Pesquisar este blog

domingo, 31 de outubro de 2010

As duas missões do Espírito Santo


Ninguém mais misterioso do que o Espírito Santo, Deus Omnipotente e terceira pessoa da Santíssima Trindade. É o Espírito septiforme. O pecado contra Ele não será perdoado.

As marcas sensíveis dessa implacabilidade vemo-las inscritas com letras de fogo na história da Igreja, desde a heresia dos espirituais, passando pelos luteranos, os anabatistas, para desembocar no século XX no festival dos neopentecostais, carismáticos e modernosos do "espírito do concílio", cujos frutos vemos nos noticiários policiais.

Pois o verdadeiro Espírito é um espírito de modéstia, que age no fundo os corações, e não diante das câmaras em ridículos e ocos blablablás dos que ousam comparar-se aos apóstolos ou em mirabolantes heresias que pretendem apagar o que séculos de oração e de sangue dos santos construíram na Igreja, iluminada, esta sim, pelo Espírito vivificante.

Vale a pena ler o que dizia 300 anos atrás sobre a dupla missão do Espírito Santo o sábio padre Avrillon, mínimo, em sua Conduta para para passar santamente as festas e as oitavas de Pentecostes, do Santíssimo Sacramento e da Assunção. Ah, se ele fosse ouvido, quanto mal teria sido evitado na Igreja!

Atentemos primeiro para o fato de que vamos celebrar uma missão visível e uma missão invisível deste adorável Espírito. A primeira ocorreu só uma vez na cidade de Jerusalém, um grande rumor, com muito esplendor, brilho e pompa. A segunda pode reiterar-se todos os dias e em todos os lugares, e se passa no segredo dos nossos corações, com muita calma e silêncio. A primeira fez pregadores, doutores,mestres do mundo e heróis do Evangelho, para estabelecer em toda a terra a religião de Jesus Cristo, para enfrentar os tiranos e os imperadores pagãos, para exterminar a idolatria, para regar com seu sangue o berço do Cristianismo e para estabelecê-lo solidamente, sobre as ruínas do paganismo e da idolatria, em todos os reinos da terra.

Precisava, com efeito, a Igreja nascente de um Espírito de luz, para dissipar as trevas, para iluminá-la e instruí-la; precisava de um coração para animá-la e para levá-la a só amar o que devia amar; precisava de uma cabeça para se guiar com sabedoria em meio a tantos precipícios de que estava rodeada; precisava de olhos para fazê-la palmilhar os caminhos da justiça, da verdade e da inocência; precisava de mão todo-poderosa para ampará-la, porque era fraca e acabava de nascer na cruz de Jesus Cristo expirante; precisava de voz para encorajá-la, de alma para vivificá-la e de chefe infalível para presidir as suas decisões. E o Espírito Santo, em sua descida visível sobre os apóstolos, vai começar a lhe prestar todos estes bons ofícios, e lhos prestará até a consumação dos séculos.

Mas a missão e a descida invisível deste Espírito adorável, à qual vamos prepararmo-nos, e pela qual devemos incessantemente suspirar, faz penitentes e justos, para formar  e edificar a Igreja, e forma santos, para preencher um dia no céu os lugares de que os anjos rebeldes foram expulsos.

(R.P. Jean-Baptiste-Élie Avrillon, Conduite pour Passer Saintemente les Fêtes et Octaves de la Pentecôte, du Saint-Sacrement et de l'Assomption, pp. 3-4)

Atualidade da encíclica Humanae Vitae


Estive relendo a encíclica Humanae Vitae do papa Paulo VI. Talvez nenhum documento papal em toda o curso da história tenha provocado tanta oposição dentro mesmo da Igreja. Considerando-se a data em que foi publicada, o fatídico ano de 1968, no não menos fatídico período pós-Vaticano II, não resta dúvida de que com a encíclica o papa atingiu um nervo. Não é de espantar que os setores ditos "progressistas" da Igreja tenham gritado e esperneado tanto. Hoje, com a revelação dos escândalos sexuais do clero que tiveram seu ponto culminante justamente nessa época do pós-Concílio, sabemos o que andava acontecendo em certos ambientes eclesiais. Mexer com a sexualidade era visto então como o pecado contra o Espírito Santo.

Trata-se de texto de coragem e beleza ímpar, que previu com clarividência os riscos que um afrouxamento da moral conjugal poderiam causar à dignidade e à espiritualidade do homem. O que acabou acontecendo além dos mais sombrios prognósticos, não sem a contribuição velada ou aberta de certos setores ditos católicos.

Que estranho homem foi Paulo VI! O mesmo papa que permitiu e até incentivou espantosos desmandos pós-conciliares foi capaz de redigir páginas tão firmes e tão belas, santas o bastante para levar os mais sérios sedevacantistas a refletir sobre suas posições.

Por ocasião do quadragésimo aniversário da encíclica, Bento VI pronunciou um discurso, que terminou com estas palavras:

O ensinamento expresso na Encíclica Humanae Vitae não é fácil. Contudo, ele está em conformidade com a estrutura fundamental mediante a qual a vida sempre foi transmitida desde a criação do mundo, no respeito da natureza e em conformidade com as suas exigências. A consideração pela vida humana e a salvaguarda da dignidade da pessoa impõem-nos que tentemos tudo para que a todos possa ser comunicada a verdade genuína do amor conjugal responsável na plena adesão à lei no coração de cada pessoa.

Kyrie eleison, Christe eleison, Kyrie eleison.

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Safados abortistas fazem ameaças a bispo que ousou dizer a verdade

Dom Luiz Gonzaga Bergonzini

(Da Agência Fides)


AMÉRICA/BRASIL - Diante das ameaças de morte recebidas por alguns Bispos, a Conferência Episcopal reitera que a Igreja defende sempre a vida, “em todas as suas fases e em suas várias dimensões”


Brasília (Agência Fides) – O Presidente da Conferência dos Bispos católicos do Brasil (CNBB), Dom Geraldo Lyrio Rocha, expressou solidariedade ao Bispo de Guarulhos, Dom Luiz Gonzaga Bergonzini, que recebeu ameaças de morte anônimas por defender o direito à vida e denunciar a posição favorável ao aborto do Partido dos Trabalhadores (PT) durante a campanha eleitoral. O PT é o partido do presidente Lula da Silva e da candidata à presidência Dilma Rousseff. Acompanhado pelo Secretário-geral da Conferência, Dom Dimas Lara Barbosa, Dom Lyrio Rocha recordou em coletiva à imprensa que “o estado é leigo mas a sociedade brasileira é profundamente religiosa: católica, evangélica, adepta de cultos africanos e indígenas. Esta é a razão pela qual todas as religiões podem e devem expressar sua opinião sobre um determinado tema”. O Presidente da CNBB destacou que todavia, “Dom Bergonzini, come Bispo diocesano de Guarulhos, falou em relação a seu território de competência, porque não se dirigiu à nação brasileira. Este procedimento é totalmente regular no âmbito do modo de agir da Igreja”.
Dom Lyrio Rocha reafirmou também que a Igreja católica defende sempre a vida, “em todas as suas fases e em suas várias dimensões: quando é ameaçada, quando se trata dos índios ou dos anciãos. Sobre tal tema não há desacordo no Episcopado. Unanimemente, os Bispos defendem a posição de defesa e respeito pela vida”, especialmente no que se refere ao aborto. O Presidente da Conferência Episcopal negou que haja opiniões contrastantes entre os Bispos do Brasil sobre este argumento. Uma nota enviada pela CNBB à Fides informa que outros dois Bispos, Dom Benedito Beni Dos Santos, Bispo de Lorena, e Dom Nelson Westrupp, Bispo de Santo André e presidente dem favor da vida.
(CE) (Agência Fides, 23/10/2010)
*** **** ***
Comentário: É fácil entender. Como Jesus é a Verdade, aqueles que odeiam a Cristo odeiam a verdade, e procuram eliminá-la como tentaram fazer no Calvário: assassinando. É um disco que já tocou muitas vezes, com Lutero, os anabatistas, os calvinistas, os puritanos, a revolução francesa, os bolcheviques, o neopentecostalismo, etc. até chegar ao fundo do poço na sodomia generalizada do século XXI.
Santo Inácio de Loyola costumava rezar para que seus discípulos fossem muito perseguidos, compartilhando assim da Cruz de Cristo. Que esta nova perseguição possa servir para purificar a Igreja e trazer de volta a Cristo muitos dos seus membros.
Kyrie eleison, Christe eleison, Kyrie eleison.

