, a fumaça de Satanás começava a se fazer sentir fortemente nos ambientes eclesiásticos.

Foi então que, no atrabalhoado afã de adotar tudo o que o mundo lhe oferecia em matéria de teorias e práticas psicológicas e terapêuticas, a maior parte do clero perdeu a noção da importância fundamental da castidade e da mortificação na vida espiritual do cristão. A aceitação de teorias materialistas sobre a psique humana teve como conclusão necessária o repúdio de toda a prática ascética que desde a criação da Igreja por Nosso Salvador Jesus Cristo nela havia imperado.

Esta imbricação entre a prática ascética e uma concepção espiritualista da vida cristão está claramente exposta neste texto do padre Alonso Rodriguez, SJ, cuja Prática da Perfeição Cristã  serviu de guia a muitas gerações de religiosos e leigos católicos nos últimos quatro séculos.


A tradução é de Yours Truly, baseada na versão francesa de Tricalet, a única de que dispomos:

Da necessidade da mortificação: em que ela consiste

Para tratar esta matéria a fundo, é necessário supor em primeiro lugar que há duas partes principais em nossa alma, uma que os teólogos chamam de superior e a outra, de inferior; costumamos compreendê-las sob os nomes de razão e de apetite sensitivo.  Antes do pecado, e no bem-aventurado estado de inocência e de justiça original em que Deus criara o homem, a parte inferior estava perfeitamente submetida à superior; mas tendo em seguida a razão se revoltado contra Deus pelo pecado, o apetite sensitivo também se revoltou contra a razão; de sorte que, a contragosto e contra o consentimento da nossa vontade, se elevam por vezes de nosso apetite sensitivo movimentos e afeições que condenamos, segundo esta palavra do Apóstolo: Não faço o bem que quero, mas faço o mal que não quero (Rm. 7, 19).

Cumpre ainda supor outra verdade principal, e que é uma consequência necessária da primeira; a saber, que o desregramento do nosso apetite e a perversidade da inclinação da nossa carne são o que forma o maior obstáculo ao nosso progresso na virtude. É por isso que se costuma dizer que a carne é o nosso maior inimigo, pois de fato é dela que nascem todas as nossas tentações e é ela o princípio ordinário de nossas quedas. De onde vêm as guerras e as contradições que sentis em vós mesmos? pergunta o apóstolo Santiago (Tiago, 4,1) Não é de vossas paixões, que combatem em vossos membros? A sensualidade, a concupiscência e o desregramento do amor próprio são a causa de todas as nossas guerras intestinas, de todos os pecados, de todas as culpas e de todas as imperfeições que cometemos e, por conseguinte, o maior obstáculo que podemos encontrar no caminho da perfeição.

Dado isso, não é difícil entender que a mortificação consiste em reparar as desordens das nossas paixões; ou seja, em reprimir em nós as más inclinações e o desregramento do amor próprio. Escrevendo São Jerônimo sobre estas palavras de Jesus Cristo (Lucas, 9, 23), Se alguém quiser vir atrás de mim, renuncie a si mesmo e carregue a sua cruz e me siga, diz que renuncia a si mesmo e carrega a sua cruz aquele que de impudico que era se torna casto, que de intemperante se torna sóbrio; que de fraco e tímido se torna forte e corajoso: renunciar de verdade a si mesmo é tornar-se totalmente diferente do que antes se era.

O que prova evidentemente a necessidade da mortificação é que o Salvador, segundo a observação de São Basílio, diz primeiro que é preciso renunciar a si mesmo; e que em seguida acrescenta, e me seguir. Ou seja, se não renunciarmos primeiro a nós mesmos; se não nos despojarmos inteiramente de nossa própria vontade; se não mortificarmos as nossas más inclinações, encontraremos mil dificuldades e mil obstáculos que nos impedirão de seguir a Jesus Cristo. Convém, pois, que comecemos nós mesmos a aplainar o caminho por meio da mortificação; e é por isso que Ele a estabeleceu como fundamento, não só da perfeição, mas de toda a vida cristã. É essa a cruz que devemos sempre carregar conosco, se quisermos seguir Jesus Cristo: assim é que devemos sempre carregar a sua morte em nosso corpo (2 Cor 4, 10), para que a pureza da sua vida se mostre também em nosso corpo... A vida do homem na terra (Jó, 7, 1) é uma guerra perpétua... Pois a carne, como diz São Paulo,  tem desejos opostos aos do espírito, e o espíritos os tem contrários aos da carne.


(R.P. Alphonse Rodriguez,  Abrégé de la pratique de la perfection chrétienne, t. II, Lyon, Perisse Frères, 1829, pp. 3-5).

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