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sábado, 16 de outubro de 2010

Pedofilia, Revolução Sexual e Vaticano II

Dr. E. Michael Jones com o então Cardeal Ratzinger



Este modesto blog tem o prazer de anunciar que em breve terá a honra de publicar a tradução portuguesa de um artigo crucial escrito pelo Dr. E. Michael Jones - um dos mais importantes autores católicos da atualidade - acerca das negociações em andamento entre Roma e a SSPX, assunto de interesse máximo para quem se preocupa com a vida da Igreja.

Trata-se artigo bastante longo, publicado no número de setembro da revista Culture Wars, de que o Dr. Jones é o editor. Nele são tratados com o talento e a lucidez de sempre vários assuntos de primeira importância na vida eclesial de hoje, dentre os quais o problema dos abusos sexuais por parte de padres irlandeses.

Como aperitivo até que fique pronto o texto português, aqui vai em avant-première um pequeno trecho do artigo, que trata justamente do problema dos escândalos de pedofilia em sua relação com a Revolução Sexual da década de 60 e a implementação do Concílio Vaticano II.

Enjoy!



A crise sacerdotal na Irlanda

Em carta pastoral à Igreja da Irlanda datada de 19 de março de 2010, afirmou o Papa Bento XVI que, para recuperar-se do ferimento provocado por grande número de abusos da parte de padres irlandeses a jovens entregues aos seus cuidados, a Igreja da Irlanda devia primeiro reconhecer perante Deus e perante os homens os graves pecados cometidos contra crianças indefesas. Tal reconhecimento, acompanhado de sincero pesar pelo dano causado a tais vítimas e suas famílias, devia levar a um sério empenho na proteção das crianças contra crimes semelhantes no futuro.


O papa fundamentou a carta em boa medida nas descobertas do relatório Murphy, publicado em 26 de novembro de 2009, que revelou que “o abuso de crianças por parte de eclesiásticos estava bastante disseminado durante todo o período em questão.”

Mais crucial para a correta compreensão da crise dos abusos sexuais na Irlanda é a compreensão do “período em questão.” A maioria dos casos de abuso que a Igreja vem hoje enfrentando ocorreram num período cujo epicentro aconteceu aproximadamente de 30 a 40 anos atrás. Para entender a crise naquela época, precisamos entender o que os alemães chamam de Zeitgeist, ou o espírito dos tempos, sendo esses tempos sobretudo a década de 70, quando, cerca de dez anos após o encerramento do Concílio Vaticano II, a Igreja vivia a agonia de sua implementação.

O papa chama a atenção para tal período em sua carta:

Também significativa durante esse período era a tendência, igualmente da parte de padres e religiosos, de adotarem maneiras de pensar e de avaliar as realidades seculares sem uma referência suficiente ao Evangelho. O programa de renovação proposto pelo Concílio Vaticano II era por vezes mal interpretado e, de fato, à luz das profundas mudanças sociais então em andamento, era muito difícil saber qual a melhor maneira de implementá-lo.

Uma das principais características da época, segundo o papa, era

uma bem intencionada mas equivocada tendência de evitar abordagens penais de situações canonicamente irregulares. É neste contexto geral que devemos tentar compreender o angustiante problema do abuso sexual de crianças, que contribuiu em não pequena medida para o enfraquecimento da fé e da perda de respeito pela Igreja e pelos seus ensinamentos.

O Relatório Murphy ressalta que a Igreja não aplicou os remédios que o Direito Canônico indica em casos de abuso sexual. Pelo contrário, a diocese de Dublin deixou de lado o processo penal do direito canônico em favor de uma abordagem puramente “pastoral”, que foi, segundo a Comissão, completamente inefetiva como meio de controlar os abusos sexuais da parte do clero.” Durante as investigações, a Comissão veio a saber que “Em meados da década de 1970 não havia a percepção pública, profissional ou governamental, quer na Irlanda, quer internacionalmente, de que o abuso sexual de crianças constituísse um problema social ou um grande risco para as crianças.”

Nas palavras de um comentador:

As páginas do Relatório Murphy estão repletas de exemplos de incúria, incompetência e covardia moral. Nos útimos quinze a vinte anos, eles têm se descabelado, tentando achar uma solução para um problema aparentemente fora de controle. Muitíssimas vezes, tal resposta foi, na melhor das hipóteses, inadequada. Uma linha do Relatório que soa especialmente verdadeira refere-se a um padre que tinha sobre o Arcebispo Connell a impressão de “estar diante de alguém que realmente se preocupava com a vítima, mas não tinha 'a mínima ideia' sobre como lidar com a realidade do problema.” Muitos dos outros bispos davam a mesma impressão.

O Papa Bento foi duro na sua crítica a os padres que traíram a confiança daqueles a quem deviam servir e dos bispos que foram negligentes no exercício da vigilância necessária, mas o Parágrafo 4 de sua carta pastoral indica que outras forças também estavam em ação.

Nas últimas décadas, a Igreja de nosso país teve de enfrentar novos e sérios desafios à fé, provocados pela rápida transformação e secularização da sociedade irlandesa. Ocorreu uma mudança social acelerada, que não raro afetou negativamente a tradicional adesão do povo ao ensinamento e aos valores católicos. Com demasiada frequência, foram negligenciadas as práticas sacramentais e devocionais que sustentam a fé e permitem que ela cresça, como a confissão frequente, a oração diária e os retiros anuais. Só examinando com cuidado os muitos elementos que deram origem à crise atual pode-se fazer um diagnóstico claro de suas causas e encontrar remédios eficientes.