O Concílio e o tempo




Ler de modo dogmático e atemporal o Concílio Vaticano II como concílio dogmático é contradizer sua própria letra. A um concílio histórico cabe leitura histórica. E quem pode em sã consciência dizer que as condições históricas da década de 1960 são as mesmas de hoje? 

Ou seja, é duplo erro querer aplicar hoje o Vaticano II tal qual foi.

Tal é o ônus do que do tempo se volta para o tempo: ser sempre temporário.

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

São Jerônimo e a abertura para o mundo

San Girolamo, de Caravaggio


Erras, frater, erras, si putas unquam Christianum persecutionem non pati: et tunc maxime oppugnaris, si te oppugnari nescis.
(São Jerônimo)


Afirmaram os padres conciliares em Gaudium et Spes, que a Igreja nada tinha que temer da modernidade. Se tivessem lido o seu São Jerônimo, talvez as coisas hoje estivessem bem diferentes.

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Grandes best-sellers 3: Da comunhão indigna

Retrato de freira, início do século XIX

Acatando mais uma vez o clamor popular, aqui vai um trecho de mais um grande best-seller do momento: o Memorial das Virgens Cristãs, de Claude Arvisenet.

Da indigna comunhão


1. Vem a mim, minha filha, e eu te cumularei de bens e de consolos; mas ao vir, prepara a tua alma e prova-te a ti mesma. Sou Deus grande, santo e terrível; tenho horror ao ímpio e à sua impiedade. Julgo e condeno quem indigno se aproxime de minha Mesa, e sobre ele gravo, pela mesma carne e pelo mesmo sangue que ele profana, a maldição da minha omnipotente cólera. Prova-te, pois, antes de comer deste pão, para que não comas do teu julgamento e da tua condenação. Prova-te com cuidado, interroga o teu coração, examina os teus caminhos, e se descobrires em ti vestígio de iniquidade, evita, por impura, ultrapassar as barreira do meu santuário: mas te entregues sob os meus olhos a todos os sentimentos da indignidade mais  confusa; e, por mais dolorosa que te sintas, não te aproximes da minha Mesa sem  antes te lavares no banho da penitência.

2. Sou o teu Rei cheio de doçura, minha filha, e eu te cumulei de tantos favores, e tu ousarias dar-me o beijo da perfídia! Sou teu Deus, minha filha, e me entregarias a Satã, que possui o teu coração! Sou o teu Salvador, e tu de novo me crucificarias! Sou o Santo dos Santos, e tu não te envergonharias de me colocar na tumba infecta de uma consciência criminosa! Ah, minha amiga, minha bem-amada! Para que virias a mim! Não seria melhor não teres nascido?

3. Longe de mim, Senhor, tão monstruoso atentado! Ah! Pregue-se a minha língua ao palato, seque-se a minha mão direita e caia em esquecimento, morra eu mil vezes, mas não me torne culpada de tão grande crime! Mais vale mil vezes que uma criatura tão vil como eu pereça e seja aniquilada, do que calcar eu com desprezo sob os meus pés o meu Criador e o meu Deus! Ó Deus, que sois a bondade mesma, supremo dominador do Céu e da terra, quem seria capaz de tão indignamente vos trair ?

Quem, minha filha? Ah, se fosse um só ou só poucos! Mas, ai de mim, quantos há que assim me traem e me crucificam, não uma vez, mas todos os dias! Todos os dias vejo à minha mesa almas inimigas da minha Cruz, todas repletas de orgulho, de amor-próprio e de vaidade; almas entregues à preguiça, aos prazeres e manchadas de mil outros crimes. Toda essa gente, minha filha, ao me receber sobre uma língua impura e num coração maculado, me calca sob os pés e profana o sangue da minha aliança. Eu poderia, na verdade, livrar-me de suas mãos; poderia lançar meus raios sobre suas cabeças culpadas e aniquilá-los; mas eles pereceriam, e não quero a morte do ímpio. Ah, se se convertessem a mim, fizessem penitência e vivessem santamente!... Geração perversa! Até quando estarei junto a vós? Até quando vossos duros corações serão o joguete do erro e da mentira? Até quando agravareis ainda mais as minhas humilhações e os meus sofrimentos? O que fazeis, fazei-o depressa; mas eu vos declaro que a minha misericórdia será julgamento contra vós; eu jurei em minha cólera: não entrareis no lugar do meu repouso!

(Claude Arvisenet, Mémorial des Vierges Chrétiennes, Lyon, 1836, p. 120-123).

sábado, 23 de outubro de 2010

Wilhelm Reich, Maio de 68 e a pedofilia

Wilhelm Reich

Dando sequência à publicação do texto capital do Dr. E. Michael Jones sobre diversos problemas da Igreja no mundo de hoje, aqui vai a continuação do texto publicado por este blog alguns dias atrás , onde é analisado o problema dos abusos sexuais cometidos por padres e religiosos.

No texto de hoje,  o Dr. Jones analisa o horripilante legado de Wilhelm Reich, promotor da liberação da prática sexual de adultos com crianças, e a trágica adoção de tais práticas em institutos de educação infantil por grupos de extrema esquerda na década de 60. Dentre os que admitiram ter efetuado tal prática, Daniel Cohn-Bendit, um dos líderes da revolta estudantil de maio de 68 e hoje deputado no Parlamento Europeu. 

Com isso, na esteira do papa Bento XVI, E. Michael Jones procura situar historicamente o problema dos abusos sexuais, relacionando-o com o momento atravessado pela Igreja após o Concílio Vaticano II e com as tendências com que ela se deparou ao tentar se abrir para o mundo moderno.

Aqui vai o texto:

Analogamente, afirma o professor Introvigne

que um único fator não pode explicar uma revolução desta magnitude. O boom econômico e o feminismo desempenham seu papel, mas também aspectos mais estritamente culturais, tanto for a das igrejas e das comunidades cristãs (o encontro entre a psicoanálise e o marxismo) como dentro delas (as ‘novas teologias’).

Mas não menciona Wilhelm Reich, o homem que criou o termo Revolução Sexual e também combinou psicanálise e marxismo para criar uma arma especialmente apontada para a Igreja Católica, e ainda mais especificamente e que promoveu a corrupção sexual do clero como a melhor maneira de reduzir o poder político da Igreja.

Reich era um judeu da Galícia, a mais oriental das províncias do império Austro-Húngaro, que era ao mesmo tempo freudiano e marxista. Nove anos depois de morrer, tornou-se o herói da revolução de 68 em Paris. Dois anos depois ele apareceu na capa da revista do New York Times Magazine.

Quando Reich foi redescoberto pela Nova Esquerda em 1969, já havia morrido havia dez anos, mas este fato era irrelevante, pois, de qualquer forma, o Reich que a os revolucionários culturais estavam interessados em promover havia parado de escrever em 1933. No dia 4 de janeiro de 1971, Christopher Lehmann-Haupt escreveu uma resenha da nova edição da Psicologia de Massa do Fascismo da Farrar Straus, que anunciava, com efeito, que o retorno de Reich revival começara para valer. “Wilhelm Reich,” proclamou Lehmann-Haupt, “o sexólogo austríaco e inventor do chamado acumulador de energia de orgônio, está de volta.” Reich, segundo a resenha, era o pai da cultura jovem, da revolução sexual e do movimento feminista. O livro de Kate Millett, Sexual Politics, foi escrito sob a influência dele. Além disso, Reich reconciliava melhor Freud com Marx do que Marcuse, especialmente ao expor seu “credo de que o homem sexual é um homem liberado da necessidade de autoridade, religião e casamento.” Ou seja, Reich “faz muito sentido,” pelo menos para alguém simpático ao objetivo da liberação sexual. Lehmann-Haupt estava, na realidade, tão apaixonado pela visão reichiana da liberação sexual que estava até disposto a reexaminar a sua teoria da energia do orgônio. “Talvez tenha chegado a hora de reexaminar todo Wilhelm Reich,” concluía.

