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quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Na dúvida, pró Papa



Estive relendo recentemente Du Pape, clássico de autoria do grande reacionário saboiano Joseph de Maistre, uma defesa veemente da infalibilidade papal e do primado absoluto de Pedro.

É leitura impressionante, que nos faz medir com maior exatidão a extensão da crise de hoje. Recomendo-a a todos os católicos pensantes. É viagem no tempo que nos permite escapar ao provincianismo temporal que limita os nossos horizontes a este nosso triste século XXI. Navegar é preciso.

Sem querer negar os problemas causados por diversas atitudes papais nas últimas décadas, perpetradas à sombra do famigerado espírito conciliar, que quase sempre se parece muito mais com um fantasma conciliar, convém lembrar o óbvio: que Pedro é a pedra sobre a qual se assenta a Igreja visível, e que sem ela desmorona todo o edifício eclesial. Foi por isso que todos os esforços do tal fantasma conciliar se concentraram em tornar impossível a continuidade entre a doutrina da infalibilidade papal e a prática pós-conciliar desta infalibilidade, estabelecendo uma contradição mortal no seio de uma instituição que se apresenta como fiadora da Verdade.  O ponto a que querem chegar é: se o que os Papas conciliares dizem é infalível, então o que os Papas anteriores disseram é falível, pois ambas as coisas se contradizem. Mas se os Papas anteriores são falíveis, então os Papas conciliares também são falíveis. De qualquer modo, o resultado é sempre o mesmo: o desmoronamento da Igreja de Cristo pela supressão da pedra fundamental.

Esta é a ponta da faca que o fantasma conciliar procura introduzir no Corpo de Cristo: se houver contradição entre Papa e Papa, entre Papa e Tradição, entre Concílio e Tradição, a Igreja está acabada, e o indiferentismo religioso é a única saída. Este é o sonhado QED dos modernosos. É isto que o fantasma conciliar, por meios dos seus médiuns, como o lúgubre cardeal Walter Kasper, pretendem.

É contra isso que o Papa Bento XVI tem se voltado, dando prioridade absoluta à elaboração de uma interpretação do Vaticano II à luz da tradição, algo que o próprio Monsenhor Lefebvre certamente subscreveria.

A menos que se queiram empreender  obscuras e duvidosas aventuras nos mares do sedevacantismo e do sedeimpeditismo. Mas neste caso, o mínimo que um católico responsável pode fazer é seguir o seguinte princípio: na dúvida, pró Papa. E realmente eu pago para ver se alguém ousa dizer que consegue enxergar todo o problema conciliar em sua inteireza, sem ter nenhuma dúvida. É uma impossibilidade de fato. Não há como. Mesmo porque partes imensas dos dados de fato relativos ao Concílio e à Igreja pós-conciliar não estão disponíveis senão ao Papa e a muito poucos outros de sua escolha. Como não ter dúvida sobre algo cujo conhecimento é fragmentário?

O que não significa, é claro, subestimar a gravidade do mal causado à Igreja pelo que se seguiu ao concílio, nem a justeza de muitíssimas críticas tradicionalistas ao caos que se instaurou em amplos setores da Igreja após o Vaticano II. Ao contrário, só mesmo nesta perspectiva se consegue medir efetivamente a gravidade do estrago, que levou  muitas vezes os defensores da Tradição, muito a contragosto,  a repudiar  a obediência ao Papa, Vigário de Cristo e Sucessor de Pedro! Nada mais, nada menos! Quem é que pode, por exemplo, ler a história da luta pela Missa tridentina sem se indignar com os incontáveis desmandos cometidos por altas instâncias vaticanas? Esta, graças a Deus, é outra ferida que Bento XVI veio curar.

É dever do católico, portanto, apoiar o Papa Bento XVI em sua interpretação tradicional do Concílio. O resto é aventura que beira perigosamente o cisma, quando nele não cai.

Na dúvida, pró Papa. Ou como diria Charles de Foucauld: Dans le doute, pencher toujours du côté de l'obéissance. (Écrits spirituels, p. 210).

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