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domingo, 10 de outubro de 2010

Paul Claudel e a leitura histórico-crítica da Bíblia


Para quem queira um antídoto contra a aridez saariana dos estudos de crítica histórica da Bíblia , vale a pena ler os escritos de exegese bíblica do grande poeta francês, sobretudo o livro Au milieu des vitraux de l'Apocalypse (Em meio aos vitrais do Apocalipse). Como numa visita a uma catedral gótica durante a liturgia, as mensagens divinas nos vêm de toda a parte ao mesmo tempo, do brilho e das cores dos vitrais, da palavra litúrgica, do canto, de tudo. A palavra de Claudel é, como ele mesmo diz, como uma revoada de pássaros que partem para todos os lados, para depois se unirem no céu num trajeto comum.

Eis o que ele tem a dizer sobre a leitura universitária da Bíblia:

O PAI:  Você viu a deusa Tutmósis que me permiti recomendar?

A FILHA: Aquela com cabeça de crocodilo?

O PAI: Sim. Vejo nela uma semelhança impressionante com o nosso ensino universitário. As três fileiras de dentes de que fala o profeta Daniel são evidentemente os ensinos primário, secundário e superior, que diminuem todas as coisas.

A FILHA: Prefiro admirar a desenvoltura com a qual o autor distribui boas notas ou broncas a Isaías e Habacuc. "Bela expressão", diz numa nota. "Descrição gráfica". "Pequeno quadro cheio de frescor e de colorido". Mas não está muito à vontade quando tem de desculpar certas pinturas ou expressões um pouco "brutais". É quando intervêm os "exageros orientais", quando não são as "ideias populares da época", que acorrem como a Velha Guarda para salvar as situações difíceis.

O PAI: Tira-me do sério esse tom de indulgência e de condescendência comovida. Que me importam as escavações de Tell-el-Amarna e a mitologia caldeia? Ninguém parece desconfiar hoje em dia que a Bíblia continua a ser, para nós como para as gerações que nos antecederam,a Palavra de Deus, que devemos receber de joelhos, que ela não foi escrita para nos informar sobre os hititas e sobre os amorreus, para nos encher de nomes próprios até explodir, para irritar na pele dos eruditos a sarna das conjeturas, mas que, vinda de Deus e dirigida ao homem, ao homem de todos os lugares e de todos os tempos, ela não contém uma linha sequer que não seja feita para falar de Deus ao homem e não apresente um ensinamento sob o véu de uma figura ou de um fato, para que cada leitor, sob o magistério infalível da Igreja, vá da escritura ao sentido. A Bíblia é, portanto, antes de tudo, como o foi para a Humanidade durante doze séculos, antes que o nosso estudo se afastasse do documento de Deus para o documento da Natureza, um Livro de Imagens. As coisas e os seres são nela símbolos e os acontecimentos, parábolas. O homem depois da Queda não saiu de um paraíso de signos e de sacramentos. O Apocalipse, que é o último livro da Bíblia e resume todos os outros, que é por assim dizer o ômega a que o alfa se incorporou, que retoma a história da Redenção antes mesmo da criação do Mundo, no momento da Queda dos Anjos, para segui-la até o Juízo Final, abre os nossos olhos quase à força: fazem-nos passar enfim por trás, mostram-nos os símbolos em estado puro e livres de todo suporte histórico, não há mais como nos ater ao sentido literal. Lançam-nos um convite através de toda a perspectiva de decorações figurativas que precedem a Revelação Suprema. Cada uma destas catástrofes temporais se assemelha ao ataque epilético dos soldados encarregados de prender Nosso Senhor. Quem procurais? diz-lhes o Evangelho. - Jesum Nazarenum. E caíram para trás. Diante de Deus ninguém permanece de pé. Et factus est terra motus magnus.

A FILHA: Sim, é mais ou menos como se um crítico escrevesse um livro sobre o Mithridate de Racine e em vez de falar sobretudo de Racine, falasse sobretudo de Mithridate.

O PAI: A Escritura é inspirada por Deus. É uma missiva que nos é dirigida pessoalmente e que devemos ler com infinita atenção, não para saber de notícias da vizinhança, mas sobretudo para absorvermos o caráter do escritor (pois tal carta é ao mesmo tempo um Testamento), seus desejos  e suas intenções a nosso respeito. Numa carta, o que é necessário nos transmitir é claro, mas isto não nos basta: tentamos ler entre as linhas tudo o que o nosso amigo pôde nela introduzir em termos de sentimentos íntimos, de conselhos velados, de sugestões indiretas e de revelações adiadas. Ou, se você preferir, a Escritura é como um aerólito, como algo caído do céu. Com que interesse devemos examinar esse documento celeste em sua substância, de preferência a todas as circunstâncias acidentais!

(Paul Claudel, Au milieu des vitraux de l'Apocalypse, Gallimard, 1966, pp. 38-39. Traduit par Yours Truly)

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