Quatro meses depois, no dia 18 de abril de 1971, o New York Times voltou a tratar de Reich, desta vez dedicando ao seu pensamneto um longo artigo de destaque no revista de domingo. Em “Wilhelm Reich: O Psiquiatra como Revolucionário,” David Elkind descreve como os estudantes communards de Berlim atacaram a polícia com exemplares de capa mole de A Psicologia de Massa do Fascismo. (Terá sido por compaixão ou por frugalidade que evitaram usar exemplares de capa dura?) Reich “esta sendo ressuscitado em toda a Europa como um herói/santo por estudantes que exigiam reformas sociais,” e agora “muitos jovens americanos” estavam “descobrindo que Reich é bem o seu tipo de revolucionário também.” Isto porque a sua mensagem era mais atraente para a Esquerda Americana, que percebia que podia derrubar o estado pela licança sexual sem a sublimação exigida por Freud ou a revolução política exigida por Marx.

Reich é relevante para a nossa discussão por ser um proponente tanto da sexualidade infantil quanto da subversão sexual do clero. Em A Psicologia de Massa do Fascismo, Reich afirmava ser irrelevante debater a existência de Deus com um seminarista. Se, porém, o seminarista puder ser induzido a se entregar à atividade sexual, a ideia de Deus “evapora-se” de sua mente. Em A Psicologia de Massa do Fascismo, Reich elogiava “o sociólogo legítimo que considerar a compreensão psicanalítica da sexualidade infantil como um ato revolucionário altamente significativo” (p. 28). Prossegue dizendo que a Igreja Católica é o principal inimigo da libertação revolucionária:

Com a restrição e a supressão da sexualidade, muda a natureza do sentimento humano; nasce uma religião que nega o sexo e gradualmente desenvolve sua própria organização de política sexual, a igreja com todos os seus predecessores,cujo objetivo não é senão a erradicação dos desejos sexuais do homem e, portanto, do pouco de felicidade que há na terra.

De acordo com Reich: “A inibição sexual impede o adolescente médio de pensar e sentir de maneira racional.” A religião, segundo Reich, nada mais é do que sexualidade inibida:

A experiência clínica demonstra incontestavelmente que os sentimentos religiosos decorrem da sexualidade inibida, que a fonte da excitação mística deve ser procurada na excitação sexual inibida. A inevitável conclusão de tudo isso é que uma consciência sexual clara e uma regulação natural da vida sexual devem condenar ao fracasso toda forma de misticismo; ou seja, que a sexualidade natural é o arquiinimigo da religião mística. Ao travar um combate anti-sexual sempre que pode, ao fazer disto o núcleo dos seus dogmas e colocá-lo na linha de frente de sua propaganda de massa, a igreja apenas demonstra a correção desta interpretação.i

Em outro ponto afirma Reich claims que: “Se alguém conseguir livrar-se do medo infantil da masturbação e com isso a genitalidade exigir gratificação, prevalecerão o discernimento intelectual e a gratificação sexual.”ii

O primeiro passo para a revolução é a promoção da sexualidade infantil, pois “não podem coexistir a consciência sexual e os sentimentos místicos.” Qualquer revolucionário que considerar a sexualidade como um “problema particular” comete um “grave erro”, pois

a reação política . . . sempre segue duas trilhas ao mesmo tempo: nas políticas econômicas e na “renovação moral.” Até agora, o movimento da liberdade seguia só uma trilha. O que é preciso, portanto, é dominar a questão sexual em escala social, para transformar o lado obscuro da vida pessoal em higiene mental social, para transformar a questão sexual numa parte da campanha total, em vez de nos limitarmos à questão da política populacional.iii

A revolução sexual é, para usar as palavras de Reich, “dinamite social,” mas não pode efetivar seu poder destrutivo se os revolucionários temerem envolver-se em sexualidade infantil, ou como diz Reich: “se este trabalho tiver de ser executado por revolucionários que compartilham com a igreja da afirmação e da defesa do misticismo moralista, que consideram que a resposta à questão sexual esteja aquém da ‘dignidade da ideologia revolucionária,’ que recusa a masturbação infantil como uma ‘invenção burguesa,’” as coisas não dão certo.

Ou seja, o autêntico revolucionário deve estar disposto a promover a sexualização das crianças. O revolucionário, segundo Reich, deve “despertar. . . um desejo na juventude moderna, um desejo de uma nova filosofia e de conhecimento científico acerca da luta pela saúde sexual, pela consciência e liberdade sexuais . . . O que importa é a juventude! E ela— isto é certo — não é mais acessível a uma ideologia que nega o sexo em escala maciça. Este é o nosso ponto forte.”iv

A ênfase de Reich na promoção da atividade sexual é é difusa demais para ser ignorada:

O trabalho revolucionário com as crianças só pode ser, essencialmente, um trabalho de economia sexual. Deixem o espanto de lado e escutem com paciência. Por que é que as crianças em fase pré-púbere podem ser orientadas pela educação sexual da maneira melhor e mais fácil?v

Esta poderosa arma nunca foi usada na Alemanha. E os encarregados pelas organizações infantis é que resistiam mais fortemente à proposta de transformar o tratamento individual da educação sexual em educação em escala de massa.vi

Se conseguíssemos despertar os interesses sexuais das crianças e adolescentes em escala de massa, a cojntaminação reacionário teria de enfrentar uma formidável contra-força— e a reação política não poderia fazer nada.vii

. . . o mecanismo que torna as massas incapazes de liberdade é a supressão social da sexualidade genital nas criancinhas, adolescentes e adultos.viii

Para deflagrar a revolução, o autêntico revolucionário, segundo Reich, deve promover o sexo com crianças. Deve também promover a sexualização do clero católico, pois a Igreja Católica é o principal obstáculo para a conquista revolucionária da sociedade austríaca:

O caso dos eclesiáticos é especialmente difícil, pois se tornou impossível a convincente continuação de sua profissão, cujas consequências físicas sentiram no próprio corpo. A única opção aberta a muitos deles é trocar o sacerdócio pela pesquisa ou docência religiosas.

Reunidas, a promoção por parte de Reich da sexualidade infantil e da sexualização do clero católico tornou-se o esquema para a subversão da Igreja Católica. A campanha começou logo em seguida ao Concílio Vaticano Segundo, mas chegou ao auge na crise do abuso sexual por parte do clero na primeira década do século XXI. As teorias de Reich foram postas na prática durante a revolução sexual da década de 60, mas levariam décadas até que o seu pleno efeito ficasse evidente.

A esquerda pôs as teorias de Reich na prática durante a década de 60. Num artigo publicado na revista austríaca Die Aula em fevereiro de 2001, de que reproduzimos uma tradução inglesa em Culture Wars de maio deste ano,ix Hans Fingeller explicava como os revolucionários sexuais “usaram crianças como ratos de laboratório na delicada área do desenvolvimento sexual”:

Wilhelm Reich, um esquisito seguidor de Sigmund Freud, propôs certas teses sobre como “liberar” a sexualidade das crianças, que os revolucionários da “Spontis” e aa APO [Ausserparliamentarische Opposition] usaram como desculpa para executare certas experiências com crianças. . . . . Como resultado da absorção das teorias de Reich, a geração de 68 começou a fazer experiências com seus próprios filhos, que agora não eram mais criados em escolas públicas ou religiosas, mas em “centros alternativos de cuidados [day care centers]” em que zelosos camaradas tentavam criar com esse ‘material humano” o “Novo Homem”, não por algum processo biológico, mas pela aplicação deliberada da ideologia marxista na sala de aula.

Em seu livro Linke Lebensluegen: eine Ueberfaellige Rechnung [Mentiras esquerdistas acerca da vida: uma conta vencida há tempos] Klaus Rainer Roehl, que era na época marido da terrorista Ulrike Meinhof, da RAF, dá alguns detalhes sobre as práticas de educação infantil na Kommune 2, especializada na educação de crianças segundo o evangelho de Wilhelm Reich.