Ao comentar a carta do papa num simpósio em Chiesa.com,(Chiesa.espresso.repubblica.it/articolo/1342641>eng=y), Sandro Magistro afirmou que “Bento XVI deu aos católicos da Irlanda uma order nunca antes dada por um papa da era moderna a toda uma Igreja nacional . . . Disse-lhes não só que levassem os culpados aos tribunais canônicos e civis, mas que ela mesma se colocasse coletivamente em estado de penitência e purificação. . . . de forma pública, ante os olhos de todos, mesmo dos mais implacáveis e sarcásticos de seus adversários,” mas o tema central do assunto era, mais uma vez, o Zeitgeist. Como indicava o título do artigo de Magister no La Repubblica, “Gênese do Crime: a Revolução dos anos 1960,” a causa do crime foi a revolução sexual da década de 60, acontecimento que foi uma verdadeira revolução e provocou a sexualização de culturas católicas tradicionais, o que trouxe consigo a sexualização do clero também.

Participando do mesmo simpósio, o Cardeal Angelo Bagnasco via “estratégias de descrédito generalizados” por trás dos noticiários, bem como uma dose não pequena de hipocrisia. Os meios de comunicação de massa que pediam a renúncia do papa eram os mesmos que haviam passado décadas solapando a moralidade sexual:

Na realidade, todos nós devemos questionar-nos, sem mais álibis, acerca da cultura que em nosso tempo reina, paparicada e inconteste, e tende progressivamente a rasgar o tecido conectivo da sociedade como um todo, talvez até ridicularizando aqueles que tentam resistir e opor-se a ela: ou seja, a atitude daqueles que cultivam a absoluta autonomia em relação aos critérios de julgamento moral e apresentam como bons e atraentes comportamentos calcados em desejos individuais e até em instintos desenfreados. Mas o exagero de sexualidada separado de sua significação antropológica, o hedonismo onipresente e um relativismo que não admite limites ou exceções são muito nocivos, porque capciosos e por vezes tão pervasivos que escapam à percepção.

O Cardeal Ruini chamou a crise irlandesa “parte de uma estratégia já em andamento há séculos” e prosseguiu dizendo que o filósofo alemão Friedrich Nietzsche “elaborara” tal estratégia “com seu faro pelo detalhe.”

De acordo com Nietzsche, o ataque decisivo ao cristianismo não pode ser desfechado no nível da verdade, mas no da ética cristã, que ele via como a inimiga da alegria de viver. E assim eu gostaria de perguntar a esses que condenam publicamente os escândalos de pedofilia, principalmente quando envolvem a Igreja católica, por vezes pondo em questão o celibato sacerdotal: não seria mais honesto e realista reconhecer que certamente estes e outros desvios relacionados com a sexualidade acompanham toda a história da raça humana, mas também que em nossa época tais desvios são também estimulados pela tão paparicada ‘liberação sexual'?

Quando a exaltação da sexualidade pervade todas as partes da vida e quando a autonomia em relação a qualquer critério moral é reivindicada para o instinto sexual, torna-se difícil explicar que certos abusos devam ser absolutamente condenados. Na realidade, a sexualidade humana desde o princípio não é simplesmente instintiva, não é a mesma que a de outros animais. É, como todo o homem, uma sexualidade ‘misturada’ com a razão e a moralidade, que só pode ser vivida humanamente, e trazer verdadeiramente a felicidade se vivida desta maneira.”

Mais uma vez, a chave para se entender a crise irlandesa de abusos é entender “o período em questão,” ou seja, o período que se seguiu à revolução sexual da década de 60.

O professor de sociologia Massimo Introvigne, presidente do CESNUR, o Centro para os Estudos sobre Novas Religiões, afirmou que o ataque à Igreja começou para valer durante “o que os ingleses e os americanos chamam de ‘the ‘60s,’ e os italianos, concentrando-se no emblemático ano de 1968 [chamam] ‘il Sessantotto.’” Esta época, segundo o professor Introvigne, “cada vez mais se revela como um tempo de profunda perturbação dos costumes, com efeitos cruciais e persistentes sobre a religião.”

Em sua carta, Bento XVI mostra que tem consciência do fato de que houve nos anos 1960 uma autêntica revolução — não menos importante que a Reforma Protestante ou a Revolução Francesa — de ritmo “acelerado”, que desferiu um tremendo golpe na “adesão tradicional ao ensinamento e aos valores católicos.”

Na Igreja Católica, não houve de imediato uma consciência suficiente da magnitude dessa revolução. Neste clima, certamente nem todos os padres que eram insuficientemente formados ou infectados pelo clima que se seguiu à década de 60 - e nem mesmo uma parte significativa deles - se tornaram pedófilos. Mas o estudo da revolução da década de 1960 e do ano de 1968 é crucial para se entender o que aconteceu em seguida, inclusive a pedofilia. E para se encontrarem remédios reais. Se essa revolução, ao contrário das outras anteriores, é moral e espiritual e atinge a interioridade do homem, os remédios só podem vir, em última análise, da restauração da moralidade da vida espiritual e da verdade abrangente acerca da pessoa humana.

O que este comentário e outros semelhantes tornam claro é que falar acerca da década de 60 ecompreender a década de 60 são duas coisas diferentes. O que todas as críticas têm em comum é uma compreensão inadequada do que aconteceu naquela década e, o que é mais importante, do que aconteceu em seguida à revolução sexual, um período que coincidiu no tempo com a implementação do Concílio Vaticano Segundo.

O Cardeal Ruini menciona Nietzsche, que por certo tem culpa no cartório, mas se Sua Eminência estava interessada em falar de uma campanha revolucionária, de “uma estratégia já em andamento há séculos,” e da sexualização da cultura com propósitos políticos, teria sido melhor ter começado com o Marquês de Sade.

(continua)

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