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domingo, 3 de outubro de 2010

Grandes best-sellers 2: O Cardeal de la Luzerne e a imutabilidade divina


Quem me conhece sabe que não ligo muito para modas. Mas não posso deixar de confessar que desta vez, diante da febre popular que envolve a obra do Cardeal de la Luzerne, não consegui ficar indiferente e que compartilho do entusiasmo geral pelos escritos do douto purpurado.

Fazendo eco, portanto, ao clamor popular, aqui vai um trecho relativo à imutabilidade divina, extraído e traduzido de sua Dissertação sobre a existência de Deus . O grande cardeal defende a tese da imutabilidade contra os ataques dos materialistas iluministas, cujo porta-voza era o barão D'Holbach. Em seu Sistema da Natureza, escreveu este último:

... os teólogos, ao tornarem Deus imutável, tornam-no imóvel e por conseguinte inútil. Um ser imutável no sentido de não mudar de maneira de ser, não poderia, evidentemente, ter vontades sucessivas nem produzir ações sucessivas.

Aqui vai a resposta do cardeal:

O Ser que existe necessariamente, que é necessariamente o que é, que tem necessariamente a mesma maneira de ser não pode ter pensamentos, vontades, maneiras de agir diferentes. Sempre o mesmo, sempre pensa, sempre quer, sempre faz as mesmas coisas. Se pudessem acontecer-lhe volições novas, seria ou porque adquirira novos conhecimentos ou porque descobrira novos motivos, o que repugna, como veremos ao tratar da onisciência. Tem, pois, sempre os mesmos pensamentos, as mesmas volições: e o defeito da objeção é o de supor que ele as tenha diferentes e sucessivas. O que é, é porque ele o quer; e o que ele quer, ele o quer desde toda a eternidade. O que serve de pretexto a esta imputação de mudança é a mudança contínua  que vemos no universo e que nos fazem atribuir a vontades diversas e sucessivas do seu Autor. Em primeiro lugar, ao admitirmos que não há sucessões na eternidade, é evidente que não pode havê-las nos pensamentos do Ser eterno. O que se faz no mundo em diferentes tempos é, na eternidade, decretado e operado num só instante indivisível. Em seguida, mesmo se supusermos a eternidade composta de uma série infinita de momentos, do fato de sofrerem continuamente as criaturas novas mudanças, não se segue de modo algum que ocorram no Criador novos pensamentos diferentes dos anteriores. Ele pode em todos estes tempos pensar e querer a mesma coisa. Todas as vicissitudes que vemos no universo pode muito bem vir de uma única e mesma vontade, contínua, constante, que os tenha ordenado a todas ao mesmo tempo e por um só decreto. Diremos que a vontade do relojoeiro em relação à sua obra é uma contínua variação, porque o ponteiro do seu relógio muda de lugar a cada instante? O mesmo sol ilumina um objeto, aquece outro, liquefaz este, solidifica aquele, diverte os olhos sadios, cansa os enfermos e tudo isto no mesmo momento e pelo mesmo ato. A sucessão, a diversidade dos efeitos não as supõe na causa, pois uma causa fixa pode produzir efeitos sucessivos e variados. Deus deu às suas criaturas as leis que as fazem executar todas as revoluções pelas quais passam: mas tais leis são tão antigas, se pudermos valer-nos deste termo, tão invariáveis quanto ele mesmo. São o ditame eterno da sua imutável vontade.

(Dissertation sur l'Existence et les Attributs de Dieu par Son Éminence le Cardinal de la Luzerne, ancien êveque de Langres, Pair de France, Ministre d'État et membre du conseil privé du Roi, pp. 28-30)

Traduit par Yours Truly.

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