O primeiro objetivo dessa “educação” era substituir o apego dos filhos aos pais por um relacionamento com uma “pessoa de relação” e com isso inibir a formação da “fixação familiar autoritária.” Tais atividades incluíam contato pedofílico entre adultos e meninas de cinco anos de idade, cujos pormenores pouparei ao leitor. Pode-se ler a explicação completa no número de Maio de 2001 de Culture Wars.

Daniel Cohn-Bendit é hoje membro do Parlamento Europeu e chefe do Partido Verde na França, mas na década de 60 foi professor hum desses centros educativos. Depois que seu companheiro de armas Joschka Fischer foi nomeado ministro das relações exteriores da Alemanha, Cohn-Bendit concedeu uma entrevista a ZDF, o segundo canal de TV da Alemanha, em que lhe perguntaram se ele trabalhara em algum dos centros educativos vermelhos.

Sim, é claro, é claro,” respondeu ele.

O repórter da ZDF então lhe perguntou se publicou o seguinte texto acerca de suas experiências lá: “sempre me acontecia de as crianças abrirem a minha braguilha para me acariciarem.”

Nesse momento, o eloquente parlamentar europeu pareceu um veadopelas luzes de um carro que se aproximava.

Depois de muito pigarrear e gaguejar, Cohn-Bendit disse que hoje não recomendaria o que recomendava na época, pois “sabemos muito mais sobre abuso de crianças.”

Em seguida, contradizendo o que escrevera, Cohn-Bendit jurou: “Nunca tive nada que ver com crianças.”

O repórter da ZDF não pareceu convencido: “Tudo soava tão autobiográfico. As descrições são tão pessoais, como se tivesse feito sexo com crianças.”

Cohn-Bendit replicou: “É, mas isso não é verdade. Isso não é verdade. O mesmo também quanto aos pais. . . Não me zango se as pessoas me acusarem disso porque não era segredo. Estava só pensando que você devia olhar para aquilo no contexto daquele tempo e daquela época. Estamos falando de 68. Foi naquela época. . . .

Ao contrário da Igreja católica, que pediu desculpas pelos padres que praticaram atividades sexuais com crianças, a Esquerda em geral e o Partido Verde, seu atual herdeiro, nunca “buscou maneiras de reparar os danos que fizeram às crianças daquela geração, que foram tratados como ratos de laboratório sujeitos às ideias abstrusas do maluco Wilhelm Reich.”

Escreve Klaus Rainer Poehl: “É nesta área específica [a sexualização de crianças] que o seu movimento tem mais coisas pelas quais deve responder. Essas práticas más ou estúpidas criaram as maiores sequelas. Foi aqui que ele causou mais estragos.”

Escrevendo mais ou menos na mesma época que Hans Fingeller, Herbert Rauter afirma que as experiências de Cohn-Bendit não foram “Incidentes Isolados.” Na verdade, em 1985 o Partido Verde, o lar político tanto de Cohn-Bendit quanto de Joschka Fischer, defendiam a eliminação das leis que criminalizavam as relações sexuais com crianças, afirmando que elas “impedem o livre desenvolvimento da personalidade.”

No começo de 1985, os verdes propuseram uma legislação que decriminalizaria a sedução de meninas de menos de 16 anos, bem como o contato homossexual com crianças e adolescentes. A razão? “A ameaça de punição inibe as crianças de descobrir sua verdadeira orientação sexual.”

Na convenção estadual reunida em Luedenscheid em março de 1985, os verdes de Nordrhein-Westfalen reivindicaram que a “atividade sexual não-violenta” entre crianças e adultos nunca fosse considerada razão para perseguição criminal. Esta espécie de atividade, ao contrário, “deve ser liberada de todas as restrições que a nossa sociedade impôs a ela.” O fato de que esta resolução tenha sido aprovada pela maioria dos presentes demonstra o fato de que eles consideravam as relações sexuais entre crianças e adultos uma forma de “opressão social, que coloca aqueles que estão interessados em praticar sexo não-violento com crianças em perigo de ter sua vida inteira destruída de um dia para o outro se ficarem sabendo que tiveram relações que todos nós consideramos agradáveis, produtivas, estimuladoras do crescimento, em suma, positivas para ambas as partes envolvidas. . . . Reivindicamos, portanto, que sejam removidas todas as sanções criminais contra tal atividade sexual.”

Em 1985, os verdes de Baden-Wuerttemberg . . . tentaram amenizar as sanções criminais contra esta forma de atividade sexual. O sexo consensual entre adultos e crianças não devia ser punido.

Também em 1985, em sua plataforma política (Auszuege aus dem Wahlprogram der Alternative Liste Berlin), os verdes reivindicavam que

É inumano aprovar a atividade sexual só para certa faixa etária e sob certas condições. Se os jovens exprimem o desejo de ter sexo com pessoas da mesma idade ou com gente mais velha de for a da família, ou porque sua homosexualidade não é aceita pelos pais ou porque têm tendências pedofílicas ou por qualquer outra razão, devem dispor da possibilidade de agir de acordo com tais desejos.”

Recapitulemos. Christopher Hitchens, que escreveu um livro em louvor às virtudes do ateísmo e outro que ataca Madre Teresa, tem planos para prender o papa quando ele chegar à Inglaterra em setembro, mas ninguém tem planos para prender Daniel Cohn-Bendit seja quando for. A Igreja jamais tolerou essa espécie de atividade de nenhum modo, maneira ou forma, muito menos da maneira como o Partido Verde o fez, mas ninguém está processando o Partido Verde pelo abuso sexual que ocorria nos centros educativos da década de 60.

Está claro que a Gaudium et Spes estava enganada ao afirmar que a Igreja nada tinha que temer do mundo moderno. A modernidade sempre foi inimiga da Igreja e tal permanece hoje em dia.
i Wilhelm Reich, The Mass Psychology of Fascism, p. 178.
ii Reich, p. 181.
iii Reich, p. 184.
iv Reich, p. 191.
v Reich, p. 195
vi Reich, p. 196
vii Reich, p. 197
viii Reich, p. 218
ix Hans Fingeller, “Green Pedophila: Danny and the Day-Care Center,” Culture Wars, May 2001, p. 34.

Eternidade, palavra terrível



Um dos conceitos fundamentais da fé católica, sem o qual toda a doutrina capenga e toda a vida de fé esmorece, é o de eternidade, a vida além do tempo. Palavra terrível, como canta Bach neste belíssimo coro, O Ewigkeit du Donnerwort. Infelizmente, não vem recebendo o destaque devido, nem na pregação, nem na teologia, nem na vida espiritual dos católicos.

Segue abaixo a tradução de um folheto francês do século XIX, que convida os fiéis à meditação sobre a Eternidade segundo a doutrina:



PENSA NISTO

Homem mortal, teu corpo logo se transformará em pó, mas tens uma alma imortal e nem pensas nisso!

Estuda, medita, aprofunda esta grande palavra:

Eternidade!

Ó homem, que dirás um dia? Que será para ti esta inevitável

Eternidade?

Ah! Como é longa! Como é profunda! Como é imensa e infinita em seus bens e seus males, esta rainha de todos os séculos, esta interminável e sempre viva

Eternidade!

Para o verdadeiro cristão, ela é infinita nos seus bens.
Para o pecador, é infinita nos seus males, essa interminável 

Eternidade!

Conta tantos milhões de anos quantos são
os grãos de areia nas praias,
as folhas das árvores nas florestas,
as folhas de relva nos prados,
as gotas d'água no oceano,
as estrelas no firmamento,
Continua contando - conta mais:
Teus números nada são quando comparados à incomensurável Eternidade!

Eternidade! Eternidade!

Um dia virá em que o sol se terá extinguido, o mundo terá sido consumido, a raça humana terá acabado, os vivos e os mortos terão sido julgados; os séculos e os séculos se terão amontoado, e depois terá havido abismos de tempo desde este dia da vida, que tão rápido passa; ela só aparecerá, então, numa imensa distância, como essas estrelas quase imperceptíveis que o olho só descobre depois de muito fixar-se, como um sonho que passou...E será ainda e será sempre 

a Eternidade por mais uma Eternidade!

