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sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Dom Stanley L. Jaki e a Igreja Arquipélago


O monge beneditino Stanley L. Jaki, falecido recentemente, foi sem dúvida um dos mais importantes pensadores católicos da segunda metade do século XX. Nascido na Hungria mas radicado nos EUA, após uma breve passagem pelo Brasil, Jaki construiu uma obra riquíssima, de erudição sem par. Doutor em Física,  o cerne do pensamento  de Jaki é o estudo histórico da ciência física, na busca do seu verdadeiro significado. Mas a obra abrange muitos outros temas, como os milagres de Fátima, o problema da inteligência artificial, as obras de Newman e Chesterton ou a interpretação bíblica.

Num dos seus últimos opúsculos, Jaki compara a situação da Igreja hoje a um arquipélago: são ilhas de fé cercadas pelo mar do mundo, cujas vagas submergiram o velho continente da Cristandade.

Aqui vai a tradução do final da obra:

A Igreja Arquipélago não é uma doce paisagem marítima pontuada por belas ilhas perpetuamente banhadas pelo sol, como se fosse uma réplica dos arquipélagos dos Mares do Sul. Muito ao contrário, é golpeada por tempestades sempre recorrentes, por vezes é atingida por vagalhões e ocasionalmente sacudida por erupções vulcânicas. Mesmo assim, este Arquipélago sempre assiste ao surgimento de novas ilhas, cujos habitantes só com grande perigo esqueceriam as palavras do Mestre de que seus discípulos inevitavelmente compartilharão as suas próprias provações. A eclesiologia que promete a isenção de tais provações é uma aventura forçosamente ilusória, ao proclamar um excesso de esperança.

Tais provações são a única fonte de uma vitalidade sempre renovada, cujo propósito não é dar aos fiéis um falso senso de segurança, mas mantê-los alertas ao fato de estarem para sempre em estado de sítio. Como os israelitas de antigamente, precisam construir com a colher de pedreiro numa mão e a espada na outra. Mas ao contrário do caso daqueles israelitas, as ferramentas devem ser estritamente espirituais. Os católicos estarão muito menos desorientados sobre o que realmente se passa se, nestes bíblicos tempos, não perderem de vista as palavras de São Paulo, que se referiu às peças das armaduras corporais  ao falar do estado de alerta. A "nova" eclesiologia deve tomar emprestada mais de uma página da velha eclesiologia, que podia até ser incompleta, mas não fomentava ilusões acerca da real condição da Igreja. A velha eclesiologia podia falar, com Newman, de uma Segunda Primavera, que assistiria à glória de novas dioceses católicas na Inglaterra, à altura da glória das velhas Sés, mas também seria uma Primavera, uma primavera inglesa, a julgar pelo que dela diz Newman, um "tempo de esperança e temor, de júbilo e sofrimento, de brilhantes promessas e esperanças em flor, mas também de intensas ventanias e frias chuvaradas e súbitas tempestades... nas quais talvez até mártires reconsagrem o solo a Deus". Como um arquipélago de verdade, a Igreja será para sempre uma cadeia de ilhas, cercada por traiçoeiras correntes e, muitas vezes, mares tempestuosos. No fim das contas, a Igreja Arquipélago não só sobreviverá, mas mostrará sempre novos sinais de vitalidade, enquanto as mandíbulas do inferno podem devorar tudo, menos esta mesma Igreja.

(Stanley L. Jaki, Archipelago Church, Port Huron, Real View Books, pp. 76-77)

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