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terça-feira, 19 de outubro de 2010

François Mauriac e o sacerdócio católico



Entre os muitos nomes da primavera católica que iluminou as letras e as artes francesas na primeira metade do século XX, François Mauriac ocupa um lugar de honra. Muito se disse e se pensou a favor e contra suas posições religiosas e políticas, mas nunca ninguém em seu juízo estético perfeito ousou questionar a perfeição de sua prosa. Nem mesmo o anticatolicismo do júri do prêmio Nobel, tão avesso a Roma, resistiu a ela.

Aqui vai um pequeno trecho da joia literária que se chama Le Jeudi-Saint, que eu saiba nunca traduzido em português, e agora mau traduzido por Yours Truly.


Não nos torne a Eucaristia  desatentos ao outro sacramento instituído na Quinta-feira Santa: o Sacramento da Ordem: Fazei isto em memória de mim. - Fazei isto todas as vezes que beberdes deste cálice, em memória de mim...


Estes doze homens são os doze primeiros padres. Judas é o primeiro mau padre. (...)

Ei-los ordenados, os primeiros de uma incontável família. Entrou com Cristo a santidade no mundo. A Igreja é santa, e que nos importam a miséria dos indivíduos, as quedas, as traições? "A grande glória da Igreja, escreve Jacques Maritain, é ser santa com membros pecadores." As mãos de alguns homens escolhidos não mais cessarão de elevar até o fim do mundo o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo. (...)

Essa graça da Quinta-feira Santa se transmitirá até o fim dos tempos, até o último padre que rezar a última missa num universo já meio destruído. Criou a Quinta-feira Santa tais homens: foi-lhes impressa uma marca; foi-lhes dado um sinal. Ao mesmo tempo iguais a nós e tão diferentes - jamais tão espantosos como neste século pagão. Dizeis que faltam padres? Na verdade, que mistério adorável ainda haver padres! Não há mais nenhuma vantagem humana: a castidade, a solidão, muitas vezes o ódio, o ridículo, sobretudo a indiferença de  um mundo em que parece não haver mais lugar para eles, tal é a parte que escolheram. Nenhuma grandeza aparente (...) Banha-os de toda parte uma atmosfera pagã. O mundo riria de sua virtude, se acreditasse nela, mas não crê. São vigiados. Mil vozes denunciam os que caem. Os outros,  a maioria, ninguém se espanta de vê-los labutarem obscuramente, sem grandes salários, debruçar-se sobre corpos agonizantes (...) Quem dirá a solidão do padre no campo, em meio a camponeses tantas vezes fechados, senão hostis ao espírito de Cristo? Entramos na igreja de um lugarejo: ninguém, a não ser um velho padre ajoelhado no coro e que vela sozinho com o Mestre. Realizam-se todos os dias as palavras de Cristo a seu respeito: "Envio-vos como ovelhas ao meio dos lobos - sereis odiados por todos por minha causa..." Há séculos, desde a Quinta-feira Santa, há homens que escolhem ser odiados e não ser humanamente consolados. Escolhem perder a vida, porque certa vez alguém lhes fez esta promessa que parece louca: "Aquele que salvar a sua vida a perderá, e aquele que perder a sua vida por causa de mim, a reencontrará..." E também: "Aquele que me houver confessado diante dos homens, eu também o confessarei diante do meu Pai que está nos céus."

(François Mauriac, Le Jeudi-Saint, Americ=Edit,  p 57-61)

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