Pois ela durará para sempre, não acabará NUNCA! Ó SEMPRE! Ó JAMAIS! Ó ETERNIDADE!

Se for para a ETERNIDADE nos Céus, incompreensível felicidade!

Sempre a verdade e a virtude, a vida e as delícias, os bem-aventurados e os anjos.

Sempre Deus

Para contemplar, para amar, para possuir, para abençoar, SEMPRE.

E NUNCA mais lágrimas, morte, luto, gritos nem dor! NUNCA! (Apocalipse, 24-4).

Mas se for para mim a ETERNIDADE nos infernos, pavorosa desgraça!

Sempre o remorso que me rói,
Sempre o fogo que me queima,
Sempre  as lágrimas que rolam,
Sempre os dentes que rangem,
Sempre os demônios que atormentam,
Sempre a maldição de Deus!

Um raio de luz que alegra, nunca!
Um momento de repouso, nunca!
Uma gota d'água que refresque, nunca!
Um lampejo de esperança, nunca! nunca! nunca!

Ó Sempre! Ó Jamais!
Ó Eternidade!

Mortal, que tens uma alma imortal, há uma ETERNIDADE: pensas nisso?... Não. E essa ETERNIDADE
é para ti.

Se não crês nela, que importa! Se ela não existe, que arriscas na boa vida?... Mas se existir, que consequências terá teu louco erro! Ora, ela existe e estás à beira dessa ETERNIDADE; e em alguns dias não haverá mais nada
De todos esses PRAZERES que te divertem;
De todos esses NEGÓCIOS que te ocupam,
De toda essa VIDA que te engana,
Só haverá
A Eternidade!

A ETERNIDADE e as tuas OBRAS e seus FRUTOS:
Então o PRAZER do PECADOR terá passado,
Mas a PENA permanecerá.
E a PENA do JUSTO terá passado,
mas o PRAZER lhe ficará:
Portanto, ou os PRAZERES do TEMPO
com as PENAS da ETERNIDADE,
Ou as PENAS do TEMPO
com os PRAZERES da ETERNIDADE.

Escolhe...
Ó Eternidade! Ó Eternidade!

(Traduit par Yours Truly.)

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Hayek, Laski, Stalin e o amor à verdade

Friedrich Hayek ao receber
o prêmio Nobel de Economia

Em 1981 Friedrich Hayek, o papa da escola liberal austríaca, esteve na UnB para ministrar uma conferência, após a qual Henry Maksoud, o dono do hotel, lhe propôs uma série de nomes de autores importantes, para que Hayek os classificasse à direita, ao centro ou à esquerda.

Quando chegou a vez de Harold Laski, Hayek contou uma anedota curiosa:

"[Laski] foi meu colega na London School of Economics durante vinte anos. Então, aconteceu de estarmos, certo dia, juntos, ouvindo as notícias... Antes de ligarmos o rádio, ele nos havia contado sobre as maravilhas da Rússia, sobre como tudo estava maravilhosamente bem organizado na Rússia, sobre como o comunismo era inevitável no futuro do mundo. Naquele momento, foi transmitida uma notícia sobre o pacto Ribbentrop-Stalin. Não sei se vocês se lembram, mas tratava-se daquele acordo entre Hitler e os russos, que realmente possibilitou a eclosão da 2a. Guerra Mundial. E Harold Laski, após ouvir a notícia, e como se jamais tivesse dito uma única palavra a respeito dos russos, passou a invectivar Stalin, em termos os mais extremados, convencido, então, de que eu havia esquecido totalmente o que ele havia dito uma hora antes.!"

(Hayek na UnB, Ed. Universidade de Brasília, 1981, p.27-28).

Piores foram os comunistas de outros países, como a França, que não só evitaram criticar Stalin, como passaram a elogiar Hitler... até que ele invadisse a Rússia.

Para se ver a coerência, a integridade intelectual  e o amor á verdade dos intelectuais comunistas.

terça-feira, 19 de outubro de 2010

Axé evangelizador e arte cristã

Detesto estar sempre voltando ao mesmo assunto, mas não dá para evitar. Não é por estetismo. Sei muito bem que a presença real de Jesus na Eucaristia torna nula qualquer consideração estética  acerca de música, arte e estética. Um concerto gregoriano vale infinitamente infinitas vezes menos do que uma missa válida com corinho do padre Fábio de Melo. Sei bem disso. O problema é bem outro.

Estive olhando um site de músicos católicos ligados à RCC. Lá, os jovens se propõem evangelizar por meio do axé, de "barzinhos de Jesus" e de Cristotecas.. Não quero comentar  a distorção na compreensão do Evangelho que tal "pregação" demonstra. Basta um olhar superficial para perceber que se trata de pobres rapazes que fazem o que podem dentro de suas evidentes limitações. O que me deprime é ver que 1) a RCC estimula esse tipo de coisa e 2) que não apareça ninguém na Igreja para corrigir a situação. Esse pessoal está entregue a si mesmo. Não tem nenhuma noção da inter-relação entre ascese, culto e fé, embora seja este o fulcro da arte cristã.

A arte cristã existe como instrumento ao exercício da fé, é instrumento da fé, para a fé e pela fé. Eu pergunto: que espécie de exercício da fé é esse em que garotas rebolando ao ritmo do axé dizem estar evangelizando só porque incluem a palavra Jesus na letra da música? Se é assim, será evangelizador o filme pornográfico em que os personagens louvam a Virgem Maria nas cenas mais quentes? Ou será sacrilégio e blasfêmia?

Há e sempre houve uma correlação estreita entre a fé e a castidade, que implica a modéstia da arte cristã, auxiliar da fé e portanto também da castidade. E onde foi parar isso tudo nessa música "católica"  das RCC?  Ou vão me dizer que uma dança como o axé não tenha nada a ver com a excitação sexual?

Ao longo da história da Igreja, este assunto já foi examinado ad nauseam, tendo sido repetidas vezes objeto do magistério papal e conciliar. Mas a RCC, é claro, iluminada diretamente pelo "Espírito", não liga a mínima para o Magistério e faz a música que quer, quando quer, como quer. Pio X? Ora Pio X! O negócio é axé evangelizador!

Tudo isso seria doidamente ridículo se não fosse trágico. É a Tradição católica jogada às moscas  em favor de uma imitação servil do que de mais baixo apareceu no universo protestante (o pentecostalismo) e das formas mais vis das cultura popular anticristã, profana e profanada (axé e congêneres).

Depois aparecem os escândalos sexuais dentro da Igreja e ninguém sabe por quê.

Kyrie eleison, Christe eleison, Kyrie eleison.

François Mauriac e o sacerdócio católico



Entre os muitos nomes da primavera católica que iluminou as letras e as artes francesas na primeira metade do século XX, François Mauriac ocupa um lugar de honra. Muito se disse e se pensou a favor e contra suas posições religiosas e políticas, mas nunca ninguém em seu juízo estético perfeito ousou questionar a perfeição de sua prosa. Nem mesmo o anticatolicismo do júri do prêmio Nobel, tão avesso a Roma, resistiu a ela.

Aqui vai um pequeno trecho da joia literária que se chama Le Jeudi-Saint, que eu saiba nunca traduzido em português, e agora mau traduzido por Yours Truly.


Não nos torne a Eucaristia  desatentos ao outro sacramento instituído na Quinta-feira Santa: o Sacramento da Ordem: Fazei isto em memória de mim. - Fazei isto todas as vezes que beberdes deste cálice, em memória de mim...


Estes doze homens são os doze primeiros padres. Judas é o primeiro mau padre. (...)

Ei-los ordenados, os primeiros de uma incontável família. Entrou com Cristo a santidade no mundo. A Igreja é santa, e que nos importam a miséria dos indivíduos, as quedas, as traições? "A grande glória da Igreja, escreve Jacques Maritain, é ser santa com membros pecadores." As mãos de alguns homens escolhidos não mais cessarão de elevar até o fim do mundo o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo. (...)

Essa graça da Quinta-feira Santa se transmitirá até o fim dos tempos, até o último padre que rezar a última missa num universo já meio destruído. Criou a Quinta-feira Santa tais homens: foi-lhes impressa uma marca; foi-lhes dado um sinal. Ao mesmo tempo iguais a nós e tão diferentes - jamais tão espantosos como neste século pagão. Dizeis que faltam padres? Na verdade, que mistério adorável ainda haver padres! Não há mais nenhuma vantagem humana: a castidade, a solidão, muitas vezes o ódio, o ridículo, sobretudo a indiferença de  um mundo em que parece não haver mais lugar para eles, tal é a parte que escolheram. Nenhuma grandeza aparente (...) Banha-os de toda parte uma atmosfera pagã. O mundo riria de sua virtude, se acreditasse nela, mas não crê. São vigiados. Mil vozes denunciam os que caem. Os outros,  a maioria, ninguém se espanta de vê-los labutarem obscuramente, sem grandes salários, debruçar-se sobre corpos agonizantes (...) Quem dirá a solidão do padre no campo, em meio a camponeses tantas vezes fechados, senão hostis ao espírito de Cristo? Entramos na igreja de um lugarejo: ninguém, a não ser um velho padre ajoelhado no coro e que vela sozinho com o Mestre. Realizam-se todos os dias as palavras de Cristo a seu respeito: "Envio-vos como ovelhas ao meio dos lobos - sereis odiados por todos por minha causa..." Há séculos, desde a Quinta-feira Santa, há homens que escolhem ser odiados e não ser humanamente consolados. Escolhem perder a vida, porque certa vez alguém lhes fez esta promessa que parece louca: "Aquele que salvar a sua vida a perderá, e aquele que perder a sua vida por causa de mim, a reencontrará..." E também: "Aquele que me houver confessado diante dos homens, eu também o confessarei diante do meu Pai que está nos céus."

(François Mauriac, Le Jeudi-Saint, Americ=Edit,  p 57-61)

domingo, 17 de outubro de 2010

Oração pelas almas abandonadas do purgatório - Nossa Senhora de Montligeon

Nossa Senhora de Montligeon

Alguns dias atrás, ao abrir um velho livro que permanecera fechado durante décadas, talvez mais de um século, caiu ao chão um papelzinho. Apanhei-o. Era uma velha oração em francês pelas almas das almas do purgatório, dirigida a Nossa Senhora de Montligeon, velha devoção francesa voltada sobretudo ao bem das almas dos defuntos.

Aqui vai a tradução da prece, que considero uma carta do século XIX a mim dirigida e entregue em mãos.

Peço àqueles que lerem esta oração que reservem um minuto para ela, na intenção das almas do purgatório:

Oração pelas almas abandonadas do Purgatório

Nossa Senhora de Montligeon,

tende piedade das santas almas retidas por certo tempo longe de vós no fogo purificador, quebrai suas cadeias e livrai-as do abismo onde gemem, aspirando à pátria e suspirando pelo momento feliz da união definitiva com Deus que seus corações desejam ardentemente.

Tende pena sobretudo das almas mais abandonadas. Por elas vos rogamos especialmente.

Ó Mãe de bondade, dignai-vos a aceitar as nossas súplicas e atendê-las. Nós vo-lo suplicamos, Maria, reuni-nos todos no céu, junto a Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso adorável Filho, que vive e reina com o Pai e o Espírito Santo nos séculos dos séculos.

Amém.

sábado, 16 de outubro de 2010

Pedofilia, Revolução Sexual e Vaticano II

Dr. E. Michael Jones com o então Cardeal Ratzinger



Este modesto blog tem o prazer de anunciar que em breve terá a honra de publicar a tradução portuguesa de um artigo crucial escrito pelo Dr. E. Michael Jones - um dos mais importantes autores católicos da atualidade - acerca das negociações em andamento entre Roma e a SSPX, assunto de interesse máximo para quem se preocupa com a vida da Igreja.

Trata-se artigo bastante longo, publicado no número de setembro da revista Culture Wars, de que o Dr. Jones é o editor. Nele são tratados com o talento e a lucidez de sempre vários assuntos de primeira importância na vida eclesial de hoje, dentre os quais o problema dos abusos sexuais por parte de padres irlandeses.

Como aperitivo até que fique pronto o texto português, aqui vai em avant-première um pequeno trecho do artigo, que trata justamente do problema dos escândalos de pedofilia em sua relação com a Revolução Sexual da década de 60 e a implementação do Concílio Vaticano II.

Enjoy!



A crise sacerdotal na Irlanda

Em carta pastoral à Igreja da Irlanda datada de 19 de março de 2010, afirmou o Papa Bento XVI que, para recuperar-se do ferimento provocado por grande número de abusos da parte de padres irlandeses a jovens entregues aos seus cuidados, a Igreja da Irlanda devia primeiro reconhecer perante Deus e perante os homens os graves pecados cometidos contra crianças indefesas. Tal reconhecimento, acompanhado de sincero pesar pelo dano causado a tais vítimas e suas famílias, devia levar a um sério empenho na proteção das crianças contra crimes semelhantes no futuro.


O papa fundamentou a carta em boa medida nas descobertas do relatório Murphy, publicado em 26 de novembro de 2009, que revelou que “o abuso de crianças por parte de eclesiásticos estava bastante disseminado durante todo o período em questão.”

Mais crucial para a correta compreensão da crise dos abusos sexuais na Irlanda é a compreensão do “período em questão.” A maioria dos casos de abuso que a Igreja vem hoje enfrentando ocorreram num período cujo epicentro aconteceu aproximadamente de 30 a 40 anos atrás. Para entender a crise naquela época, precisamos entender o que os alemães chamam de Zeitgeist, ou o espírito dos tempos, sendo esses tempos sobretudo a década de 70, quando, cerca de dez anos após o encerramento do Concílio Vaticano II, a Igreja vivia a agonia de sua implementação.

O papa chama a atenção para tal período em sua carta:

Também significativa durante esse período era a tendência, igualmente da parte de padres e religiosos, de adotarem maneiras de pensar e de avaliar as realidades seculares sem uma referência suficiente ao Evangelho. O programa de renovação proposto pelo Concílio Vaticano II era por vezes mal interpretado e, de fato, à luz das profundas mudanças sociais então em andamento, era muito difícil saber qual a melhor maneira de implementá-lo.

Uma das principais características da época, segundo o papa, era

uma bem intencionada mas equivocada tendência de evitar abordagens penais de situações canonicamente irregulares. É neste contexto geral que devemos tentar compreender o angustiante problema do abuso sexual de crianças, que contribuiu em não pequena medida para o enfraquecimento da fé e da perda de respeito pela Igreja e pelos seus ensinamentos.

O Relatório Murphy ressalta que a Igreja não aplicou os remédios que o Direito Canônico indica em casos de abuso sexual. Pelo contrário, a diocese de Dublin deixou de lado o processo penal do direito canônico em favor de uma abordagem puramente “pastoral”, que foi, segundo a Comissão, completamente inefetiva como meio de controlar os abusos sexuais da parte do clero.” Durante as investigações, a Comissão veio a saber que “Em meados da década de 1970 não havia a percepção pública, profissional ou governamental, quer na Irlanda, quer internacionalmente, de que o abuso sexual de crianças constituísse um problema social ou um grande risco para as crianças.”

Nas palavras de um comentador:

As páginas do Relatório Murphy estão repletas de exemplos de incúria, incompetência e covardia moral. Nos útimos quinze a vinte anos, eles têm se descabelado, tentando achar uma solução para um problema aparentemente fora de controle. Muitíssimas vezes, tal resposta foi, na melhor das hipóteses, inadequada. Uma linha do Relatório que soa especialmente verdadeira refere-se a um padre que tinha sobre o Arcebispo Connell a impressão de “estar diante de alguém que realmente se preocupava com a vítima, mas não tinha 'a mínima ideia' sobre como lidar com a realidade do problema.” Muitos dos outros bispos davam a mesma impressão.

O Papa Bento foi duro na sua crítica a os padres que traíram a confiança daqueles a quem deviam servir e dos bispos que foram negligentes no exercício da vigilância necessária, mas o Parágrafo 4 de sua carta pastoral indica que outras forças também estavam em ação.

Nas últimas décadas, a Igreja de nosso país teve de enfrentar novos e sérios desafios à fé, provocados pela rápida transformação e secularização da sociedade irlandesa. Ocorreu uma mudança social acelerada, que não raro afetou negativamente a tradicional adesão do povo ao ensinamento e aos valores católicos. Com demasiada frequência, foram negligenciadas as práticas sacramentais e devocionais que sustentam a fé e permitem que ela cresça, como a confissão frequente, a oração diária e os retiros anuais. Só examinando com cuidado os muitos elementos que deram origem à crise atual pode-se fazer um diagnóstico claro de suas causas e encontrar remédios eficientes.

Ao comentar a carta do papa num simpósio em Chiesa.com,(Chiesa.espresso.repubblica.it/articolo/1342641>eng=y), Sandro Magistro afirmou que “Bento XVI deu aos católicos da Irlanda uma order nunca antes dada por um papa da era moderna a toda uma Igreja nacional . . . Disse-lhes não só que levassem os culpados aos tribunais canônicos e civis, mas que ela mesma se colocasse coletivamente em estado de penitência e purificação. . . . de forma pública, ante os olhos de todos, mesmo dos mais implacáveis e sarcásticos de seus adversários,” mas o tema central do assunto era, mais uma vez, o Zeitgeist. Como indicava o título do artigo de Magister no La Repubblica, “Gênese do Crime: a Revolução dos anos 1960,” a causa do crime foi a revolução sexual da década de 60, acontecimento que foi uma verdadeira revolução e provocou a sexualização de culturas católicas tradicionais, o que trouxe consigo a sexualização do clero também.

Participando do mesmo simpósio, o Cardeal Angelo Bagnasco via “estratégias de descrédito generalizados” por trás dos noticiários, bem como uma dose não pequena de hipocrisia. Os meios de comunicação de massa que pediam a renúncia do papa eram os mesmos que haviam passado décadas solapando a moralidade sexual:

Na realidade, todos nós devemos questionar-nos, sem mais álibis, acerca da cultura que em nosso tempo reina, paparicada e inconteste, e tende progressivamente a rasgar o tecido conectivo da sociedade como um todo, talvez até ridicularizando aqueles que tentam resistir e opor-se a ela: ou seja, a atitude daqueles que cultivam a absoluta autonomia em relação aos critérios de julgamento moral e apresentam como bons e atraentes comportamentos calcados em desejos individuais e até em instintos desenfreados. Mas o exagero de sexualidada separado de sua significação antropológica, o hedonismo onipresente e um relativismo que não admite limites ou exceções são muito nocivos, porque capciosos e por vezes tão pervasivos que escapam à percepção.

O Cardeal Ruini chamou a crise irlandesa “parte de uma estratégia já em andamento há séculos” e prosseguiu dizendo que o filósofo alemão Friedrich Nietzsche “elaborara” tal estratégia “com seu faro pelo detalhe.”

De acordo com Nietzsche, o ataque decisivo ao cristianismo não pode ser desfechado no nível da verdade, mas no da ética cristã, que ele via como a inimiga da alegria de viver. E assim eu gostaria de perguntar a esses que condenam publicamente os escândalos de pedofilia, principalmente quando envolvem a Igreja católica, por vezes pondo em questão o celibato sacerdotal: não seria mais honesto e realista reconhecer que certamente estes e outros desvios relacionados com a sexualidade acompanham toda a história da raça humana, mas também que em nossa época tais desvios são também estimulados pela tão paparicada ‘liberação sexual'?

Quando a exaltação da sexualidade pervade todas as partes da vida e quando a autonomia em relação a qualquer critério moral é reivindicada para o instinto sexual, torna-se difícil explicar que certos abusos devam ser absolutamente condenados. Na realidade, a sexualidade humana desde o princípio não é simplesmente instintiva, não é a mesma que a de outros animais. É, como todo o homem, uma sexualidade ‘misturada’ com a razão e a moralidade, que só pode ser vivida humanamente, e trazer verdadeiramente a felicidade se vivida desta maneira.”

Mais uma vez, a chave para se entender a crise irlandesa de abusos é entender “o período em questão,” ou seja, o período que se seguiu à revolução sexual da década de 60.

O professor de sociologia Massimo Introvigne, presidente do CESNUR, o Centro para os Estudos sobre Novas Religiões, afirmou que o ataque à Igreja começou para valer durante “o que os ingleses e os americanos chamam de ‘the ‘60s,’ e os italianos, concentrando-se no emblemático ano de 1968 [chamam] ‘il Sessantotto.’” Esta época, segundo o professor Introvigne, “cada vez mais se revela como um tempo de profunda perturbação dos costumes, com efeitos cruciais e persistentes sobre a religião.”

Em sua carta, Bento XVI mostra que tem consciência do fato de que houve nos anos 1960 uma autêntica revolução — não menos importante que a Reforma Protestante ou a Revolução Francesa — de ritmo “acelerado”, que desferiu um tremendo golpe na “adesão tradicional ao ensinamento e aos valores católicos.”

Na Igreja Católica, não houve de imediato uma consciência suficiente da magnitude dessa revolução. Neste clima, certamente nem todos os padres que eram insuficientemente formados ou infectados pelo clima que se seguiu à década de 60 - e nem mesmo uma parte significativa deles - se tornaram pedófilos. Mas o estudo da revolução da década de 1960 e do ano de 1968 é crucial para se entender o que aconteceu em seguida, inclusive a pedofilia. E para se encontrarem remédios reais. Se essa revolução, ao contrário das outras anteriores, é moral e espiritual e atinge a interioridade do homem, os remédios só podem vir, em última análise, da restauração da moralidade da vida espiritual e da verdade abrangente acerca da pessoa humana.

O que este comentário e outros semelhantes tornam claro é que falar acerca da década de 60 ecompreender a década de 60 são duas coisas diferentes. O que todas as críticas têm em comum é uma compreensão inadequada do que aconteceu naquela década e, o que é mais importante, do que aconteceu em seguida à revolução sexual, um período que coincidiu no tempo com a implementação do Concílio Vaticano Segundo.

O Cardeal Ruini menciona Nietzsche, que por certo tem culpa no cartório, mas se Sua Eminência estava interessada em falar de uma campanha revolucionária, de “uma estratégia já em andamento há séculos,” e da sexualização da cultura com propósitos políticos, teria sido melhor ter começado com o Marquês de Sade.

(continua)

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Declaração de Dom Aldo Pagotto sobre o PT e o aborto



Corajoso e lúcido pronunciamento do Arcebispo Metropolitano da Paraíba acerca do PT em sua essencial vinculação com a cultura da morte.

É um bom sinal que setores do clero brasileiro comecem a abandonar a subserviência total ao poder que caracterizava os representantes da Teologia da Libertação e saiam a público para defender o Evangelho contra os poderosos do dia. Parabéns, Dom Aldo!

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Na dúvida, pró Papa



Estive relendo recentemente Du Pape, clássico de autoria do grande reacionário saboiano Joseph de Maistre, uma defesa veemente da infalibilidade papal e do primado absoluto de Pedro.

É leitura impressionante, que nos faz medir com maior exatidão a extensão da crise de hoje. Recomendo-a a todos os católicos pensantes. É viagem no tempo que nos permite escapar ao provincianismo temporal que limita os nossos horizontes a este nosso triste século XXI. Navegar é preciso.

Sem querer negar os problemas causados por diversas atitudes papais nas últimas décadas, perpetradas à sombra do famigerado espírito conciliar, que quase sempre se parece muito mais com um fantasma conciliar, convém lembrar o óbvio: que Pedro é a pedra sobre a qual se assenta a Igreja visível, e que sem ela desmorona todo o edifício eclesial. Foi por isso que todos os esforços do tal fantasma conciliar se concentraram em tornar impossível a continuidade entre a doutrina da infalibilidade papal e a prática pós-conciliar desta infalibilidade, estabelecendo uma contradição mortal no seio de uma instituição que se apresenta como fiadora da Verdade.  O ponto a que querem chegar é: se o que os Papas conciliares dizem é infalível, então o que os Papas anteriores disseram é falível, pois ambas as coisas se contradizem. Mas se os Papas anteriores são falíveis, então os Papas conciliares também são falíveis. De qualquer modo, o resultado é sempre o mesmo: o desmoronamento da Igreja de Cristo pela supressão da pedra fundamental.

Esta é a ponta da faca que o fantasma conciliar procura introduzir no Corpo de Cristo: se houver contradição entre Papa e Papa, entre Papa e Tradição, entre Concílio e Tradição, a Igreja está acabada, e o indiferentismo religioso é a única saída. Este é o sonhado QED dos modernosos. É isto que o fantasma conciliar, por meios dos seus médiuns, como o lúgubre cardeal Walter Kasper, pretendem.

É contra isso que o Papa Bento XVI tem se voltado, dando prioridade absoluta à elaboração de uma interpretação do Vaticano II à luz da tradição, algo que o próprio Monsenhor Lefebvre certamente subscreveria.

A menos que se queiram empreender  obscuras e duvidosas aventuras nos mares do sedevacantismo e do sedeimpeditismo. Mas neste caso, o mínimo que um católico responsável pode fazer é seguir o seguinte princípio: na dúvida, pró Papa. E realmente eu pago para ver se alguém ousa dizer que consegue enxergar todo o problema conciliar em sua inteireza, sem ter nenhuma dúvida. É uma impossibilidade de fato. Não há como. Mesmo porque partes imensas dos dados de fato relativos ao Concílio e à Igreja pós-conciliar não estão disponíveis senão ao Papa e a muito poucos outros de sua escolha. Como não ter dúvida sobre algo cujo conhecimento é fragmentário?

O que não significa, é claro, subestimar a gravidade do mal causado à Igreja pelo que se seguiu ao concílio, nem a justeza de muitíssimas críticas tradicionalistas ao caos que se instaurou em amplos setores da Igreja após o Vaticano II. Ao contrário, só mesmo nesta perspectiva se consegue medir efetivamente a gravidade do estrago, que levou  muitas vezes os defensores da Tradição, muito a contragosto,  a repudiar  a obediência ao Papa, Vigário de Cristo e Sucessor de Pedro! Nada mais, nada menos! Quem é que pode, por exemplo, ler a história da luta pela Missa tridentina sem se indignar com os incontáveis desmandos cometidos por altas instâncias vaticanas? Esta, graças a Deus, é outra ferida que Bento XVI veio curar.

É dever do católico, portanto, apoiar o Papa Bento XVI em sua interpretação tradicional do Concílio. O resto é aventura que beira perigosamente o cisma, quando nele não cai.

Na dúvida, pró Papa. Ou como diria Charles de Foucauld: Dans le doute, pencher toujours du côté de l'obéissance. (Écrits spirituels, p. 210).

terça-feira, 12 de outubro de 2010

Negros anos 80: Bento XVI, o subsistit e Leonardo Bof



No dia da Padroeira do Brasil, nada mais justo do que uma homenagem a quem tanto fez pela saúde da Igreja no Brasil nos últimos anos.

Refiro-me ao Papa Bento XVI. Numa época de trevas como a nossa, este sapientíssimo papa, muitas vezes herdeiro do triste legado de seus antecessores imediatos, vê-se no fogo cruzado entre tradicionalistas que o acusam de modernismo e de modernosos que o criticam como reacionário. Como se a enorme erudição e o brilho de um dos maiores intelectuais do mundo não bastasse para fazê-lo respeitar, Bento XVI é, como muitos se esquecem, o Vigário de Cristo na terra, o Sucessor de Pedro e o Chefe da Igreja visível, o que devia pelo menos fazer com que seus críticos refletissem duas vezes antes de atacá-lo.

Nos negros anos 80, quando a tenebrosa teologia da libertação imperava soberana e arrogante na maior parte das dioceses do Brasil, não deixando por onde passava pedra sobre pedra do que séculos de trabalho missionário haviam construído com sangue, suor e lágrimas, o então Cardeal Prefeito da Sagrada Congregação para a Doutrina da Fé tomou para si o julgamento de um dos mais ridículos e nefastos textos jamais saídos da pena de um teólogo formado em instituições católicas: Igreja, Carisma e Poder, do triste Leonardo Bof.

Vale a pena lembrar aqui como, de uma penada, o então Cardeal calou o tresloucado teólogo e pôs um ponto final na canhestra interpretação dada pelos vândalos da libertação a um ponto sutil do texto conciliar, LG 8, onde se faz referência ao conceito de subsistência, tão central na teologia escolástica, mas, como era de se esperar, totalmente desconhecido de Leonardo Bof, que utilizava alegremente o verbo subsistir como sinônimo de persistir.

Como expressão de nossa gratidão pela coragem e lucidez demonstradas naquela hora trágica da vida da Igreja, aqui vai o trecho em questão da resposta do Cardeal Ratzinger a Leonardo Bof, e por meio deste, a todos os agressores da identidade,  unidade e unicidade da Igreja Católica Apostólica Romana como a Igreja de Cristo:


A ESTRUTURA DA IGREJA

L. Boff coloca-se, segundo as suas próprias palavras, dentro de uma orientação, na qual se afirma « que a igreja como instituição não estava nas cogitações do Jesus histórico, mas que ela surgiu como evolução posterior à ressurreição, particularmente com o processo progressivo de desescatologização » (p. 123). Consequentemente, a hierarquia é para ele « um resultado » da « férrea necessidade de se institucionalizar », « uma mundanização », no « estilo romano e feudal » (p. 71). Daí deriva a necessidade de uma « mutação permanente da Igreja » (p. 109); hoje deve emergir uma « Igreja nova » (p. 107, passim), que será « uma nova encarnação das instituições eclesiais na sociedade, cujo poder será pura função de serviço » (p. 108).
Na lógica destas afirmações explica-se também a sua interpretação acerca das relações entre catolicismo e protestantismo: « Parece-nos que o cristianismo romano (catolicismo) se distingue por afirmar corajosamente a identidade sacramental e o cristianismo protestante por uma afirmação destemida da não-identidade » (p. 132; cf. pp, 126 ss., 140).
Dentro desta visão, ambas as confissões constituiriam mediações incompletas, pertencentes a um processo dialético de afirmação e de negação. Nesta dialética « se mostra o que seja o cristianismo. Que é o cristianismo? Não sabemos. Somente sabemos aquilo que se mostrar no processo histórico » (p. 131).
Para justificar esta concepção relativizante da Igreja — que se encontra na base das críticas radicais dirigidas contra a estrutura hierárquica da Igreja católica — L. Boff apela para a Constituição Lumen Gentium (n. 8) do Concílio Vaticano II. Da famosa expressão do Concílio « Haec Ecclesia (se. única Christi Ecclesia) ... subsistit in Ecclesia catholica », ele extrai uma tese exatamente contrária à significação autêntica do texto conciliar, quando afirma: de fato, « esta (isto é, a única Igreja de Cristo) pode subsistir também em outras Igrejas cristãs » (p. 125). O Concílio tinha, porém, escolhido a palavra « subsistit » exatamente para esclarecer que há uma única « subsistência » da verdadeira Igreja, enquanto fora de sua estrutura visível existem somente « elementa Ecclesiae », que — por serem elementos da mesma Igreja — tendem e conduzem em direção à Igreja católica (LG 8). O Decreto sobre o ecumenismo exprime a mesma doutrina (UR 3-4), que foi novamente reafirmada pela Declaração Mysterium Ecclesiae, n. 1 (AAS LXV [1973], pp. 396-398).
A subversão do significado do texto conciliar sobre a subsistência da Igreja está na base do relativismo eclesiológico de L. Boff, supra delineado, no qual se desenvolve e se explicita um profundo desentendimento daquilo que a fé católica professa a respeito da Igreja de Deus no mundo.

(Extraído do site da Santa Sé).